quarta-feira, 2 de junho de 2010

Ensayo para el fin del mundo

La lengua no se levanta

para la invocación

el pensamiento reune

la ceniza más allá del tiempo

y todo el silencio y todo el olvido

rastro boquiabierto, todo lo llena

un vacío por el que conjuro

despliega su luz





Un buen día reviven las palabras, se vuelven

por un camino sinuoso y simultáneo, corren

bajo el agua y sobre la superficie

aliento





La invocación cruza en sombras a la noche, y no hay luz

ni hay raíz ni fuego y ni hay palabra que no se encienda





Al final del mundo, al final, sólo un ensayo

un otro comienzo que, lenta y pausadamente

se repite desde siempre





Y al principio es la palabra del corazón

impregnada de su claro magnetismo

y al principio (tomado del final), la palabra

que se alza silencio en el silencio, callada





luminosa





interior
 
 
 
 
 
 
 
Roberto Amezquita
02.06.2010

Todo dia

O futuro que te guarda
visita o passado onde te espero
de olhos abertos
e suaves lábios de beijo.
Tuas sobrancelhas
o brilho nos teus olhos
as mãos que tocam as cordas
da preciosa guitarra
tudo me planta sorrisos
n'alma plena de desejo.
Rasgar as madrugadas
eu no teu ontem
tu no meu amanhã
juntos no espaço mágico
inventado por um gênio
graças ao qual trançamos os laços
que tão fortemente nos colam
eu ao teu peito
tu à minha vida
independente de tempo verbal
ou ponteiro de relógio
ou impossibilidades
ou curvas de espaço.
Um no outro
somos.
Ontem
hoje
amanhã
eu, tua.
Pra sempre.






02.06.2010 - 01h13min
Longe? Mais perto que nunca.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Dormência

Risco de giz as oposições a que me submeto
um lento desperdício de escolhas
assoalhos gastos na calçada da fama
tranças de equilíbrios nas poeiras das ruas.
Paradeiro de corpos comentados
executivas discussões salgadas
e tuas mensagens no meio das frases
gotas de fogos de artifício nas minhas manhãs.
Veneno e antídoto na saliva do sonho.
Meu dom é ver-te a alma
e nela embalar meu livro
de contos fantásticos
e de crônicas vistas.
Visito teus segredos
desconto os não-ditos
e os digeridos conselhos
nas janelas dos meus dias.
Adivinho.







31.05.2010 - 22h

Viajante

Nas curvas das horas
teus passos chegam cinco antes
enquanto os meus se arrastam
do lado de cá do Oceano.
Teu relógio não se ajusta
ajuíza minhas vontades
e derrete o fio do tempo
que assume proporções diversas.
Fina seda de vento soprado
pelas veias onde corre teu nome.
Duas sílabas douradas
entremeadas aos meus versos
nós de marinheiro no deserto
dessas mesmas horas
sedentas de ti.
Te espero.




31.05.2010 - 20h44min

ENSAIO PARA O FIM DO MUNDO

I

Se os finais entrelaçam os dedos

Dos começos adivinhados

Intencionalmente previstos

De crateras e cortes e poemas pela metade

Ou inteiras alegrias

Sonhadas ou vividas páginas

Divididas em explosões de dúvidas

E um sem número de ilusões

Não há fim, se mundo não houver

E de quantos mundos se precisa

Para construir um começo

Que dure o suficiente

Pra dizer que foi feliz

Mesmo depois que se tiver esvaído

Pelos vãos da proximidade

Com o que se desconhece?

Andar sobre as águas

E molhar a ponta da língua

No dia que jamais vai nascer

Feito anjo decaído

D’algum sobrevivente planeta outro

Escancarado de resvalos

E ditos sonâmbulos.

O fim do mundo promete

Tudo o que nada expõe

Nada que não tenha sido tentado

A salvação mutante

Do que já não existe mais.



II

Se hoje o mundo findar

Meu espelho quebrado

Sem partes encaixadas delicadamente

Nas centenas de possibilidades

Que eu não consigo contar

Estarei exausta de vida e de espera

Nas névoas conquistadas de anéis coloridos

dos caminhos que eu não conheci.

São vagas as horas últimas

Da contagem regressiva

Em que as maravilhas melódicas

Da rouca voz amanhecida

Nas afiadas presas da liberdade

Cantam composições tuas

Que encantam meus ouvidos

E prometem favorecer as probabilidades

De haver amanhã

Depois que o fim dobrar a esquina

E não houver outra chance

Além de reconsiderar.



III

Explodem estrelas

Pra recomeçar a vida

D’algum inesperado ponto.

Um porto conquistado desde os mais remotos

Extremos da terra

Talvez dez mil quilômetros

Transfigurados em milímetros

Depois da grande erupção.

Vida na lava ardente

Microscópica diferença

Ensaiada no espaço vazio

Entre um ato e outro da grande peça

Sem platéia nem improviso algum.

O fim do mundo é o começo de alguém...






30.05.2010 – 20h26min
Aí, Roberto Amezquita,
futuro Prêmio Nobel de Literatura,
 Simone promete, Simone faz...rs





sábado, 29 de maio de 2010

Do que há em mim*

Sou tudo e mais um pouco.


Além do que se pode entender.

Aquém de quem eu gostaria de ser.

Sou prata da casa e

casaca virada no quintal deserto.

Sou esposa e amante.

Sou espinho e razão.

Sou nada e menos um pouco.

Alimento de fera

e ferida exposta de verão.

Sou voz presa na garganta

e garganta seca

pendurada no cabide do dia

inda não nascido

sem a menor previsão.

