terça-feira, 28 de abril de 2009
Ir
E a vida foi vindo assim
arrastando as bagagens do dia
tropeçando nas pedras do caminho
arregaçando as mangas puídas
das desgraçadas evitadas
dos sofrimentos enfrentados
das peças rasgadas de espumas
que foram ficando pra trás.
E a vida foi vindo assim
entre risos e blefes
e compreensões das distâncias
e constatações de ignorâncias
e sensações de permeio
das trocas pretendidas
que não houveram
ainda.
E a vida foi vindo assim
meio manca, meio bendita,
meio atormentada de dúvidas,
meio sem tempo
sem orvalhos
sem participações de luto
ou coisa que o valha
ou coisa que o vele
ou coisa que o venda.
E a vida foi vindo assim
dia após dia
feito frio da manhã de outono
em anúncio claro de rigorosa
solidão.
E a vida foi vindo assim
entre os dedos emergindo
e entre os dedos escorrendo
sem pressa
com pressa
presa
no tênue fio
que ninguém vê.
E a vida foi vindo assim
té deixar de vir...
28.04.2009 - 18h30min
segunda-feira, 27 de abril de 2009
1001 postagens
Engraçado. Uma vez chamou-me a atenção o número de postagens no blog. Estava eu, então, no poema 600. Não pensei que chegaria tão rápido ao 1000, no que reside uma certa estranheza, inclusive para mim: produzo muito, quase compulsivamente ('quase' é só pra não afirmar a plena consciência da compulsividade), logo, era de se esperar que o número 1000 chegasse logo. Pois já passei dele também. E isso me dá uma sensação de alegria plena. Esse fato, por si só, poético!
Uma vez escrevi que o Roberto Carlos queria ter um milhão de amigos e que eu me contentava com os poucos conquistados ao longo de toda a minha vida, e que cabiam nos dedos das minhas mãos. Não quero um milhão de amigos. Quero um milhão de poemas escritos, suados, chorados, sangrados, vertidos das minhas veias abertas.
Eu quero um milhão de poemas escritos!
Salve-se quem puder!
27.04.2009 - 18h15min
Escrever
Publicar idéias
visualizar palavras
sortir mistérios
sorrir remédios
contar piadas
prender as águas
derramar lágrimas
proferir sortilégios.
Publicar idéias
provocar desgostos
praticar sabores
desmentir horrores
conferir princípios
desmembrar sucessos
concorrer centelhas
saturar espaços.
Publicar idéias
escrever impropérios
permitir estorvos
estocar cadernos
partilhar olhares
precipitar censores
contornar parelhos
controlar esforços
viver a conta-gotas.
Publicar idéias
mergulhar a pena
discutir a sina
acordar o limite
infringir a culpa
infligir delírios
instruir corcundas
circundar oceanos
desbravar caminhos.
Publicar idéias.
Amar.
27.04.2009 - 18h
Volta II
Voltar.
A gente sempre volta.
Nietzsche e sua teoria
do eterno retorno.
Eu volto.
Demoro, mas volto.
Volto a pisar os mesmos calos.
Volto a sorver o mesmo cálice.
Volto a sentir os mesmos suores.
Volto a bendizer os mesmos benditos
versos que fiz outrora.
E volto.
Volto de onde nunca saí
apenas ausentei meus dedos
ou minhas esperanças
ou até meus humores.
Mas volto.
Porque foi aqui
no grão de um poema qualquer
que me perdi...
27.04.2009 - 17h55min
domingo, 26 de abril de 2009
Volta
Aos navegantes que tão simpaticamente reclamaram minha ausência, aviso:
a poesia mora em mim,
ainda que adormeça de vez em quando.
Não sei que sonífero ela toma.
Não sei que susto a assusta,
ou que medo a amedronta.
Não sei o que a faz recuar,
nem o que faz brotar esses versos
que planto em mim.
Não sei.
E não sei se quero saber.
Mas sinto falta de escrever.
Sinto falta dessa agonia que me dá,
quando quero, quando preciso 'dizer'.
Sinto falta da sensação
de descontrole
sobre minhas próprias mãos
ou sobre meus pensamentos,
quando ela me acomete
e se derrama feito bálsamo
ou talvez um outro ente
(quem vai saber?).
