sábado, 7 de junho de 2008
Sonho - um poema
Eu queria o direito de ser frágil
não precisava ser pra sempre
não precisava ser de um jeito
que me impedisse a independência.
Eu queria o direito de ser frágil
de não ter que parecer a dona
da situação, do meu nariz, da minha vida
- o tempo todo, intermitentemente -.
Eu queria o direito de ser frágil
ao menos uma única vez, pra poder dizer:
Eu preciso de ti!
E não sentir que isso me expõe negativamente.
Cristal partido em mil pedaços
a minha fragilidade, contra a parede da sala.
Pra eu mesma me dar o direito de ser ela,
até que esse cristal se recomponha
e eu tenha que voltar a ser só eu mesma:
rocha forte; porto seguro.
07.06.2008 - 22h30min
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Símbolos
Esses meus versos soltos
que ninguém mais pode entender,
são pedaços do tanto que eu ouço
o meu coração, por ti bater.
As frases quebradas, de muletas,
meio canhotas, quase mantras,
são partículas do sangue que me aquece
e que responde, quando a mente
repete o teu nome.
E ela repete.
O tempo todo.
O dia todo.
Tudo.
06.06.2008 - 22h42min
Ou sim?
Evito o canto do que de certo há
na inexata medida do erro
na descoberta imprecisa daquilo que não virá
(ou sim).
Esqueço os cantos dos espaços
em que os acentos são traçados
das poesias jamais escritas por alheios
que nunca estiveram lá
(ou sim).
Desautorizo as assinaturas,
as envergaduras, os folderes,
as resenhas, as bolsas fechadas
que jamais duvidariam da minha inteligência
(ou sim).
E desisto e duvido e caio fora
de tudo o que não me agrada
(ou sim).
Acordo depois ou nunca mais
(ou sim)...
06.06.2008 - 22h32min
Ou não?
Eu canto o que de incerto há
na desmedida ânsia do acerto
no enigma daquilo que virá
(ou não).
Sublinho os cantos dos espaços
em que os acentos são traços
das poesias de terceiros
que sequer passaram por lá
(ou não).
Legitimo as assinaturas todas,
as envergaduras, os folhetos,
os resumos, os envelopes lacrados,
os trabalhos perdidos
que atestam a minha ignorância dos fatos
(ou não).
E insisto e acredito e invisto
naquilo que se anuncia já amadurecido
(ou não).
Adormeço depois ou nunca mais
(ou não)...
06.06.20085 - 22h24min
Característica
Os plurais
as escadas
alguns poucos verbos
são marcas minhas
perfis de escritas soltas
penduradas nos varais da vida.
Algumas vezes sou maluca
outras vezes centrada demais;
os extremos me atraem
ando sempre à beira do cais.
O caos me concentra
na infinitude das horas
em que espalho algodões
embebidos de mel
e ofereço meus ouvidos
às canções da tua boca quente.
Vasculho os bolsos da poesia
embriago teus olhos com meus versos
e me retiro.
Sei que a mim, desde sempre, é reservado
o vácuo do instante
que passa...
06.06.2008 -20h45min
as escadas
alguns poucos verbos
são marcas minhas
perfis de escritas soltas
penduradas nos varais da vida.
Algumas vezes sou maluca
outras vezes centrada demais;
os extremos me atraem
ando sempre à beira do cais.
O caos me concentra
na infinitude das horas
em que espalho algodões
embebidos de mel
e ofereço meus ouvidos
às canções da tua boca quente.
Vasculho os bolsos da poesia
embriago teus olhos com meus versos
e me retiro.
Sei que a mim, desde sempre, é reservado
o vácuo do instante
que passa...
06.06.2008 -20h45min
Confusão
Ansiar é não-morrer
as portas arrancadas dos umbrais
os freios, equilíbrios, vendavais
estremecem nas curvas do tempo
que inexiste, que embriaga a perda
e sustenta a pedra da gruta
da vida, que se esvai por vias tortas.
Os ruídos atrapalham os princípios
e as telhas se desprendem
suporte frágil dos dias de sol.
Assistir é não-sofrer
o desfile das horas impróprias
na provável carne dura.
São cruas as experiências conflitantes
são curvas as excelências dissonantes
são cruéis as insistências difamantes
são minhas
são tuas
as marcas dos pés molhados nos limites
que separam o que fomos
do que haveremos de ser...
19.05.2008
(Este poema fazia parte de um projeto
que foi abortado. Um aborto na folha em branco.
Mancha de sangue. Vida escorrida na escuridão.
