segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Sobre quem sou
Vivo mudando de idéia sobre quem sou eu.
Será por não conhecer, em absoluto, a resposta,
e andar vagando por hipóteses várias,
ou será por essa característica de camaleoa,
mudando sempre,
portanto sempre sendo nova?
Uma boa nova?
Ou uma utopia?
Quando eu descobrir, respondo...
ou não...
12.01.2009 - 15h
Bem-vindo, poeta!
Entra, poeta,
que a poesia está de portas abertas,
pra versos exclamados
na comunhão dos decassílabos
ou dos invertebrados...
que importância tem?
Toda, oras,
afinal é de estrofes que é feita a vida
e de estrofes malogradas ou mal dormidas,
talvez mal amadas,
quiçá bem resolvidas...
Estrofes de almofadas e de suspenses,
que nos levam as sementes
e as inspirações dormentes
e as catástrofes nos copos d'água...
Entra, poeta,
e traz uma pitada da tua poesia,
que a mesa anda sedenta
de um tantinho de beleza,
de um tantinho de prosa e verso...
Moço, traz aí a sobremesa...
(Para os meus amigos queridos, do Sarau On Line,
depois de um longo período de afastamento meu...)
11.01.2009 - 17h30min
sábado, 10 de janeiro de 2009
Falta
Sinto falta das canetas,
dos versos,
dos amigos,
da dança do poema na minha frente,
alegrando-me os dias...
Sinto falta do sopro do verbo
no meu ouvido atento,
do riso da palavra escolhida a dedo,
do sentido obscuro da frase,
solta por acaso,
entre um suspiro e outro,
de alívio ou solidão,
tanto faz.
Sinto falta da beleza de uma lua que resiste às manhãs...
10.01.2009 - 01h22min
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Marginal_Arte&Cultura
01.01.2009 - 02h48min
Por amor
Por amor
sou meus desenhos
dispo-me das dores
dos tecidos
dos verbos
dos receios
dos cuidados todos.
Por amor
sou minhas poses
minhas quebradas
minhas colinas
meus vales
serenatas
cachoeiras
sumarentos e finos recortes.
Por amor
sou as mulheres que fiz
cada traço
cada curva
cada compasso marcado
no tempo certo
ou no intento
imprevisível
da tua chegada.
Por amor
sou retrato
e janela.
Abertura
estilhaço
saliva
abraço.
Por amor
sou a sombra
desenhada
feminina
felina
amada
amante
graça.
Por amor
sou tua
em traço
ou nua.
Tanto faz;
é tudo pra TI.
01.01.2009 - 01h50min
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Nus
Despir-se é muito mais
que despojar-se das vestes
é deixar a descoberto
a alma, pra TI.
Corpo e alma desnudos.
Nus
Nós
Dois
.
29.12.2008 - madrugada
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
"Se tudo der certo"
(...)
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos...
(...)
Gonçalves Dias
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Quando tudo der certo
o jogo de palavras
virá com manual;
os magos a mais
- ou a menos, tanto 'faiz' -
não terão a menor importância,
dadas as mágoas
deixadas do lado de fora
dos nossos portões
que esquecemos de fechar
com enferrujados cadeados
de cristal.
Achei que tivesse tI perdido.
E me perdi ao isso achar.
Fiz do medo a poesia.
Um verso a mais pra TI
que ME sabes poetar.
25.12.2008 - 03h36min
(Tu não és otimista. Tu és ÓTIMO.
Obrigada pelo farto material de espelho.
Só o que faço é refletir essa tua aura brilhante,
que eu amo. FELIZ NATAL!)
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Nomenclatura
Não é por acaso
que as três primeiras letras
do meu nome de batismo
sejam uma afirmativa...
19.12.2008 - 14h36min
Antes
Meu relógio está sempre adiantado
talvez essa seja a melhor explicação
sobre quem eu sou...
19.12.2008 - 14h35min
Eu quero TI dizer
O que eu quero dizer
é o que eu não disse
e a palavra me foge,
livre, nos campos da vida.
O que eu quero dizer
é o que eu não fiz
o que não pensei
o que deixei escapar
entre os dentes
em forma de SIM.
O que eu quero dizer
é uma frase desgastada
desgraçada na boca de uns
abençoada na de outros
mentirosa algumas vezes
profunda quase todas as outras.
O que eu quero dizer
é só um repeteco do eco
das esquinas e dos sussurros
cansados de descansar nos ouvidos
de outrem.
Mas a palavra me foge
mas a frase fica pela metade
mas a boca não abre
para dizer...
E o que eu quero dizer
fica dançando no ar
bem na minha frente,
deboche constante
dessa minha falta de coragem.
E o que eu quero mesmo dizer
é o que eu digo brincando
é o que não levas a sério
é o que ouves sem importância
todos os dias,
de outras formas,
com outras palavras,
ou até com as mesmas,
em outros tons.
E o que eu quero mesmo dizer
é que eu TI amo.
(...dizer...)
19.12.2008 - 14h06min
Agradecimento
Obrigada por teus olhos
exigirem-me os sorrisos
que eu, às vezes, esqueço
que sei criar...
19.12.2008 - 13h20min
(Pra TI)
Ambição
Não tenho grandes ambições
nada impossível espero:
minha filha feliz e saudável
meu livro publicado e lido
o homem que amo, ao meu lado.
Mas como isso é difícil de conseguir...
19.12.2008 - 11h02min
Dizer
Tenho mil crônicas
atravessadas na garganta
e milhares de palavras
reclamando o direito ao grito.
Direito conquistado
a suor escorrido na testa
mesmo gosto da silenciosa lágrima
que mancha meu rastro
na estrada aberta por mim.
As pérfidas razões
dos verbos-espadas
que cortam as não-palavras
caladas
soam confusas em suspiros
sem significância (in?) alguma
nessa minha realidade (i?) vertida
sabe-se lá de onde.
Cortam-me os pulsos
os pesos das frases
que pousam sobre lugar algum.
Coerência é coisa pra poucos
escolhidos a dedo;
e eu não sei por quê
mas não sou deles o um.
Os estalos do telhado
que a chuva fere
são contratos jurados de morte
pela extensão dos vocábulos proferidos.
Fusão de dizeres.
Fartura presa na língua.
Não-dita.
Silenciada.
Engolida.