Sinto falta
feito droga no meu sangue
dessa tal de poesia
que me domina
e é mais importante pra mim
que a vida
(forte isso? nada!
repara, a poesia não é ela
mesma a própria: vida?).
Por isso hoje estou feliz.
Ela acordou.
Está de volta.
E me sorri.
26.04.2009 - 20h28min
Não vi!
E eu não aceitei
o copo cheio de digitais
entre os destroços
das vias que não voltam mais.
E eu não aceitei
o brilho da carcaça
errata impressa de letra
desdita sinuosamente
feito clarão de lua
em noite de tempo quente.
E eu não aceitei
a prisão
a pressão
a impressão de estar nua
sob os olhares divinos
dos divididos instantes
dos paradoxos desconexos
dos distintos censores
de duvidosas morais
(porque eles são muitos
eles são quase irreais).
E o X da questão eu não vi.
E o princípio ativo do sopro
que me pegou de surpresa
e me atirou no abismo
eu
não
vi
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Mas os tijolos foram postos
nos muros das ruas
que percorri.
Mas os estilhaços cortaram
os riscos dos vidros
que eu recolhi.
Mas os supostos estorvos
e os solavancos
e os olhos estreitos
debaixo dos panos
brotaram
I
M
E
N
S
O
S
e ergueram castiçais de prata
por onde escorrem ceras coloridas
de velas apagadas
que eu jamais acendi...
26.04.2009 - 20h
Escrever? Mais? Pra quê!
Nas vias digitais
deserto de bacalhau
- bacalhais? -
Ai, que saudade
da Semana,
dos quintais,
dos Drummonds,
Robsons,
das Cecílias,
Anas, Lenitas,
Douglas, Carlinhos
- de Jesus?
também, também, também -.
Ai, que saudade
das cascatas de versos
que afogavam as mágoas
e os desacertos
e incendiavam o desejo
de mais escrever
de mais escrever
de mais escrever
animais sedentos de sangue
de mais escrever
de mais escrever
de mais escrever.
Ai, que saudade
do tempo em que eu,
cá no meu cantinho,
inda tinha nas pontas dos dedos
um canto triste
pra mais escrever
mais escrever
mais escrever.
Inda dava um jeitinho
de ter no meu nome
bordado bem grande
uma TODA POESIA
pra mais escrever
mais escrever
mais escrever.
E hoje?
Onde as penas?
Onde os trapos?
Onde as rolhas?
Onde as sementes de vida?
Onde os brotos
e as ilusões intrusas
que desencadeavam
borbotões de luzes?
Onde mais escrever?
Escrever?
Mais?
Onde?
Porquê?
26.04.2009 - 19h55min
*Para meus amigos queridos, do Sarau On-Line: Lenita, Robson, Carlos, Ana, Douglas. Adoro vocês!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
domingo, 5 de abril de 2009
Um ano por TI
terça-feira, 31 de março de 2009
Quando tu vens...
Quando tu vens, todos as sombras se dissipam
todos os medos emaranham-se em abstratos rolos irreais
todos os segredos são castanhos
todos os muros são transpostos
e nada interfere em nada
nem nos umbrais das portas fechadas
nem nas distâncias materiais
ou nas impossibilidades físicas
talvez inexatas
talvez oníricas
talvez banais.
Quando tu vens, tremem dos meus cabelos os cachos
e todos os sábados
e todos os domingos
e todos os feriados
são teus olhos,
são teu brilho,
são teu riso solto
que ecoa nos ninhos
que eu queria pra nós.
Quando tu vens, nenhum soluço permanece
e o próprio silêncio já é prece
ou insistente desejo de que a vida
assim
de repente
pare ou passe sem pressa
de
va
gar
como merece
tudo o que realmente vale
na minha vida
ou na tua
ou quem sabe
na vida dela
que tu sabes
que se enternece
só de ouvir falar em TI.
Quando tu vens...
30.03.2009 - 22h44min
Foto: datada de 30.03.2009 -EU
quarta-feira, 25 de março de 2009
Papiro
Escrevo.
Desconheço o limite
onde começa o delírio
onde termina a ilusão.
Escrevo.
Escrevinho mentiras
e açoites e afoitos rumores
de coisas que não haverão.
Escrevo.
Descabelo a noite
e a água fervente
na chaleira vazia
sobre a mesa oval de corda.
Escrevo.
Decoro as formas e os rumos
e as exatas medidas
que eu não soube escolher.
