sábado, 5 de janeiro de 2008

O encontro - Só mais um conto

Sobre a mesinha de cabeceira, a agenda amarelada pelo tempo. Muito tempo se passara, desde a última conversa. Riram muito, os dois, então. Uma noite inteira. Ela lembrava de cada vírgula, cada fuga dele, cada tentativa que ela fizera para se aproximar mais. Lembrava da vontade de ficar mais, da vontade de dizer mais, da vontade de... E também lembrava da voz, do poema, da chuva. Chovera forte aquela noite. Relâmpagos riscavam a tela negra. Escreviam o nome dele. Com luz. A chuva é uma espécie de choro. Lágrimas que vertem do céu e molham as raízes da vida. "Roubei teu tempo", dissera ele. Ah, que coisa boba pra se dizer, depois de tantas risadas e de tão agradável companhia. Ele sempre dizia essa besteira. Ducaralho, pensara ela (ah, não costumava usar palavras tão toscas, mas essa era uma brincadeira deles, a partir de uma história que envolvia um poeta admirado por ambos). Roubara muito mais que o tempo dela. Roubara-lhe a respiração. E a promessa. A mesma promessa escrita naquela folha que o tempo amarelara. Era chegada a hora. Muita coisa tinha acontecido, com a passagem dos anos. Ela, nascida muito antes dele, sentira mais depressa o peso dos anos. Ele... ela não sabia. A última conversa fora há muito, muito tempo. Finalmente, a hora. Contara os minutos. Pensava jamais conseguir esperar tanto. Mas resistiu. E lá estava ela. Ele? ... ela não sabia. Mas ela cumpriria a promessa. Quando conseguisse sair da cama. Não podia mover as pernas. Os olhos pesavam. Mas virou a cabeça e conseguiu lançar um olhar meio embaçado por uma lágrima que teimava em escorrer, para a agenda. Depois disso... "A chuva é como eu. Às vezes está tranqüila, outras vezes é forte demais". Um vento suave acompanhou o suspiro derradeiro e levou a lembrança da sincronia que uniu os dois aquela noite. Também virou as páginas da agenda vazia, até chegar na única escrita: 2089. Lasagna com Tiago. Sem falta! A chuva caiu, como uma espécie de choro. Chegou muito forte, assim, de repente, e foi ficando tranqüila, tranqüila, até cessar por completo. E molhou as raízes da vida. 05.01.2008 - 05h47min

Um comentário:

orland reis disse...

Confortante lembrança. Capaz de despertar a esperança guardada no fundo da memória, já desbotada, e renovar sua moldura. Parabéns!