quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Marulho

Longe, imenso Mar
distante som de um 'celo'
canção em DIMenor.
Que versos arrastarão
as ondas do poeta negro?
Suponho
contrapondo Nietzsche...




segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Implícito

Troquei visita com as tuas cruzes
e as faixas penduradas nos teus armários
manchadas de cicatrizes.
Não vi teu riso
extinto há tempos
dessa tua boca surda.
Contei os pontos
dedilhei as cordas
suavemente.
Sem pejo
vasculhei as iras
ironizei as luas
frias
cruas.
Tranquei a visita
num canto do medo.
Intimidei o corte.

Voei.







25.01.2010 - 16h12min

Tombar

O meu amor 
é um cabo de guarda-chuvas
virado do avesso
sem préstimo algum
sem data de fabricação
nem nome do proprietário
nem nome do inventor.












25.01.2010 - 16h04min

Tambor

Fisguei o canto da letra
guardanapo vermelho macio
desperdício ilusório
canção de galo arredio.
Desfiei o valor do salário
na vírgula cansada
no tremor do arrepio.
Não ousei dizer o contrário
nem amparei a nuvem cinza
sobre a frase errante
de doentes bordas virís.
Pisei fundo e vilipendiei
os deuses
os astronautas
os inventores de leis.
Construí o meu mundo
e nele me instalei.

Pago meus erros
meus pecados
meus defeitos
todos
sem cuidado
ou alívio
ou saber.

Meu mundo
tem quatro carvalhos
e uma janela
vazia de imensidão.

Escrava falsa
aceito o fado.

Danço na última cratera da lua
no último anel de Saturno
na última estrela que brilhar.

Escrava falsa
'proibido se queixar'...






25.01.2010 - 15h58min

Quem é você?






Pois essa mesma pergunta 
ao meu espelho eu fiz 
e ele responder não soube.
Ficou todo atrapalhado, o infeliz! 
De manhã me disse que eu era uma louca

despenteada
inchada
amassada 
e 


sem 


sal! 


À tarde mudou de idéia
inventou-me um brilho tal
de madrasta ou de medéia
que não sei d'onde tirou. 


À noite
pra surpresa de quem pergunta
sem menos nem mais 
chamou-me artista,
que de tudo sou capaz. 


No dia seguinte
sem papas na língua
desfiou-se em predicados 
que não sei onde encontrou. 
Entre os bons 
e os menos citáveis 
fiquei com o mais provável
embora ainda tão 
deficiente
e incompleto




MULHER SEM RIMAS
(assim mesmo
é o que parece...).














25.01.2010 - 15h20min

Vácuo


Aliança gasta
ocre gosto
castanho suor.
Vibram as farpas
nos perfumes amadeirados
nos finos linhos do Sim.
Sons diluídos na vertigem
malhas de algodão macio
retratos amarelos no jardim.
                                                     Se é verdade que tudo passa
                                                     porque essa falta não tem fim?



25.01.2010 - 12h50min

Responsório





E se a canção
sem acompanhamento
um canto à capela
for solitária
- a solidão é sempre um começo -
e os sinos dobrarem
sem aviso
ou prévio motivo,
se os quadros
embaralhados
e suspensos nas cercas
estiverem cansados
e previstos ensaios azulados
atenuarem os princípios,
então a manhã abrirá outras portas
outros suspenses
outras palavras
pra gente acreditar de novo
e mais uma vez...




25.01.2010 - 12h05min

sábado, 23 de janeiro de 2010

Desencontro

Nossos tempos são diferentes
os caminhos são outros
os teus, centrados
desconexos, meus.
Meus tropeços não findaram
nem começo tiveram, os teus.
De conquistas minhas, pouco sei
de todo o meu resto, desconheço.
Cheguei muito antes
muito depois te encontrei.
Nossos caminhos
nossos tempos
nossas teimas
nossos experimentos
são outros
diferentes
diversos.
Eu cá dentro, simplesmente.
Tu... não sei...




23.01.2010 - 22h34min

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

456 anos



Eu amo e temo São Paulo.
É lá que as coisas acontecem.
É lá que nasce todo enredo.
É lá que brotam os orvalhos
e as orvalhadas orgias
de cimento e novidade.
É em São Paulo que brilha
o brilho eterno do começo,
da descoberta,
da saudade.
Também é lá que o sangue
escorre na calçada
e que a saída
pode não ter volta.
É lá que o mal se mistura ao bem
quase em pé de igualdade.
É em Sampa que o bicho pega
e que existe esperança.
É lá que vivem pessoas incríveis,
que levam minha admiração
e minha eterna confiança.
Sampa é viva
é suja
é bonita
e tem todos os ingredientes
que se procura
numa cidade-artista,
é louca,
é livre,
é receptiva
traduzida em versos
prosa
canção
e fotografia.
Sampa é braços abertos.
É dor e alegria.
Eu amo e temo São Paulo...




22.01.2010 - 03h03min

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Decisiva




Se for quase,
não aceito.
Menos que tudo,
nem ofereça.
Pra perder,
não tenho tempo...




