quinta-feira, 24 de abril de 2008

Partitura natural


O VÔO



Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas,
tempo e vento, desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite
enche-o de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu vôo
te leva sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro,
as canções que tens na garganta.


Canta!
Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.

Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo do céu?
Que importa a rota?
Voa e canta, enquanto resistirem as asas.


(Menotti del Picchia - 1892/1988)






24.04.2008 - 0h40min

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Da fragilidade da vida

Um dia, por inocência, desejo de ajudar o outro ou pra chamar a atenção mesmo, a gente resolve prender a vida a um balão de gás. E esquece que o fio dessa mesma vida é frágil demais. Melhor não esticá-lo muito... ele pode não suportar... e aí ...
23.04.2008 - 01h43min

terça-feira, 22 de abril de 2008

Dos julgamentos

Creio que nenhum julgamento seja legítimo, desde que proferido por um homem. A visão humana é extremamente limitada e sujeita a influências as mais variadas; portanto, pouco confiável. Julgamentos nunca são justos, em hipótese alguma. Além disso, nem sempre as vozes dizem o que realmente querem dizer. Mais um ponto em que a legitimidade é questionada. Logo, não pergunte de onde vem uma legitimidade que não existe, de uma voz que não diz tudo o que quer dizer e que profere um julgamento limitado, inclusive, por sua condição. Seja você. O resto é apenas a vida, em movimento.
21.04.2008 - 23h39min

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Inspiração

Inspiração é coisa que a gente planta entre as fagulhas deixadas pelo poeta. Molha na língua o gosto da vida e aquece o peito enrolado na manta. Inspiração a gente colhe dos passantes que tomam suco de melão e aguardentes. Inspiração é aquela estrela que a gente ainda não vê porque o sol arde forte entre nuvens esvoaçantes. Inspiração é bicho de pluma e asa enorme que voa sem avisar nem dizer porquê e a gente até acredita que ela não volta até que de repente, ela grita o nosso nome. Inspiração é amiga revoltada e carinho no rosto é pele arrepiada e beijo no pescoço é sorriso disfarçado e voz rouca é tristeza repentina e dor louca. Inspiração é isso mesmo que envolve a gente e faz crescer o desejo de riscar de caneta o papel, a tez, a parede, a mente de palavras que talvez nem tenham muito sentido mas que estão impregnadas de sentimento. 21.04.2008 - 17h

Procura

A procura é uma das minhas inquietudes estou sempre à procura. Procuro por ele, procuro por mim, procuro por nada, procuro o sim. Busco aqui, acolá, mais adiante, e dou de cara sempre com um gigante que se chama vida, a me olhar, impaciente. Ai, ai, ai, que moça mais impertinente, que não sossega nunca, que anda sempre pra frente. É assim que passo meus dias. São assim minhas insones escurescências. Essência de rosas no incenso queimando no meu quarto. Não espero. Nego os braços cruzados. Se páro, é só pra renovar as forças. Movimento é meu lema. Movimento a minha vida. O gigante que me abraça e cura qualquer ferida. Na rua, acendo os olhos. Na tela, acendo as luzes. No espelho, acendo a alma. Vou em frente, que atrás vem gente. E nunca se sabe até onde se pode inventar uma nova doçura. É o que eu quero: a alquimia do dia-a-dia. A invenção de um novo amor pulsante. 21.04.2008 - 16h13min

Renovar

Terminei a faxina da casa (feriado, sabe como é...) e aproveitei pra fazer faxina na vida com o pó, foi a tristeza com o lixo, o cansaço com a sujeira, a desesperança. Agora, banho tomado, cheiro de limpeza no ar, sinto o peito renovado e estou pronta para amar. Ah, não dou mole não não vim pra ficar sozinha não estou aqui pra curtir solidão. Meu negócio é companhia. Se for boa, fique até que queira ficar. Se ruim, vá embora, que eu não quero me chatear. Quero paz, alegria, doçura e carinho. Sem isso, não sou ninguém. Mas recomeço sempre, se não tiver alguém. E agora não tenho. Estou à procura. De novo. E quantas vezes forem necessárias. Até que... Eu morra? 21.04.2008 - 15h30min

Gênero

Passado e futuro, substantivos MASCULINOS. Alegria, substantivo FEMININO e bem se vê que ela faz parte do nosso universo. Passado bem vivido, Futuro bem esperado, Alegria o tempo todo, inda que um resto de lágrima no canto de um dos olhos tenha ficado. Alegria é companhia certa na roda de amigos inda que o peito pese e que a folia seja apenas um escape. Escapa da tristeza prolongada, deixa a dor no passado que é substantivo masculino e pode te proteger dela. Escolhe sempre o sorriso hoje, aqui, agora e espera encontrá-lo de novo lá adiante como foi em outros tempos, como foi outrora. Vive o instante presente, também masculino (cá entre nós, ainda bem) e engole o mel do momento doce que não volta mas que haverá de ser sempre teu. Aos 52 minutos do dia 21.04.2008

Proteção

É preciso dormir. Reconhecer que outro dia se foi e o prato das novidades permaneceu vazio. A tinta do cabelo ruivo escorrendo pelo corpo debaixo do chuveiro quente o cheiro do shampoo suave e as extremidades dos membros cheias de espuma macia vermelha. Os cachos molhados se alisam. São lisas as horas sozinhas escorregam entre os dedos feito sabonete molhado. Passam. As passagens estreitas são vales que não levam a lugar algum. O escuro é silêncio. O silêncio é a porta de entrada do suspiro profundo. As camisas, as saias, os mundos, se diluem no espaço inventado. Juramento sacramentado: na próxima vez a porta estará trancada. 20.04.2008 - 02h27min

domingo, 20 de abril de 2008

Anonimato

Por trás de uma cortina de fumaça a palavra pode ser qualquer uma de deboche, de aceitação ou ciúme. Por trás de uma cortina de fumaça a maldade não tem rosto, não tem nome, não tem grau de proximidade, não tem tesão. Por trás de uma cortina de fumaça se é quem se gostaria de ser, se tem força, coragem e audácia. Não se assina o documento escrito, não se assume a bala disparada, não se resume o texto do atrito. Por trás de uma cortina de fumaça se pode ser qualquer um. Mas, se a gente não vale a pena nem pra gente mesmo, então tem mais é que se esconder por trás dessa cortina de fumaça denominada anonimato. O anonimato é a proteção de quem não tem coragem de quem não tem argumento de quem não tem história de quem não tem opção. E não ter coragem, argumento, história ou opção deve ser muito triste...
20.04.2008 - 17h15min

sábado, 19 de abril de 2008

Conceitos

Mas, afinal, quais são os sentimentos, as idéias, a vontade do povo? Onde está o povo? Quem é o povo? Onde ele se esconde - se é que se esconde? Será uma entidade, o povo? Ou o povo não seremos todos nós, burgueses ou não? O que é a burguesia? Quais são os sentimentos, as idéias, a vontade da burguesia? Onde está a burguesia? Onde ela se esconde - se é que se esconde? Será uma entidade, a burguesia? Ou a burguesia não seremos todos nós, povo ou não? Que tipo de conceitos interiorizamos e usamos como discurso diário? Que tipo de discursos conceituamos e usamos como diárias internalizações? As idéias serão nossas mesmo, ou as roubamos de terceiros? Quem serão esses terceiros? De que lado estarão? Do lado burguês, ou do lado povão? Há quantos lados nessa história? Há lados na nossa História? Questões. Não creio haver uma única resposta a qualquer delas. 19.04.2008 - 02h22min

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Areia






Um grão de areia. Eu. Um grão de areia. Tu.

Quantos grãos de areia são necessários para fazer um mundo justo?








