quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Cançoneta

Mais uma demão

de tinta na noite
pra enfeitar o sono

e inventar palavras

de dizer 'te amo'.








10.02.2011 - 02h

Memória

Ponto exclusivo
específico porto
acerto selado
acelerado posto
todo avesso é versado
composição de começo
corpo
oposição
laço


es-tre-me-ço...




10.02.2011 - 01h54min

Vela

Escorro
cera de vela ardente
derreto-me em substâncias febris.
Vidente
corro
antes que me delire o espaço e
eu seja apenas lembrança
do que tive.
Partes minhas me coram pedaços.
Ardem-me.
Não sobro.
Um sopro me funde contigo.
Um.







10.02.2011 - 01h07min

Escancarada janela

À flor dos nervos
a pele dança
a luz acesa
o frio na espinha
a chuva vindo
pingo d'água na calha lenta

dentro

cara limpa
tudo agora





leite fervendo.







Aos 47 minutos do dia 10.02.2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Operar

Planar





fugir de estorvos
encruzilhar-se
recuperar os pontos
sustentar as voltas
arrefecer-se
sombrear ausências
deflagrar afetos
aparelhar conquistas




descansar.






06.02.2011 - 16h21min

Valor

Alguns instantes
de tão simples
de tão doces
são tal flores brancas
no vaso transparente
em cima da pia
na casa da "Nona" velhinha
que já não diz coisa com coisa
mas que sabe distinguir
perfeitamente
margaridas
de
crisântemos.




06.02.2011 - 05h


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Vestimenta

De tons claros
os bolsos
esvaídos de razões
transbordam efeitos
simulam situações
sem chaves
sem documentos
sem propósitos
escoram os cotovelos
nos cantos da pias
meditam impróprias
alucinações
rebentam diques
indicam luas
sabotam escolhas.


Asmangasrasgadasdacamisabrigampeloespaçoabertoqueevitacontatoeespreguiçaachamaacesasobreoabrigo









04.02.2011 - 14h

No sexto dia, poetou

No sexto dia
amanhecido de vapores e sonolências
bate à porta um não-sei-que
que desmente o dito e o não-dito.
No sexto dia
há vestígios de clemência
suicidados logo ali, onde as colheres tem açúcar
e onde as línguas dizem o que a ninguém atinge.
No sexto dia
as campanhas compram pirulitos e hortelãs
os comportamentos saem das peles,
cobras trituradas em gaiolas frias
pra virar delírio e maçã.


As amarras se soltam
no sexto dia
e eu acordo pra vida:
um punhado de letras
na mão esquerda
na direita, uma palma vazia.







04.02.2011 - 05h

Insônia II

Pensando bem, devo ter mesmo um pé no outro lado do mundo


quando dormes, acordo em vão

quando durmo envolta em nuvens

teu corpo, descansado, de sol a sol me pune

por não existir contigo.
 
 
 
 
 
04.02.2011 - 03h50min

Apagão

Aqui tem luz


mesmo que a luz apagasse

haveria a lúcida, a límpida claridade

de todas as estrelas...
 
 
 
04.02.2011 - 03h43min

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Simplicidade




Mãos dadas
vento no rosto
abraço apertado
cordão de couro.
Canto de grilo
cadeira no terraço
cadeira de palha
cadeira de balanço.
Bichinho dormindo
motorista sorrindo
café com pão.

O jeito simples, comum, anônimo.

A magia, na quase extinção.





01.02.11 - 15h02min



segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Desassossego


*Para TI



Há que se ter boa dose de candura
quando não balançam os galhos das árvores
nem sopra a brisa matutina no bico das aves.
Há que se ter um sabor de chocolate
meio amargo, meio hortelanizado,
enfeite de parede na sala
chave de espera trancada.
Há que se ter um permeio, quase afinidade
por essas coisas simples
do cotidiano de qualquer um:
o balde, o pano, a xícara, o irmão,
o paralelepípedo, a churrasqueira, o sabão,
tudo farinha do mesmo saco de açúcar
que adoça hoje o que virá amanhã.
Há que se ter paciência e pé ligeiro
que os cansados sempre se estressam
e os dispostos sempre se apressam
em dizer das flores e dos versos
e colher relâmpagos e acertos.
Quebram-se, eles: as pernas das mesas,
os pneus das bicicletas, as asas dos aviões,
mas não desistem nem se exasperam
posto terem por princípio
a teimosia e as competições.
Vencem, depois de tudo,
e, num repente, num que sem razão,
correm de novo
à procura d'outro ponto
querendo pura e simplesmente
mais um pedaço conquistado de chão.






31.01.11 - 14h


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Aflitivo

Manipulo a linha da folha
com rodas de letras
e pontas de espinhos
minhas rendas
meus botões
minha vida.
Ansiedade não ter tinta
praticar o imperfeito
sacudir o pó da lua
nas palmas das mãos.
Luz azul na entrada e no conceito
premissa de extremos opostos
soluções conquistadas.

O poema escorre da janela...