Sou ponta de iceberg

e oceano revolto

bem no meio de florestas tropicais.

Sou neve e sorvete de uva.

Sou folha de plátano

voejante de amareladas resistências.

Sou o que nunca pensei

penso quem nunca fui

e talvez quem jamais serei.

Sou a repetição da imagem perdida

e a perdição na esquina de luz

que o sol acendeu

depois de ascender a alma

nas conchas das mãos do amor.

Sou eu e ninguém mais além de mim

na caixa que eu chamo de corpo

e que abriga dentro

misturados a tudo o que vivi

minha filha e meu homem

desde antes

e pra muito além

de tudo o que existe

e de tudo o que haverá de ser.



29.05.2010 - 16h
*Da Série SOBRE QUEM SOU

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Ex-vi*

*Por força, por efeito, por determinação expressa.

 
Os astros atravessam as luzes
das preocupações de ontem
cortina transparente de imprevistos
as possibilidades invadem a ruga da testa
e plantam planos de orvalho
nas sementes do amanhã.
Considero inoportunas minhas contradições
e impressões de assuntos aleatórios
substituo as feridas antigas
pelo sorriso do alívio presente.

Por força do destino
encontro teu sotaque
e a tormenta termina.

Alimento.



28.05.2010 - 22h

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Eric Clapton



http://www.youtube.com/watch?v=bt2qBm4qS4w






'...want you to be my forever woman,
and I´ll try to be your forever man...'





26.05.2010 - 02h
Para 'Florentino Ariza'
* foto copiada do seguinte endereço
http://seocraudio.files.wordpress.com/2008/05/deuses-da-guitarra-capa.jpg

terça-feira, 25 de maio de 2010

Consummatum est

Nas contas dos olhos
trago duas bolas de cristal
uma me lembra o passado
as duras penas que aprendi
e o mais sutil sinal
de que tudo anda bem
ou de que algo vai muito mal.
A outra prevê o futuro
com base na que do lado de cá, vê.
E é supreendente como
se encaixam na mesma linha
os fios da tênue fumaça lilás.
E é compreensível que eu evite
de quando em vez
de vez em quase sempre
entender o que já é certo
que irá acontecer.
Um olho me mostra o que já houve
o outro, o momento repetido.
Cordão diferente
no mesmo abismo
caído.
Um olho sabe como tudo termina.
Conhece o começo
identifica os primeiros presságios
sabe onde cada passo vai dar.
O outro finge que não percebe
a asa se desprender
o fio das entrelinhas se arrebentar.

Meus olhos sabem
o que o fogo não queima
o que é impossível salvar.
O olho do futuro
baseado no olho direito
espera o momento certeiro
pra tristeza suportar.


(Até lá
nenhuma dúvida.
Tudo azul.
Pari passu.

Se o amanhã
a Deus pertence
que sirva pra eu entender
que consumado está...)





25.05.2010 - 03h25min



domingo, 23 de maio de 2010

A pedido

















23.05.2010 - 15h20min

'E hoje é outro dia'*

Ontem falei de ciência e tecnologia
de acessibilidade, de sexo e poesia.
Falei de saudade e de justiça
de destino, de religião e de feitiço
fui fã e entusiasta da sabedoria.
Entendi que não é a noite que vai embora
mas o sol que se aproxima.
Desejei que algumas coisas voltassem
e agradeci por outras eu ter perdido
ou sequer terem sido minhas.
Ontem eu ri com vontade
não tive sono nem fadiga.
Jamais imaginei que da vida
de um futuro Prêmio Nobel
eu participaria.
Ontem nenhum céu foi  limite
e as frases feitas, sempre repetidas,
perderam o efeito e foram substituídas.
A Idade Média mandou um aceno
e os anos idos algumas coisas esclareceram.
Ontem comi aspargos
dancei flamenco
misturei idades, cores e sentimentos
fui guria, messalina e confidente
fui amiga e dançarina de cabaret
com um tango preso aos meus pés.
Mas isso foi ontem...

E hoje...
já é outro dia....





23.05.2010 - 14h10min


Eu amo tudo o que foi
tudo o que já não é
a dor que já não me dói
a antiga e errônea fé
o ontem que dor deixou
e o que deixou alegria
só porque foi e voou
e hoje já é outro dia.

(Fernando Pessoa)

Modo de vida

Poetar é dolorido ofício
maior que o mais torturante vício
o olhar poeta em tudo vê
tridimensionais versos
que ele precisa escrever.
A ciência é um motivo
a risada, outro bom
o prazer, a tristeza, a solidão
a História, talvez,
tudo dança em versos soltos
não importa se com ou sem conexão.
O alquímico olhar do poeta
transforma absolutamente tudo
em douradas e ritmadas bolhas de sabão.




23.05.2010 - 13h15min

sábado, 22 de maio de 2010

Noturna

N'algum lugar eu li
e assim estava escrito
'você não pode perder
o que nunca foi seu'
vai ver por isso não durmo
o sono é a conquista diária
de todos quantos pertencem a este mundo
eu, nem deste nem d'outros,
órfã direta de minha própria existência
a noite não embala meus sonhos
nem pré requisito é
para meu merecido descanso.
É nas asas da manhã
que acomodo a cabeça
vazia, então, de tudo o que penso
ou pensa ou realiza, uma terceira
que não eu mesma, que me habita.
O sono da noite eu não tenho.
Nunca foi meu.
Talvez nunca o seja.






22.05.2010 - 03h44min

Sobre quem ainda sou...

Eu sou o caos
e o cais do porto vazio de quinquilharias.

Eu sou o grito preso na garganta

e a garganta da serpente sedenta de sangue.