18.04.2008 - 22h01min

Perguntinha


Será que a vida está de cabeça pra baixo?
18.04.2008 - 22h

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Deserto

hum.... local deserto... posso dançar nua gritar para a rua disfarçar a dor de luz de lua coroar a noite escura. Posso falar besteira e estender uma esteira bem no meio da pista de dança. Posso voltar a ser criança e esperar que o dia amanheça. Mas... eu poderia fazer tudo isso de qualquer jeito inda que todos aqui estivessem inda que os sons e assovios e tambores também retumbassem batucados pelas mãos e pelos dedos dos poetas alegres ou entediados ou nervosos que eu amo tanto e que respeito. Mas... o local está deserto não há ninguém por perto e eu desconfio que vou morrer de solidão... 17.04.2008 - 20h10min

Depois do amor

Escancaro as janelas ao pôr do sol as portas estão abertas e se aproximam os visitantes. Escolho as palavras que espero fluir se escondo as escadas é pra deixar claro que não quero intrusos. Exercito a audácia no risco e recomeço de onde parti. O prato quente repousa sobre a toalha de renda improvisada e nada disso é importante tudo nada na imensidão do que considero impreciso e a solução não existe nem aconselha a experimentação. São demais os caminhos tortos e o estertor que confunde as lentes escurecidas dos óculos velhos. Nas mesas dispostas, nenhum par. Estão quebradas as pernas das cadeiras e as carteiras estão vazias de sentimentos. Um gosto de sal enche o espaço vazio e a tinta acaba bem no meio de uma frase sem sentido algum e sem destinatário certo. A televisão ligada se exibe para ninguém e os fantasmas se sentem à vontade para sentar entre os convidados ilustres e amassar as almofadas de cetim lilás jogadas sobre os tapetes batidos. Não se deu o encontro. O encanto não se fez. Depois do amor só um adeus curto e seco para se dizer... 17.04.2008- 18h01min

Sentença

Estaca cravada no peito da rima ferida inútil nascida de cicatriz amor moribundo entre almas cambaleantes soco no estômago da noite sofrida fervor de primavera em pleno gelo ártico pele de urso polar. O sol escorrega pelos anéis dos meus cabelos envermelha o horizonte perdido de vaporosas nuvens brancas envenena os sais e os depósitos de cristais azuis do quarto crescente da lua de São Jorge que desaba ao amanhecer. São pragas as pregas das roupas que não servem mais. O ensino da língua é úmido e corre o risco de secar um dia in-ter-mi-ná-vel sombra que acompanha o veredictum fatal: FINITO! 17.04.2008 - 01h03min

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Até que a ausência nos separe

A porta da frente aberta lá fora chuva torrencial um céu de anil na primavera sensação de frio abaixo de zero e um espirro ao longe como se uma formiga, de repente, tivesse desfalecido sob o peso insuportável da folha verde. A claridade cega os olhos distantes o movimento lento da criação desvia a vista para o além onde ninguém alcança onde ninguém é um bem. A educação exige resposta polida a prataria sobre a mesa enquanto as teias de aranha crescem e tomam conta das entranhas da casa vazia de sangue quente. A escolha dos trincos das portas foi tua as trancas jamais usadas são minhas as capas de chuva dormem secas no armário e as botas bem lustradas descansam os fantasmas usam as sementes dos verbos semeados antes da repentina partida. As vozes serpenteiam e contam as vezes em que as cantigas foram mais que notas musicais foram musas de orvalhos sagrados esquecidas nos cantos das lentes dos óculos há muito quebrados... Às 22h50min do dia 14.04.2008

Violência

Quando o amor surge a paixão vem e degola o coração faz arte por toda parte e pendura os quadros pintados de sangue nas paredes do cemitério dos peitos doentes de amor. Só o amor pode matar a violência... Alina e Simone Aver Aos 18 minutos do dia 14 de abril de 2008

domingo, 13 de abril de 2008

Silenciosamente

Chega mais. Vem ver com quantas palavras se faz um longo silêncio. Aos 16 minutos do dia 13.04.2008

ECO!

Eu digo que sim e meu eco responde que não. Eu digo que não e meu eco responde:"NÃO!" Eu nada digo e ele, descaradamente, grita: "E aí, vai falar ou tá difícil?" Aos 15 minutos do dia 13.04.2008

Um minuto

No primeiro minuto, busquei poesia procurei nos cestos de roupa suja a rima animada que estava guardando pra quando a festa chegasse. Mas ela não chega. Mas elas não chegam. Nem a rima, nem a festa. Então revirei o cesto e encontrei a danada. Escorrega, esfrega, estremece, adormece (e eu não vejo nada que se encaixe). Ai, ai, ai, que desespero que dá na gente quando não encontra nenhuma palavra perdida que diga tudo, assim, exatamente o que se espera dela bem bonita, de saída, como quem não está cansada muito menos arrependida de rir alto na madrugada acordando de encomenda a vizinhança... Nem rima, nem festa... E o primeiro minuto, que era pra ser poesia, sucesso, verso, canção, improviso, processo, virou busca... Mas... A busca, em si, não será poesia?????????????????? No primeiro minuto do dia 13.04.2008

sábado, 12 de abril de 2008

Maiúsculos


o tempo parou nesse instante

conversa interna pela eternidade afora

que dirão eles? quantos versos farão juntos?

que diremos nós de nossos humanos poemas

cheios de imperfeitos dizeres

de sensações de futuro inexistente

de pretensão de rima que não aflora?

que diremos nós diante dos deuses

quando nos oferecerem um banco e um livro

e uma caneta de material reluzente?

que diremos, pois, ao dar de cara com eles?

oi, Drummond, meu velho...

oi, Quintana, meu bem...










12.04.2008 - 23h57min



Buscando resposta...


Drummond, Drummond, de costas pro mar
Responde, me diz, me conta, não esconde, Drummond:
Com quantas estrelas uma poesia se faz?






12.08.2008 - 23h40min

Círculo de luz

As estrelas são redondas e cantam... Círculos têm cantos? Claro! Têm cantos, cantigas, canções. Apura o ouvido. Escuta. 12.04.2008 - 23h38min

Saudade?

Saudade é uma coisa que acaba um dia e deixa no lugar... nada... 12.04.2008- 23h27min

Aurora Boreal

Eu quero a subjetividade do que está escondido dos olhos e da percepção geral do comum. Eu quero a simplicidade do que está revelado aos olhos e à percepção de quem é raro. Eu quero a doçura da fruta colhida no pé jurado de morte pela mão do progresso desmedido. Eu quero a força da expressão madura que ainda não cheguei a conhecer. Eu quero a linha imprecisa que guarda no âmago a segurança do velho conhecido. Eu quero as cores todas juntas, dançando sobre mim. Um céu tão colorido e movimentado que acabará por fazer-se branco. Tranqüilidade, enfim. 12.04.2008 - 20h41min

Despertar

O acervo das minhas obras esgota o pensamento hostil que me cerca. Acordo entediada com olhos de abismo postos sobre os próximos minutos que me aguardam indecisos quanto à presteza do meu estado atônito diante do curso que o rio do tempo toma. Tiranizo o relógio. Eu mesma faço as minhas horas. As honras enfraquecem os laços ou os desfazem ao seu bel prazer. Beijo as espumas dos dias corridos. Serão resgatáveis os minutos perdidos? Os pontos finais serão mudanças ou abrirão expectativas outras que sequer suspeitávamos, nós dois? Piores são as reticências. Silêncios prolongados em que não sei se estás ou se já foste entre um emaranhado de conversas antigas que nem sequer chegamos a ter. Adapto o mundo ao som de um piano distante que canta de dentro das páginas do livro na estante próxima da cama. São espaços que não me pertencem, que dançam entre os dedos, com cheiro de cera líquida, recém coberto o assoalho de tábuas escuras por onde meus pés passeiam agora. Espreguiço e estremeço o corpo diante da possibilidade de jamais vir a escrever as linhas que tracei no horizonte do sonho e que se vão perdendo, rapidamente, enquanto a lucidez assume o comando e o estômago reclama um pouco de café. Amanhece o dia. Faz frio. Acordo. 12.04.2008 - 20h28min

Produção

Produzo sem pestanejar que os olhos foram feitos pra ver não pra fechar as janelas da alma e esquecer que as entranhas os anéis e os dedos e as esquisitices todas são partes importantes do meu cotidiano e da minha criação louca. Produzo sem pressa de colheita ou de precisão de letra na tela quente de um computador impertinente que sopra dissabores entre as dores e os dotes e os bilhetes e as mensagens e as distorções e os contrários e as impressões todas estranhas ao que eu nem imaginei um dia querer dizer... Aliás, dizer não me basta. Eu quero aprender. 12.04.2008 - 02h40min