28.01.11 - 02h

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Explícito

Pesco intenções
a isca depende do peso
do peixe que arrasto
no aquário mundano.




Um poeta ao piano
é uma nota suspensa
perdidamente ecoada
nos cheiros de livros
da biblioteca fechada
nas mãos uma tinta
e todos os versos do mundo
nadando imprevistos
improvisados sentidos
brinde entre amigos
parte-se a partitura
os mensageiros deliram
deliberam as moscas
e os acordes soam sujos
nem por isso menos ausentes
bêbados transeuntes
o chamado que não veio
a veia azul do príncipe
aventura e entretenimento
na saliva que escorre
da boca artista
na boca devassa
fios de vida ardente...






26.01.11 - 17h

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Promiscuidade





Farelos soltos
de cartas ao vento.

As estatísticas andam contra
as estátuas expostas.

Mancam os incertos
números de utilidade barata.

Depois da esquina, a espinha ereta.




Incêndios são fumaças
de longe vistas
nem sempre dispersas a tempo.

Na pasta, a imprecisão brilha
diamante bruto
em cesto de vime farpado.




Já não bastam sinais, amiúde.

Há que se estender ao mundo
a ideia guardada.

Girar as sete chaves da felicidade
feito sinos cantantes, às portas
sempre que escancaradas.

Distribuir sorrisos e feitos.

Enfeitiçar, deveras.

E suspender o uso.

Assim, num repente,
sem deixar sequelas.










Promiscuidar-se.








25.01.11 - 15h02min

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Dançarina

Bailarina de perna quebrada
sem orquestra sinfônica
sem arco doirado
ou sapatilha de ponta
que faça deslizar
- pena cheia de tinta -
na folha do palco, vazia.

Desligados os ouvidos
dos rumores da terra.

A Terra não gira; balança
ziguezagueia
nas pupilas da vida.

Faltam palavras que dançam
já que o  universo desertou da luta.

Rolam cabeças de porongo
e os contos escolhidos
encantonados,
se rompem.






Na folha do palco
no meio da carta vazia
o lago do cisne passeia
p
a
r
a
l
i
s
a
n
t
e
.
.
.















24.01.11 - 15h25min


Arcus tensus saepius rompitur*

Traço metas bem definidas
em estapafúrdias prateleiras vazias.
Zombo do obstáculo
que se considera concluso.
Ao invés de sete, pinto meios fios ondulantes
que negam minha Matemática
já tão nula.
Os óculos vencidos atrasam as letras
e os problemas pingam intermitentes
na ponta da língua:
velhas fotografias, impedidas de se fazer.
Mergulho de cabeça no basalto
e nao quebro nada além da pedra
ela mesma, que pratica o desapego.
Deliberadamente construo o muro
tijolo a tijolo, sem medo,
cimentado com vontade dura
inquebrável
intransponível.


Alguns abismos exigem a incondicional ausência de pontes...






24.11.01 - 15h05min
*Corda puxada se quebra

domingo, 23 de janeiro de 2011

Fac simile

Não comento o espelho fosco
que mal reflete a imagem assistida.
Apago a chama recém adquirida
e pingo uma gota de orvalho
no paletó amassado da madrugada.
São fantasmas e delírios
brigando por um espaço no facho de luz
que se precipita nos olhos apagados
da luta imperfeita de toda uma vida.


Os cacos de hotel, os princípios permitidos
os aéreos anos de doirados sonhos
insuspeitos de trilhas e pedaços de algodão partidos
particípios de um passado oculto na fibra.


Formação de quadrilha
furacão de partilha
fundação de quinquilharia.


Formas de vida que abalam
a estrutura do poema recém escrito.


NÃO AFUNDE!
Gritam-me gargantas mudas.
Apressam-se botes salva-vidas.
Erguem-se cortinas.
Falham alaúdes.


NÃO AFUNDE!
Gritam-me.






Queimo.











 


23.01.11 - 03h02min

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pantomima

Recolho-me à minha insignificante coleção de frases cantadas
como se delas extraísse o mel do sono
pra pintar de verde o dia que já nasce.

Vou pela sombra
fatigada de fagulhas coloridas
como quem tem medo do pesadelo que se sabe à espreita
no ponteiro do relógio que não bate.


Diminuta expectativa
de exigências postas à mesa
misturadas à janta fria
carregadas de debate.
Polêmicas dissecadas a esmo
assuntos pendentes presos aos artelhos
cartadas nos dentes de sabre
sabedorias populares `a frente.
Soldados armados de telhas quebradas
folias de reis e rainhas rasgados
fora dos trilhos dos trens
e dos apitos, de longe trilados.

Tempo de silenciosa melodia
composição de estrelas e fundos improváveis.
A pretensão de ser eterna
abandona a linha aberta.

Introdução.

Caligrafia.




20.01.11 - 03h50min

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Incompletude

A fibra tropeça no muro
força a costura na prática
alinhava a próxima esteira.

Viver exige esforço prematuro
e sangue quente
de guerreiro.




18.01.11 - 01h56min