Eu sou o que ontem não fui

e o que o amanhã me reserva

nas tavernas desertas d'outros tempos idos.

Eu sou naufrágio e solstício.

Sou o que de mim não dizem

e o que de mim escondo

nas vielas sortidas de bêbados e prostitutas.

Eu sou letra rabiscada

em guardanapo de bar ordinário

e olho de vidro na vidraça da soleira da porta fechada.

Eu sou vertente de inconfessáveis desejos

e pulgas e percevejos na pele da vida.

Eu sou o que incomoda e o que acomoda

a lente de contato em primeiro grau

da queimadura que o fogo não fez

mas que deixou marcas

antes de desaparecer.

Eu sou o que não se explica

muito menos o que se assume

ou o que se espreita por trás das janelas fechadas.

Eu sou solidão desde que nasci

e assim serei  até morrer.

Inteira.
 
 
 
 
 
 
 
22.05.2010 - 03h15min

Atitude

Escrevo no escuro
no meio da noite que devora
a luz dos meus olhos acesos.
Escrevo à caneta
na agenda vazia de segredos.
Risco as letras que não me cabem
e os pensamentos que me assaltam
são meio confusos
facas quebradas ao meio
que cortam os malabares
que eu não uso.
Escrevo pra espantar a insônia
mas ela me sacode
e me obriga a dividir com ela
meus mais fortes sustos.
Escrevo meu livro da vida
quando já ninguém me ouve
nas horas silenciosas de ontem
de hoje, de amanhã, de depois de amanhã,
quando tudo já é diferente
quando a dor do parto
já está esquecida.
Escrevo do jeito antigo
revisando as pronúncias
revistando as gavetas
revisitando os fantasmas
presos nas garrafas de sorvete.
Escrevo os ventos outonais.
Divido comigo mesma
 os direitos autorais
quando me leio
à luz do dia que eu começar.
Então boas-vindas dou ao sono.
E escrevo.
Dormito.







22.05.2010 -  02h34min

Acredito na cura de todos os males
e no poder de destruição dos males
e na permanência do mal.
Acredito no poder de transformação do amor
e na capacidade de amar
e na continuidade do sentimento puro
por mais que isso pareça impossível.
Acredito no resgate da esperança
ainda que haja milhares de desesperados
e milhões de motivos para desistir.
Acredito em milagres.
Acredito no fôlego que nasce todos os dias
seja em que condições forem
mesmo que só a morte o rodeie.
Acredito na amizade.
Essa mesma cheia de defeitos e dificuldades.
Essa mesma manchada de impertinências e dores.
Acredito na vida.






22.05.2010 - 01h18min

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ainda

Quanto tempo ainda
antes que a acidez facilite
a flacidez dos sentidos?
Quanto tempo ainda
té que que se salvem
os restos dos imortais
pendurados nas paredes
da biblioteca vazia?
Quanto tempo ainda
antes que as funestas previsões
destruam os degraus de votos
de saúde permanente e deslizes?




21.05.2010 - 05h51min

Sandice

Movo as peças que me cabem
como se outra eu fosse
me vendo de fora de mim.
Falta-me o limite
do que sobra no absurdo.
Os pensamentos nascem sozinhos
fertilizados por uma gota de veneno.
A morte seria um bom argumento
não fosse a força da vida
que me obriga a furtar o instante
das mãos da insone noite tida.
Arranjo um outro intervalo
intercalo períodos delirantes
de puro fastio e demência.
Ensandeço-me.




21.05.2010 - 5h28min

Trajetória

Apimento o prato da vida
não quero passar por ela
molhada só de açúcar e café.
Quero a umidade desmedida
o frio do fio da navalha
na ponta da minha língua
o feixe de nervos expostos
na planta do prazo pendurado
na porta do quarto à meia  luz.
Insone
vagueio meus olhos cansados
pelos espinhos das horas
exaustas de pele e delírio
corroidas de panos crus.
Cerro as janelas e encerro as penas
aponto e qualifico o desafio
apronto os lençóis e os perfumes
afronto os costumes.
Ensandeço.




21.05.2010 - 01h49min

Conjectura

Se for poesia isso que meus olhos buscam
inocentarei minha inquieta natureza
comprarei álbuns de flores
e forrarei o horizonte de suspiros mudos.
Se for arte isso que meu sonho desenha
dançarei um tango em Roma
garimparei rolos de maçã nos pátios de Paris
e enrolarei grampos de cabelo nas páginas da vida.
Se for concordância isso que professa meu lábio
beijarei três quartos da árvore de outono
soprarei bolhas de sabão nas inexistências
construirei assinaturas de paredes de espuma.
Se for vida isso que atropela as horas
pintarei os contornos do corpo espectral
esquecerei as estrelas de sal molhadas
nascerei renovada no dia seguinte de depois de amanhã.



Se não for
.
.
.

perdoarei meu erro
mergulharei na sombra
e
nascerei renovada
no dia seguinte
de depois
de depois
de depois
de amanhã...





21.05.2010 - 01h22min

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Medição

Procuro o vocábulo exato
que defina a medição única
do que já não cabe em mim.
O idioma não importa
nem a dificuldade de pronúncia
ou o número de sílabas expostas
carne viva no face a face
de nós dois.
Invoco os dicionários de rimas
e enredo-me nas teias do instante
feitio de feltro e sensação.
Empacoto os conceitos
inverto as consequências
crio alternativas que não são.
Engravido do vocábulo
despido de previsões absurdas.
Absolvo as expectativas
e resolvo a questão -
o vocábulo já existe
teu nome,
envolto em papel de seda e ouro
a medida exata da minha paixão.