19.12.2008 - 10h15min
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Passagem
O caos desacelera o passo da harmonia
complica os atalhos já gastos
desgosta o império erguido a dor.
A ferro e fogo o calmante cala meu verso
cala minha saliva
cala a sílaba dispersa
que procurava a folha branca
pra, borboleta, pousar.
O caos estanca o fluxo
e a partícula é o meio do mundo
que não vislumbro
que não prevejo
que não adivinho
na borra de chá
do fundo da xícara
de café.
O caos espanta a linha.
O cúmulo do absurdo
é não ter uma expressão
que se encaixe entre meus dedos
pr'eu saber que a vida
excede qualquer textura
ou texto
ou intenção de orvalhar
os dias com pimenta e sal...
Um dezembro outonal...
16.12.2008 - 17h55min
Desistência
Não quero mais mudar o mundo.
Não quero mais impossíveis atos.
Não quero mais a ilusão
de que tudo pode,
afinal,
dar certo,
no final
(e quando chega esse tal de "final"?).
Não quero mais mudar o mundo.
Eu, hoje, órfã da minha idéia mais querida...
16.12.2008 - 17h10min
A frase
É esse silêncio que rasga o poema
na intenção não alcançada
e que agora paira no ar....
16.12.2008 - 04h12min
O Grito
Publico um grito.
Escuta e aquiesce,
que os tempos dirão
do freio das tramas.
Além disso
silêncio...
Shhhhhh....
16.12.2008 - 04h10min
Rasura
Se rasgo o raio
e solto o verbo
sobre o corpo resvalo
em estrelas multicores,
é porque me faltam olhares
suficientes
que te alcancem os braços
tatuados de vertigem e sopro quente.
Se enveredo pelas alamedas
confortavelmente já conhecidas
é porque maltratam-me as retinas
as centelhas do fogo de ontem
que consumiu-me os arrepios
e as censuras
e os cuidados
e os limites todos da lucidez.
(Embriagada sede de loucura vã.)
Se te dou ouvidos e olhos e bocas
é porque me faltam as palavras
que enchem esses espaços vazios.
Cadarços abertos nos sapatos
esquecidos na soleira da porta
que deixamos de abrir.
Jaz ali o desejo imediato
e a sensação inusitada
do belo
do ralo
do sempiterno
assovio...
(Escuta o vento
vislumbra a fada.
Solidão é algema que mata
nas minhas mãos
o teu suor.
A veia que verte de TI...)
16.12.2008 - 04h07min
Movimento
Pareço parada.
O movimento me é;
estanco o palanque
que afronta meus brios.
O destino afoga o afago
que esperava por mim.
Não tenho sossego
embora pareça sempre a mesma...
16.12.2008 - 01h15min
Aflição
Esperei, de novo...
Logo eu,
que detesto a espera,
que guardo o desejo secreto
de ter todas as estações ao mesmo tempo
só pra não ter que esperar pelas flores primaveris
ou pelo orvalho frio das madrugadas de inverno
ou pelo calor do sol forte de um verão escaldante
ou pelas folhas secas dos plátanos cobrindo meus caminhos.
Logo eu,
que detesto a espera,
sento aqui,
debaixo dessas estrelas de mil cores
e espero.
Sina sem badalos.
Espero...
E nada...
16.12.2008 - 03h09min
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Charme/Ternura/Sensualidade
CHARME
Leque
guarda-chuva aberto
em dia de sol forte
copo d'água gelada
rasteirinha
cabelo dele, cortado rente
banho de chuva
piercing no dente
abraço apertado;
semente...
TERNURA
Mãos dadas
olhos nos olhos
cumplicidade
sorriso
companhia
copo compartilhado
história cumprida
abraço demorado;
semente...
SENSUALIDADE
Pele dele, nua
corpo suado
língua no lábio
vestido branco molhado
decote profundo
roupa no armário
cama desfeita
vapor de chuveiro
- espelho -
abraço explorado;
semente....
11.12.2008 - 17h01min
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Aniversário
Espelho talhado na pedra do tempo
vinte anos em um
quarenta e três pedras preciosas
cravadas em miúdas batalhas de horas...
...e esse teu costume
de enfeitar-me o dia
co'as pontas dos dedos
pintadas de prata e calor.
09.12.2008 - 16h25min
(Felizes nós, neste aniversário conTIgo)
domingo, 7 de dezembro de 2008
Para TI
*Obrigada por manteres o meu jarro cheio...
Exerço o direito de permanecer falante
digo e repito, pra quem quiser ouvir
e pra quem não quiser
e pra quem não entender
e pra quem não se importar
que minha vida,
que meus olhos,
que meus pensamentos,
que meus minutos todos,
que todas as contradições,
que todas as celebrações,
que todas as impertinências,
que todas as indolências,
que todas as menções
e todas as alegrias
e todas as lágrimas
e todas as festas
as canções
as loucuras
as decências
e as in
e todos os abraços
e todos os jogos
e todos os desejos
e todos os encantos,
são teus
são pra TI.
07.12.2008 - 12h03min
(...e tu sabes que é assim...)
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Impressões
Colho um verão úmido
entre as folhas trêmulas
de um passado qualquer.
Cheiros
são visões rei(n)ventadas
com direito a euforia
e jogos de artifício em cristais.
Os passos empastam a estrada
afundam as trilhas deveras
alimentam um sentido maior.
(Desencontro de mensagens
com hora marcada pra viver.)
Transcorrem salgadas as lutas
as grutas engaroadas
nos vales que me antecedem
que me dormitam
que me anunciam sem dúvida alguma:
você...
27.11.2008 - 17h53min
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Intensidade
Intensidade.
Garra que fere fundo
que sorve o sopro
que suga a alma.
IntensIDADE.
Fogo, afoga o assunto
água, consome a sanidade.
Intensidade.
Salto alto em manhã de primavera
entrega inteira em madrugada de verão
luz de vela
em pleno sol de meio dia
lamparina
lampião...
INTENSidade....
24.11.2008 - 17h
Despedida
Sempre a mesma tecla
sempre a mesma corda
produzem sempre a mesma nota:
não tenha nunca DÓ de MIm.
Sou chama e cinza hoje
logo adiante siso e tempestade.
Ai
que os risos são longos
e os dias normais.