Escrevo.
Desato as gravatas dos nós
que não furam as agulhas
emperradas das máquinas
de costura de lavar de correr.
Escrevo.
Desabo sobre os dedos
cerro os olhos e as janelas da alma
e de todas as minhas posturas
vãs.
Escrevo.
Creio no frio da navalha
descrito no seio da linha
que corta teu rosto
e sangra teu peito
nu.
Meu grito.
Meu consolo.
Meu lamento.
Cru.
25.03.2009 - 21h
Here or Hero? (não-herói, mas aqui)
E eu aqui,
dê-lhe escrever em branco
nas páginas turvas de uma vida incógnita.
Pra que toda essa luta?
Pra que toda essa verve?
Se os pássaros morrem nos ninhos
e as liras não tocam mais
que uma nota mínima por dia?
Pra que toda essa lisura
de dias acesos nas bordas de um sol sem pontas
pontiagudo mito?
Pra que toda essa candura
se os treinos não levam à taça
se os pacotes se abrem vazios
e os instintos são facas de corte?
E eu aqui,
dê-lhe permitir um instante
de solidão...
25.03.2009 - noite
Peremptório
Sou o resto eterno
de minh'alma mortal.
Imobiliza-se o instante
sob o piscar perambulante
de um único olho vazado.
Esvazio o cilindro de couro
e escuto as vozes distintas.
Não sei o que é o mar
nem as sereias e seus cantos
encantos certeiros
de navios pesqueiros.
Mas
alto lá!
D'onde surgiram as vigas
amareladas e puídas
que emergem de negras nuvens opacas
nos dias de azul celeste anil?
D'onde, a poesia melosa
que deita os dedos em prosa
e contradiz a malícia
o desperdício
a poderosa e intacta tontura?
D'onde os mergulhos no nada
as canções jogadas
nos cantos dos planos arredondados
que a gente nem discutiu?
D'onde a imagem heróica
de um deus paralítico
que desfez os cadarços
dos tênis importados
de um certo aprendiz?
E eu aqui,
roendo as unhas e os dias
enfrentando as fronteiras do medo
afrontando as paradas exigidas.
E eu aqui,
(dentro do soco na boca do estômago da noite)
sem saber pr'onde ir...
Tem alguém aí?
25.03.2009 - 20h10min
Psicodélico
Arrasto as tamancas
o sol diário não adverte do perigo
de fritar os miolos da dúvida
em plena praça pública
e a dívida acumulada
escorre ralo abaixo da vida
enquanto a apreensão
se instala na cuca
-iguaria de café colonial-.
Exponho os argumentos
na bandeja dos olhos.
Exploro a barriga da aurora
com gargalhadas inauditas.
Expando as prováveis
razões insanas da sanidade bem vista
e não chego a conclusão alguma
a não ser a mesma
de onde parti.
Qual é?
Não sei.
Não vi.
25.03.2009 - 19h25min
Impressionismo
Encerro as gavetas de núpcias
inicio outro cacoete
presenteio o pacote encerado
com abelhas e papéis amanteigados.
Mordo o pão amassado
e o sangue escorrido do lábio
não é o meu!
Compactuo co'a licença poética
e desvio dos significados rasteiros
que oprimem os comuns.
Sou poeira e vertigem
e essa falta de curiosidade
ou me leva à loucura
ou quase me mata
ou me extravia pra sempre.
Poesia é lamento
vertente de mundos ocultos
instrumento de tortura medieval.
Surreal.
25.03.2009 - 17h02min
*Foto:Salvador Dali e seu impressionante surrealismo
terça-feira, 24 de março de 2009
Código (Morse?)
Ouso merecer a bênção
inda que ela me custe as noites
de um sonho sem sono
sobressaltos ou saudades.
Engravido das armadilhas da vida
e CORRO sem pressa ou medida
serpenteando entre os reflexos
de um ESPELHO de cristal intacto.
Tua imagem convoca meus instintos
fracos de percepção de decência.
Tu és antes de quase tudo
e a dor dos teus JOELHOS
incha os dias de receber-te.
Teu nome mora nos PESSOAIS OBLÍQUOS
e acompanha minhas falas diárias
colado em mim
-sangue VERMELHO nas minhas veias azuis-.