Aos 57 minutos do dia 19.05.2010


..................................................................................................


Onde vá


Onde quer que vá

Leva o coração feliz

Toca a flauta da alegria

Como doce menestrel
 
 
Onde vá
Onde quer que eu vá
Vou estar de olho atento
À tua menor tristeza
Pôr no teu sorriso o mel.
 
Onde vá


Vá para ser estrela

As coisas se transformam

E isso não é bom nem mal

e onde quer que eu esteja

O nosso amor tem brilho

vou ver o teu sinal.
 
 
POR BRILHO - Oswaldo Montenegro

terça-feira, 18 de maio de 2010

Insieme a te

As feras, as belas, as luas, as gruas,
os irritantes incidentes diários
que atropelam as calmas e as alegrias,
não têm força, nem arranham os princípios
da história por escrevinhar.
Desenhamos trajetos
inventamos poções mágicas
de asteriscos e tramas e porções
de traçados e linhas de trens
envidraçados nos respingos de hoje.
Metal e Poesia
gerando um filho.
Instinto...







18.05.2010 - 22h46min
Por nós três...ou mais...

Anuário

Este ano todos os sonhos possíveis
na dobra das mangas do tempo
um sorriso de elástico e um pedacinho de céu.
Este ano todos os encantos passíveis
de consolação e acalanto
um sentido de plástico e um tantinho de mel.
Este ano todas as alianças críveis
na falange d'ouro e no azul da íris
um sentimento comum e um dedinho de criança.


18.05.2010 - 20h19min

domingo, 16 de maio de 2010

Quem sou eu?

Sou a pedra de Drummond
que jamais chegou a ser
castelo de Pessoa
ou jamais chegou a ver
de Sísifo as mãos.
Sou letra redondinha
e fome de leão
carteira vazia
e voz de assombração.
Sou quem me alicia
língua queimada
fantasia.
Sou mesa posta para o jantar
e tristeza repentina.
Sou mãe, irmã, filha, avó
e cama vazia.
Sou manhã de luto
e luta inglória.
Afasia.
Sou feita de percevejos
e pontas de espadas frias.
Sou pimenta malagueta
no canto da boca do dia.
Sou quase nada
do que em mim havia.
Sou tropel, chapéu de palha
porta aberta, verso sem rima,
gaveta trancada,
chave pendurada
no esconderijo de onde
ninguém tem coragem
de pronunciar o nome.
Sou túnel e corpo possesso.
Sou veludo e enternecimento.
Sou cabeça, corpo e coração
separados de mim
para entretenimento
todos na palma úmida
da tua mão...


16.05.2010 - 20h20min
*Da Série - SOBRE QUEM SOU

O que eu sou?

Sou o tudo e o nada na imensidão do paraíso

montada num cavalo alado

unicórnio sem pousada ou sossego.

Sou um poço de desejos satisfeitos

e vontades não reveladas

segredos e milagres rotineiros

desses que ninguém enxerga

nem importância alguma dá.

Sou o passo depois do limite

e a interminável hora do fim.

Sou o que não se conhece

nem se determina

num toque sem instinto

ou num pretenso vazio.

Sou o que se apaga depois da vela acesa

e o som que não se mede

em acordes ou decibéis

ancorados na noite sem estrelas

ou raios de luz de manhãs maquiadas

de sombras e batons vermelhos.

Sou o que não se pensa

nem nas horas mais impressionantes

desesperadoras chances nas camisas de força

dobradas sobre as penteadeiras manchadas

de ilusões febris.

Sou o que não se ganha fácil

nem o que se derrete no fogo.

Sou corpo molhado de chuva

e chuva seca de lágrima

sem motivo aparente.

Sou parente do impossível

e o rasgo na folha de hoje

que pinta meus olhos de azul petróleo.

Sou serpente e sonho à solta

nos campos de trigo seco

pronto para a colheita .

Sou ingresso para o inferno

e fim de inverno de monotonia.

Sou tia do encontro

e prima-irmã da alegria

mas só quando durmo

e meus sonhos me levam

pra onde eu queria.

Sou o fim antes do começo

e a história nunca escrita

no papel de seda rosa

que embrulha o Presente.

Sou vôo de árvore

nas asas da ave-guia

e bengala de cego colorida

mal comportada ponta de flecha

presa no cabo da maçã

de uma certa utopia.
 
 
16.05.2010 -  19h37min
*Da Série - SOBRE QUEM SOU

sábado, 15 de maio de 2010

FECHADA
PARA
REFORMA

Dedicatória

Planto um sem número de vezes
as raízes de uma paciência que não tenho
mas que acreditei possivel cultivar,
o que não é garantia nenhuma
de nada...
Agora sei da brevidade do instante
que se não fosse breve
teria outro nome -
esse tal instante que passa
se chamaria eternidade.

Espanto os fantasmas que me chamam
e que tentam me atravessar.
Endureço mais um pouco
a cada dia.
Um tantinho hoje
outro tanto sutil amanhã
té que nada mais reste
além do que não restou
de tudo o  que havia em  mim...

Até que o instante,
esse que veio depois,
passe...
E passa...