Ai
que o perto é distante
e os sonhos reais.
Ai
que a clareira me expõe
mas a hora é assim.
Muitas vidas tenho cá
não tenha nunca DÓ de MIm...
24.11.2008 - outro dia...
sábado, 22 de novembro de 2008
Viaja
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Mistério
É verde a timidez
nos sérios olhos que me fitam
de além-mar.
Nos fios lisos
dos cabelos escuros
escuto a canção
que escorreu do teu peito
e veio cá, pousar em mim.
Doce presente de luar amanhecido
nos acordes das estrelas
que te espreitam
enternecidas.
São breves as horas contigo
voam os ponteiros
voam as esperas
voam as imagens que não previ.
A catarse aguarda as núpcias
e as melodias de voz
misturam desejos.
Não temo.
Sou asa
voando pra ti.
21.11.2008 - 17h
(Portugal)
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Karma
Partituras e cifras
Si bemóis a escorrer.
Si, sem o Dó maior
que não arreda pé de ser Sol.
Calor a se espalhar
na harmonia da canção distante
de distinto DNA.
Sintonia Kármica...
Vocação.
Para AKAI, nesta madrugada do dia 16.11.2008 - 04h30min
Futuro
Quando eu crescer
quero ser verbo
partitura
traço de nu.
Quero ser sopro
suave fragrância
mapa ao avesso
na nuca, arrepio.
Da teia da aranha, o fio
crista de galo, fino assovio
galho enfeitado de pinheiro de Natal
extrato de erva medicinal
brisa de mar perfumada
uma pitada de sal.
Quando eu crescer
quero ser página de livro rasgada
coleção de enciclopédia velha
tentáculo de polvo furioso
mordida de maçã.
Quero ser azul-anil
a boca do funil
a luz no fim do túnel
raio de sol enluarado
riso alto de criança
réstia de calor na calçada
quadro louco de Dali.
Quero ser feitiço
folha de árvore frondosa
balançando os cabelos ao vento
beijo molhado de namorado
gato preto no telhado
um curto pavio
um surto na sala de espera da vida.
Quando eu crescer
quero da canção
ser o cio...
18.11.2008 - 15h27min
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Amorais
Entrelaçadas teias
laços virtuais
trançados em fios
de uma realidade absurda.
Sinuosas combinações morais.
Amorais são as velas
que circundam os caminhos
talhados de verbos e vírgulas
no espaço comum.
Ah!
Essas nossas pretensas morais
nossos ais
amores a mais
nossas febres e fomes
nossos amores
nossos ais.
Ah... morais...
Nossos amores
reais?
17.11.08 - 10h
sábado, 15 de novembro de 2008
Alegria
Minh'alma tem sede
de pisar alegria
ritual diário
ao qual me atenho
com indisfarçável prazer.
Construo meus vínculos.
Costuro de flores os laços
que abraçam essa tua vinda.
Meus vasos são rios...
Minhas águas, perfumes...
Meus amores, ventania...
15.11.2008 - 15h15min
Extremos
Trago no riso
um rasgo de lágrima.
No dia,
madrugada gelada.
Na noite,
uma réstia de sol.
Trago no gosto do suor
um toque de doce magia.
No auge do prazer
uma ponta de agonia.
Em pleno Oceano
a luz de um farol.
"Trago em mim todos os sonhos do mundo"*
e estou vazia...
15.11.08 - 13h15min
*Verso de Álvaro de Campos
Segunda vida
Amar é...
A maré assovia a canção:
amar é assolar a partida
Ah! O mar respira um adeus
talvez um cumprimento distante
perdido num Oceano
de persistentes ilusões.
Ir ao mar
diminuir distâncias
destrancar a dor.
Amizade e paixão num só aperto;
se perto é longe
se o pouco é medo
se a tarde é fruta
se a lua, tormento,
então desminto o eco
e sufoco a perda.
Amar é ir
perder-se na imensidão
do fluxo salgado
in-ter-mi-ten-te.
Amar é
es
va
IR
se.
Amar é ir...
15.11.08. - 12h50min
(Para AKAI PARX)
domingo, 9 de novembro de 2008
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Saliva
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Tricotar
Com minhas próprias mãos
tricoto meus caminhos.
Às vezes encontro pontos
frouxos
outras vezes encontro pontos
com nós
preferiria encontrar conosco...
03.11.08 - 03h45min
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Condição
Se danças, inda que só,
danças.
E teu corpo é só energia.
Se cantas, inda que mudo,
cantas.
E tua canção é pura magia.
Se amas, inda que em sonho,
amas.
E teu peito é
só...
30.10.2008 - 18h22min
Quietude
Compenso tua ausência
buscando teu rosto
na minha própria voz.
Excluo qualquer suposto
que me impeça as vírgulas,
necessárias esperas,
té que teu riso
me alcance.
Sopro as espumas das letras
que lacrimejam tua verdade.
Brindo, enfim, à certeza
de tua presença,
inda que distante de mim.
Saudade....
30.10.2008 - 18h15min
Olhar
Eu não tenho olhos azuis.
Eu não tenho olhos castanhos.
Eu não tenho olhos de cor alguma
que se perceba à claridade
de um olhar qualquer.
Eu não tenho sonhos azuis.
Eu não tenho sonhos castanhos.
Eu não tenho sonhos de cor alguma
que se perceba à claridade
de um olhar qualquer.
Eu não tenho caminhos azuis
muito menos caminhos de rosas brancas
ou de espinhos, sequer, eu tenho.
Eu não tenho caminhos.
O que me há
é um tal gemido constante
que pinta meus olhos
de cores berrantes,
nem um pouco sutis.
O que me tem
é um estado de alerta distante
um tremor de dentro
um desejo ardente, persistente,
de imperiosa meretriz.
O que me leva
é a força de um tudo
dissolvido nas partículas
de minha particular esfera.
Eu não tenho um olhar.
Eu SOU.
30.10.2008 - 18h05min
Lembrança
Das janelas fechadas
do velho casarão
de minhas pretensas memórias curtas
desprende-se o salgado gosto
da pele que eu não lambi...
30.10.2008 - 17h53min
Relance
Escorre a luz
entre as frestas
das janelas desses teus olhos
que resgatam
as fronteiras dos meus.
Nenhum Império
comporta teus braços
nenhuma sombra
cobre-te os passos.
