quarta-feira, 28 de abril de 2010

Consonância

Que amor rime com dor seja um fato
todo o mundo o sabe
o que não sabem os desavisados
é que a dor não precisa ser por motivo
que defina um fim a tudo
mas simplesmente de saudade
num instante sofra o pobre improviso
e mesmo de longe um olhar
um sorriso
uma prece sobre uma pedra
alivie o olhar triste
e d'esperança cante a cura
crave a atadura emergente
e já não haja sinônimos concludentes
mas um leque de símbolos
que supram o espaço vazio
té que 'ele' chegue
de novo
e outra vez
e a rima seja só um entalhe
esquecido debaixo dos travesseiros.


Dos três.








28.04.2010 -22h48min

Modulação

Mais ao Leste
d'onde brota o fruto da vide
a vida floresce devassa
nas metalizadas cordas de um Blues.
As caveiras nas falanges
as histórias de viagens
de amigos, de amores
de notas medidas nos versos.
Os sinais que só dois conhecem
e os horários contrários
impróprios para menores palpites.
Descomunais intentos
incrementos de couros e cetins
óculos escuros e troncos 
velhas memórias e risos de arlequins.
Mais ao Sul
d'onde tudo acontece
a vida medita um lance de escada
a escolha aceita num pote de mel.

Lá onde os sons se confundem
e os sóis se divertem
em espaços vermelho-vivos
esculpidos n'ouro
cravejados de rubis,
é que os pontos unem as linhas
e nenhuma outra palavra existe
além do SIM!




28.04.2010 - 21h06min

Família

Laço independente
fita mimosa latente
nó que amarra sem dor
flor que voluntária nasce
e-terna semente de amor.

Quem disse que a gente não escolhe?




28.04.2010 - 07h04min
This is my message to you

Metamorfose

Do lado de cá da folha branca
o pote de ouro do arco-íris 
pintado na dobra exata do teu ombro
onde minha cabeça descansa
da fadiga diária.
Entre tuas cores invento moda
eternizo a história esquecida
modifico a canção antiga.
Dando um passo de cada vez
redigimos nossa epopeia
enquanto o sonho bom
fantasia a realidade
cria asas
vira anjo
meu.
Tu.






28.04.2010 - 06h09min

terça-feira, 27 de abril de 2010

Compor





Escrevo.
Vão-se meus dedos
anéis e planos
escorregando por oceanos
de detalhes, vírgulas e sensações.
Grãos de areia nos sapatos das gentes
gotas d'água nos tempestuosos copos
virados de cabeça pra baixo
sobre mesas vazias 
de desconhecidos ausentes.
Escrevo.
Vão-se os suores e as permutas
os sonos  e as calculadas
variações nas rotas dos cometas.
Vão-se os vãos das cartas marcadas
e as premissas de estiletes afiados.
Vão-se os meus delírios
e as minhas sacadas
os termos abstratos e as favas contadas.
Vão-se os interlúdios
os colóquios
os diálogos certeiros
as prendas bonitas
as plantas rasteiras.
Vão-se as almas de terceiros
e os nascimentos 
os fins e os meios.
Escoam
quando escrevo
os meus 
medos...






Aos 52 minutos do dia 27.04.2010

Bala Fumaça





Nas avenidas movimentadas
inevitáveis cruzamentos
e ocultas forças desiguais.
Há que se ter paciência nas paradas
consideração nos silêncios
alegria nas arrancadas.
Há que se ter domínio de passos
e um guarda-chuvas gigante
pra evitar as repentinas trombadas
de chuva ácida e despeito evidente.

Quando o trem passa
bala ou fumaça
o resto é detalhe
pequenas impertinências
querendo impedir viagem.

O trem, maior que a maldade
o trilho, maior que a intenção
o destino,
fornalha,
paixão.





Aos 27 minutos do dia 27.04.2010


segunda-feira, 26 de abril de 2010

Insônia

E daí se daqui a pouco
o dia começado a pouco
pouco a pouco ameace
amanhecer de novo?

O silêncio arranca-me sossegos
virados em estrofes
que eu nem sabia escondidas
nos recônditos da alma.
Pergaminhos e frascos de tinta preta
nos achados e perdidos das letras
que me impedem de despedir.

E daí se meu sono não chega
e se já começam os primeiros passos
da passagem das horas que eu nem vi?

A quietude é boa amiga
inspiração cuidadosa
na exata medida
igualzinha aos teus suspiros
que eu ouço e bendigo.
Tu, minha vigília eterna.
Tu, meu amor sem fim.