15.05.2010 - 01h56min
Para minha amiga querida, que sofre.
Acredite. Eu sei o quanto dói. Eu sei.
Mas também sei que passa. Ainda que o saldo seja duro.
Passa...

sexta-feira, 14 de maio de 2010

In saecula saeculorum

Insana insônia
me acomete de medos
e de frases soltas
gaguejantes procuras
por pontos de luz
na noite escura.
Insônia errante
vagueando pelos ladrilhos
de uma estrada sem volta
sem curvas
sem distâncias.
Insensata ânsia
de malignos desígnios
e cercas de arame farpado
comme il faut
aos mortais exaustos
de tanto viver.
Insondável insônia
que atravessa meus séculos
e meus tremores,
perpassa meus ossos
e alcança a linha
desse horizonte que é só meu;
eu,
solitária sobrevivente
à morte diária
que a manhã ressuscita.







14.05.2010 - 16h

De emoções, de razões e de (in)conclusões

Concluir?
E desde quando os "sem razão e sem falta de razão"
concluem alguma coisa?
Minha vida,
meus delírios,
minhas abastanças,
minhas invenções,
minhas danças,
meus dizeres,
minhas falácias,
meus sonhos,
meus maltrapilhos abraços,
minhas incontáveis faltas de noção,
minhas premissas,
meus sabores,
nada disso tem conclusão...
nada jamais continua,
diria Quintana,
tudo vai recomeçar...
Inclusive essa minha repetida inconclusão...
Ela não continua;
com renovadas forças,
recomeça.


E só isso já basta pra definir toda a minha loucura....





14.05.2010 - 15h40min

CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE

Tão bom viver dia a dia
a vida, assim, jamais cansa
viver tão só de momentos
como estas nuvens no céu....
E só ganhar, toda vida,
inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
presa à copa do chapéu.
NUNCA DÊS UM NOME A UM RIO:
SEMPRE É OUTRO RIO A PASSAR
NADA JAMAIS CONTINUA
TUDO VAI RECOMEÇAR!
E sem nenhuma lembrança
das outras vezes perdidas,
atiro a rosa do sonho
nas tuas mãos distraídas...

Mário Quintana

Cancioneiro

E a vida
(essa louca vida breve
na boca de Cazuza)
amanhece todo dia
atrelada aos raios de um sol teimoso
que rasga as nuvens pesadas
e insiste em dar à luz
um tantinho de calor.
E a vida
(essa mesma vida
sempre igual de Cazuza)
surpreende toda hora
com uma ponta desigual
com um tanto de mudança
visível apenas e tão somente
para quem tiver olhos de ver.
E a vida
(essa mesma vida escrita
na letra de Lobão)
nasce no despertar
dessa minha compreensão
de que a minha e a tua
são duas
e não há como unificar.

Vida intensa no céu da minha boca
na contrapartida da mão espalmada
sobre a parte escura da lua.

É noite
vida espremida
premeditada largura.

Um fio de fogo a salvo...

... da correnteza viva?



14.05.2010 - 4h37min
(Insone rabisco...)

Justificativa

Escrevo.
Destilo meu medo
nas linhas finas das costuras
dos meus verbos.
Encontro avelãs nas dobras
dos trovões de dias passados.
Fabrico sacolas de risos
e enriqueço o mel dos meus dedos.
Escrevo.
Sem pensar, aqueço as chaleiras no fogo
das estrelas caídas da noite.
O dia assalta o começo de tudo
e a folha branca é veneno vermelho
rasgado de agitado oceano.
Escrevo.
Revejo o sol por instantes
té que a caneta se canse
e eu volte a ser oca:
zumbi sem alma nem alegria
invisível pedra nua sem pena
que me absolva dos atalhos
e das síndromes que viajam em mim.




Aos 23 minutos do dia 14.05.2010

Louca


Sou uma louca, bêbada de ilusão


sou luz de vagalume queimado

e vestido vermelho transparente

em noite de lua cheia

e cupido sorridente.

Sou o que nunca tinha sido

e pesadelo de olhos acordados

em ovelha sonâmbula imprecisa.

Sou a junção de juncos empobrecidos

de fios de algodão e laços de tinta

pendentes de enfileiradas facas sem fio.

Sou o ontem decente

e a revolta desta manhã

lutando nas minhas pernas

que insistem em me levar

até o limite do dia que vira chuva de confete

sem resposta que se alimente.



Sou uma louca

dançando sobre folhas

de fios de espadas enfileiradas.



INDECENTE.
 
 
 
 
Exatamente à meia noite, no limite entre os dias 13 e 14 de maio de 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Perguntinha

Nossos irmãos gregos precisam de ajuda.
Nossos irmãos brasileiros não?






13.05.2010 - 16h49min

Desdizer

Calo.
Na garganta, os calos se avolumam.
De gigantescas proporções
as nuvens rolam num céu de anil
manchado de negrumes.
Nos calcanhares
as asas alçam vôo
sem pressa de voltar.
Um risco violeta
corta os dias.
A esteira  ameaça a linha.
Na estreita via de acesso,
um desvio
"fechada para reforma"
é o que diz a placa.
Ninguém lembra do começo
nem o quanto valeu chegar até aqui.
Eu sim.
Mas calo
e os calos se avolumam na garganta.







13.05.2010 - 16h






Descompasso

Não sou de agora
um descuido do tempo
um buraco na esteira
que se estende
através dos séculos
e pronto
cá estou eu
fora do meu tempo
deslocada
louca
perdida.
Sem saber o que fazer
dessas minhas idéias
que não cabem em caixa alguma.
Sem entender os porquês
nem os interesses que me rodeiam.
Sem encaixe nem salvação.
Eu,
louca,
sem canto onde pousar a cabeça
e descansar da procura.







13.05.2010 - 13h

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Romeu e Julieta

'Não sou piloto, mas, se estivesses tão longe quanto aquela enorme praia banhada pelo mais distante dos oceanos, ainda assim me arriscaria por mercadoria tão preciosa'.




