quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ilusionismo

Entre o sabiá e a cicatriz
vivem meus versos
sem eira nem beira nem esparadrapo
que os desprenda dos galhos
enredados
feito ninho
de quem se traduz feliz.



16.02.2012 - 16h44min






quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Ninguém

Não sou ninguém 
que já não conheças
que nunca te tenha
pesado na cabeça
ou na circunstância devida
dividida ao meio
da laranja suculenta.
Não sou ninguém
que já não tenhas visto
nem que de relance
num instante justo
ou in ou ex ou terminantemente perdido.
Não sou ninguém 
que já não tenhas ouvido
nas vozes que entrelaçam
teus tímpanos
teus surdos
teus silenciosos limites.

Não sou ninguém
além de uma curva
que adivinha minutos adiante
a janela
que me define.





15.02.2012 - 23h18min

Insanidade

Um poeta é um louco varrido
de caneta na mão
e ideias sem pé nem cabeça
batendo
no lugar do coração.
Mas se as ideias tivessem pé e cabeça
não seriam ideias
seriam canção
e dançar fariam os velhos
sisudos
que só precisam de um dedinho
pra virar verso 
estrela
e passarinho.






15.02.2012 - 23h

Quimioterapia

E o pente foi criando tentáculos
tentando criar atos
nos nós dos cabelos caídos.

Não éramos nós.

Eram ninhos.



15.02.2012 - 23h

Urgência



E das tintas que destampo
sobra-me uma coragem bêbada
um delírio, quase um quebranto,
um não-sei-que de emergência
que urge a exposição do exato
que desconheço
posto a metáfora já não pertencer
ao poeta
cego de luzes
mas ao passante
desatento de haveres
e de respostas perguntantes.

O meio fio é meu banco de dados
que jogo aleatoriamente
bloco de um carnaval que não brinco
nas pontas das orelhas abaixadas
do animal passivo
que insiste em mim
fazer morada.

Rio da incontinência
da providência que não vinga
e do produto falsificado
que dança nos pés de uma centopeia
cambaleantemente
descoberta.

Adoeço aos pés da poesia
em partes
deslocadas dos meus membros
e das imagens mais fantásticas
sem fim nem começo
apáticas.

Não foi pra isso que inscrevi meus versos
na ponta d'areia fina
do tempo
que devora
e definha
antes que se defina
a ponta do alicerce
que entrelaça a linha
daquele meu primeiro arremesso...




15.02.2012 - 22h18min

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Imprecisão

(...esvaziar as gavetas de nada serve
se de notas a cabeça anda cheia...)




Guardo galhos de árvores
que um dia floriram as ruas
enfeito meus dias
com frutas e sais aromáticos
que planto nos sonhos
teias de recomeços
e afuniladas tramas.

Suponho que as somas
salientem horários
e determinem direções opostas
àquelas em que me perco
e encontro culturas dispersas
fumaças e sinais
d'outros tempos.

A tênue linha do absurdo
rodeia meus passos
ridiculamente trôpegos
e sóbrios
e barulhentos.

Um assovio me distingue
dos que desconheço
no horizonte sombrio
que não alcanço
- nem ele a mim -
(grande mistério).

Se conservo
absorvo orações de duplo começo
enriqueço as divisórias do medo
e poluo as entranhas
com alheias devoções
desnecessários parágrafos
no vazio do Tudo.

Alimento
o que não sei ter fome
e mato mais um pouco
do que já sei pequeno
quase extinto
extraordinariamente
exausto
de procuras.


Sou espanto.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Andança

Tiro do bolso minha filosofia mais crua
cravejo de balas de menta
minhas metas norteadas
por cãs e começos.

Recomendo as últimas tiras
de fitas mimosas
baratas e desfiadas
plantadas com esmero
nos pulsos das moças.

Tropeço nos próprios pés
e trezentos conteúdos mínimos
brotam de ventiladores suspensos
cabelos de Medusas
empedrando gestos e vinhos.

E saio da casca
enfrento os maus modos
perco a linha que nunca tive
e encontro outras dúvidas.

Divido meu tempo
e meu suposto ponto de equilíbrio
que nem eu conheço
com quem me afronta.

Sou processo.





10.01.2012 - 02h16min

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Do Novo


Depois de apagar os borrões
círculos de luz explodida
confundem vozes
e diretrizes
miúdas.

Os espaços da próxima dança
iluminam a escuridão
sem rasuras ou hesitações
e os "Vivas!!" ecoam
de pés desconhecidas.

Poemas a serem escritos
pacientemente esperam
a hora exata
o instante sagrado
em que escorrerão
das linhas
dessas minhas digitais
já tão gastas.

Um outro começo...






02.01.2012 - 03h10min

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Apagamento

Sanções diluídas
em molduras d'espelhos
águas passadas
favas contadas
listagens permanentes
despistes de rastros

desertos.





15.12.2011 - 01h20min

domingo, 20 de novembro de 2011

Alimento

Vivem em mim
as dores dos anos
que passam
as dores
e os anos.

A solidão é qualquer coisa
que me alimenta
uma quase companhia
disfarçada de ninguém
em quem depositar meus medos.

Os cantos d'alma
guardo-os
todos
intactos
no meu álbum de visitas
últimas
as minhas
pé ante pé
submersas
em gelo seco
e unhas pintadas de azul.

