quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Previsão



Canto a pedra da próxima hora
abrem-se os parênteses
e as linhas curvas turvam
os olhos
esvaziados de composturas.
Disponho as cartas
sobre as mesas verdes
de algodão doce.
Não tenho tempo
nem cruéis esperanças vãs.

Voo.





10.08.2011 - 20h19min


sábado, 6 de agosto de 2011

Inacabado




Abotoo as portas
amontoo os freios
e fricciono vertigens
comporto miragens
e experimento limites
basta que os olhos pintem
Artes e ofícios
e debaixo dos tapetes
escondam os ouvidos mudos.





06.08.2011 - 20h

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

À Francesa

Esteira

estende-se
port'adentro

o soco soa fundo

esguia

esgueira-se
port'afora


o fundo falso
abalroa
o passo


ninguém vê


a boca miúda


não comenta





05.08.2011 - 22h

Realidade

Pé no chão
assoalho gelado
pra fazer lembrar do dia
da hora precisa
em que o real virou fantasia
e o suposto bem mais que deveras
existira.
A língua trava no meio da rua
não olha o lado
e cospe fora a palavra
que jamais diria
não fosse o azul que grita:
SOPRA!
e o sabão se esvai na bolha
antes que o dia acabe.

Pé ante pé
o chão
resvala...



05.08.2011 - 15h23min

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Trajeto

Ganhar não é difícil
mas exige esforço
jogam-se os dados
e os próximos passos
são marcados de mistérios
sem verdade, impossível
sem entrega, improvável
as linhas não garantem
segurança de nenhum lado
té que no meio do deserto
surja o milagre.




04.08.2011 - 21h

Jogo

Jogo
mas não jogo alto
ando pelas beiradas das regras
recuo alguns instantes
e uso armas-surpresas
de vez em quando
pra não perder de vez a mão
a mão que do outro lado
recua alguns instantes
e usa desconhecidas
artimanhas suspeitas
de vez em quando
pra não perder de vez a linha
conheço alguns movimentos
outros invento
ao longo do campeonato
que pode se estender
por uma temporada inteira
e
se os jogadores tiverem
sorte
astúcia
vontade
repetir a dose
na próxima
enquanto isso eu jogo
mas não jogo alto
vou reconhecendo terreno
descobrindo o adversário
calculando os erros e
as possibilidades de acerto
equilíbrios perfeitos
nas mãos de quem joga
mas não joga alto

por enquanto


por enquanto
há que reconhecer terreno
avaliar o adversário
considerar as possibilidades de erro
e de acertos
certamente


nas mãos de quem joga
mas não joga alto


por enquanto



nas mãos dos participantes
o resultado
impactante


por enquanto


empate







04.08.2011 - 17h24min

Xadrez

Pontos de linhas cruzadas

costuras alinhavadas em quadros

devagar

perde sentido a couraça

estrada

um passo de cada vez

som de colírio nos ouvidos cansados

sem mestres

ninguém dirige nada

nem nada impede

nem nada empaca

jogo de dama

no xadrez vestido

posto à prova

na dificuldade do nó

que não intimida




desafia.









04.08.2011 - 01h34min

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Atuação






Aparo as pontas quebradas

lixo as arestas

corto as linhas em excesso

traço as próximas metas

meticulosamente

liberto-
-me.








02.08.2011 - 23h04min

Evasão


Foge
desesperadamente evita
os pontos escuros
da rua
foge
a rua
desemboca em beco
migra
esconde a embocadura
foge
alucinadamente pinta
laços obscuros
no lado de lá
íntimo
foge
a fuga espantada
do susto
estampado
na folha tingida
de nada
foge
no lado de cá
lançada a sorte
resulta em fuga
o que hoje me foge.

Como sempre
é minha
a palavra final.






02.08.2011 - 22h23min

Quieta

.
.
.
.



Nada direi
do que nada me resta dizer
falar confunde os termos

silenciosamente

tremo.


.
.
.
.




02.08.2011 - 01h03min

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Interpretação

Eu quero tudo às claras
meias palavras não bastam
vírgulas não revelam
insistentes reticências assustam
o que as metáforas permitem:
entendimentos vários.
Eu quero tudo decidido
saber onde meus pés pousam
entender o que me espera
do outro lado do pântano
e do nebuloso assunto.


Eu quero todas as respostas
antes que venham as perguntas
dentro dessa minha impaciência tanta.



01.08.2011 - 02h33min

sábado, 30 de julho de 2011

O eterno retorno

(A Persistência Da Memória - Salvador Dali)



Todos os tempos são simultâneos
o futuro se desenrola
nesse exato instante
em que a pena fere a folha branca
na conjunção de um agora com um ontem.
Está tudo aqui, nesse mesmo momento
minha morte, meu nascimento
as escolhas que não fiz
e todos os meus tormentos.
O eterno retorno de Nietzsche
volta sempre para o mesmo lugar
d'onde jamais partira-e-irá.

Todos os tempos
simultaneamente
num mesmo lugar...






30.07.2011 - 13h32min

Liso

Escorrego e quebro a'lma
no ponto exato em que as pernas bambas
exigem direção curta.
Peso e tragédia são muros
de escovas e pinhas
nos galhos das horas
que passam.

Impossível engessar a alma
improvável alcançar a cura.

Resta-me uma ponta intacta
regenerativa...

Pulso.




30.07.2011 - 02h09min

Desabafo



Viajo na garganta seca
arranco meu sonho das nuvens
e planto sementes no inferno
onde o fogo suporta-me as crises.