Romeu e Julieta - W. Shakespeare


Aos 20 minutos do dia 12.05.2010
(O livro que Alina me deu, no dia das mães...rs)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Apatia





Surpreende-me que haja alguém no mundo, 

capaz de não se entusiasmar com nada. 
Talvez pq eu mesma seja tão entusiasmada... 
E é difícil olhar a vida pelos olhos dos outros. 
Só que às vezes é necessário. 
Praticamente impossível deixar de fazê-lo. 
E aí, quando não há como evitar tal movimento, 
agradeço pelos meus olhos, 
que de vez em quando cansam de ir vendo tudo 
como se fosse a primeira vez. 
Melhor assim que nenhuma outra alternativa ter, 
além de passar por essa vida, 
sem viver...





10.05.2010 - 22h03min

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Eu II

Sou de tudo um pouco, inclusive nada.
Sou uma montanha de saudade.
Sou desperdício e verdade.
Sou fim e começo, intensa vontade.
Sou empolgação e estardalhaço
estilhaço de bala de menta
encontros sortidos e cores marcadas.
Sou torcida de fim de campeonato
e cicatriz em dedo anelar.
Sou estrondo e silêncio contido.
Sou da dança o passo
e a ponta da trança no verso
do rock pauleira
que eu aprendi a te devolver.
Sou confissão em página de diário
e vestido preto em filme antigo.
Sou presilha de cabelo em dia de chuva
e gota de orvalho escorrida na ponta do espelho.
Sou janela aberta para o Leste
e alinhavo de importância real.
Sou eu mesma
travestida de disfarce
e de sólida revelação.







10.05.2010 - 21h34min

Tuas

Sou UMA que carrega MUITAS na alma.
Sou santa, gulosa, faceira.
Sou uma besta completa e ligeira.
Sou faminta, delirante, entediante às vezes.
Sou linda quando não vista
e víbora quando não atendida.
Sou fogo e marca de ferro na pele lisa
raspada à faca de serrinha.
Sou o assunto do dia, um acinte.
Sou acidente mortal
e alegre coincidência no teu dia.
Sou perfume de gardenia
oculta sob fios de ouro
na dobra do percurso
apenas começado.

Sou UMA que carrega MUITAS na alma.
Todas tuas...









10.05.2010 - 20h35min

Eu

Eu sou uma imagem.
Pintada.
Concreta.
Iluminada quando lhe vê.

Eu sou uma pétala.
Solta.
Encantada.
Apaixonada por você.













10.05.2010 - 18h59min

domingo, 9 de maio de 2010

O signo da boa sorte

Um travalínguas
um pingente em forma de cruz
uma gargalhada
solta com toda a razão do mundo
um agradecimento
na garganta, uma emoção.

Entra, tranca a porta
e joga a chave fora.

O autógrafo na parede
Kiss na estante
e o símbolo da gente
sobre o outro, meu.

Pessoas diferentes
diferentes sabores
o teu, porém
incomparavelmente único...

Entra, tranca a porta
e joga a chave fora
que tudo em mim
já é teu...





09.05.2010 - 05h05min

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Amor de verdade

Eu disse que não diria
e assim o farei
nem uma única palavra sobre o dia
instituído sabe-se lá
por qual lei
de homens 
de comerciantes
de interesseiros de plantão
não sei.

Eu disse que não diria
e minha palavra conservarei.

Daí dizer outra coisa agora
que a data se aproxima
logo ali, depois da lua
enquanto o dia de hoje
já quase se inicia.

Direi do que nos faz diferentes
do que nos põe à prova
diariamente
do que nos liberta 
do que nos angustia
e ao mesmo tempo nos acrescenta
outros tantos bons motivos
de enorme alegria.

Direi do que nos faz maiores
e do que nos presenteia
sem presentes ou enfeites ou cartões
não precisa, não faz falta
nenhuma dessas representações.

Direi do que carregamos ao colo
independente do tamanho
pode ser um mês e meio
pode ser o primeiro fim de semana
pode ser a vida inteira
mesmo depois de marmanjo.

Direi da eterna companhia
inda que conosco só permaneça
poucos anos de folia.
Direi do amor sem tamanho
que dia e noite nos acaricia
e nos leva a torcer juntos
pelo dia seguinte.



Nada direi das mães.
Direi dos filhos
que nos emprestam olhos
com outros olhares
diferentes dos nossos.

Direi dos filhos
que dormem suaves
que crescem num repente
que choram de saudade.

Direi dos filhos
esses sim
nosso bem permanente...









07.05.2010 - 1h56min
Para Alina, abençoada escolha minha,
meu amor verdadeiro.

*Clique nas fotos, para ampliar.

Desde antes...

...até depois 
de todos os invernos
de todos os precipícios
de todas as torrentes
de todos os sacrifícios.

Desde antes
até depois
do último suspiro
do último lamento
da última parada
do último tormento

Desde antes
até depois
de todas as alegrias
de todas as gargalhadas
de todos os degraus
galgados a ferro e fogo
e vencidos.

Desde antes
até depois
das experiências
das alianças
das descobertas
das esperanças.

Desde antes
até depois
de tudo em mim
o teu brilho
o teu salto
a tua luz
seguindo
o meu calor.









07.05.2010 - 1h13min
Para meu príncipe guerreiro,
Blue Knight - o único.
'Me entrego com  a confiança
do trapezista vendado'

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Paixão

Tenho nas conchas das mãos
o som do teu riso.
Circulando meus dedos
os teus anéis
os mesmos que te enfeitam
(como se fosse necessário)
quando andas no meio 
de vorazes feras nunca satisfeitas
com o gosto da carne humana.
Tudo o que eu queria
vibra ao som da tua guitarra
e só debaixo do teu toque.
Tenho no limite do peito
o som do teu coração.
Circulando meu rosto
os teus cabelos
os mesmos que se fazem inverno
enquanto a curva do teu tempo
se alinha à minha.
Tenho no limite das horas
as honras de saber-te meu
as delícias de saber-me tua.





