quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A cruz partida

A força da letra arrisca os centavos
e as dignidades
na esquina da multidão
sedenta da prata da casa.
A força da letra
enterra tesouros
descasca andorinhas
traduz pormenores
em linhas exaustas
pontilhadas de alfinetes
e regalias furtadas
de algemas antigas.
A força da letra
atravessa ponteiros
escala travesseiros
pinta fantasmas de preto
sacos de lençóis de ilusão.
A força da letra
mora nas minhas entranhas
estranha meus medos
muda minhas palavras
mais tacanhas
em tamanhos desastres aéreos.
Inesperada morte.
A força da letra
condena meus atos
aponta o dedo
regula, reclama, rechaça.
Sentencia.

Nos pregos, uma cruz.
ANKH!




21.10.10 - 04h44min

Mea culpa

Escasseiam os argumentos
quando só o que se tem
é um frasco de amargo ciúme.

Pesos e medidas diferentes
dependentes da condição crida.

Na extremidade da não-virtude
o precipício guarda a lágrima.

Algumas verdades são proibidas
sob pena de macular a esperança.

Direitos são descartadas reivindicações
quando ovos cobrem um chão de espinhos.

Situação de vidro, castigada com a morte.
E morte de cruz.
Mea culpa.
Mea máxima culpa.






21.10.2010 -  03h29min
Infringir regras é dispor-se a pagar o preço. Alto. Deveras alto.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Virtualidade

Vives a minha vida
meio de lado
clara sombra imperceptível.
Quando preciso de ti
onde?
Quando não
porque?

Vives a minha vida
de "revesgueio"
oscilando entre a ausência
e a ilusão de acompanhamento.
Quando pergunto por ti
onde?
Quando não
o que?

Vives a minha vida
só de letra
gravada na pedra que apaga
sem preciosidade alguma
sem cortante instrumento
além do que já sabes
e do que já acendeste deveras.
Quando procuro por ti
onde?
Quando não
em que?

Vives a minha vida
confortavelmente
sentado na poltrona em frente
sem intimidade
sem pestanejar de dentes
(sim, dentes pestanejam, ao ranger).
Quando padeço por ti
onde?
Quando não
pra que?


Responde!



19.10.10 - 02h59min

Anda pela sombra, essa minha insignificância II

Recolho-me à minha insignificância.
Desfigurado significante de olhos vazios
no absurdo de uma página quadrada.
As respostas ficam pra amanhã.

Vou pela sombra.
Pela sombra,
meus medos.
Pela sombra,
os roncos dos viciados em letras.
Pela sombra,
meus pecados.
Quantidades inúteis de vozes
caladas, antes dos ecos
responsórios de ansiedades
que não veem.
Silencio os dedos e as veias.
Roo um voo rasante.
Enterro os cílios.
Minto.
Morro.
Pra ressuscitar
amanhã
e depois
e depois
e depois
indefinidamente
borboleta opaca
atraída pela luz do sol
té que o calor derreta as asas.
Ícaro de cera sonhada
no equilíbrio entre a queda
e a mais pura perfeição.





19.10.10 - 02h46min

sábado, 16 de outubro de 2010

Endereço

Minha poesia está em ti

mora em teus poros
sua o teu suor
escorre pelos teus cabelos
e dança nos acordes da tua guitarra
nos anéis de caveiras nos teus dedos
na tua barba por fazer.
Minha poesia está
nos mais de cem versos que te devo
no ciúme controlado
no sotaque carregado
na linha do tempo que eu perdi.
Minha poesia está
na milionésima parte tua
a metade da metade da metade
a  que me pertence inteira
a parte mais ínfima
um quase nada
de todas as tuas frações diárias.

Minha poesia está em ti.






16.10.10 - 03h06min

Ne me quitte pas

("Fui Jacques Brel quando você se foi")


fui o sofrimento dele

o mesmo que escapou de ser dito

o mesmo que não pode ser traduzido

em língua alguma

pois fui isso

menos que nada

quando tu te foste

de mim.


Fui muito além da dor dita

ou da dor escondida

fui a dor desesperada

a que se crê maldita

a que se rasga

e que se odeia

essa mesma dor

que foi Suzanne Gabrielle

talvez "uma mistura de Brel y Pagliacci"

não tive tintas pra pintar o rosto

já que nenhuma permanecia

posto que as lágrimas apagavam

qualquer pintura, qualquer disfarce, qualquer fuga.

Eu fui A Dor

a solitária Dor de quem se sabe condenado

à distância e ao silêncio.

Eu fui essa Dor

promíscua.

Eu fui essa Dor

rasgada.

Eu fui a Morte

de mim.






16.10.10 - 02h50min

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Anda pela sombra, essa minha insignificância I

Recolho-me à minha insignificante
letra de mulher,
perdida n'algum ponto
entre a consciência e a embriaguez
de um verso sem rimas.
Vou pela sombra, feito cão perdido
em noite fria e sem luar.
Sem dono, sem folha branca
onde esvair os elementos
que fazem de mim quem eu sou.




15.10.10 - 01h15min

Movimentos

Eu gosto de surpresas.
Eu gosto do que não se pode controlar.

Um minúsculo espanto
um risco de sorriso no olhar
um leve franzir de testa
imperceptível mudança de traço
não-ensaiada
nem possível de repetir.
Uma Sempre Nova
explodindo dos poros
involuntariamente exposta.
Um jeito de mexer nos cabelos
um jeito de cobrir o rosto
com as mãos espalmadas
um arregalar de olhos castanhos
um movimento de íris
um dilatar de pupilas
uma indisfarçável ansiedade labial.