26.04.2010 - 04h

Blues



Já não distingo estações
os espaços se fundem
e o Sul mora no Leste
enquanto Cazuza canta um Blues.

São 3, 4 ou 5 da manhã
e teu nome povoa meus pensamentos
rodopia nos meus cabelos
disseca a filosofia que eu não conheço
(eu, que adoro filosofia!)
enquanto Cazuza brinda com Blues.

Digito poemas que são teus
divirto meus versos que te oferto
divido meus sonhos nas palmas das tuas mãos
deposito minhas ganas na tua pele nua
enquanto Cazuza brinca de Blues.

De pés descalços não vejo espinhos
de religiões, fumaça e aguardente
de sofismas, previdente
enquanto Cazuza inventa Blues.

Transgrido a lei e a ordem
natural seria nem tentar
convenciono uma nova regra
pra ver se cola
enquanto Cazuza chora um Blues.

Meu argumento é uma pedra preciosa
meus dedos têm o mapa da mina
meus partos nascem tuas letras
enquanto Cazuza planta Blues.





26.04.2010 - 03h52min

Inocência

Ela manda um gesto de homenagem
na divertida inocência infantil.
Não sabe do efeito
não sabe dos detalhes
não sabe da profusão de cores
que ao ato procedeu.
Tu sabes.
Sei eu.






26.04.2010 - 02h15min

Garimpar-te

Se salvação é poema
não sei.
Poema é pedra preciosa
que existe...


Poema é teu lábio
e tua crise.
Poema é teu sonho
teu lamento
azulejada aura
da tua madrugada triste.
Poema é teu riso alto
teu cansaço
teu conforto
teu breve descanso.
Teu sotaque Leste
tua sofreguidão
teu abandono
tua entrega
e tua querência.
Poema é tua década
o movimento hippie
o rock'n roll
a suíça
o sono que se atrasa
pra acompanhar a melodia.
Poema é tua língua
o mel
o sal
a guarida.
Poema é a medida exata da vida.
A tua
bem ajustada
à minha.


Poema é Ouro.

Garimpar-te,
minha sina...





26.04.2010 - 02h10min

Letra de Mulher

Pingos intermitentes tamborilam no telhado vazio


Metal na mente, anel, arrepio
um sem número de gente é ninguém
se as cruzes são iguais.
Pingentes.
As melodias pesquisadas
contam histórias outras
desconhecidas graças
reconhecidas forças.
E agora que os sons diferem
daqueles com os quais me habituei
outros mundos se revelam
outras tendências
outra lei.
Rouquidão na voz amplificada
na filosofia matemática
da solução dos enigmas
em forma de arco-íris
de pingo de chuva na janela aberta
de gato preto no telhado da esquina monitorada.
Da próxima esquina
bem ali
onde meu braço alcança
onde vira hoje
o fio d'esperança
que se recusa a ficar pr'amanhã.
A fonte verte a vida
na  medida exata da minha sede
mais
decerto
me afogaria
e o sumo do teu sangue
não seria.
Tuas franjas
tuas barbas
tuas orelhas
as vertigens que provocas
e os sentidos que latejas
nas curvas quentes desta igreja
de virtudes e desejos
que te fartem
té que dancem teus olhares
e descansem tuas carnes
sem padres nem santos ou deuses.

Só eu.

Que os limites se\nos rasguem...




26.04.2010 - 01h42min

domingo, 25 de abril de 2010

Detalhes

Os detalhes moram nas entrelinhas
nas estrelinhas dos teus olhos
nos tremores das minhas mãos
ao tocar as tuas.

Os detalhes moram nos dedos
fortemente entrelaçados
que não se soltam
nem sob decreto-lei 
do Olimpo inteiro.

Os detalhes moram nas juras
mesmo multiplicadas
menores do que o significado
que, de longe, podem ter.

Os detalhes moram nos dias
nas horas, minutos, segundos, contados
revelados em ondas gigantes
pra nem um único perder.

Os detalhes escapam aos afoitos
preocupados com a fumaça
e com o barulho de dizer.

Os detalhes,
desde os inocentes
aos mais sórdidos
lentamente passando pelos picantes,
a nós pertencem.
São de nossa propriedade.
Tesouro nosso
adivinhado por bacantes
cobiçado por malditos
bendito por amantes.

Os detalhes
sinalizam nossas paciências
fortalecem nossos nós.






25.04.2010 - 05h06min

Da minha pequenez

Quisera eu o poder de inventar palavras
não
palavras não
um único vocábulo
na falta dele
que fosse uma única
expressão numérica
que definisse claramente
o que me transcende
o que é maior que eu.