06.05.2010 - 02h25min





Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinícius de Moraes


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Liberdade

Afio a língua
e cego a foice.
Liberdade é imperativo
pra quem sabe amar.
Abre as asas e voa.
Que os Oceanos não te sejam
obstáculos precisos
ou motivos suficientes
pra impedir-te do teu vôo alçar.
Cego a língua
afio a foice.
O cordão não é elástico
é preciso cortar.
Voa teu vôo livre.
Não te seja meu afeto
algema
que te impeça de permaneceres
no ar.
Vai.
Qual Menotti, voa e canta.
Diante dos teus olhos
o infinito.
Um mundo inteiro
a conquistar.
Vai, voa, e canta.
Constrói tua estrada
que o trem já vai passar.

Corto a língua na foice
afrouxo o nó.
Liberto.






03.05.2010 - 04h17min


Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.

Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas.


Conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre
para o mais alto.


No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens
na garganta.
Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desce que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo do céu?
Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.


(O Vôo - Menotti Del Picchia)

Cidadania?

Sento a um canto, abro o jornal, e assisto escorrer o sangue.
Sento a um canto, ligo a televisão, e leio o mesmo sangue escorrido
do jornal assistido, pela manhã diária.
Sento a um canto, acendo a luz, e cego o pegajoso sangue
assistido no jornal, lido na televisão e grudado nos meus dedos
de espectador aprendiz.
Sento a um canto, deito os olhos na estrada e nada ouço
além do nada que cabe a mim.








03.05.2010 - 03h40min

De verdades e mentiras

Talvez a verdade não exista
e seja só uma invenção
pra gente não viver tão triste.
Talvez não exista a mentira
 tudo um grande axioma
com facetas diversas
que parecem o oposto do que são.
Talvez a verdade dependa só da gente
e da nossa vontade de acreditar no que não é.
Talvez essa crença seja nossa cura
ou a razão única da nossa doença.
A verdade, disfarçada de outra coisa
pra nos dar força
pra nos fazer sobreviver.
Sobreviver a que?
Aos desmandos diários
aos nossos próprios demônios
às ilusões a que nos agarramos
como se nenhuma outra alternativa houvesse
além do oásis-miragem
no quadro sensacionalista
que a gente carrega debaixo do braço
pra não esquecer.

Talvez o espelho deforme a imagem
- quem garante que o que vês
esteja de fato representado
no que existe de concreto? Ou
será que o reflexo é que reflete
o que de fato o fato é?-.
Talvez a mentira seja uma verdade
que enlouqueceu - de burrice, talvez?-.
Ou a verdade seja só um instrumento
talvez só um meio, pra se alcançar...
O que? A própria sombra,
morta de embolia pulmonar.

Talvez um dia as duas se descubram irmãs
gêmeas.
Talvez, e apenas talvez, numa hipótese muito remota,
as iguais se fundam.
E aí, talvez, e apenas talvez,
não haja mais razão de ser
da dúvida,
essa mãe da insensatez...

Até lá, as verdades e as mentiras
permanecerão confundindo nossas mentes
nossos olhos, nossas mãos.
Até lá, as mentiras bem contadas
serão verdades, até prova em contrário,
e as verdades mal contadas parecerão mentiras
correndo nós o sério risco de perder nossas preciosidades.

Talvez a verdade seja uma mentira que enlouqueceu
de tanto acreditar
.
.
.
.
.
.
.
.
























03.05.2010 - 03h26min 

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Valor

Sofro meus passos
como se principiante fora
na matéria e no Cosmos
feito inconsequente literata
que trata mais de delírios
que de versos crus e raros.
Sofro meus atos
como se participante fora
d'algo grandioso e único
feito incidente de pleonasmo
feito diferença na multidão.
Sofro meus fatos
como se aceitante fora
na linha da vida riscada
feito faca translúcida
na palma de minha mão direita.

Sofro minhas esquerdas.
E pago o preço.
Alto.
Sem arrependimentos ou afins.
Pago.






29.04.2010 - 23h23min

Trago areia em minhas mãos...

... qual ampulheta,
que perde num ínfimo vão
o minúsculo grão,
assim eu perco meus minutos
plantando sementes de mel e paciência
num tempo que não é o meu
mas que eu finjo ser.
Um dia branco
é quase dicionário vazio
aberto
na pequena âmbula
sem óleo
sem olhos
sem sinônimo algum.







29.04.2010 - 23h07min

Das palavras. De novo. Outra vez.

Mais de uma vez escrevi sobre as palavras e suas armadilhas.
Mais de uma vez escrevi sobre as palavras e seus mistérios.
Mais de uma vez escrevi sobre as palavras e suas aderências.
Mais de uma vez escrevi sobre as palavras.
Dá-me vontade de rir dessa sede que tenho
de dizer o que me provocam as palavras
essas insensatas bastardas
que teimam em querer se definir
a partir dessa minha necessidade de escrever.

Mais de uma vez escrevi sobre as palavras
e que outro instrumento mais provável poderia haver
que elas próprias falando de si mesmas?
Té busquei alternativas outras
interessantes e talvez com algum toque diferente.
Nada, porém, mais me satisfaz, que as palavras.