Agora é madrugada. 04h06min do dia 06.06.2008
e aconteceu o fato)
Possibilidade
E todos os poemas
que ficaram velhos
de não ver as folhas,
esquecidos que estavam
nas gavetas emperradas
de sentires igualmente de lado deixados?
E todos os versos expostos
que foram lapidados com orgulho
cuidados e alinhados um a um
feito trabalho de ourives?
E todos os rebuscados verbos
que expressavam a dor, a saudade, a paixão
de momentos que se foram, ou que tarde já vão,
de momentos que marcaram e que ficarão?
E todas as linhas, caprichosamente estendidas
na sequência das horas
em que derrubaram as escoras
e os temores e os absurdos cansaços
que jamais representaram fracassos?
E as noites insones, os litros de tinta
derramados no papel amassado
molhado de lágrimas que não poderiam
de jeito nenhum, de jeito maneira,
ser derrubadas diante de testemunhas
neutras que fossem?
E os risos que não se desprendem dos vocábulos
estreitados pelas descrições imperfeitas
porque perfeitos só os sons deles
proferidos por ti.
E nós...nós, que já fomos, que já voltamos,
que agora estamos sós.
E nós...
aqui, sem remédio, sem licença, sem lembrança
que impeça a crença de que
sim
nós
somos possíveis.
E mesmo que não fôssemos...
Seríamos....
06.06.2008 - 01h51min
Do amor II
O amor é uma coisa mágica...
faz horrores com a gente...
vira do avesso,
transforma em outra coisa,
dá vontade de chorar do nada,
dá vontade de rir do nada,
dá vontade de nada
além de ficar com a pessoa escolhida.
O amor faz coisas que até o amor duvida.
O amor é bálsamo pras dores,
tal qual a poesia.
Mas o que seria da poesia sem os amores?
E deles, sem os versos
inspirados no perfume
que exalam as flores do objeto amado?
Ah, que nada...
Amor é acompanhado de dor e sofrimento.
E a gente aguenta.
E a gente pede bis
porque é sempre muito bom
ser feliz...
06.06.2008 - 01h30min
A fila que anda
...e quando a gente tem pressa?
Parece que a fila é imensa.
Parece que a pressa faz fila
na soleira da porta de saída,
tem pressa de vida,
a fila da vida,
que anda,
que anda,
que anda,
mas que também às vezes...
desanda....
05.06.2008 -19h30min
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Fatos
Encontros não-marcados
Sei de ti no conta-gotas
das horas a fio
em que sentamos juntos
e dividimos as vidas
no limite do espaço
reservado pra nós até agora.
Conservo tua companhia comigo
teus gestos, tuas entrelinhas,
todas as palavras
que deixaste de dizer
todas as delícias
que deixei de te falar.
Não marcamos nada.
Voluntariamente te procuram
minhas vontades.
Tuas histórias voluntariamente
vêm a mim.
E te encontro nas ruas, nos ônibus,
nos restos de conversas que escorrem de terceiros.
E te encontro no último fio de sol
deste dia, e no primeiro de amanhã.
E te encontro na canção que eu não conhecia
e na que tenho mais que internalizada,
na que corre pelas minhas veias,
purpúreo rio pulsante
de bem-estar contigo.
E te encontro nas memórias do que ainda não vivi
e nas minhas mais recentes preciosidades.
Não marcamos nada.
Lentamente desfiamos o instante,
como quem o encontra pela primeira vez.
Teu nervosismo me diverte.
Minha alegria te chama pra mais perto.
Não perdemos o rastro um do outro.
Escreves. Entendo.
Falo. Entendes.
Estendemos, juntos, o tapete vermelho.
Lançamos, juntos, o laço brilhante.
Juntos, nos afastamos a contra gosto
do conta-gotas
e contamos os minutos
que faltam para o que nunca marcamos.
Nem precisaria....
05.06.2008 - 18h15min
(Pq penso em tudo o que não marcamos.
O tempo todo.)
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Breve,breve....
Comungo com tua saliva
no berço preparado para tal
melodia de ruídos conhecidos
recheados de novidades e afins
afunilo o horizonte e estremeço
parecem gaivotas esses teus olhos
que voam, lânguidos, sobre mim.