És asa e tatuagem no vento;
és presa da liberdade
breve delírio viajante.
Passagem....
30.10.2008 - 17h48min
terça-feira, 28 de outubro de 2008
In Memorian
A vida?
Eu seria redundante se dissesse que ela é breve.
Eu seria infantil se dissesse que é longa.
Eu seria cega se dissesse que é perfeita.
E, finalmente,
eu seria hipócrita se dissesse que não vale a pena.
A vida?
Vale todas as penas
de todos os seres.
Essa vida mesma, que dura sempre a medida exata
da nossa falta de medida.
Essa vida mesma, que brilha no brilho dos olhos
ainda que cerrados pelo sono dos justos, dos injustos,
dos vivos.
Essa vida mesma, que acompanha-nos os sonhos,
ainda que eles se transformem em pesadelos.
A vida?
Vale cada segundo,
mesmo o mais doído,
mesmo o mais doido,
mesmo o mais torto,
mesmo o mais sofrido.
Não importa.
A vida vale.
E o peso da vida haverá de ser peso de ouro.
A vida,
no vale da vida.
A vida,
no vale da sombra da morte.
A vida
vencendo, nem que seja a saudade.
28.10.2008 - 03h03min
Para Silvia, amiga querida, sepultada no dia de ontem.
A vida que havia em ti, permanecerá.
Saudade...
Eu sou
Sou de tudo um pouco
tenho uma alma louca
e aflito coração.
Sou procura, espera
e intenção.
Sou quimera,
aprendiz de vida
alegria e cansaço.
Sou santa e guerreira,
nas horas vagas, rameira;
nas horas inteiras, solidão.
Sou o teu NÃO.
SIM?
28.10.2008- 02h30min
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Teus olhos
Tu tens uns olhos tristes,
desses que vêem tudo
e que alcançam tudo.
Por isso mesmo, tristes.
Tu tens uns olhos fundos.
Desses que alcançam tudo
e vêem tudo.
Por isso mesmo, tristes.
Tu tens uns olhos firmes.
Desses que entendem tudo,
desses que alcançam tudo
e vêem tudo.
Por isso mesmo, tristes.
Tu tens uns olhos fixos.
Por isso mesmo fundos,
por isso mesmo firmes,
por isso mesmo tristes.
Tu tens os olhos que eu amo.
22.10.2008 - 23h35min
Para Adrebal, meu amigo querido,
que eu amo de paixão.
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Da violência
A violência?
A violência é maldita.
Melhor é a malemolência,
que não faz mal a ninguém,
apesar de começar com 'mal'.
A violência suga a alma,
rasga a carne,
provoca chuvas de água salgada
no peito das gentes.
A violência é maldita
e malditos os seus dissidentes.
Torno-me, eu mesma, violenta,
contra a violência,
tamanho é o poder dessa infeliz.
Varre a decência,
escurraça a decência,
cospe na decência,
ela, a violência.
Toma conta de tudo
à sua volta e não pergunta
se é bem-vinda,
por se saber sempre indesejada.
Mas toma conta de tudo,
mesmo assim, a maldita.
E nessa conta,
toma as vidas de quem amamos,
toma os sonhos de quem amamos,
toma os amores,
toma até as dores,
toma os créditos,
toma os desejos e toma a alma,
de quem amamos.
Ceifa vidas feito campo aberto.
Ninguém a segura.
Ela, a maldita; ela, a violência.
E apesar de acreditarmos
que amar é que vale a pena,
violentamente desejamos
que os violentos se danem.
Eu desejo.
Talvez uma parte dessa violência
que tanto maldigo
esteja arraigada em mim,
também.
Maldita violência!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
21.10.2008 - 02h40min
sábado, 11 de outubro de 2008
Cultura
Cultura alimenta
o espírito
a mente
o corpo
a alma
a semente
do qu'inda nem nasceu.
Cultura dá brilho
dá compasso
dá certidão de nascimento
pra alegria
que dormia
no quarto ao lado.
Cultura dá poesia
e dá o que não vende
e vende o que desvenda
e empresta o que desprende
do corpo
do olho
do pão de centeio
que o corvo não comeu.
Cultura não é ópio
não é disfarce
não é desfalque
não é distorção.
Cultura é o culto
ao que surge do povo
que brota da veia
que vela pela veracidade
do que anda escondido
por detrás das cortinas
das individuais solidões.
Cultura é o cara que declama
o poema do poeta eterno.
Cultura é o índio que dança
e divulga o som da sua tribo.
Cultura é a peça em cartaz
há anos e anos e anos
e é sempre nova,
e é sempre honesta.
Cultura é o que a gente espelha
é o que a gente espera
é o que a gente É.
A cultura anda nas ruas
sai de casa e vai ver...
11.10.2008 - 23h12min
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Quando a atração é só física
A gente pode morrer de atração por alguém
aí se chega perto, se olha nos olhos, se conversa
e o inesperado pode acontecer:
a atração por esse alguém
pode morrer na gente...
09.10.2008 - 20h41min
Troca
Eu sei que parece injusto,
mas tudo o que eu queria
era que fosses TI
no lugar dele...
09.10.2008 - 20h39min
O jogo, o mesmo
Um passo.
Uma hora.
Um começo.
Um interesse.
Um sentido.
Uma descoberta.
Uma percepção.
Uma alegria.
Outro passo.
Outra hora.
Outro começo.
Outro interesse.
Outro sentido.
A mesma descoberta.
A mesma percepção.
A mesma alegria.
Outra descoberta.
Outra percepção.
Outra alegria.
A exatidão do que vejo.
A visão do exato.
A vida, a mesma.
A visão, a mesma.
A alegria, a mesma.
O jogo, o mesmo.
As cartas na mesa.
E eu disse NÃO.
A alegria, a mesma.
A alegoria, a mesma.
A vida, a mesma.
09.10.2008 - 0h22min
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
The best real life
Existe.
E, um dia,
passas por 'ele',
olhas,
constatas O fato,
és correspondida
e segues teu caminho.
No entanto,
no instante seguinte,
'ele' está do teu lado.
Mais uma alucinação?
Mas 'ele' está falando contigo.
De verdade.
E é real...
The first life!
Então te dás conta
de que a realidade
é muito mais excitante
que a fantasia.