Com força, sigo a linha estreita
dos costumes questionáveis
e das insensatas lutas.

Não abandono meus medos
nem eles desgrudam de mim.

Minha mente sua sangue
desestrutura a simplicidade
complica qualquer instante.

Arrebato restos de salivas
desperdiçadas entre dentes.

Rasgo a ferida.
Aceito o dia.
Permaneço
nua.

Em mim.



Na primeira hora e 37 minutos, do dia 30.07.2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Clareza




Arrasto minhas correntes
afundo os pés na terra
e sinto a dureza do chão
a pedra na janela
acertou-me a testa
sem culpa de ninguém
além da minha própria lama.

Eu
comigo.

Minh'alma descalça
descansa nos arredores do juízo
completamente perturbada.
Raspo os pensamentos
e as intenções que tive
descarto.
Recolho-me aos meus limites
que às vezes esqueço
que às vezes perco de vista
mas finco as estacas com força
té que outro vento me cegue.

Por enquanto me protejo.

Eu
comigo.





29.07.2011 - 23h38min

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Descrição

Eu gosto de dias claros
e roupas com cheiro de Sol
de luz natural
de primavera em flor.
Eu gosto de riso espontâneo
e de lágrima de emoção.
De campo, mato e cidade grande
cada um com seu encanto, lamento e confusão.
Eu gosto de dormir de conchinha
e de banho de mangueira na praia,
chantilly, gelo seco, manta uruguaia.
Eu gosto de fruta madura, toque de sino e sinal de fumaça.
Eu gosto de Tai Chi, arroz com feijão e mudança,
elevadores, cavalos e cães sem raça,
pinhão, batata doce e mel
e de estrelas coloridas, bordando o céu.
Eu gosto de quem acredita
de quem tem coragem
de quem segue a verdade
ainda que diferente da minha.
Eu gosto de gente bem resolvida
de quem não mente a idade
de experimentos gastronômicos e Arte.
Eu gosto de gente tímida
e de gente ousada
- mas só se for além da conta.
Eu tenho pena dos desesperados
e raiva dos injustos.
Eu fujo dos fracos e atraio bêbados.
Eu creio na infinitude
e gosto de acordar tarde.
Eu amo viagens
e vagens e fuligens.

Eu sou todas as miragens...



27.07.2011 - 12h03min

terça-feira, 26 de julho de 2011

Espólio

Minha poesia é espinho
cravado na minha pele clara
o sangue escorrido tinge a folha
e sobre ele desenho palavras.
Assim me doo
assim me doem as letras
a ferro e fogo arrancadas
a fórceps
no parto das madrugadas.




Minha poesia não tem a beleza da rima
cuidadosamente esfarinhada
pincelada a ouro
e dedilhada em violão afinado.
Não.
É manca a minha estrofe.
Coroa de pontiagudas foices
machucada de algodão
e grita
entre os dentes da caneta
grita
na face do papel
grita.

Minha poesia espezinha tudo
a rima
a métrica
o jugo
de ter perfeito ritmo
e coisa e tal.

E finca a faca
no olho maldito
que exige clemência
sem dar nó na garganta da lua
que brinca de clichês
e outros ques notórios
enquanto de mim
não é verbo que nasce
mas vida que escorre
vermelha de medo e vergonha
de tanto ser pequena
na'scuridão da noite fria.

Minha poesia é putrefato despojo.

Sobre o túmulo dela
uma lápide vazia.

Nada havia
a dizer
nada via...



26.07.2011 - 04h34min

Bah noite

Recolho-me à minha insignificância.
Versos travesseiram-me.
Atravessam as 4 horas que se esvaem em pedaços de vírgulas nos instantes.
Vou pela sombra.
Refaço o caminho da vinda.
A vinha afoga o lenço arrastado.
O sonho que não enraizou-se.
O lance de escada que não deu o primeiro passo
o primeiro invento
o primeiro pedaço de luz.

(Caco de espelho)

Que não deu a trégua que eu precisava.



Voo.




26.07.2011 - 04h12min

Embuste

Indago se me basta
um hoje raso.

Voos interrompidos
buscas com dia e hora
pra despedir os aplausos.

O vale reflete meus desejos e o Sol aquece o grão da uva inda nem nascida.

São longas as madrugadas em que vejo escoar-se de mim o que não houve.

Indago se me soa suficiente
um hoje exausto.

Fatos insistidos
bruscas linhas e honras
pra alimentar os instintos.

Os vãos engolem meus silêncios e a Sombra esquece a língua inda não inventada.

São negras as madrugadas em que, cega, tento desvencilhar-me das teias do que não tive.

Resvalo pelo que me esconde a essência.

Traduzo porões. Engulo cicatrizes. Repito erros. Disperso-me, feito estátua de mercúrio.

Uma palavra me perde. Um juízo. Uma cruz. E os limites me alcançam, famintos.

Sou água, escorrida na semente. Não brota ela. Broto eu, no sangue do dia. Todos os dias.

Vertente invertida.



Eu, aquela que ardia.





26.07.2011 - 03h54min

Obtuso-me

Invado devagar
devagar salvo as palmas
devagar não vou

fico.

Arrisco muito
quase tudo
e muito me afasto
quase de todo
no instante seguinte.

Não agrido
repito devagar
ao vagaroso ouvinte
o silêncio que petrifico.

Afundo
o beco.
Rasgo a hora.
Licencio a pergunta.

Mas a resposta não.

São redondas as pilhas de acertos
que eu não fui.

Estremeço e adiante sigo.

Eu
comigo.





26.07.2011 - 03h23min