sexta-feira, 4 de abril de 2008

Cotidiano poético


Há poesia em cada canto da cidade.
Há poesia nos cantos dos muros,
nos cantos das praças, nos cantos dos fundos
dos poços do cotidiano dos citadinos
que se apressam para chegar ao nada.
Há poesia na lágrima que rola no rosto da menina,
no latido do cão preso na coleira,
no sinal fechado, na rua vazia, no trilho do trem
que não partiu hoje por falta de turistas.
Há poesia no perigo da limpeza da vidraça,
no jogo com a vida que se faz diariamente
sem que se perceba, sem que se atormente,
já que as contas não fazem perguntas,
nem os credores querem respostas,
apenas as notas, umas sobre as outras,
no vencimento das prestações mortas.
Há poesia no carro que passa, na buzina estridente,
no mendigo, no pedinte, no doente, no indigente,
na moça bonita, na velha elegante, na cor do fim do dia
que enfeita a vida e pinta de vermelho o horizonte.
Há poesia no cheiro de flor que ficou da primavera
e na folha seca partida debaixo dos pés,
no início de um outono frio e bem-vindo.
Há poesia na correria que acontece
entre os pedestres, entre as pedras paradas
que observam os pombos e seus vôos,
na praça defronte à prefeitura municipal.
Há poesia na cidade, nas coisas pequenas,
na sirene da polícia, dos bombeiros, da ambulância,
ainda que sejam esses versos cantados tristemente,
como quem chora ou como um lamento doído
de quem perdeu o que não voltará, nem com forte pedido.
Há poesia no bom e no que é visto de soslaio
que a gente evita o contato, que a gente finge não ver.
Tudo parte do soneto universal
cotidiano poético por todos lido
por quase ninguém entendido como tal...




04.04.2008 - 23h38min

Um comentário:

Nath disse...

esta poesia parece-me tão "performática"...

traz um ar lenitivo...