Ele sorri,
te elogia,
tenta ser gentil.
Tu sabes que faz parte do jogo.
Tu sabes o que ele quer.
Tu sabes o que também queres.
E sabes jogar muito bem.
E esta é a vida real...
The best real life...
08.10.2008 - 03h13min
(Porque é bom olhar para o lado
e saber que a vida pulsa, apesar de tudo,
e não apenas ao teu redor,
mas também dentro de ti...
e é muito bom redescobrir
o melhor da vida real...)
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
Tranca
Um passo depois do outro
uma arrastada pegada na terra molhada
de lágrimas e ventos significantes.
Um rastro depois do outro
um toco de cigarro amassado no meio
de um caminho que jamais percorri
da fumaça que jamais traguei
do delírio de onde jamais saí.
Um posto rente ao chão
o pasto gasto de tantos círculos desenhados
pelo andar da carruagem
que, longe de ser de princesa,
é de sombria indignação.
Um dia depois do outro
uma noite depois da outra
um tijolo sobre o outro
e eis edificada a cura.
Basta que a porta se abra
basta que a mão se estenda
basta que se encontre a chave.
A chave
a chave
a chave
a chave
a chave
a chave...
A chave ainda agüenta...
Aos dois segundos do dia 07.10.2008
Voltando... devagar... bem devagar...
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
(Gregório de Matos)
É como acordar de um longo sono. Não um sono restaurador, daqueles que te renovam as forças, que te fazem respirar diferente, que te trazem fôlego para o dia que te aguarda depois da madrugada. Não. É como acordar de um sono agitado, desses que te fazem acordar cansado, suado, exausto, louco de vontade de dormir de novo.
Mas desperto.
A despeito da inconstância deste Sol que não dura.
A despeito da pouca firmeza dos dias que ignoro.
A despeito da baixa destreza de minhas mãos trêmulas.
Desperto.
E tenho minha vida inteira pela frente.
E temo minha vida inteira pela frente.
E tremo minha vida inteira pela frente.
Desperto.
Se a beleza se desfigura, se são tênues as conquistas,
se os passos que dou são trôpegos
e me fazem hesitar entre as ruínas do que de mim sobrou
depois do terremoto,
desperto.
E despertar é uma escolha.
Escolhemos o tempo inteiro, inclusive a doença.
Escolho despertar.
Por mais que a alegria seja ilusória
por mais que a tristeza seja palpável
por mais que a vontade seja de morte
por mais que a verdade seja de sorte,
desperto.
Escolha feita.
Volta sacramentada.
Assim,
devagar,
lenta,
imprecisa quase.
Mas escolhida.
Desperto.
06.10.2008 - 20h51min
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Aviso aos navegantes
Queridos leitores, eu sei que estou em falta com vocês. Garanto que essa ausência 'obrigatoriamente voluntária' não se estenderá, ainda, por muito tempo.
Estou tentando me adaptar a novas situações. Bem, digamos que não sejam assim tão novas, apenas que agora é que se desvendam e também explicam muitas coisas nessa minha complexa vida real.
Não tenho conseguido, por 'N' razões, escrever, e não sei de quanto tempo ainda precisarei, mas, como já afirmei acima, espero que, em breve, minha produção se normalize.
Até lá, alimento minh'alma com os escritos dos que me são queridos, no Recanto das Letras: MSanttos, Jorge Fernandes, Glauco César II, Gianluca Garbatti, Ibrahim Zukr.
Até lá, alimento meu espírito com os escritos dos eternos: Quintana, Clarice Lispector, Borges, Drummond...
Perdoem, então, esse meu silêncio. Encarem como um curativo sobre uma ferida que está sendo tratada, e vai melhorar... quando isso acontecer, voltarei.
Obrigada por apreciarem, durante todo esse tempo, meus versos, contos, crônicas, minicontos, e até minhas bobagenzinhas...rs...
Obrigada.
Beijos e até a volta.
domingo, 14 de setembro de 2008
Do homem, do mundo e do amor*
Asas de seda em homens-dragões
que cospem fogo e perguntas,
sempre as mesmas.
Asas de seda derretendo
ante o calor do fogo ininterrupto.
Homem-dragão, acabando consigo mesmo
no desespero da busca
pelas mesmas respostas,
que estão a um palmo do seu nariz,
mas que ele não vê,
entretido que está
com a própria guerra.
As respostas?
Estão nas perguntas.
Estão nas perguntas,
derretidas entre as asas de seda
dos dragões que se pensam
INVENCÍVEIS,
mas que rumam à própria extinção.
Falta de amor...
12.09.2008 - 13h15min
*Comentário para o poema
DO HOMEM, DO MUNDO E DO AMOR,
do incrível Jorge Fernandes
sábado, 13 de setembro de 2008
Mãos II
Escondo o rosto entre as mãos
Entre as mãos tricoto o destino
Comprometo o dia entre as mãos
Entre as mãos prometo um novo dia
Escrevo a linha da vida entre as mãos
Entre as mãos transcrevo a linha fantasma da vida
Medito de mãos postas
Ponho as mãos para trás
e meço a distância
entre mim e
essa minha
enorme
ignorância
.
.
.
13.09.2008 - 02h47min
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Rotina
Cravo as unhas
na paredes da rotina.
Ranhuras diárias
rugas que contam a história
do que poderia ter sido
e, por isso mesmo, foi.
Previsíveis rusgas
estorvos
estouvos
extorções
de uma energia já parca.
Parto,
para partilhar de graça
o que jamais tive.
Participo do ritual do leite
da carne, do sangue, do vinho,
da sede das multidões omissas.
Omito que sou uma delas.
Só uma delas, minto.
Uma.
Delas.
E nada mais.
11.09.2008 - 16h36min
Desalinho
Desiludo a energia;
concentro a nudez
diante do véu vazio.
Escrevo pra entender
mas também pra mostrar
que não entendo.
Desenho pra pretender
encontrar o traço
que perdi n'algum lugar
desse trajeto que desconheço.
Escancaro as portas e janelas
e pesco palavras em outros idiomas
na busca d'alguma tênue ligação
com o resto da humanidade.
Desiludo a concentração
que já desistiu de mim faz tempo.
A saudade não me dói mais.
Anestesio meus passos
a r t i f i c i a l
m e n t e...