Antes

Se dizes que sim se ocultas o não se entras por uma porta e fechas a outra a chave pro lado de fora do lado de dentro, não sei. Se encontras abrigo na água do chuveiro quente e espreguiças o acerto debaixo do travesseiro coberto do perfume do cabelo recém lavado de espuma. Se espremes a fruta e dela extrais o sumo e a cor e a doçura. Se estás aqui ou não se estendes ali a mão se encobres de mim a pretensa ilusão. Não sei não quero saber não conheço quem sabe nem espero conhecer. Quero a pedra a lua a fome o aço inoxidável e o homem. Quero a espera a vida a chama o incômodo o estrado e a cama. Quero a impaciência e a coragem a leitura a sentença a vadiagem. Não quero nada além do que me valha: valha-me Deus! Que me venha a vaia e que a gaia me receba de braços abertos pra que eu beba da fonte da raiz eterna. Que eu seja dele antes que entardeça... 12.04.2008 - 02h33min

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Pedido

Moço, traga-me só a tônica a tônica da vida a tônica da sílaba a tônica da canção que foi derramada sobre o balcão e seca com pano ensopado de suor sobre o piano de cobre e cobertor de linho azul. Moço, traga-me só a tônica a tônica da lua pendurada lá em cima a rir-se desse meu peito arfante, exausto e solitário de tanto desgastar-se entre versos e melodias vagas que escrevo no guardanapo amassado desse bar virtual abençoado. Moço, traga-me só a tônica que eu risco aqui, com o dedo em riste um dó, um ré, um mi triste e canto uma toada acompanhada pelos melhores poetas que existem. Moço, só uma tônica, por favor, pra eu misturar com açúcar e mel e poesia e amor... Aos 15 minutos do dia 11 de abril de 2008

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Certas linhas... linhas incertas...

Não gosto de linhas retas; elas não me atraem, não me alimentam, não me prendem, não me exercitam, não me interessam, em absoluto. Linhas retas não oferecem surpresas. Nem podem. Não há sobressaltos se transitas por estradas retas. Tudo está ali. Nas curvas, o não-saber é constante. A descoberta é permanente. O susto, o imprevisto, o desconhecido é lei. Não gosto de regras prontas ou de posturas vazias repetidas aos milhares, inquestionáveis. Questiono meus questionamentos. Reformulo meus caminhos. Pinto de outras cores meu arco-íris particular: tempo, espaço, presente, futuro, se amanheço ou se acabei de nascer, se espero ou adormeço, se morro, estremeço ou desisto de dizer. Se acendo essa luz agora não é por não ter outra opção ou por repetir teus passos deixados aqui mesmo. Não. Se acendo essa luz agora é por acreditar que preciso de um tantinho de iluminação pra ver se termino esse pensamento que, longe de ser linear, é cortina balançada ao vento, arrancada da janela aberta solta, livre, pra ver, crescer e voar... 10.04.2008 - 23h46min

Possibilidade

FILOSOFIA... pensar... detesto pensar... isso só me traz problemas... acontece que virou hábito, melhor (ou pior, depende do ponto de vista), virou vício. Não. Pior que vício. Pensar é maldição. Às vezes é menos dolorido morrer... 10.04.2008 - 23h23min

quarta-feira, 9 de abril de 2008

FECHADO?


Um dia essa palavra se apaga.

A partir de então, talvez,

haja abertura...







09.04.2008 - 01h58min

O Muro

Desejei uma imagem

poeticamente colorida.


A vida despertou-me do sonho


e entregou, de bandeja,


um muro


poeticamente dolorido...














09.04.2008 - 01h51min

Igualdade? Ah, não!

Não quero saber de unanimidade quero a discordância, a discussão, o desafio, a generosidade. Eu quero isso que a gente está perdendo de tanto inventar a igualdade. Eu quero, eu preciso, eu acredito, é na diversidade... Aos 9 minutos do dia 09 de abril de 2008

terça-feira, 8 de abril de 2008

Súplica

Não, por favor. Poupem-me do martírio de explicar o que eu quis dizer. Assumam meu verbo. Tomem para si os sentidos todos.
Que os meus, só a mim pertencem.
Ainda que em cada homem haja um tanto do que é universal. 08.04.2008 - 23h42min

4...3...2...1...

Pergunta perdida é coisa de não-dizer o feito destituído o fato de não-querer fala a prata da casa que prato fraco se quebra de tédio e desengano acontecido mil vezes ao ano entre as contagens regressivas insistentemente abortadas. Aborda o recomeço... 08.04.2008 - 23h38min

Escolhe, acolhe, recolhe... alucina...

Se te escolho entre todos os mortais e a ti dedico atenção e cuidados é que tens um não-sei-quê nesse teu olhar alado de poeta enternecido. Se te acolho entre meus membros num abraço quase embrionário é que tens um sei-bem-o-quê nesse teu andar enluarado de poeta anoitecido. Se te recolho entre as palavras que escrevo e que bem domino é que tens um bem-querer nesse teu falar enfeitiçado de poeta amanhecido que me escolhe, que me acolhe, que recolhe os meus cacos todos que, enfim, me alucina... 08.04.2008 - 23h29min

Amor e pão

Do lado de fora da vida, o cansaço, as costas doídas. Brisa leve anuncia lá adiante que a letra é navegante e o espinho é passageiro. Escreve torto nas linhas imprecisas do tempo direito. O espaço é denso e certo? Fomento o sentido perfeito da consolação e do lamento. Considero as curvas da passagem: frestas nos muros erguidos nas arestas cortadas do medo. Encontro abrigo e oração na casa que acolhe o andarilho errante esfarrapado e cambaleante que já perdeu tudo primeiro que esse tudo, a razão. Descanso a cabeça no ninho tecido fio a fio lentamente e agradeço a polpa escorrida da fruta suculenta oferecida. Brilhante oferta carnuda. Amor e pão é do que todo Ser precisa. 08.04.2008 - 23h21min

Anestesia

Quando a saudade for tão grande a ponto de anestesiar-te o peito, observa... É serviço do tempo garantir-te vivo. Desnuda-te e perdoa. O que é teu, não esquece. Acorda e sonha, que o desejo, um dia, amanhece.... 08.04.2008 - 02h08min

Exílio

...à noitinha,
o crepúsculo pinta de vermelho
um imenso céu azul...
Nas conchas das mãos as lágrimas derramadas pelo absurdo silêncio. O desespero é parte de quê? Do abandono ou da esperança? Na prancheta as últimas palavras tristemente pronunciadas como um toque de amargura pincelado na delícia de viver. E uma saudade do não-tido anestesiando o peito gritando por uma anistia impossível de se conceder! O exílio é o castigo do desobediente que insiste na procura vã de uma atenção ausente ou da presença que não pode ser. Exílio é tortura consentida, dor que brota de noite e te acompanha nas horas do dia, com cheiro de flor quase parida entre as contrações e os tremores e os espasmos que a solidão, essa furada canoa, provoca no peito de quem já não tem no que sonhar, além de um coração vermelho e de um céu azul a pulsar... 08.04.2008 - 01h58min

sábado, 5 de abril de 2008

Graham Bell


Depois do acidente, o orelhão,

a meio caminho de espatifar-se no chão,

sugere um pensamento:

Que comunicação é essa, que estilhaça

os vidros e não desvia das linhas

cruzadas entre a razão e a não-razão?

Que vida é essa, que pouco vale

e vale pouco menos que um cartão

que se gasta na primeira ligação?

Que sonho tão curto,

que se quebra numa esquina,

aos pés de Bell?

Pra que lado fica o céu?






05.04.2008 - 19h13min
(Será que é no lado de dentro?)

Brrrrrrr......


Amendoim, pinhão na chapa, fogão à lenha,
blusa de lã, cobertor, meia grossa, bota de cano alto,
cachecol, touca, aquecedor, chocolate quente,
chocolate em barra, pipoca, batata na brasa.
Da boca, saindo fumaça de frio. Luvas, batom vermelho,
churrasco, fogueira, cantoria, gripe, espirro, espiriteira.

Ah... Inverno bom. Chuva e cerração de manhã cedinho.

Vontade de dormir até mais tarde. Quem não sente?
Casaco pesado, polainas, montanha de edredons na cama.
Pantufas de bichinhos. Pijama de flanela. Sopa quente na panela.

Ah... Inverno bom...
Outono foi sopro breve, secou as folhas, despetalou os galhos.
Outono é só convenção na folhinha.
E o frio vem depressa, conserva meu riso,
conserva na despensa do meu velho peito
a certeza de que o dia amanhece
e de que a vida se renova, sempre.
Debaixo de geada, vem novinha,
saudar a alegria que se inicia.