Programo as próximas atrações
factuais
fracionadas
e diluídas em gotas
de um suor espesso.

Es
pe
zi
nho
a culpa
de saber-me só
sem nada pr'oferecer
além de um silêncio mortal
e de um fio de cabelo quebrado
que insiste
no embaraçado
e assumido
assunto
a contra gosto
encerrado.

Enceno uma bola d'algodão doce
enfrento fugas e míticos ataques
faço da fera
aliada
e alinhavo
outros cabrestos
nas pontas dos dedos cansados.

Satisfaço o que possuo de meu
sem nada consumir.

Calculo invasões
e danço...

Danço
como se o corpo fora
minha vida inteira
derretida na pista quente
na gota salgada que
devagar escorre
rente
entre a blusa fina
e minhas costas.

A solidão é qualquer coisa
que me alimenta...







20.11.2011 - 05h34min



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Finados

Todos os meus fantasmas
aos bandos me voltam
às voltas co'as colheitas
n'outros invernos perdidas.


Todos os meus fantasmas
bailam danças de sôfregos espinhos
infravermelhas lâmpadas
cacofônicos espelhos.
Bolhas.


Todos os meus fantasmas
esfumaçados de delirantes visões
primícias de demências sempre tidas.


Tudo a um tempo.
Sem minuto livre.
Sentinela
e gravidade urgente.
Vácuo.
Subterfúgio.
Incorreção.



02.11.2011 - 18h16min

Cambaleante

Sorrateiros

bêbados versos
buscam encaixes
nas estrofes tortas
do poema mal nascido.

Azuleja o vidro da mesa
sem caneta opaca nem tinta de parede ovalada.

Os quadros esquartejam líquidos
e pontas de semelhanças desfocadas.

Manca
a blusa azul atravessa o pente
comprime a ponta da cela
sem eira, beira ou macete

esperneia.

Cambaleantemente
suspende-se um ar falso
de falta d'água na premissa das gentes.

Pena...



02.11.2011 - 17h30min


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sem título

Despedidas as fantasias
obrigam-se as penas
a dizer verdades
mal vistas
nas quadras que bailam
na dança dos desesperadamente despidos
de esperanças esvaziadas de tudo.
Ninguém louva a queda da espera
pelo que há muito
fora esclarecido.
A falta de ousadia
cala a surdez
instala o absurdo
absolve o que não sabia
da rota raiz perdida.
Renasce a ignorância
à luz do dia
tão clara quanto a sombra
do infinito
es
tri
den
te
men
te
impura.


31.10.2011 - 14h50min

Herança

No ralo da pia
quase no primeiro golpe
a foice acerta o Norte.
Sede.
Meia de seda rasgada
joelho no chão duro
de velas amadurecidas há séculos.
O orvalho fede a cachaça.
Já não se pode buscar quimeras
nem levantar bom testemunho
em defesa das próprias ideias.
A justiça é fumaça de cigarro úmido
apagado na sarjeta dos corruptos.
Construto de veias
e longas alamedas
de incerto destino
a ultrapassado jargão.
Gota que pinga o sal
da saliva da cegueira
de toda uma geração.
Pernas de pau
bambas.
Incensário extinto.
Maldição.



31.10.2011 - 14h37min

Imagem II

Deserto de nervos
secas tempestades de eras
heroicos ventos
trajetos
contos rasgados de trajes
perfeições construídas a dedo


de dama



louca






31.10.2011 - 14h07min

Imagem

Calçadas tropeçam poetas
unhas de fome palavreada
em mangas de camisa bordada de sangue azul.
O passo retido na fonte
toca a ponta do céu da boca
seca de opinião devassa.
À espreita, laços de fita
disfarçam múltiplas intenções.
Um verso não basta
pr'abastecer sombras e fúrias.
Intacto, o ranger da porta
permanece
exausto de assombros.
Pintassilgos riscam linhas
onde verbos pousam assuntos
alheios às espátulas
que arriscam canteiros
e cravejam rubis
de nada.
As entrelinhas leem os olhos
vistas d'outros espaços
espelhos de fibras
e mármores frios.
Já não distanciam jazigos
amarrando cordas
ao longo da planta vingada.
Vincos de nuances
prenhes de pontas mudas
escondem barreiras e vinhos
nas queimadas sendas
da estrofe não tida.
Resvalam poetas nas grutas escuras.
do que fermenta sozinho
do que se pretende desinteressadamente
verdadeiro e
nu.




31.10.2011 - 14h

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Essa tal felicidade

Um ponto desconhecido
num Universo distante
talvez um acorde
talvez um verso
talvez um sorriso
torrão de açúcar
em copo de cristal
quebrável
sustento de medida desconhecida
talvez um filme
talvez cena no quintal
do vizinho
no da gente
dúvida

assunto escrito
nas tábuas de uma lei que não sabemos

sem saber
escrevemos
cantamos
sustentamos nossos vãos desejos
nos desenhos de nuvens distantes

enquanto ela
essa tal felicidade
aos nossos olhos invisível
paciente e determinada
aguarda a chance
de nos abraçar.




10.10.2011 - 22h20min

"Filosofia é poesia, é o que dizia minha avó..." (Tremendão...rs)