quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Finados

Todos os meus fantasmas
aos bandos me voltam
às voltas co'as colheitas
n'outros invernos perdidas.


Todos os meus fantasmas
bailam danças de sôfregos espinhos
infravermelhas lâmpadas
cacofônicos espelhos.
Bolhas.


Todos os meus fantasmas
esfumaçados de delirantes visões
primícias de demências sempre tidas.


Tudo a um tempo.
Sem minuto livre.
Sentinela
e gravidade urgente.
Vácuo.
Subterfúgio.
Incorreção.



02.11.2011 - 18h16min

Cambaleante

Sorrateiros

bêbados versos
buscam encaixes
nas estrofes tortas
do poema mal nascido.

Azuleja o vidro da mesa
sem caneta opaca nem tinta de parede ovalada.

Os quadros esquartejam líquidos
e pontas de semelhanças desfocadas.

Manca
a blusa azul atravessa o pente
comprime a ponta da cela
sem eira, beira ou macete

esperneia.

Cambaleantemente
suspende-se um ar falso
de falta d'água na premissa das gentes.

Pena...



02.11.2011 - 17h30min


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sem título

Despedidas as fantasias
obrigam-se as penas
a dizer verdades
mal vistas
nas quadras que bailam
na dança dos desesperadamente despidos
de esperanças esvaziadas de tudo.
Ninguém louva a queda da espera
pelo que há muito
fora esclarecido.
A falta de ousadia
cala a surdez
instala o absurdo
absolve o que não sabia
da rota raiz perdida.
Renasce a ignorância
à luz do dia
tão clara quanto a sombra
do infinito
es
tri
den
te
men
te
impura.


31.10.2011 - 14h50min

Herança

No ralo da pia
quase no primeiro golpe
a foice acerta o Norte.
Sede.
Meia de seda rasgada
joelho no chão duro
de velas amadurecidas há séculos.
O orvalho fede a cachaça.
Já não se pode buscar quimeras
nem levantar bom testemunho
em defesa das próprias ideias.
A justiça é fumaça de cigarro úmido
apagado na sarjeta dos corruptos.
Construto de veias
e longas alamedas
de incerto destino
a ultrapassado jargão.
Gota que pinga o sal
da saliva da cegueira
de toda uma geração.
Pernas de pau
bambas.
Incensário extinto.
Maldição.



31.10.2011 - 14h37min

Imagem II

Deserto de nervos
secas tempestades de eras
heroicos ventos
trajetos
contos rasgados de trajes
perfeições construídas a dedo


de dama



louca






31.10.2011 - 14h07min

Imagem

Calçadas tropeçam poetas
unhas de fome palavreada
em mangas de camisa bordada de sangue azul.
O passo retido na fonte
toca a ponta do céu da boca
seca de opinião devassa.
À espreita, laços de fita
disfarçam múltiplas intenções.
Um verso não basta
pr'abastecer sombras e fúrias.
Intacto, o ranger da porta
permanece
exausto de assombros.
Pintassilgos riscam linhas
onde verbos pousam assuntos
alheios às espátulas
que arriscam canteiros
e cravejam rubis
de nada.
As entrelinhas leem os olhos
vistas d'outros espaços
espelhos de fibras
e mármores frios.
Já não distanciam jazigos
amarrando cordas
ao longo da planta vingada.
Vincos de nuances
prenhes de pontas mudas
escondem barreiras e vinhos
nas queimadas sendas
da estrofe não tida.
Resvalam poetas nas grutas escuras.
do que fermenta sozinho
do que se pretende desinteressadamente
verdadeiro e
nu.




31.10.2011 - 14h

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Essa tal felicidade

Um ponto desconhecido
num Universo distante
talvez um acorde
talvez um verso
talvez um sorriso
torrão de açúcar
em copo de cristal
quebrável
sustento de medida desconhecida
talvez um filme
talvez cena no quintal
do vizinho
no da gente
dúvida

assunto escrito
nas tábuas de uma lei que não sabemos

sem saber
escrevemos
cantamos
sustentamos nossos vãos desejos
nos desenhos de nuvens distantes

enquanto ela
essa tal felicidade
aos nossos olhos invisível
paciente e determinada
aguarda a chance
de nos abraçar.




10.10.2011 - 22h20min

"Filosofia é poesia, é o que dizia minha avó..." (Tremendão...rs)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Vertigem



Dedilhar a próxima hora
balanço de lua sem luz
limiar de explodidas menções
n'uma ou n'outra nota musical
de revés.
Ao invés de saturar-se de nadas
delineia-se um azul difuso
na próxima curva.

Côncavo.

Convés.






24.08.2011 - 22h

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Previsão



Canto a pedra da próxima hora
abrem-se os parênteses
e as linhas curvas turvam
os olhos
esvaziados de composturas.
Disponho as cartas
sobre as mesas verdes
de algodão doce.
Não tenho tempo
nem cruéis esperanças vãs.

