segunda-feira, 31 de março de 2008

Quem sou eu?


Talvez eu só tenha essa resposta daqui a alguns anos... Ou não...



Penso que sou água, águia,

fogo, ardente ilusão,

sensação permanente

de uma profunda solidão.

Penso que sou a procura

ou o estado letárgico

da completa loucura.

Sou égua solta nos prados

de uma vigília insólita.

Sou corrente que prende

meus pulsos ao passado

recente, indecentemente confuso.

Sou língua e pele e cabelos

vermelhos de pimenta malagueta.

Sou verso e prosa e conto

que ninguém conta

porque até eu duvido

e não divido a lente azul contigo.

Sou curso contido de água furiosa.

Sou alinhavo de espera

enquanto corro sem trégua

para um horizonte

que sempre sai do lugar

e fica mais distante.

Sou alegria e doçura

submissão e ternura

tristeza e desânimo

dor e amargura.



Sou mulher.





31.03.2008 - 19h18min

domingo, 30 de março de 2008

Pintura

Minha alma, que era azul, ficou cinza. Alguém aí tem tinta cor de rosa, pra emprestar? 30.03.2008 - 23h38min

Quintana, o eterno


"Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos. Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa".



(Mário Quintana)






30.03.20085 - 22h53min

Atentado contra a poesia

" Existem milhões de germes de poesia morrendo dentro dos seres humanos. Serão mortos por não serem devidamente alimentadas com os nutrientes da realidade, da paixão, da esperança, da liberdade, da Verdade.Eles foram aprisionadas pelo homem cotidiano, abandonados à fossa, sem água e sem luz. Deram ao tempo a infeliz missão de buscar arrancar-lhe o suspiro vital. Foram amordaçados e serão destruídos pela suas próprias emanações de emoções e forças instintivas, produzidas naturalmente para serem canalizadas em atividades criativas, enriquecendo-lhes suas existências neste universo de beleza e mistério.Os homens cotidianos são máquinas hipnotizadas pelo dinheiro, sexo e sucesso (sucesso?), sucesso da fama, do infantil desespero pela atenção, não o sucesso da realização da autêntica felicidade que nada mais é que a paz. Assassinarão a graça, e beberão para tentar gargalhar. Assassinarão a sabedoria, e fumarão para tentar pensar. Assassinarão o amor, e se masturbarão para relaxar. Assassinarão a liberdade, a justiça, e vão obedecer a lei do egoísmo, do nepotismo, da convencionada corrupção. Fechar-se-ão para sua característica de colocar-se no lugar do próximo em nome da ambição.Os homens cotidianos estão exterminando o que existe de vida neles, para depois seguirem como zumbis em direção a igrejas, procurando em imagens e no céu o Criador, sem se darem, por nenhum ínfimo segundo, conta que a divindade habitava o seu ser, em forma de liberdade, de criatividade. Sofrerão de lapsos, vultos da alma pura, impotente, derrotada pelo jogo dos sentidos que cuidará de fazer de seus donos mortos-vivos esperando a hora de dormir. "
Shirov Jarzida
*Texto postado por MANUEL, em
30.03.2008 - 20h04min

VIVA.

Ria. ore. minta. ceife. enfrente. negue. busque. traga. puxe. espalhe. compare. chore. entregue. coma. ame. durma. sonhe. saque. assista. suspenda. insista. surpreenda. alegre. sofra. conquiste. conturbe. apronte. aponte. cubra. tombe. trepe. tampe. escreva. risque. sussurre. cale. concentre. cuspa. desista. opere. compre. corra. sorva. seja. morra. 30.03.2008 - 17h37min

Partida

Alcei vôo sobre um MAR de possibilidades uma imensidão de flores e espinhos misturados a sorrisos e lágrimas e ausências e presenças repentinas. Fui embora sem avisar nem olhar as nuvens ou o frescor dos ventos que vieram do Norte. Fui embora e não deixei rastros nem restos de vestes nos espinhos que insistiram em rasgar-me a pele. As canções que embalaram os momentos marcaram a volta das ondas quentes que empurram meu corpo contra a areia e lambem os passos marcados no chão. Apagam o que se foi e não salvam nada. Nada fica pra trás quando amanhece. Nenhuma mancha resiste a um beijo doce. Nenhum beijo é suficiente pra fazer esquecer que nem tudo foi pintado de azul. Recuso a aterrissagem nessa terra devastada. Aguardo o momento propício pra fechar as asas. E voltar a andar com minhas próprias pernas; nadar nesse mesmo MAR de possibilidades que não evaporaram entre os suspiros de dor dos últimos dias, dos últimos laços, das últimas culpas. Há flores na praia. Vou pra lá... 30.03.2008 - 17h26min (Encontrei uma concha, na beira da praia; dentro dela, as canções que embalaram uma alegria há muito esquecida... O MAR...)