05.04.2008- 19h04min

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Hoje é Sexta-feira

Sexta-feira, e a vida anda mole assim, meio de bobeira, como se hoje não fosse agora como se agora não fosse hoje como se já e daqui a pouco nada mais fossem que só um ponto ou uma vírgula ou uma expectativa não se sabe de quê. Sexta-feira, e a vida enrola um novelo de lã quentinha pra tricotar casaco pra filhinha que dorme tranqüila, na cama macia. Sexta-feira, e o informe oficial é de que, depois dela, vem o fim de semana esperado pra um descanso invejado por quem não pára nem em feriado muito menos em pleno sábado. Sexta-feira... Festival do Beijo, em Madri, e eu aqui... Sexta-feira... Aos 9 minutos do dia 05.04.2008

Cotidiano poético


Há poesia em cada canto da cidade.
Há poesia nos cantos dos muros,
nos cantos das praças, nos cantos dos fundos
dos poços do cotidiano dos citadinos
que se apressam para chegar ao nada.
Há poesia na lágrima que rola no rosto da menina,
no latido do cão preso na coleira,
no sinal fechado, na rua vazia, no trilho do trem
que não partiu hoje por falta de turistas.
Há poesia no perigo da limpeza da vidraça,
no jogo com a vida que se faz diariamente
sem que se perceba, sem que se atormente,
já que as contas não fazem perguntas,
nem os credores querem respostas,
apenas as notas, umas sobre as outras,
no vencimento das prestações mortas.
Há poesia no carro que passa, na buzina estridente,
no mendigo, no pedinte, no doente, no indigente,
na moça bonita, na velha elegante, na cor do fim do dia
que enfeita a vida e pinta de vermelho o horizonte.
Há poesia no cheiro de flor que ficou da primavera
e na folha seca partida debaixo dos pés,
no início de um outono frio e bem-vindo.
Há poesia na correria que acontece
entre os pedestres, entre as pedras paradas
que observam os pombos e seus vôos,
na praça defronte à prefeitura municipal.
Há poesia na cidade, nas coisas pequenas,
na sirene da polícia, dos bombeiros, da ambulância,
ainda que sejam esses versos cantados tristemente,
como quem chora ou como um lamento doído
de quem perdeu o que não voltará, nem com forte pedido.
Há poesia no bom e no que é visto de soslaio
que a gente evita o contato, que a gente finge não ver.
Tudo parte do soneto universal
cotidiano poético por todos lido
por quase ninguém entendido como tal...




04.04.2008 - 23h38min

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Questão?

SER ou SER. Uma quase maldição... 03.04.2008 - 22h12min

Amor menino

E o amor é esse menino travesso que apronta arruaças e levanta vôo entre as moças, nas praças só pra lançar seus dardos avermelhados nos corações de jovens poetas que por ali passam, desavisados. Ah, amor levado e imprevisto, que vem de mansinho, se acerca do ouvido e sopra nele versos leves de algodão. Ah, amor sapeca e bem ligeiro planta no peito um fiapo faceiro da mais pura e verdadeira paixão. E aí é um deus nos acuda um valha-me ó deus um salve-se quem puder porque então nem de reza braba resulta a cura pra essa loucura do coração... 03.04.2008 - 01h21min

terça-feira, 1 de abril de 2008

Ofício: pastora da alegria




Ensinar: plantar flores
em canteiros floridos.
Ensinar: entender-se pequeno
ante tremenda diversidade
com olhos ávidos que nos espreitam
e nos perguntam sem palavras,
'o que vamos descobrir hoje?'.
Ensinar: crescer junto.
Ensinar: esquecer da gente,
entrar num universo mágico,
r e a l i z a r...


Meu ofício? Pastora da alegria.





01.04.2008-22h59min
*O termo 'pastora da alegria' foi tomado emprestado
de Rubem Alves, admirável educador.
**Imagem: Minha turma do 1º ano do Ensino Fundamental,
em plena atividade de pesquisa. Concentradíssimos!!!!!!!

Desejo

Que estejamos todos poeticamente prenhes da beleza traduzida em versos... Que seja a dor, o amor, o horror, o dia, a noite, a doçura, amargura, alegria ou lerdeza. Que seja a saúde, a doença ou a tempestade, o sabor adocicado de um beijo ou o sangue da ferida aberta. Que seja a risada gostosa do palhaço ressurgido ou o regurgito do fel engolido. Que seja o que tiver de ser. Em todas as fases as faces da poesia bendita. Pra fazer valer essa nossa alma que não é pequena, é vida de Pessoa... 01.04.2008 - 02h10min (E toca o barco pra frente que tem muita água pra navegar...)

Hoje eu morri (ou Poema da Indiferença)


Dou passos arrastados na areia
A maré removerá todos os vestígios
Arbustos mortos rolam na rebentação
O horizonte respira melancolia
Navios duvidosos vogam em direcção a Ormuz
Pescadores enrolam redes remendadas
Um gato procura abrigar-se da pesada chuva
O chamamento do mulá perde-se nas ondas
Recitando uma oração volátil
Mensagens de submissão incondicional
Cantos para Deus, que não desejo ouvir.

Sou aquele que sempre deu a outra face
Fui mil e uma vezes agredido
E em mil ocasiões tudo perdoei
Educado para dar, sem nada esperar
Nunca neguei um apoio gentil
Jamais regateei uma palavra doce.


Porém, hoje eu morri
A visão do mundo turvou-se
Os sons destilaram-se em silêncio
O sangue esvaiu-se lentamente
Parti sem prantos ou lágrimas
Quando me quis, já não me encontrei.

O meu fantasma acordou agnóstico
Ergueu-se com um sabor de fel na boca
Olhou para inúmeras cicatrizes por sarar
Todavia sentiu-se incapaz de sofrer
Sacudiu a areia dos farrapos que lhe cobriam a alma
Soltou o espartilho dos seus valores
Envergou vestes de imaculado negro
Sorveu uma deliciosa taça de indiferença
Sentiu-se mais vivo que em vida
Já nem todas as faces merecem um sorriso.


M.Daedalus



01.04.2008 - 01h45min
(publicado pelo meu querido amigo poeta DOUGLAS, em
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=42836441&tid=2576314501045743642&na=2&nst=252
Imagem: Remedios Varo)

Mentira!

No dia da mentira menti pra mim mesma que tudo tem um fim que também marca um recomeço. No dia da mentira sorri sem vontade brinquei à força forcei a barra de uma alegria que não existia. No dia da mentira respirei fundo e enfrentei o mundo com uma coragem fingida e supostamente grande. No dia da mentira menti descaradamente sem a menor culpa ou sensação de engodo. Enganei sem corar. Corri contra o tempo como quem sabe para onde vai e o que pretende achar. No dia da mentira calei a voz aos gritos gritei sem voz, atritos brilhei sem luz nos ritos que o costume impôs aos que crêem nos mitos. No dia da mentira rasguei a verdade sem dó nem piedade pisei nas farpas nos espinhos nas lições da idade. No dia da mentira menti descaradamente que o coração não sente o que o peito encerra. No dia da mentira desfiz o acordo e entendi a verdade. No dia da mentira acordei do sonho. Renasci. 01.04.2008 - 01h33min

segunda-feira, 31 de março de 2008

Quem sou eu?


Talvez eu só tenha essa resposta daqui a alguns anos... Ou não...



Penso que sou água, águia,

fogo, ardente ilusão,

sensação permanente

de uma profunda solidão.

Penso que sou a procura

ou o estado letárgico

da completa loucura.

Sou égua solta nos prados

de uma vigília insólita.

Sou corrente que prende

meus pulsos ao passado

recente, indecentemente confuso.

Sou língua e pele e cabelos

vermelhos de pimenta malagueta.

Sou verso e prosa e conto

que ninguém conta

porque até eu duvido

e não divido a lente azul contigo.

Sou curso contido de água furiosa.

Sou alinhavo de espera

enquanto corro sem trégua

para um horizonte

que sempre sai do lugar

e fica mais distante.

Sou alegria e doçura

submissão e ternura

tristeza e desânimo

dor e amargura.



Sou mulher.