Voo.





10.08.2011 - 20h19min


sábado, 6 de agosto de 2011

Inacabado




Abotoo as portas
amontoo os freios
e fricciono vertigens
comporto miragens
e experimento limites
basta que os olhos pintem
Artes e ofícios
e debaixo dos tapetes
escondam os ouvidos mudos.





06.08.2011 - 20h

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

À Francesa

Esteira

estende-se
port'adentro

o soco soa fundo

esguia

esgueira-se
port'afora


o fundo falso
abalroa
o passo


ninguém vê


a boca miúda


não comenta





05.08.2011 - 22h

Realidade

Pé no chão
assoalho gelado
pra fazer lembrar do dia
da hora precisa
em que o real virou fantasia
e o suposto bem mais que deveras
existira.
A língua trava no meio da rua
não olha o lado
e cospe fora a palavra
que jamais diria
não fosse o azul que grita:
SOPRA!
e o sabão se esvai na bolha
antes que o dia acabe.

Pé ante pé
o chão
resvala...



05.08.2011 - 15h23min

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Trajeto

Ganhar não é difícil
mas exige esforço
jogam-se os dados
e os próximos passos
são marcados de mistérios
sem verdade, impossível
sem entrega, improvável
as linhas não garantem
segurança de nenhum lado
té que no meio do deserto
surja o milagre.




04.08.2011 - 21h

Jogo

Jogo
mas não jogo alto
ando pelas beiradas das regras
recuo alguns instantes
e uso armas-surpresas
de vez em quando
pra não perder de vez a mão
a mão que do outro lado
recua alguns instantes
e usa desconhecidas
artimanhas suspeitas
de vez em quando
pra não perder de vez a linha
conheço alguns movimentos
outros invento
ao longo do campeonato
que pode se estender
por uma temporada inteira
e
se os jogadores tiverem
sorte
astúcia
vontade
repetir a dose
na próxima
enquanto isso eu jogo
mas não jogo alto
vou reconhecendo terreno
descobrindo o adversário
calculando os erros e
as possibilidades de acerto
equilíbrios perfeitos
nas mãos de quem joga
mas não joga alto

por enquanto


por enquanto
há que reconhecer terreno
avaliar o adversário
considerar as possibilidades de erro
e de acertos
certamente


nas mãos de quem joga
mas não joga alto


por enquanto



nas mãos dos participantes
o resultado
impactante


por enquanto


empate







04.08.2011 - 17h24min

Xadrez

Pontos de linhas cruzadas

costuras alinhavadas em quadros

devagar

perde sentido a couraça

estrada

um passo de cada vez

som de colírio nos ouvidos cansados

sem mestres

ninguém dirige nada

nem nada impede

nem nada empaca

jogo de dama

no xadrez vestido

posto à prova

na dificuldade do nó

que não intimida




desafia.









04.08.2011 - 01h34min

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Atuação






Aparo as pontas quebradas

lixo as arestas

corto as linhas em excesso

traço as próximas metas

meticulosamente

liberto-
-me.








02.08.2011 - 23h04min

Evasão


Foge
desesperadamente evita
os pontos escuros
da rua
foge
a rua
desemboca em beco
migra
esconde a embocadura
foge
alucinadamente pinta
laços obscuros
no lado de lá
íntimo
foge
a fuga espantada
do susto
estampado
na folha tingida
de nada
foge
no lado de cá
lançada a sorte
resulta em fuga
o que hoje me foge.

Como sempre
é minha
a palavra final.






02.08.2011 - 22h23min

Quieta

.
.
.
.



Nada direi
do que nada me resta dizer
falar confunde os termos

silenciosamente

tremo.


.
.
.
.




02.08.2011 - 01h03min

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Interpretação

Eu quero tudo às claras
meias palavras não bastam
vírgulas não revelam
insistentes reticências assustam
o que as metáforas permitem:
entendimentos vários.
Eu quero tudo decidido
saber onde meus pés pousam
entender o que me espera
do outro lado do pântano
e do nebuloso assunto.


Eu quero todas as respostas
antes que venham as perguntas
dentro dessa minha impaciência tanta.



01.08.2011 - 02h33min

sábado, 30 de julho de 2011

O eterno retorno

(A Persistência Da Memória - Salvador Dali)



Todos os tempos são simultâneos
o futuro se desenrola
nesse exato instante
em que a pena fere a folha branca
na conjunção de um agora com um ontem.
Está tudo aqui, nesse mesmo momento
minha morte, meu nascimento
as escolhas que não fiz
e todos os meus tormentos.
O eterno retorno de Nietzsche
volta sempre para o mesmo lugar
d'onde jamais partira-e-irá.

Todos os tempos
simultaneamente
num mesmo lugar...






30.07.2011 - 13h32min