Decido dormir mais cedo
decido fazer mais coisas
decido roer meus dedos
decido rompantes outros
pra depois
decidir desistir de todos eles.
As pessoas se perdem
nas ondas de um mar
d'águas dessalgadas;
nem doces nem pequeninas,
muito menos acesas
por ventarolas agitadas.
As pessoas se perdem
na marola.
Desiludo a folha seca
que esvoaça ao vento
feito pena
feito feno
feito flor em movimento
devasso.
Desiludido de tudo.
Desencontrado de nada.
De-se-qui-li-bra-do.
Quem, eu?
11.09.2008 - 01h08min
Mãos
As mãos espalmadas
sobre a bancada de vidro
esperam.
Espreitam os exercícios
que chamam de lamentos
e desencontros chamuscados
por invisíveis labaredas
de ilusórias canções.
Estreitas são as estradas
por onde trafegamos nós,
voluntários aprendizes
de nada.
As mãos espalmadas
sobre a bancada de vidro
esparramam os líquidos
os sentidos das viagens não feitas.
As mãos espalmadas
sobre a bancada de vidro
espalham pedidos de cidra
de contato disfarçado
de verdade e cordel.
As mãos espalmadas
sobre a bancada de vidro
não passam de senões...
Aos 45min do dia 11.09.2008
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Ostra
.
Sou Ostra.
É o que te bastará saber.
No mais, escreve e sonha;
que os dragões dormitam longe
vomitam incoerências ardentes
e sanguinolências indecentes.
Sou Ostra.
E que o orvalho da madrugada
te entregue um verso
soprado por um deus qualquer
daqueles que não se importam com nomes
daqueles que não têm rosto ou história conhecida
mas que te sabem ver.
Sou Ostra.
É o que te bastará viver.
No mais, mergulha e sonha;
que as balbúrdias pedem passagem
que as horas urgem sedentas
que as entregas atrasam deveras
e os mortais não ousam morrer.
Sou Ostra.
Ladeio meus versos com pérolas.
Sou eu tua pérola, Ostra,
santa E meretriz.
E que te bastem
tuas próprias gárgulas...
O S T R A!
E que te bastem
teus próprios demônios...
10.09.2008 - 01h03min
Passado/Presente
Ontem esgotei todas as possibilidades
de dizer.
Ontem esvaí meus líquidos
meus perfumes d'alma
meus mais sinceros votos
de boa vizinhança com o verso.
Ontem dei vida da minha vida
pra linha que tracei aqui.
Ontem pendurei a roupa limpa
no varal de roupa recém lavada
na pureza do que de mais leve
encontrei em mim.
Ontem abandonei-me aos meus próprios dedos
permiti que dançassem sozinhos
no teclado que sempre me ofertou poesia.
Ontem derramei desventuras
sorri voluntariamente
e voluntariamente verti meu sangue
diluído em rimas
emprestadas das estrelas
que não cheguei a ver.
Ontem madruguei.
Madruguei por não dormir.
Ontem.
Hoje ferve-me um novo suor.
Hoje estou recém-nascida.
Hoje converto a voz em clave de sol.
Hoje circundo a planilha da noite
e não encontro nenhum outro motivo
pra tornar a acontecer.
Hoje renovo a escolha da castidade
para terceiros
porque pra mim ela não serve.
Hoje recolho meus trapos
meus brincos
meus rascunhos todos
mas, principalmente,
meus espelhos.
Hoje é o teu grito
que eu quero ouvir...
Aos 40 minutos do dia 10.09.2008
terça-feira, 9 de setembro de 2008
No sétimo verso, descansar...
A exaustão me toma
devora-me as forças
grita-me dores
suga-me os nervos.
Exausta,
no ato da criação.
Depois de seis versos,
pelo certo,
mereceria um sétimo
de descanso.
Mas a arte não pede licença. O poema exige completude.
Em suas mãos entrego meu silêncio...
09.09.2008 - 04h24min
Dores
Que me importa se me roubam os versos?
Pois que meu coração já não mora em meu peito
fugido de mim faz tempo. Desertou-me.
Esses verbos que engasgo na folha suja de sangue
são os restos das veias ovais
palpitantes ainda do tanto de vida,
que te ofereço.
Bebe meu cântico desafinado
nessa noite fria de um inverno
que se recusa a partir.
Também meus olhos desistem de dormir.
Não querem sonhar com os teus.
Não querem chorar na escuridão.
As lágrimas ficam coloridas
na claridade de um dia de sol.
Viram poesia e dóem menos.
Pretextos pra não morrer.
Ilusão...
09.09.2008- 04h11min
Parturiente
Trago tantos versos em mim
que sinto vertigens e enjôos.
Uma quase gravidez me cerca.
Se acerca de mim o parto prematuro
do filho legítimo: poema único.
Não há tradução que o defina.
Nenhuma língua o garante.
Nem a original, em que foi escrito.
Talvez, de longe, sem certeza alguma,
a língua dos anjos, suficiente.
Talvez, não afirmo.
Porque o poema tem alma
um coração que pulsa
e um sangue que escorre
goela abaixo de quem o lê.
Lê?
Não.
Poemas não são nascidos
para leitores.
Poemas são paridos
para amantes.
Declama!
09.09.2008 - 03h55min
Trabalho
Uma noite inteira escrevendo?
Ora!
Não sou eu quem escreve.
São minhas mãos que escorregam
pelo teclado e vão juntando letras
na labuta que corta a madrugada
na disputa por um espaço
nessa minha vida
que eu não sei quanto dura...
09.09.2008 - 03h48min
Mapa Mundi
Alguém do outro lado do mundo
embora não me conheça
sabe que eu existo.
Mas quem disse que eu,
no mesmo lado do mundo
em que existo
me conheço?
Poesia tem disso.
Ou talvez seja a Internet.
Descobre a alma
esconde a gente.
Descobre a gente.
Esconde tudo.
E fica o dito pelo não-dito.
De passageiros.
De subterfúgios.
De novos roteiros.
Vôos diários.
Mapa mundi.
Poesia.
Virtual?
09.09.2008 - 03h44min
Miragem
Desenho a silhueta que vejo no espelho
confronto meu rosto com o dela
e sei que não sou quem mora em mim
mas pareço muito comigo mesma
e engano os mais renomados artistas.