31.03.2008 - 19h18min

domingo, 30 de março de 2008

Pintura

Minha alma, que era azul, ficou cinza. Alguém aí tem tinta cor de rosa, pra emprestar? 30.03.2008 - 23h38min

Quintana, o eterno


"Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos. Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa".



(Mário Quintana)






30.03.20085 - 22h53min

Atentado contra a poesia

" Existem milhões de germes de poesia morrendo dentro dos seres humanos. Serão mortos por não serem devidamente alimentadas com os nutrientes da realidade, da paixão, da esperança, da liberdade, da Verdade.Eles foram aprisionadas pelo homem cotidiano, abandonados à fossa, sem água e sem luz. Deram ao tempo a infeliz missão de buscar arrancar-lhe o suspiro vital. Foram amordaçados e serão destruídos pela suas próprias emanações de emoções e forças instintivas, produzidas naturalmente para serem canalizadas em atividades criativas, enriquecendo-lhes suas existências neste universo de beleza e mistério.Os homens cotidianos são máquinas hipnotizadas pelo dinheiro, sexo e sucesso (sucesso?), sucesso da fama, do infantil desespero pela atenção, não o sucesso da realização da autêntica felicidade que nada mais é que a paz. Assassinarão a graça, e beberão para tentar gargalhar. Assassinarão a sabedoria, e fumarão para tentar pensar. Assassinarão o amor, e se masturbarão para relaxar. Assassinarão a liberdade, a justiça, e vão obedecer a lei do egoísmo, do nepotismo, da convencionada corrupção. Fechar-se-ão para sua característica de colocar-se no lugar do próximo em nome da ambição.Os homens cotidianos estão exterminando o que existe de vida neles, para depois seguirem como zumbis em direção a igrejas, procurando em imagens e no céu o Criador, sem se darem, por nenhum ínfimo segundo, conta que a divindade habitava o seu ser, em forma de liberdade, de criatividade. Sofrerão de lapsos, vultos da alma pura, impotente, derrotada pelo jogo dos sentidos que cuidará de fazer de seus donos mortos-vivos esperando a hora de dormir. "
Shirov Jarzida
*Texto postado por MANUEL, em
30.03.2008 - 20h04min

VIVA.

Ria. ore. minta. ceife. enfrente. negue. busque. traga. puxe. espalhe. compare. chore. entregue. coma. ame. durma. sonhe. saque. assista. suspenda. insista. surpreenda. alegre. sofra. conquiste. conturbe. apronte. aponte. cubra. tombe. trepe. tampe. escreva. risque. sussurre. cale. concentre. cuspa. desista. opere. compre. corra. sorva. seja. morra. 30.03.2008 - 17h37min

Partida

Alcei vôo sobre um MAR de possibilidades uma imensidão de flores e espinhos misturados a sorrisos e lágrimas e ausências e presenças repentinas. Fui embora sem avisar nem olhar as nuvens ou o frescor dos ventos que vieram do Norte. Fui embora e não deixei rastros nem restos de vestes nos espinhos que insistiram em rasgar-me a pele. As canções que embalaram os momentos marcaram a volta das ondas quentes que empurram meu corpo contra a areia e lambem os passos marcados no chão. Apagam o que se foi e não salvam nada. Nada fica pra trás quando amanhece. Nenhuma mancha resiste a um beijo doce. Nenhum beijo é suficiente pra fazer esquecer que nem tudo foi pintado de azul. Recuso a aterrissagem nessa terra devastada. Aguardo o momento propício pra fechar as asas. E voltar a andar com minhas próprias pernas; nadar nesse mesmo MAR de possibilidades que não evaporaram entre os suspiros de dor dos últimos dias, dos últimos laços, das últimas culpas. Há flores na praia. Vou pra lá... 30.03.2008 - 17h26min (Encontrei uma concha, na beira da praia; dentro dela, as canções que embalaram uma alegria há muito esquecida... O MAR...)

O mar

SE eu não estivesse ali naquele momento ou em outro qualquer SE eu não tivesse escolha e a roda dos ventos soprasse em outra direção SE eu os is tivessem os pontos exatamente postos uns sobre os outros e nenhum fosse tão parecido com um L ou com um ponto de exclamação ao contrário SE eu não fosse quem sou SE tu não fosses quem és nem tivesses representado o que representaste pra mim SE a vida tivesse menos suposições SE as estrelas fossem quadradas ou tivessem realmente as pontas que insistimos em desenhar nelas SE o mundo não fosse redondo e a gente pudesse chegar ao fim dele e simplesmente cair fora SE não houvessem tantas suposições e a gente pudesse, de uma hora pra outra entender os desígnios todos que nos cercam e que nos circundam e que nos devoram e que nos derrubam TALVEZ eu pudesse deixar de ouvir o mar... 30.03.2008 - 01h21min

Mea culpa, mea máxima culpa!

Culpada, ofereço meu pescoço à forca meu corpo ao apedrejamento minha alma aos tormentos do inferno. Culpada, pergunto as razões sem respostas as sombrias fendas abertas no silêncio que cresceu insolente entre as paredes de um deserto de promessas improváveis. Culpada, espero o inevitável castigo terrível de carregar na minha história a lembrança do momento exato em que sucumbi. Culpada, bato no peito e ardo as entranhas na busca da palavra ainda não inventada pra substituir aquela que me provoca arrepios e que irremediavelmente deverá ser pronunciada por esses meus lábios trêmulos de culpa. Culpada do maior de todos os pecados... e não me arrependo... 30.03.2008 - 01h14min

sexta-feira, 28 de março de 2008

Ninguém...


Maria Fumaça.

Os trens,

as rés,

os réus,

os poréns

e todos os ninguéns

desse mundo de Deus...




Fumaças...





28.03.2008 - 23h

Trilhos


Andas nos trilhos,

os trilhos andam em ti,

os trilhos andam POR ti

ou, simplesmente,

ignoras os trilhos?






28.03.2008 - 23h21min

Parto

Sair de dentro de mim. Nascer. De preferência em noite de lua cheia ou em dia de torrencial chuva fria; só não pode ser em hora comum, dessas que a gente nem lembra nem vê dessas que o sino da igreja não toca que o despertador não desperta que a gente não salta da cadeira de repente, como se alguma coisa muito importante, estivesse por fazer. Nascer. Abrir com dificuldade os olhos e com cuidado esticar as pernas e os braços numa imensidão incalculada, antes pressentida, jamais apalpada ou plenamente acolhida. Nascer. Descobrir as descobertas todas e os espantos, espasmos e encantos dos novos e dos não tão novos desafios recolhidos nos cantos da vida que se inicia e recomeça a cada novo dia, em cada nova fresta. Nascer em dia de tempestade. Em dia de tormenta, nascer. E ter os azuis olhos de e-tern(a)idade. Dar à luz.... 28.03.2008- 01h31min

quinta-feira, 27 de março de 2008

Estradas


As estradas levam e trazem destinos.

As estradas carregam no lombo

os desejos dos viajantes.

E os sonhos.

E as paradas.

E as alegrias.

As estradas não têm pousada,

não têm anexos,

não têm sossegos.

As estradas somos nós,

em busca do s(f)im...







27.03.2008 - 01h09min

Atrevimento...


Atrevo-me a investir na bolsa de ilusões

nos milhões de senões e de situações

em que os mortais se vêem sem ter

para onde fugir ou como se proteger.

Atrevo-me a explorar os cantos escuros

escusos, inclusos na lista dos destemperos

todos que assombram meu particular país.

Atrevo-me a ser eternamente transgressora

das regras e metas oficiais que afligem

e infligem toda sorte de ordinárias maldades

contra a liberdade, o pensamento e a opinião.

Atrevo-me a ser eu mesma

num mundo mascarado e fútil

que mente e devora essa mesma mentira

como se fosse a semente de um amanhã

mais limpo e mais puro. Impossível!

Atrevo-me a contestar a ordem estabelecida,

a desestabilizar as pedras concretadas

de uma verdade há muito falecida,

a nadar contra a maré e a firmar meu pé

naquilo que considero forte e seguro.




Atrevo-me a pagar o preço.


Atrevo-me a sofrer.


Atrevo-me a sorver o suco da adversidade.





Atrevo-me a sobreviver.

