O mar

SE eu não estivesse ali naquele momento ou em outro qualquer SE eu não tivesse escolha e a roda dos ventos soprasse em outra direção SE eu os is tivessem os pontos exatamente postos uns sobre os outros e nenhum fosse tão parecido com um L ou com um ponto de exclamação ao contrário SE eu não fosse quem sou SE tu não fosses quem és nem tivesses representado o que representaste pra mim SE a vida tivesse menos suposições SE as estrelas fossem quadradas ou tivessem realmente as pontas que insistimos em desenhar nelas SE o mundo não fosse redondo e a gente pudesse chegar ao fim dele e simplesmente cair fora SE não houvessem tantas suposições e a gente pudesse, de uma hora pra outra entender os desígnios todos que nos cercam e que nos circundam e que nos devoram e que nos derrubam TALVEZ eu pudesse deixar de ouvir o mar... 30.03.2008 - 01h21min

Mea culpa, mea máxima culpa!

Culpada, ofereço meu pescoço à forca meu corpo ao apedrejamento minha alma aos tormentos do inferno. Culpada, pergunto as razões sem respostas as sombrias fendas abertas no silêncio que cresceu insolente entre as paredes de um deserto de promessas improváveis. Culpada, espero o inevitável castigo terrível de carregar na minha história a lembrança do momento exato em que sucumbi. Culpada, bato no peito e ardo as entranhas na busca da palavra ainda não inventada pra substituir aquela que me provoca arrepios e que irremediavelmente deverá ser pronunciada por esses meus lábios trêmulos de culpa. Culpada do maior de todos os pecados... e não me arrependo... 30.03.2008 - 01h14min

sexta-feira, 28 de março de 2008

Ninguém...


Maria Fumaça.

Os trens,

as rés,

os réus,

os poréns

e todos os ninguéns

desse mundo de Deus...




Fumaças...





28.03.2008 - 23h

Trilhos


Andas nos trilhos,

os trilhos andam em ti,

os trilhos andam POR ti

ou, simplesmente,

ignoras os trilhos?






28.03.2008 - 23h21min

Parto

Sair de dentro de mim. Nascer. De preferência em noite de lua cheia ou em dia de torrencial chuva fria; só não pode ser em hora comum, dessas que a gente nem lembra nem vê dessas que o sino da igreja não toca que o despertador não desperta que a gente não salta da cadeira de repente, como se alguma coisa muito importante, estivesse por fazer. Nascer. Abrir com dificuldade os olhos e com cuidado esticar as pernas e os braços numa imensidão incalculada, antes pressentida, jamais apalpada ou plenamente acolhida. Nascer. Descobrir as descobertas todas e os espantos, espasmos e encantos dos novos e dos não tão novos desafios recolhidos nos cantos da vida que se inicia e recomeça a cada novo dia, em cada nova fresta. Nascer em dia de tempestade. Em dia de tormenta, nascer. E ter os azuis olhos de e-tern(a)idade. Dar à luz.... 28.03.2008- 01h31min

quinta-feira, 27 de março de 2008

Estradas


As estradas levam e trazem destinos.

As estradas carregam no lombo

os desejos dos viajantes.

E os sonhos.

E as paradas.

E as alegrias.

As estradas não têm pousada,

não têm anexos,

não têm sossegos.

As estradas somos nós,

em busca do s(f)im...







27.03.2008 - 01h09min

Atrevimento...


Atrevo-me a investir na bolsa de ilusões

nos milhões de senões e de situações

em que os mortais se vêem sem ter

para onde fugir ou como se proteger.

Atrevo-me a explorar os cantos escuros

escusos, inclusos na lista dos destemperos

todos que assombram meu particular país.

Atrevo-me a ser eternamente transgressora

das regras e metas oficiais que afligem

e infligem toda sorte de ordinárias maldades

contra a liberdade, o pensamento e a opinião.