A farsa diária se repete ininterruptamente;
matutina construção do personagem
que eu desconheço por completo.
Não quero rimar com flores ou amores
ou palavras leves, suaves, femininas.
A mulher é aguda e grave
concentra a força e a magia
dos mistérios que deslizam
lágrimas abaixo,
saliva protegida de silêncios.
A mulher está vazia.
09.09.2008 - 03h21min
Escravidão
Escrava das linhas que escrevo
deixo-me conduzir pelo vocábulo
que soa suave nesse setembro
de madrigal madrugada.
Sou o que eu quiser ser aqui.
Sou anjo ou sagitário,
esperma fecundante,
flor pisada no asfalto,
insuportável inseto esvoaçante.
Sou literata, culta, séria.
Seria inclusive sereia
se assim desejasse.
Mas sou apenas eu mesma,
escrava dessas linhas que escrevo...
09.09.2008 - 03h
'Perambulâncias'*
Atravesso a madrugada
como quem dobra uma esquina.
Assumo forma nenhuma
quando finalmente me perco de sono.
Viajo sem nunca ter ido.
Ando sem saber porquê.
Não faço perguntas.
Detesto as respostas
sempre exatamente iguais.
O surpreendente é meu destino
e eu não sei onde ele mora
e eu não sei onde ele vive
e eu não sei se ele existe.
Enquanto isso desalinho
um horizonte certinho.
Enquanto isso todos os gatos
são pardos, são pretos,
são os gatos errados.
Enquanto isso o olfato
me engana
e eu penso ter descoberto
a América
ou a Europa
Oceania
qualquer coisa diferente
que me defina melhor
a visão do que me foge.
Enquanto isso o medo
atinge seu auge.
Enquanto isso a solidão
Ah...
a solidão...
09.09.2008 - 02h50min
*Licença poética auto-concedida
Estou
A foice me fia.
Enfraqueço.
Soluço sozinha.
Amordaço.
A faca força o açoite.
Contagio.
Respondo ao ritual da noite.
Neutralizo.
Assumo significado e significante.
Desisto.
Resisto.
Insisto.
Invisto.
Persisto.
Existo.
Sou isto.
ESTOU.
09.09.2008 - 02h30min
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Sombras de mim
Psico - A Poesia
Há que se exercer controle
sobre si mesmo
sobre as circunstâncias
sobre a insensatez
sobre a sisudez
ainda que os ritos
matematicamente impostos
não passem de rituais
castrantes das possibilidades
que se valem das manhãs ensolaradas
de um abril que nunca vem.
Há que se exercer controle
sobre as manias
que atropelam as calmas
e impõem seus próprios
alucinantes ritmos
que jamais se detêm.
Há que se exercer controle
sobre as horas malditas
que escorrem dos relógios de pulso
expostos nas vitrines
dos impulsos protegidos por alarmes
guardados dos desejos dos olhos
nos bolsos vazios de moedas furadas.
Há que se exercer controle
dos ventos dois de agosto
dos perfumes primaveris de setembro
das espalhafatosas infâncias de outubro
das presenças infames
do resto do ano invisível e infeliz.
Há que se engolir desgostos
desgastar as preces
invalidar vertigens
proteger o peito
dos entulhos desvairados
que sobre ele esvaziam
os atlas, mapas diariamente mundi.
Mundanos espaços
de estoques controlados.
Há que se controlar as loucuras
indecências
incêndios
impertinências
impotências
inaceitáveis verbos hostís
incalculáveis doçuras.
Doçuras?
Sim, há que se controlar as doçuras
e os afetos
e os infectos
e os desertos.
Há que se cultivar incertos.
Há que se distribuir desperdícios.
Há que se mesclar orações
religiões
recomeços.
Há que se exercer controle
sobre si mesmo.
Caso contrário...
08.09.2008 - 12h15min
domingo, 7 de setembro de 2008
Sem a letra
A letra desapareceu
perdida nas tralhas da vida
escorregada nos limos
das discordâncias várias
a letra sumiu
ninguém sabe
ninguém viu.
Inconformados os poetas
os literatos
os críticos
os incrédulos
não rimam
com diários
nem com nada
mais.
Nada que combine
a sílaba no espaço.
Nada que culmine
em beleza.
Nenhum ritmo
suficiente.
Nenhum laço.
Nenhum lapso.
Nenhum impertinente
pensamento.
Nenhuma orientação.
Não há Norte.
Não há morte.
Não há confusão.
Tudo na mais perfeita paz.
Harmonia artificial
sem a letra.
Sem a canção da voz.
Não há motivo
nem solução.
Hoje o sol não nasceu.
Hoje não se estendeu a mão.
Hoje falta o sentido
o significado
a razão.
A letra não apareceu.
Não houve chance de pedir perdão...
07.09.2008 - 23h58min
A esmo...
Mar
Ah, eu queria escrever-te um poema.
Descrever tuas ondas
que derrubam minhas resistências.
Todas as minhas reticências.
Eu queria escrever-te uma canção,
que cantasse teus encantos
enfeitiçasse qual canto de sereia,
na alma de quem ouvisse: invasão.
Mas a inversão de valores
te trouxe pra praia,
fez de ti um homem
grande, forte, viril, sedento de mim
sedento de ti mesmo e desses teus versos
que acompanham o vir e ir das tuas ondas.
Essas ondas que derrubam minhas resistências.
Essas tuas ondas que desembarcam
e desesperam meus obstáculos.
Os obstáculos que insisto em erguer
pra impedir teu avanço.
Essas ondas que apagam minhas interrogações
e molham minhas pernas bambas.
Essas tuas ondas que acentuam minha dança
quando explodem na praia,
ensurdecedor marulho.
Ensandecido murmúrio
aos meus ouvidos sonolentos
no início da manhã-surpresa
em que me despertas
marejando-me os olhos
marcados pelas tuas íris castanhas.
Meu Mar particular.
Eu, tua areia úmida.
Queria escrever-te um poema.
Não consegui.
Porque só sei te aMAR.
Aos 45 minutos do dia 07.09.2008
Tom
Eu quero o tom
o tom da lua
o teor da luz neon.
Eu quero o tom
da voz. Da voz madura
que se profere nas ruas
e prefere a circunstância
à cicatriz.