Aos 41 minutos do dia 27.03.2008
Um novo dia que nasce da escuridão...

quarta-feira, 26 de março de 2008

O Circo


Hoje o circo enfeitou as ruas

alamedas, edifícios, sorrisos,

provocou exclamações e ternuras

lembranças de uma infância

que vai longe, nas esquinas da vida,

ou alegrias de uma infância

que anda agora, entre outras crianças,

nas praças e escolas e parques

da cidade com gosto de pipoca

e picadeiro divertido.

Hoje o circo coloriu de vida

a minha vida suada de trabalho

e seriedade e compromisso diário.

Hoje o circo me fez subir na mesa

e declamar poesia feito saltimbanco

em dia de estréia de espetáculo.

Hoje o circo despertou, entre suas canções,

palhaçadas, equilíbrios e paixões,

a menina que eu insisto em fazer dormir

mas que ainda mora em mim...




26.03.2008 -19h06min


(Hoje é o dia do circo.
A imagem é de um mini cortejo circense, acontecido
no final desta tarde, nas ruas do centro de minha cidade.
Viva a magia do circo! Viva a criança que vive em nós!)

Canção sem compromisso

Desafino de dar Dó entro por uma nota saio pela culatra. Entre um Lá e um cá encontro um Fá que não deveria estar ali. Quem me ouve, releve que revelo só o que quero o resto, não digo, não conto, não canto, não recito. Acompanhe minhas notas que denotam nostalgia dance, requebre, delire. Que tudo isso, assim, sem compromisso, também é poesia... 26.03.2008 - 10h47min
Endereço certo é coisa complicada tão complicada quanto amor eterno jurado entre quatro paredes descascadas em noite de lua cheia e cama compartilhada. Caminhos sem volta existem aos montes mas dependem, todos eles, do primeiro passo, do momento da escolha, que espreita, ao acaso, entre desejos de loucura e culpas freqüentes. Endereços, amores, complicações, luares, desejos, alucinações, dependências, acasos, loucuras, paixões, tudo acaba sempre em ternura, ainda que essa ternura seja apenas a saudade de alguma coisa que jamais vivi... 26.03.2008 - 01h26min

Bilhete

Esgotei os argumentos. Talvez não valha a pena mesmo. Talvez teu medo é que tenha razão. 26.03.2008 - 01h15min

Do silêncio...

Prova de fogo, o silêncio. O largo e impenetrável silêncio. Fogo devorador das horas reservadas para a troca. Implacável silêncio de peso não calculado; desmedido silêncio que cala o que está por ser dito. Maldito silêncio que abala a estrutura do construído. Silêncio que desmorona o edifício. Poeira. 26.03.2008 - 01h11min

Escuta....

Afunila-se a estrada. A escolta dá a volta. E se cala. 26.03.2008 - 01h01min

terça-feira, 25 de março de 2008

Despedida

Ajusto a saia na subida da escada não caio nem titubeio na decisão as fotos antigas ficam no álbum esquecido dentro do armário igualmente esquecido num canto da sala de estar vazia. Ajeito as malas e as tralhas na porta de saída da casa. As caixas e os depósitos de lembranças amargas e distorcidas pela culpa ficam no divã do analista enriquecido pelas minhas moedas sedentas de ouvinte e de opinião. Estou seca e dura. Pedra pouco preciosa. Sem lágrimas, dobro a esquina do medo e não olho pra trás nem admito arrependimentos. Nada carrego comigo além do desejo de uma liberdade que já tive um dia. Passo pelo espaço frio da falta de companhia. Esse, velho conhecido. Não ando nua. Não mais. Nunca mais. As feridas expostas significam luta e sobrevivência. Doeu, mas estou aqui. As feridas expostas significam cautela agora. E silêncio. Nos primeiros 11 minutos, do dia 26.03.2008

O que será...

Embriago a alma com poesia e música troco as pernas na dança esguia de uma liberdade que desejo e que ainda escorre entre meus dedos água quente pré-filtrada pela areia alheia. O egoísmo é uma forma selvagem de violência doméstica. Infrinjo as regras das boas maneiras. Deito meu corpo cansado nos braços do amigo do peito que me acompanha diuturnamente e que me ama apesar de saber-me bem. Concentro as energias na fervura do sangue nas veias que carregam meus últimos planos na vermelhidão que incendeia meus cachos. Não como, não durmo. Há dias que os dias se sucedem como mantos brancos de pura feitiçaria. Há dias que as noites são turvas e as curvas não escondem os desvios das trilhas que me forçaram seguir. Traço a rota do desvio no desvario das troças que me obrigaram ouvir. Agora é questão de honra e brio. Por enquanto, ainda rondam os palhaços no circo erguido pra despistar percepções. Eu não durmo. Eles haverão de dormir. E então, irei... e será pra sempre.... 25.03.2008 - 21h20min

Coragem

Foges. Te escondes dentro de ti mesmo. Procuro por ti entre as letras lançadas ao vento, colhidas pela folha de papel que eu já conhecia... Foges. Tens medo de qual de nós dois? É de mim, ou de ti que te recolhes? Um vento frio anuncia a chegada do outono e a continuação da tua fuga. Até quando? 25.03.2008 - 01h09min

Inclusão

As diferenças tantas, tamanhas, tacanhas... As diferenças são cantos, arestas, volumes... As diferenças são cordas que nos amarram ao outro, ao invés de nos amarrarem ao poste da indiferença. As diferenças são bem-vindas à minha vida, à tua, aos espaços e planetas que nos circulam. As diferenças nos fazem únicos e permanentes ao mesmo tempo que nos mostram o quanto somos i n t e r d e p e n d e n t e s. Quais são as nossas diferenças? Idade, altura, espaço ocupado na Terra, família, cultura, que outro motivo nos impede de S E R M O S? Que outra razão me impede de te incluir na minha vida? Que outra razão te impede de me incluir na tua vida? 25.03.2008 - 01h03min

segunda-feira, 24 de março de 2008

Pela minha cabeça...

O que me passa pela cabeça não é palavra não é sentença não é delírio, sequer mistério. O que me passa pela cabeça é só um suspiro, um certo pesar um pensar em branco, meio sombreado feito de vinho e profunda solidão. O que me passa pela cabeça não é nada comparado ao que me passa pelas mãos: facas, cordas e estilhaços de vidros, de peles, de algodão... Mas tudo isso é só um suspiro... Nada mais que um breve suspiro... Um suspiro só... 24.03.2008 - 20h28min

o que faz um ponto... III

O universo de cada um é um mistério igualmente diferente um do outro. Diferentemente único. Unicamente esquecido entre os iguais. Destaco as folhas em branco, da agenda vazia de sentidos e opiniões. O alfabeto é minha estrada. O dicionário, meu pai. O caderno, meu fado. O desejo de dizer, meu carrasco. Os pontos, as vírgulas, as reticências, meus irmãos, parentes e amigos. A caneta vazia de tinta minha solidão anunciada.... 24.03.2008 - 01h26min Para Adrebal

o que faz um ponto... II

Será que a alma bate ou é a vida que bate na gente? E se a vida bate na gente porque é que a gente não morre? Batida de vida corrige ou seqüestra a alma? Seqüestro de alma enlouquece ou faz ver mais longe? Ver vale a pena, ou seria melhor não ter olhos? São os olhos ou as palavras que vêem? As palavras, então, têm alma? 24.03.2008 - 01h18min Adrebal sempre me faz pensar...

o que faz um ponto...

um ponto desata um nó ou o nó é o próprio ponto? o ponto é o xis da questão ou o xis é só outro alimento? o alimento é um nó na garganta ou a garganta é o nó da existência? a existência é um nó que dói ou a dor é que é a prova da existência? 24.03.2008 - 01h11min A partir de uma conversa com Adrebal

Da morte...

O brilho da estrela só é visto após a sua morte. Antes disso ela brilha sozinha, na escuridão de um universo inteiro, que pesa sobre ela. 24.03.2008 - 01h09min

Restauração


Produz algum efeito reconstruir os templos?

Restaurá-los?

E quem restaura a fé?
As grades na porta do templo?











Aos 54 minutos do dia 24.03.2008

Questão


É a arte que me ronda

ou eu é que ando à procura dela?