Aos 38min do dia 04.06.2008
Ciúme pontuado
não tenho ciúme do que não tive
do que não chegou a mim
do que não tocou minh'alma
do que não me confortou
do que não me fez sonhar
não tenho ciúme do que foi maiúsculo
mas não esteve aqui
do que foi sensível
mas não tocou aqui
do que foi verdade
mas não se fez real
não tenho ciúme do que busquei
e não tive, pelas razões que forem
do que quis e não alcancei
pelas razões que forem
do que desejei e não provei
pelas razões que forem
não tenho ciúme nem do que tive
porque, se tive, fui feliz
e felicidade não dá tempo
pro sofrimento se instalar
e fazer morada permanente
não tenho ciúme dos meus pontos
das minhas vírgulas
das minhas reticências
invadidas pelo olhar alheio
elas estão aqui
devoradas ou não
apreciadas ou não
discutidas ou não
ainda estão aqui
como esses teus olhos escuros
que não desviam dos meus
e que não me permitem o ciúme
e nunca me dizem adeus
Aos 34 minutos do dia 04.06.2008
Brinde
Um sim
um brinde
uma lágrima
no copo de cristal.
Escorre solta
despede-se
o soluço prende
voluntariamente...
Escoras derretidas
soluções imprevistas
um vão na estrada
um fogo na escada
que vai adiante
sem perguntar a razão.
Um brinde cego
exercício degustado
com precisão.
A lágrima perdida
não-vista
não-lembrada
não-sofrida
de novo
outra vez.
A fome certa
saciada.
Equilíbrio no espaço aberto
liberto de frentes
ou de luvas nas calçadas.
Período ganho em vertigem
de publicação
de letras em piercings
invisíveis condições
pra estarmos felizes.
Nós dois.
Aos 23 minutos do dia 4 de junho de 2008
terça-feira, 3 de junho de 2008
Temperatura
Febre. É de febre minha noite
por detrás das cortinas
debaixo do capuz negro
que esconde os olhos que me vêem.
Febre. Testa quente, calafrio na espinha.
Arrepio constante, incômoda dor.
São travessões no meu ninho
escurecido de quedas...
Febre.
.
.
.
03.06.2008 - 23h46min
Medidas
Quantos anos têm os dias?
Quais supostos enganos
aguardam nas ruas?
Como se conta o tempo
não vivido?
Como se encontra o prazo
não vencido?
Quantos passos até teus olhos?
Onde a razão do encantamento?
Até onde a coragem?
Quantas melodias guarda
uma voz?
Quantas loucuras ainda terão vez?
De quantas declarações de amor
se faz um riso?
A alegria é um estado ou uma situação?
Nó mais solto amarra mais?
Seriedade assusta?
Quais motivos são suficientes
para romper sólidos vínculos?
É mais feliz quem ama mais?
Qual é o preço de um abraço sincero?
Quanto te custa a distância?
Que peso têm tuas mãos
na minha pele?
É teu coração que vê,
ou será tua obra?
São teus sonhos as algemas
que prendem os meus?
A luta diária te aumenta o fôlego?
O fôlego da luta, aumenta teus dias?
Vinte horas apagam 20 anos?
Quem nasceu antes: eu ou o teu encanto?
Quantos quilômetros estendem
as estradas que te guiam?
É absurdo um começo sem haver?
Quantas lágrimas, antes
que a fonte seque?
Quantas secas, antes
que a esperança nasça?
Que diferenças guardam 20 anos?
Que planos aguardam
os panos da rede lilás?
Onde o calor da estrela?
Quantas diferenças revelam
semelhanças importantes?
De quanta proteção precisa
um anjo?
Distância é atitude ou escolha?
A medida exata da vida.
Existirá?
03.06.2008 - 18h20min
Tanto querer
E o tanto que eu te quis
entre as linhas e os risos
e os parêntesis que abriste
entregues na letra de uma única
canção.
E o tanto que desejei o tato
o olfato o perfume a flor
entre os rabiscos e decências
das tuas presenças
das tuas conversas
das frestas abertas
nos pareceres expostos
nas ruas das rugas
dos cantos dos meus olhos.
E o tanto que busquei o fato
de ser só tua e te querer só meu
entre as fendas da história
que condena mulheres como eu.
E o tanto que sofri em silêncio
por me ter sido negado
o direito a esse mesmo silêncio
o direito ao legado
da minha condição.
Não consegui.
E te quis.
Eu
te
K
I
S
S
.
03.06.2008 - 01h35min
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Dispensa
Desfio palavras múltiplas
levianamente lançadas ao léu.
Voam soltas as carapuças vocabulares
entre tempestades e interrogações
intermináveis construções frasais
que soam verdadeiramente melodiosas
encantadoramente hipnóticas
no que há de melhor entre nós:
o entendimento, além delas,
as palavras...
02.05.2008 - 20h26min
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