Mas eu não sei...

Não sou grande o bastante
nem assim tão inteligente
nem tão boa artista
pra criar o que não alcanço dizer.

Eu não sei...

Não sou suficiente.
Não basto.

Pra dizer do que sinto
verdadeiramente
só posso mostrar.

Contigo.

Sozinha não sei
não sou suficiente
não basto.






25.04.2010 - 04h45min

Destino

Um estalo de dedos
e um desvio no caminho.
No fim da erma estrada
uma curva
uma cruz
um carinho.
Mudança de rota repentina
alívio da lancinante dor mortal
primavera em meio à chuva
música, poemas e carnaval.
No teu peito, o meu pulso
No meu pulso, tua alma.
Eu, teu destino.
Tu, minha direção.
Infinitamente.







Aos 30 minutos do dia 25.04.2010






sábado, 24 de abril de 2010

Breve citação, à guisa de resposta

'Não posso deixar, neste momento, de manifestar um grande desprezo, não sei se pela ingratidão ou pelo fingimento dos mortais. É certo que nutrem por mim uma veneração muito grande e apreciam bastante as minhas boas ações, mas, parece incrível, desde que o mundo é mundo, nunca houve um só homem que, manifestando o reconhecimento, fizesse o elogio da Loucura.
(...)
Sabeis porque Cupido se conserva sempre moço? É porque só se ocupa com bagatelas, porque está sempre brincando e rindo, sem juízo e sem reflexão alguma, correndo puerilmente de um lado para outro, sem saber ao menos o que se faz ou o que se diz. Porque a áurea Vênus mantém sempre florida a sua beleza? Não o sabeis? É porque é minha parente próxima, conservando sempre no rosto a áurea cor de meu pai Plutão. Além disso, se devemos prestar fé aos poetas e aos seus rivais os escultores, essa deusa aparece sempre com uma expressão risonha e satisfeita, sendo com razão chamada por Homero de áurea Vênus. E Flora, mãe das delícias, não era, talvez um dos principais objetos da religião dos romanos?
(...)
Asseguro-vos, por Deus, que, embora eu seja a Loucura e esteja, por conseguinte, habituada a toda espécie de extravagâncias, muitas vezes não consigo conter o riso'



(ERASMO DE ROTERDÃ - Elogio da Loucura)

24.04.2010 - 16h33min
Para o bom entendedor, meia loucura basta...

Sagrado

Teu ritual de despedida
e o santo segredo
guardado nas conchas das mãos
de uma menina.












24.04.2010 - 04h33min

Ontem

Tu tinhas a chave da minha biblioteca
e eu, a da tua garagem
as duas, na casa construída a fios de ouro
e toques de guitarra
pra abrigar nossas mãos dadas
descalças de luvas
lavadas de sombras.
Nuas.







24.04.2010 - 04h30min

Espaço

E por falar em espaço
falta espaço em mim
daí o grito
o desabafo
não de tristeza
que já nem sei se existe
na face da terra onde piso
mas de radiância
palavra inexistente em riste
que me dou o direito de inventar.
Invento palavras
rimas
danças
e arremedos.
Invento tudo o que tiver que inventar
inclusive repetências.
É que ando saltitante
e satisfeita debalde
ou de balde
ou aos baldes e baldes e baldes
quantos forem necessários
pra comportar meus risos.
Ao longo dos dias
trancada na biblioteca, amo.
Amo nos coletivos
nos supermercados
nas farmácias
nas páginas dos livros
nas vídeo locadoras.
Ao longo das tardes
entre todos os sabores, amo.
Amo nos tropeços
nos desacertos
nos conformes
nos passos dantescos.
Ao longo das madrugadas
entre lençois e ternuras, amo.
Amo nos murmúrios
nos abraços
nas fomes
nos descansos.
Amo nas chegadas e nas despedidas
nas primeiras chego contigo
nas últimas me levas junto.

Falta espaço em mim
por isso preciso da tua ajuda
pra carregar o peso pena
do amor perfeito 
que vamos construindo pra nós.
Juntos.





24.04.2010 - 04h20min

Pertença


Dentro.





Aos 10 minutos de 24.04.2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Noção

Que chovam canivetes, delírios ou pétalas de rosas
que a neve cubra os caminhos
e que provoque as cãs
que as folhas das árvores tombem
e que as enxurradas tudo levem.

Tu, vivo, em mim, doce e quente verão...

Tu, minha eletricidade.
Eu, teus pergaminhos.







23.04.2010 - 02h29min