Atrevo-me a ser eu mesma

num mundo mascarado e fútil

que mente e devora essa mesma mentira

como se fosse a semente de um amanhã

mais limpo e mais puro. Impossível!

Atrevo-me a contestar a ordem estabelecida,

a desestabilizar as pedras concretadas

de uma verdade há muito falecida,

a nadar contra a maré e a firmar meu pé

naquilo que considero forte e seguro.




Atrevo-me a pagar o preço.


Atrevo-me a sofrer.


Atrevo-me a sorver o suco da adversidade.





Atrevo-me a sobreviver.

















Aos 41 minutos do dia 27.03.2008
Um novo dia que nasce da escuridão...

quarta-feira, 26 de março de 2008

O Circo


Hoje o circo enfeitou as ruas

alamedas, edifícios, sorrisos,

provocou exclamações e ternuras

lembranças de uma infância

que vai longe, nas esquinas da vida,

ou alegrias de uma infância

que anda agora, entre outras crianças,

nas praças e escolas e parques

da cidade com gosto de pipoca

e picadeiro divertido.

Hoje o circo coloriu de vida

a minha vida suada de trabalho

e seriedade e compromisso diário.

Hoje o circo me fez subir na mesa

e declamar poesia feito saltimbanco

em dia de estréia de espetáculo.

Hoje o circo despertou, entre suas canções,

palhaçadas, equilíbrios e paixões,

a menina que eu insisto em fazer dormir

mas que ainda mora em mim...




26.03.2008 -19h06min


(Hoje é o dia do circo.
A imagem é de um mini cortejo circense, acontecido
no final desta tarde, nas ruas do centro de minha cidade.
Viva a magia do circo! Viva a criança que vive em nós!)

Canção sem compromisso

Desafino de dar Dó entro por uma nota saio pela culatra. Entre um Lá e um cá encontro um Fá que não deveria estar ali. Quem me ouve, releve que revelo só o que quero o resto, não digo, não conto, não canto, não recito. Acompanhe minhas notas que denotam nostalgia dance, requebre, delire. Que tudo isso, assim, sem compromisso, também é poesia... 26.03.2008 - 10h47min
Endereço certo é coisa complicada tão complicada quanto amor eterno jurado entre quatro paredes descascadas em noite de lua cheia e cama compartilhada. Caminhos sem volta existem aos montes mas dependem, todos eles, do primeiro passo, do momento da escolha, que espreita, ao acaso, entre desejos de loucura e culpas freqüentes. Endereços, amores, complicações, luares, desejos, alucinações, dependências, acasos, loucuras, paixões, tudo acaba sempre em ternura, ainda que essa ternura seja apenas a saudade de alguma coisa que jamais vivi... 26.03.2008 - 01h26min

Bilhete

Esgotei os argumentos. Talvez não valha a pena mesmo. Talvez teu medo é que tenha razão. 26.03.2008 - 01h15min

Do silêncio...

Prova de fogo, o silêncio. O largo e impenetrável silêncio. Fogo devorador das horas reservadas para a troca. Implacável silêncio de peso não calculado; desmedido silêncio que cala o que está por ser dito. Maldito silêncio que abala a estrutura do construído. Silêncio que desmorona o edifício. Poeira. 26.03.2008 - 01h11min

Escuta....

Afunila-se a estrada. A escolta dá a volta. E se cala. 26.03.2008 - 01h01min

terça-feira, 25 de março de 2008

Despedida

Ajusto a saia na subida da escada não caio nem titubeio na decisão as fotos antigas ficam no álbum esquecido dentro do armário igualmente esquecido num canto da sala de estar vazia. Ajeito as malas e as tralhas na porta de saída da casa. As caixas e os depósitos de lembranças amargas e distorcidas pela culpa ficam no divã do analista enriquecido pelas minhas moedas sedentas de ouvinte e de opinião. Estou seca e dura. Pedra pouco preciosa. Sem lágrimas, dobro a esquina do medo e não olho pra trás nem admito arrependimentos. Nada carrego comigo além do desejo de uma liberdade que já tive um dia. Passo pelo espaço frio da falta de companhia. Esse, velho conhecido. Não ando nua. Não mais. Nunca mais. As feridas expostas significam luta e sobrevivência. Doeu, mas estou aqui. As feridas expostas significam cautela agora. E silêncio. Nos primeiros 11 minutos, do dia 26.03.2008