Aos 45 minutos do dia 24.03.2008

Prudência

Embaçado, o meu olhar Meus olhos, anuviados, o que traduz meus passos em atrapalhadas trocas de pés. Melhor ficar parada e esperar que o céu se abra. Dissipar a densa névoa é obra da passagem do tempo. Escolher o caminho a seguir é responsabilidade minha. Esperar é sensatez. Calar, inteligência... Shhhhhhhh..... O próximo passo ninguém deve saber... Aos 42 minutos do dia 24.03.2008

Imagem


A luta é diária... extrapola a escultura.

Espada que trespassa o dia.

Dor.






23.03.2008- Domingo de Páscoa

quinta-feira, 20 de março de 2008

Desiderata*

Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio. Tanto quanto possível sem humilhar-se, mantenha-se em harmonia com todos que o cercam. Fale a sua verdade, clara e mansamente. Escute a verdade dos outros, pois eles também têm a sua própria história. Evite as pessoas agitadas e agressivas: elas afligem o nosso espírito. Não se compare aos demais, olhando as pessoas como superiores ou inferiores a você: isso o tornaria superficial e amargo. Viva intensamente os seus ideais e o que você já conseguiu realizar. Mantenha o interesse no seu trabalho, por mais humilde que seja, ele é um verdadeiro tesouro na continua mudança dos tempos. Seja prudente em tudo o que fizer, porque o mundo está cheio de armadilhas. Mas não fique cego para o bem que sempre existe. Em toda parte, a vida está cheia de heroísmo. Seja você mesmo. Sobretudo, não simule afeição e não transforme o amor numa brincadeira, pois, no meio de tanta aridez, ele é perene como a relva. Aceite, com carinho, o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude. Cultive a força do espírito e você estará preparado para enfrentar as surpresas da sorte adversa. Não se desespere com perigos imaginários: muitos temores têm sua origem no cansaço e na solidão. Ao lado de uma sadia disciplina conserve, para consigo mesmo, uma imensa bondade. Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores, você merece estar aqui e, mesmo se você não pode perceber, a terra e o universo vão cumprindo o seu destino. Procure, pois, estar em paz com Deus, seja qual for o nome que você lhe der. No meio do seu trabalho e nas aspirações, na fatigante jornada pela vida, conserve, no mais profundo do seu ser, a harmonia e a paz. Acima de toda mesquinhez, falsidade e desengano, o mundo ainda é bonito.Caminhe com cuidado, faça tudo para ser feliz e partilhe com os outros a sua felicidade. 20.03.2008 - 23h43min *DESIDERATA - Do Latim Desideratu: Aquilo que se deseja, aspiração. Este texto foi encontrado na velha Igreja de Saint Paul, Baltimore, datado de 1692. Foi citado no livro "Mensagens do Sanctum Celestial", do Fr. Raymond Bernard. O texto é de Max Ehrmannn e foi registrado pela primeira vez em 1927. Hoje em dia pertence a © Robert L. Bell. Texto e informações no site: http://ilove.terra.com.br/lili/palavrasesentimentos/desiderata.asp

Cosmopolita

Não é sempre que se abre uma clareira no meio de densas árvores de concreto e cimento armado. Não é sempre que se trançam os cabelos nos passos da embriaguez da alma não provocada por álcool ou destilados mas pela beleza da candura da menina ou pela delicadeza do vôo da borboleta branca. Não é sempre que se faz dia claro que o orvalho congela na ponta da folhagem protegida pela marquisa que um raio de sol acaricia teus olhos que um pingo de chuva se junta a uma lágrima tua. Não é sempre que o burburinho da cidade é apenas e tão somente som difuso mas é sinal de vida e pulsação para o bem e para o mal para o sonho e para o real para a coragem e a escravidão. Não é sempre que um eclipse se deixa ver por olhos humanos corrompidos pela tristeza do mundo moderno. Não é sempre que uma estrela nova explode na escuridão do universo em meio ao silêncio solitário do cosmos ou ao barulho ensurdecedor desse mesmo c o s m o s... Cosmopolitas somos nós todos filhos de uma cultura dinâmica e imprevisível, que dá e tira com a mesma rapidez e sem nenhuma cautela que oferece e remete ao óbvio e também à novidade tão grande que fica difícil definir...
"Você é filho do universo
irmão das estrelas e árvores
você merece estar aqui..."*
20.03.2008 - 23h32min *Trecho da Desiderata http://ilove.terra.com.br/lili/palavrasesentimentos/desiderata.asp

quarta-feira, 19 de março de 2008

Do vil metal


Um momento
pode até ser comprado;
uma vida, não...










Um dia ainda escrevo um tratado
sobre o trato que penso merecer
essa gente que só valoriza e vê
o brilho do metal que compra tudo
menos a alegria de viver....






Aos 10 minutos do dia 19.03.2008
(Imagem: http://www.cosmo.com.br/humor/images/2007/5/31/moedas1.jpg)

terça-feira, 18 de março de 2008

Eu SOU...


Sou alguém em permanente construção.

Sou quem grita e ensurdece o vizinho.

Sou quem cala e nunca consente.

Sou agressiva e cruel, doce e carinhosa.

Sou ingênua e geniosa.

Sou a força e o fel, o medo e a ansiedade.

Sou estátua e dança.

Sou alguém que anseia por liberdade.

Sou alguém que chora de saudade.

Sou alguém que ama e odeia

em medidas iguais.

Sou intensa e desnuda.

Não finjo, não minto,

não torço pela injustiça alheia.

Sou rouquidão, silêncio, loucura.

Mas antes, e principalmente,

sou solidão...





18.03.2008 - 23h43min

Só...


Decididamente

estamos sós...

rodeados de estranhos,

somos ilhas...

serpenteando entre nós,

nosso sangue...

sós...

eu...

tu...

nós...

isolados entre saldos

negativos de verbos

silenciados de outros...

sós...

o poder que sobe à cabeça

o saber que desce aos pés

o sonhar que morre no dia

a morte que ronda o prato

da ceia do domingo de Páscoa.

sós...

eu...

tu...

nós...

que não estamos juntos

embora pareçamos unidos...

nós...

miseráveis

embora tenhamos nascido juntos...

nós...

que crescemos sem lei

embora pareçamos retos...

sós...

nas mãos dos manipuladores profissionais

sós...






Um dia desatamos os nós a sós





como sempre estivemos...




sós...














18.03.2008 - 23h31min

segunda-feira, 17 de março de 2008

Castelos de areia


Construo castelos de areia.

Na beira da praia

as ondas que quebram

são língua de sereia

cântico de morte e encanto.



A filosofia não protege quem sabe.
A sabedoria não esconde quem foge.
A história não depende de quem morre.
Escolho as palavras exatas
que encolham o sentido do verbo
que ainda não encontrei.
Compreendo a sorte e planejo
a próxima estratégia para fugir dela.
Não trago ferimentos abertos
ou cicatrizes profundas
oriundas das dores e vertigens
de cegamente andar nas sombras
do que desconheço e do que busco
desintoxicada das convenções
impostas diariamente a todos os seres.
E aceito os açoites das terceiras intenções
que desconhecem os perigos que enfrento
ou que desdenham do que considero ilusão.
Sou contrária e ouço vozes alegres
que falam de coisas distantes que eu não vi.
Sou louca, originária de uma terra onde não nasci.
Sou impaciente, intolerante, intransigente.

E construo castelos na areia
e moro neles
e neles sou feliz....







Aos 49 minutos do dia17.03.2008

E agora, Drummond?


Se fico, sou presa fácil

a ver navios sem velas

sem velar o mar azul.

Se parto, morro na praia

esgueirando-me à toa

entre as palmeiras e os orvalhos

de madrugadas sem estrelas

de versos soltos sem poemas

de encantamentos derretidos

nas horas de absoluto pesar.

Se sonho, corro o risco

de acordar exausta e vazia

pra descobrir que o mundo é este

que rodeia minhas crinas

que rareia meus imprevistos

que diminui as possibilidades.

Se acordo, aceito o fato

do sol estar morrendo

do dia ser meu hoje

do riso real que sou aqui.

Se espero, desconfio.

Se desespero, confino.

Se construo, não sei.

Se sei, desenformo.

Torno novo o ontem feito.

Dito minhas próprias regras

meus fusos horários desordenados

minhas impressões escassas

na roda da vida no sono de agora.

A oportunidade estendida

tapete vermelho na escada

que sobe, não se sabe pra onde.

Mas sobe...

E eu não sei onde a opção.