Eu gosto de surpresas.
Eu gosto do que não se pode controlar.
Eu gosto de instintos.





Aos 55 minutos do dia 15.10.10

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Profícuo

Madrugadas estéreis
suados sais compostos
de equilíbrios e corpos.
Nada dito
além de amenidades
e posturas de contas sem nós.
Trocas de esperas
tranças de lavas
sucessivos voos.
Vantagens.






14.10.10 - 19h

Compreensão

E se milagres acontecem
mil contradições chocam
os ovos da malícia.
Entendimentos à parte
somos metade da acidez dos campos
onde caíram cometas imaginários.
Não valem os tédios
dos aliados
dos repetidos
sempre os mesmos
sempre os iguais.
Evoluem as falas
e as filas aumentam
nos pontos cruzados das sortes
jamais conhecidas.
Adiante, as viagens
acumulam vantagens ilusórias
d'outros mundos
outras formas de vida
aquelas mesmas
acreditadas um dia.
Acreditadas
ainda.





14.10.10 - 18h

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Caminhante

Os sapatos calçam canções absurdas
deslizam ruas e ladeiras
enlameiam-se de estradas poeirentas
marcam os saltos nas pedras
das picadas abertas a pé.

Um Blues traz ondas de nostalgia
no couro do bico fino
no canto do quarto agora vazio.

No entanto
as respostas riscam as paredes
do que não se pretende esquecer.
Narram as marés de sorte e
estonteante metal noturno
às cordas violentamente dedilhadas.

A dança não precisa do corpo
nem de qualquer outra aliança
além da oferecida
sem dedos nem presilhas
sem larguras ou alimentos
que fortaleçam além da conta
o que por si só
já é exagero.

Descanso.






13.10.10 - 23h
(Obrigada por me devolveres, na ponta do teu riso, nas conchas das tuas mãos, "O" mote)

Consequência

Acostumo os olhos
à nova luz já conhecida
esquecida do que me revela
a fartura de gordas palavras.
Uma volta
nunca traz de volta o mesmo
mas o quase, o reconhecível,
o semelhante;
visto que os meses tecem frisos
nas fissuras das distâncias
nos passos já tidos
nas esperanças recolhidas
e secas
e obtusas.
Um sol recém nascido
planta a luz de um outro encanto.

Faz-se uma musa.



13.10.10 - 13h10min
(Vertente de versos, essa volta tua)

Deserto

Sem alma.
Inóspitos caminhos
iguais semblantes
ocre prazer.
Oca, a embalagem
exala conteúdo vazio.
O riso alheio soa mais alto.
O próprio, falso.
Nada completo.
Nenhuma melodia bastante.
Escolhas a esmo.
Anestesiados instintos.


Depois disso tudo
oásis...





13.10.10 - 13h
(A caminho do trabalho. De volta, a vontade de "dizer")
http://www.youtube.com/watch?v=_VSGm3Uv4Qc&feature=related

domingo, 10 de outubro de 2010

Again

O tique-taquear das horas impróprias
assombra a ausência das maiúsculas.
Um sopro de esperança no metal
o gesto conhecido e amado
perdido no espaço de meses
nunca de fato silenciado.
É possível.
Sempre será.






10/10/10 - 3h
*Data a ser lembrada. Try again...
Longe, o corajoso guerreiro acena. De volta...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

In-saciável

O ar entra fundo no peito
rasga os caminhos
como rasga as entranhas
a pele estranha
que invade a espera
a mão beijada
desarma a resistência
delicado gesto
que define um Sim.
A estrofe seguinte é o Fim
sem pé nem cabeça
por conta dessa insaciabilidade
que ultrapassa o desejo
e transcende a fala
e o falo.
Fato real.



22.09.2010 - 01h21min

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Suficiente

Minha poesia mora n'algum lugar misterioso
sem sal e sem açúcar e sem pudor
desprovida de vestes e peles
desligada de letras e formas e símbolos
esquecida das convenções e regras e limites.
Minha poesia perdeu-se no último vestígio de ritmo
na casa seis da linha dupla na esquina clara
de um minuto que não volta mais.
Minha poesia migrou de mim
emigrou, imigrou, emagreceu,
exclamou um derradeiro suspiro
e voou...
pr'algum lugar misterioso
longe
longe
longe
impossível de alcançar
inenarrável
indefinível
.
Té que os princípios se bastem...



Aos 15 minutos do dia 08.09.2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Amarelo

Poças d'água molham sonhos
de liberdade e de padrões outros
opiniões e conceitos desprovidos de
voejantes folhas de outono escuso.

Respostas difusas
acompanham enigmas absurdos
e levantam outras questões.

Amanhã
as cores terão cheiro de sol...




06.09.2010 - 15h

Criação

Sem confetes ou críticas
pinga a poesia
do conta gotas d'alma...

Sem motivos ou estorvos
um verso solto
lentamente escorre
na página descalça...

Vai chover uma lágrima
no céu de setembro...




06.09.2010 - 1h22min

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Perspectiva

Gosto de flor no ar
gesto de luz no canto da boca das manhãs
pausa nas plantas dos pés.
Outros mundos
descortinados no viés de um olhar.






31.08.2010 - 21h

Eu gosto do que acaba

Expiar é misteriosamente
descobrir-se vazio...




31.08.2010 -  20h