É suficiente o período do ANO
pra te dizer sem medida
ou intermédio algum
que o MISTÉRIO da tua vinda
e a alegria da tua permanência
são meus pontos-fracos-cardeais
coroados de CHUVA e reticências...
24.03.2009 - 10h48min
Não há necessidade de dedicatória,
quando se tem um copo de suco de laranja
TIm, TIm...
Sequência
Paralelas à minha
outras vidas existem
em que pesam as consequências
das escolhas dos meus atos.
As circunstâncias que me afligem
atingem as feridas dos que me cercam.
Evito sambas de uma nota só
e adoeço de esperança
pra compôr meus passos
sobre a ponte de pedras irregulares
que me separa do controle parcial.
Os panos rotos de que fiz as paredes
têm franjas e extensos rasgos de redes
de cores verdes difusas
e atrapalhados balanços rentes.
Olha!
A sombrinha aberta voa ao vento
feito folha no outono da brisa recente.
Quebram-se as varetas do jogo
que sequer comecei a pensar.
Sem querer, cumpro as correntes
dos entes ensimesmados
que eu não pude arrecadar.
Os dias são vagos.
Os vagões lotados de festejos
enganam a torcida faminta
e a partida é só o começo
de mais uma outra longa subida.
Assovio.
Com os pés descalços
pressiono o assoalho frio.
As portas todas têm chaves
e elas me espiam.
Expiro.
Decido?
24.03.2009 - 09h17min
Suspensão
E tudo está suspenso
até segunda ordem.
Palavras de algodão doce
derretem na língua
antes de serem proferidas.
E tudo está suspenso
até segunda ordem.
E se eu contar teus dedos
e se eu cantar tuas notas
e se eu convidar teus pares...
Tudo está suspenso
até segunda ordem.
Tapete persa legítimo
tapete de pétalas de flores
tapete de protestos escolhidos.
Tudo está suspenso
até segunda ordem.
Na porta da sala, uma sombra
os contos e fábulas lidos
comentados entre risos.
Tudo está suspenso
té segunda ordem.
As refeições de alegria
corrompidas pela ética
compreendidas pela estética.
Mas
tudo está suspenso
té segunda ordem.
Aos 19 minutos do dia 24.03.2009
*Baseado em Quintana, o Eterno:
"Tudo agora está suspenso.
Nada agüenta mais nada.
E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes,
o que é que derruba um castelo de cartas?"
segunda-feira, 23 de março de 2009
Dois
Dois olhares. Dois extremos. Dois estados.
Dois trabalhos. Dois assovios. Dois sorrisos.
Dois prazeres. Duas mãos (entrelaçadas). Dois vincos.
Dois vínculos. Dois caminhos. Dois artistas.
Dois calabouços. Dois almoços. Dois almaços.
Dois braços. Dois elos. Dois selos.
Dois seres. Dois dizeres (expostos). Dois supostos.
Dois profanos. Dois sarcasmos. Dois deleites.
Dois delírios. Dois insanos. Dois fogos.
Dois fatos. Dois fecundos. Dois enfeites.
Dois versos. Dois mundos. Dois aspectos.
Dois.
Hummmmmmmmmmmmmmmmmm
Hummmmmmmmmmmmmmmmmm
23.03.2009 - 09h06min
Um
Um cochicho, um assalto, um sobressalto
um espanto, um abraço, um sussurro
um encontro, um travesseiro, um muro
um estorvo, um entrave, um acerto
um começo, um espaço, um pensamento
um tropeço, um fio vermelho de cabelo
um cinzel, um pano de prato, um pulo
um caderno, um namoro, um escuro
um pincel, um presente, um beijo
um doente, um trovão, um entulho
um medo, um motivo, um parente
um dedo, um banco, um futuro
um sonho, um romance, um susto
um prato, um peito, um bocejo
um vento, um violão, um casulo
um mel, um véu, um barulho
hummmmmmmmmmm...
23.03.2009 - 0h02min
domingo, 22 de março de 2009
Fotografia
Em tempos idos fui mistério
que hoje jaz, em foto amarelada.
Em tempos idos fui lágrima e chupeta
que hoje jaz, em lembranças recortadas.
Em tempos idos fui insegurança
fui 'talvez', fui incógnita ciranda.
Os tempos idos brotam hoje
nesse mesmo 'talvez'
nesse igual mistério
nessa idêntica esperança.
Jazigos que trago em mim...
Aos 44min do dia 22.03.2009
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