Inda que elas sejam usadas pra me enganar
inda que elas sejam usadas pra me ferir
inda que elas sejam usadas pra fingir o que de fato não é.
Instrumentos de tortura, afago ou fé
tanto faz, não importa o aprendiz
nem que o resultado delas
me seja outra cicatriz.
Há tantas em mim!
Outra, pouco faria diferença...

Mas as palavras riscam meus caminhos
surrupiam meus sonhos
deliram minhas veias
amaldiçoam meu futuro que nunca será.
E eu sei que é assim.
As palavras me enrolam
me amordaçam
me sequestram
e me matam.
Sim.
As palavras me matam.
Morro na boca delas todos os dias.
Pelo mal, mas, principalmente, pelo bem.
Morro pelo bem delas
que povoam meus pensamentos mais íntimos
e dançam entre as imagens mais queridas
e os sons que guardo pra mim.
E todas as minhas exposições.
Eu, publicamente nua,
sem pudor ou decência,
nas palavras que digo, que faço ouvir,
que defendo, que cuspo, que escrevo
inclusive nas que planto em versos
feito bordados de candura.
Eu, vestida só de sentimentos.

Mais de uma vez escrevi sobre as palavras
e sei que elas são vento...







29.04.2010 - 22h54min

Dia disso, dia daquilo, daquele outro, infinito...

Nada direi sobre as datas
a não ser que as tais se refiram
a nada que já esteja escrito.

Não gosto de datas impostas
que quase nada significam
a não ser
ser igual a ninguém.
Não, não errei.
Todo o mundo pensa ser visto.
Visto de fato, não é quase ninguém.

E então fez-se a data
muito esbelta e bonita
no sexto, segundo ou décimo dia
de um mês qualquer
que qualquer inventaria.
E o visto quis ver.
E o fato foi bem quisto.

Por isso mesmo
do que se convencionou ser
nada direi
mesmo que o seja.


Calarei.











29.04.2010 - 01h34min

Divagações

A voz rouca
de dizer as mesmas frases
o assovio apagado
de falar o mesmo nome
a mão firme de gelo
de plantar a mesma chama.
Um passo em valsa
organizado pelo arremesso
do falso espelho.





Pára!




Sem risco, que sentido há no mundo?







29.04.2010 - 01h26min

Desconjunturas

Lá fora a noite fria
um som distante de lua
uma quietude paciente
um não-sei-quê previdente.

Fui eu?
Foi a lua?

Quantas vezes deitei meus açoites
quantas coisas disse sem lei
quantos alfinetes enderecei sem porte
quantos livros deixei de ler?

Sopro a espuma insistente
do banho recém tomado
com cheiro de flor
e cabelo orvalhado.
O sono sem sonhos
traduz o momento.
No ar, a caneta vazia
dança.








Escrever será poesia?










O bar ameaça um movimento
e fazem falta antigas companhias
na luzinha crua da mesa vazia
trancafiada entre as tábuas gastas
que lentamente se diluem
e num único gesto excluem
os lenços batidos de feridas ex-postas
à condenação das massas.
Os cartazes explicam sem consistência.
Nada resiste à resistência
e se tudo é palha
o fogo é bandido
e a água é só o contrário dele.


Amanhã
festa e festa e festa
pra ver se o corpo atesta
o que hoje a alma adivinha.








No mesmo instante
gravado no pouco que resta
vida e morte
severinas ou não
de mãos dadas
e pés descalços
sem qualquer direção.







29.04.2010 - 01h12min

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Consonância

Que amor rime com dor seja um fato
todo o mundo o sabe
o que não sabem os desavisados
é que a dor não precisa ser por motivo
que defina um fim a tudo
mas simplesmente de saudade
num instante sofra o pobre improviso
e mesmo de longe um olhar
um sorriso
uma prece sobre uma pedra
alivie o olhar triste
e d'esperança cante a cura
crave a atadura emergente
e já não haja sinônimos concludentes
mas um leque de símbolos
que supram o espaço vazio
té que 'ele' chegue
de novo
e outra vez
e a rima seja só um entalhe
esquecido debaixo dos travesseiros.


Dos três.








28.04.2010 -22h48min

Modulação

Mais ao Leste
d'onde brota o fruto da vide
a vida floresce devassa
nas metalizadas cordas de um Blues.
As caveiras nas falanges
as histórias de viagens
de amigos, de amores
de notas medidas nos versos.
Os sinais que só dois conhecem
e os horários contrários
impróprios para menores palpites.
Descomunais intentos
incrementos de couros e cetins
óculos escuros e troncos 
velhas memórias e risos de arlequins.
Mais ao Sul
d'onde tudo acontece
a vida medita um lance de escada
a escolha aceita num pote de mel.

Lá onde os sons se confundem
e os sóis se divertem
em espaços vermelho-vivos
esculpidos n'ouro
cravejados de rubis,
é que os pontos unem as linhas
e nenhuma outra palavra existe
além do SIM!




28.04.2010 - 21h06min

Família

Laço independente
fita mimosa latente
nó que amarra sem dor
flor que voluntária nasce
e-terna semente de amor.

Quem disse que a gente não escolhe?




28.04.2010 - 07h04min
This is my message to you

Metamorfose

Do lado de cá da folha branca
o pote de ouro do arco-íris 
pintado na dobra exata do teu ombro
onde minha cabeça descansa
da fadiga diária.
Entre tuas cores invento moda
eternizo a história esquecida
modifico a canção antiga.
Dando um passo de cada vez
redigimos nossa epopeia
enquanto o sonho bom
fantasia a realidade
cria asas
vira anjo
meu.
Tu.






28.04.2010 - 06h09min