Eu quero o tom de azul
na minha lente
na minha camisa
na minha estante
de livros virtuais
que inda não li.
Eu quero o tom da tua
língua diferente da minha
a me dizer o que não sei
o que não aprendi.
Eu quero o tom da descoberta
do incerto, do impreciso, do indiscreto.
Eu quero o tom do que escolhi
entre tantas escolhas mal feitas
fadadas ao fracasso total,
eu quero o tom das que temi
porque tinham chance
de vingar, afinal.
Eu quero o tom da linha
de costura da minha mãe.
Eu quero o tom do saxofone
que ouvi distante,
na Praia Vermelha,
há anos atrás.
Eu quero o tom que não tive
o tom que ainda terei
o tom do dom lilás
do sorriso
que
te
dei...
07.09.2008 - 0h16min
sábado, 6 de setembro de 2008
Medidas
De tudo?
Se deixo de dizer, perco.
Se digo, esqueço.
Se exponho, experimento.
Se imponho, implemento.
Qual é a medida exata
do riso que te ofereço?
Qual é a medida exata
do interesse que te ofereço?
Qual é a medida exata
do poema que te ofereço?
Com quantos versos
se abre uma porta?
Com quantas imagens
se sonha uma sorte?
Com quantas esperas
se alcança o começo?
...
06.09.2008 - 18h
A Hora
Não acredito em coincidências.
Acredito na hora certa pra acontecer...
Seja lá o que for.
05.09.2008 - madrugada
Gotas de chuva*
Sozinhos,
os pingos são homens
que passeiam
à procura de tempestades,
nas mãos das mulheres
que deixaram de amar.
Tormentas.
Sem raios,
sem ventos,
sem dós
nem piedades.
Perdões
extrapolam as letras
e sopram obscenidades
sobre as cortinas molhadas
de grossos pingos azuis;
quedas impossíveis de impedir.
Chuvas são lágrimas
pelo que não fizeram.
Chuvas são gotas
dos que gostaram,
dos que tiveram,
dos que amaram.
Os pingos deixam de cair,
quando encontram os 'is'
e sobre eles se postam.
Aposto que teu 'i'
te aguarda n'algum canto
desta noite vazia,
sem amores...
06.09.2008 - 15h
*Comentário para o poema GOTAS DE CHUVA,
do fabuloso Jorge Fernandes
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Ainda...
Têm sono esses meus olhos risonhos.
Tem risos essa minha boca de sono.
Tem sonhos essa minha vida de passos
trôpegos pousos de vento...
O riso é meu desafio diário
que carrego debaixo do braço
para as ocasiões premeditadas
não por mim, pelas cartas marcadas
dispostas sobre uma mesa invisível
que eu não aprendi a virar.
Ainda.
Ando em zigue-zague e apronto
a refeição de sempre: poesia.
Porque meu trem já descarrila
na linha reta que se aproxima;
sem passageiros outros, além de mim.
A folha seca pelo sol
estala debaixo do meu pé.
(Ou será o sol que estala o meu pé,
sem querer?)
Conjectura infantil de quem se recusa a crescer.
As unhas se quebram.
Alguém quebrou a vidraça da loja.
Alguém quebrou o relógio da praça.
Alguém não quer que as coisas durem.
Dura é a partilha da dor.
Parto a laranja ao meio
e como as duas metades.
Medo é arrependimento antecipado.
O concurso ainda não mandou o resultado.
O paralelo é só o outro lado da mesma coisa.
O sufoco é só mais um jeito de mentir.
O poema ainda não calou o monstro.
Ainda.
(Alguém mora em mim...)
05.09.2008 - 01h28min
Delírio
Há canções nos sons dos passos
que passeiam pela escuridão
coberta de estrelas apagadas agora.
Observa...
São trilhões de astros quietos
que povoam teu universo.
ACORDA!
Sacrifica a preguiça do topo da montanha.
Exorcisa os demônios das luas
nas espadas de Jorges e samurais
escondidos debaixo dos abajures
da tua sala de estar nua.
Estejas nua quando o ponteiro chegar
na hora marcada pelo destino.
Os astros rastreiam as pegadas
dos grandes pensadores
que antecederam os anônimos
criadores de pseudônimos cruéis.
Cospe a centelha de cem lâminas
sobre as cortinas de fumaça
que despistam as ganas que te arrastam
para os caminhos que não pensaste trilhar.
Evita o abandono, o desabafo, a partilha.
Guarda teus segredos sem pudor algum.
Esconde os pensamentos que não juraste
diante do santo mumificado
que te obrigaram a ter no altar.
Abriga teus sonhos em panos quentes.
Assume tua luz apagada.
Acende a estrela cadente.
Ascende pra longe daqui.
Recupera.
05.09.2008 - 01h06min
Mas, afinal...
Mas o que é o tempo?
Maldição, talvez.
Bênção, perdição, qualquer coisa
que leve um til sobre um A;
qualquer coisa que rime com 'não'?
Quem terá as respostas
que insistem em ser perguntas
e, sobrepostas, são escadas
que não levam a lugar nenhum?
Mas o que é o vento?
Não admito a comodidade
do ar em movimento,
como se a carícia em meus cabelos
não passasse de um capricho
da natureza, dos deuses, das minhas fantasias.
Mas o que é o que sinto?
Exagero de um dia, talvez de um minuto,
quiçá de uma vida inteira,
mas sempre exagero,
sempre superlativa essa cadência
cá dentro do peito.
Mas o que é o futuro?
Mas o que é o presente?
Mas o que é a falta?
Essa falta que me consome a alma
e atormenta a mente?
Mas o que é esse excesso?
Essa necessidade de explodir
em brilhantes cores desiguais?
Mas o que é o porém
que impede-me o adiante
e castra a partida já preparada antes?
Mas o que é essa asa quebrada
sem gesso sem estrada sem esteio
sem mais nada além dela mesma
pela metade?
Mas o que é a palavra
insuficiente caminho por onde enveredo
meus desaforos.
Por onde desafogo minhas mágoas
disfarçadas de versos e poesia leve?
Mas o que há de novo, afinal?
Mas o que há para se recompor, afinal?
Mas o que há dentro do sol, afinal?
Mas qual será o final?
Mas há final?
Finada...
Aos 47min do dia 05/09/2008
Assinar:
Postagens (Atom)