20.01.2010 - 23h10min

Rogai por nós





A poesia é meu grito
minha reza
meu lamento
desabafo, intrusão.
A poesia é minha máscara
minha estrela
meu perdão.
Meu protesto
minha amplidão.
A poesia é meu reverso
minha medalha
minha moeda
solução.
É meu diário
meu confessionário
meu chavão.
A poesia é minha estrada
minha marca
minha esquisitice
minha pretensão.
Minha vingança
meu rumo triste
meu alimento
minha mais preciosa invenção.
Meu rótulo
minha rótula
minha medicação.
A poesia é meu invólucro
meu intento
minha iluminação.
Minha estrela
meu sarcasmo
minha saciedade
minha salvação.







20.01.2010 - 22h18min

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Fugidio



Avermelha o horizonte
a queda d'água
desperdiça a atitude
e as correntes não prendem
nem ponteiam os acordes
que os canários não cantam.
Desmentir o tempo
é jogar-se em função inválida.
Com ou sem teu consentimento
outro dia se fará.

Melhor outras alternativas criar.




18.01.2010 - 17h39min

Confiança




Peito
alma
corpo
intuição.






Aos 35 minutos do dia 18.01.2010

Propriedade






O sangue que na veia te corre
sem juras ou descuidos temporários
é teu.
O tanto ou o quanto assumido
com testemunhas ou sem
é vitória ou lamento assistido
depende de quem pretendeu.
Separa os dedos da noite
no frio da ansiedade de então
estranha o sorriso da lua
impõe lágrimas à solidão.
Nada há que se pareça
ao cuidado e tempo gastos
nas palhas das agulhas perdidas
nos terrenos abertos aos passos.
O soro que da veia te escorre
sem ajustes ou desejos
é teu...



Aos 18 minutos do dia 18.01.2010

Término



Bastam minhas fitas
e as fissuras nos joelhos pagãos.
Se enterneço a suposta alegria
cumprimento o contato não tido
o espelho quebrado na escada.
As prendas estão penduradas
nos ganchos de nuvens
dos colares azuis.
Tempestades de fios expostos
e certidões encontradas
n'algum depósito de cinzas
que o vidro esfumaçou.




17.01.2010 - 23h50min

domingo, 17 de janeiro de 2010

Noite






Adormeço, exausta, nos anéis da vida...



17.01.2010 - 21h37min

Retrato


Nas páginas do diário esquecido
rabisco flores e borboletas
sem pensar nem deliberar deveras.
São dez enfeites de sal
nas desordenadas linhas dos afetos.
As fotografias amarelecidas recordam
as coisas que vivi
e não dei importância
confinadas agora a pedaços de papel.
Antigos namorados
planos de barcos sem remos ou âncoras
plenitudes de instantes passados.
Vou competindo com o tempo
que passa
avaro.




17.01.2010 - 21h02min

Trama



Talvez as dicas
não precisem das horas
e as explicações tardias
sejam pingos dos 'is' resvalados
d'alguma insana profecia dormida.
Rabiscar telhados
é chover imprevistos.
A ingenuidade é irmã da insensatez
e acomete os poetas bêbados de rimas
sempre que os olhos deixarem de ver
o infortúnio das eras
nas palmas das mãos partidas.
Os versos longos
são frutos de linhas salientes
gás de lágrima
folha na planta do pé.
A cintura da vida
dispensa da castidade o cinto.
Assunto proibido
nas rodas da fortuna
ou nas dos excluídos
tanto faz
é tudo a mesma aberta lacuna.
As unhas esmaltadas
disfarçam o vício
a falta de sono repetida
a inspiração que não se afasta.
Os ocasos são mistérios mal resolvidos
acompanhados de letras opostas
rabiscadas à revelia
por algum cego sem lei.
A complexidade não resgata
nem assalta o ponto negro
na base do aveludado luto
que esconde os figos
e as feridas
abertas em cicatriz.



17.01.2010 - 20h12min
» Dom Quixote, de Vitor Reis »
http://fotolog.terra.com.br/viagensnoolhar

Bailar


Essencialmente é de luz e sombra
meu próximo passo de dança.
Nas pontas dos pés comprometo
a hora e a meia assumida.
Os plurais excessivos
discursaram no palco da vida
e esconderam os tules
e as atitudes pressentidas.
Acidentalmente as sapatilhas
alargam as estradas
e as tábuas do assoalho gasto.
Grandes as esteiras
escorregam nos perigos
e pintam de onças e picassos
as velhas medidas.
A brincadeira de roda e o banho de mangueira
perpetuam a estrela da infância perdida.

Nas pontas dos pés
valsam as luas.
Nostalgia.



17.01.2010 - 17h03min

Honorífico


Arremato a sensação única
de não estar sozinha.
Pesquiso alternativas outras
que levem à ordem seráfica,
das alusões aos lírios.
Um passo depois do outro.
Tranquilamente desperdiçados
os ninhos se misturam
na subida do morro.
Meu estilo é o caos concreto
a dança das cadeiras estáticas
os lados dos cubos espasmódicos
nas reviravoltas dos assoalhos dos mundos.
Conquisto os instrumentos das falas
e falho na aquisição de novas regras.
Sou exemplo de extermínio e sabotagem
no canto da planta do sapato de salto alto
quebrado na última dança. Tango.
Na bainha do dia
torço a expectativa da sala vazia.
Embrulho o papel
deixo pra lá os ajustes
e crio a seleção dos riscos.
Arrasto a prancheta
acomodo os gastos
desgasto as bordas das orelhas.
É meu livro que acumulo aos poucos
no meio das confusões e detalhes fortes.
Desmitifico a invenção da lua
e encontro a trégua
até a próxima jornada.
O encanto seguinte...





17.01.2010 - 15h