E eu não sei onde a versão

do que é verdadeiro e forte.

E eu não sei onde a escolha.



E agora, Drummond?







Aos 31 minutos do dia 17.03.2008

domingo, 16 de março de 2008

Eternos poetas

... poetas nunca deveriam desistir, ainda que as musas se alternem, ainda que inexistam, ainda que se revelem imperfeitas ou inadequadas ou infelizes... Os poetas, esses, devem permanecer pra sempre, ainda que doloridos pelas descobertas ou pelas encobertas dores... Os poetas, esses, não podem deixar de escrever... Nunca. 16.03.2008 - 01h26min

Tecelã de versos

Com uma palavra teço a trama do verso na folha branca da agenda vazia de si mesma transbordante de mim e de além de mim. Meu vôo nas asas poéticas não tem descanso ou agito ou remanso. É viagem certa no verbo é vantagem vasta no dito. Mergulho no mar dicionário dirijo sem rumo, me aprumo. Agora não sou mais eu. Agora é a palavra que mora em mim. Teço a trama do verso o resto é resto... 16.03.2008 - 01h04min

Meus versos esperam....

Meus versos são desesperadas tentativas de fuga do silêncio que ronda meus ouvidos na madrugada madura do roubo de vida que os dias me obrigam a ver do rombo na lua que a chegada da estrela vazia torna precisa e insegura a estrada que estou por dizer. Meus versos são salvação e susto d'alma branca ligeiros deslizes da sofreguidão com que corro ao encontro desses braços que não estarão lá que inexistem ou sugerem o sonho desfeito insatisfeito desejo de razão entre os ventos e incertezas nas curvas percorridas pelo coração. Meus versos são marcas na pele arrepiada de frio tatuagens de símbolos significados sussurros suores sons são linhas dançantes de bailarinas invisíveis que prevêem o próximo movimento e entristecem são luzes vermelhas que indicam o perigo e o cuidado são cruzes e velas e barcos e algozes e exércitos e charcos por onde meus pés se molham e por onde minhas mãos deslizam e desligam e desmontam e desmentem e desesperam... Meus versos esperam... Aos 52 minutos do dia 16.03.2008

quinta-feira, 13 de março de 2008

Por mim...

Sombras são princípios de formas inexatas de algo que vai além. Formas são princípios de sombras exatas de algo que não vêem.
Moldo a forma da autoria da minha vida: quem me deu o direito de ser eu mesma? EU!
Escolho os feijões que quero plantar na horta mágica das minhas alquimias de letras e versos e monossílabos átonos misturados às sensações dos invernos passados ao pé de um fogão à lenha e um disco de pinhões assados na brasa.
Saudade de um sossego quentinho do ombro do homem que amo do som da risada de algodão ao meu ouvido espumante poema escrito com gosto e cor de vinho.
Calculo a falta que fazem as páginas de amanhã nessa leitura que sempre me espera com gosto de surpresa e admiração.
E agradeço...
13.03.2008 - 23h52min

Liberdade

Abro as asas
alço vôo
liberdade
eis-me aqui!!!!!!!!!!!!!!!
Ando livre pelos caminhos abertos por mim
sem pegadas alheias, diviso as direções que me pertencem
ou que traçam meus avanços pela estrada afora
que não se interrompe nem cessa de estender-se à frente.
Labaredas de fogo iluminam meus passos paroxítonos
escrevo versos como quem toma um copo d'água doce
e se acalma da barbaridade da rua de fora
do meu mundinho de poemas escolhidos a dedo-de-dama.
Domo a passagem do tempo e adormeço entre as plumas
das vertigens dos concursos dos folhetos das fuligens dos folguedos
que sopram num vento de insônia na minha espinha vertebral.
Ilusão é o delírio de uma realidade que trafega náufraga
no dilúvio de acertos e desacertos que castigam os dias
que vêm chegando nos atropelos das horas medidas e contadinhas
enfileiradas diante dos relógios de pulso de bolso de parede
medíocres marcações do fatídico efeito da passagem de um tempo
que não se sabe direito o que é a que veio quando quanto onde é se é que é
ou o que quer que se considere que seja... ou não...
O outono solta as folhas das árvores e espreguiça as palmeiras azuis
ah... palmeiras sempre serão azuis...
E 'sempre' é um espaço que cabe nos meus dias
D I A R I A M E N T E
minha estrada se esparrama por esse espaço
é nele que danço
é nele que sei ser
essa
que sou...
13.03.2008 - 23h39min

Palav...

As palavras dançam nas folhas, nos ouvidos, nos lábios, bailarinas suaves de hipnotizantes movimentos leves convincentes argumentos poéticos delirantemente belos
p a l a v r e a d o . . .
13.03.2008 - 01h07min

quarta-feira, 12 de março de 2008

Miscelânia

Voa ao vento minha saudade sopra o pensamento e a espera da canção ouvida à janela no espaço aberto sem lei. Sopra ao vento a eternidade voa o instante e o lamento o consolo de um anjo distante que sorri, complacente e belo, embala a coragem de não-saber o que haverá de ser o que haverá de vir. Canta o vento na proximidade o esforço de nitidez e de tormento nas cortinas dançantes de tule transparentemente branco. O banco da praça aguarda que o dia amanheça que a noite anoiteça que novos passantes nasçam que a vida aconteça normalmente como se o sol ou a chuva não se importassem se o trem descarrila ou se a porca torce o rabo ou se o xarope é bom pra tosse. O trinco da porta destranca o riso e abençoa a floricultura da esquina onde as bromélias são viçosas e os vínculos têm afetivo odor de rosas. O enfeite na porta convida à entrada de quem se considera eleito de deuses e anjos diferentes que perambulam pelos campos solitários e encontram, em seus preâmbulos, nada além de uma xícara de chá de hibiscus pra pintar de vida o nosso tão comum dia de hoje... 12.03.2008 - 20h01min

terça-feira, 11 de março de 2008

... a melodia da saudade...




te sè
y eso es todo
porque lo demàs es
aquello de amar y desamar
es como reìr y doler
el asunto es que te sè
somos
y es màs allà de eso






canta meu peito ao som da tua voz distante
aproxima meu peito do som da tua voz presente
las repercusiones de su canto, el silencio
el silencio distendido por los kilòmetros

pero no hay distancia ninguna
al final y al principio la voz nace en el otro
el que por momentos es uno
ninguno
distancia e saudade

distância e saudade

não há...



11.03.2008 - 01h01min

(Simone Aver e Roberto Amezquita)

sábado, 8 de março de 2008

Quem eu penso ser...


Sou uma incógnita
e um livro aberto.
Sou letra que não pode ser
escrita
sou letra que não pode ser
lida
sou letra que não pode ser.
Sou ilusão.
Imagem na tela colorida
de um mundo em extinção.
Sou vulto, sombra, telepatia.
Sou viveiro de pássaros
na cabeça do poeta mexicano.
Sou assombração.
Sou constância e demência.
Ouço vozes, vejo coisas,
desato nós e ato imprevistos
passos travessos na estrada
que está por ser aberta.
Sou linha de trem descarrilado.
Sou o trem.
Sou a linha.
Sou o vagão perdido
fechado em ostra.
Sou o nada
que desabrocha em cada verso
onde haja encanto
encontro da magia com a música.

Poesia.


Paixão.



08.03.2008 - 20h43min

quinta-feira, 6 de março de 2008

Hora marcada

Exupéry escreveu, eu assino embaixo: "se vens às quatro da tarde, desde as três começarei a ser feliz"; e acrescento, humildemente, no meu terno desejo de fazer-te ver o quanto me és caro: se vens às quatro da tarde, desde o instante primeiro em que eu soube disso ou que adivinhei, ou sequer suspeitei que viesses às quatro, ou às três, ou à meia noite, ou quem sabe às seis, fui mais do que feliz. Andei saltitante à tua espera. Corri pelos bosques e ri alto, criança solta entre brinquedos raros. E sonhei contigo. E cantei com o sonho que tive contigo. E dei-te minhas mãos e minha vida, no sonho que tive contigo. E sentamos juntos, debaixo da macieira, pra contar histórias vividas, engraçadas ou sofridas, pra lembrar passados e rir das lembranças tidas; no sonho que tive contigo. Até que venhas à hora marcada e ao invés de sonhar eu viva contigo... Aos 11 minutos do dia 06.03.2008