quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Até o dia amanhecer
Insone aventura pelos teus risos.
Madrugada: suculento abacaxi.
Sucessivas histórias de dois
e os olhos acesos
e os lábios acesos
e a vida acesa
na via do afeto.
12.08.2009 - 16h20min
TI
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Aceno o lenço branco da partida anunciada
Aceno o lenço branco da partida anunciada
os avisos foram mil
mil sonoras despedidas
outras mil silenciadas
pelo medo da hora
que viria.
E veio...
Aceno o lenço branco da partida anunciada
as composturas todas perdidas
as forças todas agrupadas
pra não dar trégua ao arrependimento
e manter os pés na estrada escolhida.
O medo da hora que viria.
E veio...
Aceno o lenço branco da partida anunciada
jamais dirão que foi num repente
jamais dirão que foi num arranque
jamais dirão que foi sem medida.
A medida do medo da hora que viria.
E veio...
Aceno o lenço branco da partida anunciada
molhado d'água salgada
vertida não se sabe d'onde.
Jamais dirão que foi sem dor.
A dor do medo da hora que viria.
E veio...
Aceno o lenço branco
Aceno o lenço
Aceno o branco
O lenço
O branco
O aceno
O medo
A dor
A hora
A vida
A outra vida
Todas as outras vidas
Todas as despedidas
Todos os acenos
Todos os lenços
Todos os brancos
Todos os medos
Todas as dores...
Tudo o que viria...
O que veio...
O aceno branco
e o lenço da partida anunciada.
O lenço anunciado
e o aceno branco da partida.
O branco aceno
e o lenço anunciado, partido.
A partida branca
e o aceno no lenço anunciado.
O anúncio partido
e o lenço branco acenado.
O lenço
O aceno
O anúncio
O branco
A partida que viria...
E veio...
11.08.2009 - 15h41min
Das escolhas
Toda escolha implica uma perda
perde-se tempo
perde-se força
perde-se sossego
perde-se algo
que muito se queria
perde-se o fio da meada
a bainha do dia
a estrela sagrada
Toda escolha exige
que se abra mão
d'algo que antes havia
talvez fosse bom
talvez nem tanto
talvez nem deveria
ser motivo da escolha outra
aquela que se perdia.
Toda hora
cada instante
cada partícula de vida
é encruzilhada.
E as escolhas
sejam quais forem
definem o agora...
Amanhã...
Minha escolha será hoje...
11.08.09 - 15h30min
sábado, 8 de agosto de 2009
Iguaria
Caviar?
Ova de esturjão, isso sim.
E sabe ser bom...
08.08.2009 - 17h19min
Não é poesia? Porque?
Proporção
O mundo da minha infância
era largo e intangível
milagrosamente enorme
maior que uma bola de neve
maior que uma tempestade.
O mundo da minha infância
era azul e leve
bola de sabão intraduzível
inalcançável espaço físico.
O mundo da minha infância
diminuiu...
Cabeça de alfinete
é o mundo da minha maturidade
e eu confesso que preferia o antigo;
naquele havia mais poesia...
08.08.2009 - 15h18min
De poesia e de criança
Brotoeja
Gosto de papéis amassados
reticências
e coisas antigas ...
Brotam poemas
brotos de maçã
batatas palha na folha
amassada
descartada
no canto da mesa de trabalho
onde ninguém se debruça
há anos-luz.
Reformas nas paredes da sala
e a continência dispensada
por saber que é sábado
dia de faxina na casa.
Papel de bala na cabeceira da cama.
Lâmpada apagada.
Digerida economia.
Suspeita pairando no ar:
quando é que o peito deixou de bater?
Não sei...
Não sei...
08.08.2009 - 14h32min
Absurdos
E se essa chuva tiver gosto
de bala de hortelã
na boca de uma (in)tensa manhã?
E se a tarde tiver incenso
cobrindo a avenida nua
e a rua orvalhada não der um passo
nem um martelo nem um sussurro?
E se a árvore da vida
jamais nascer de fato
e o cabo da vassoura
virar um grande retrato
no embrulho de presente
que esqueceram de oferecer?
E se a chave não couber na fechadura
e não houver outra saída
além da abóbada terrestre
onde os ETs estão de partida?
E se o bruto virar padre
e o cabelo abrilhantar o escuro
na pretensa despedida
de um sem terra ou sem estudo?
E se a proposta não passar de acaso
e o orgulho não cobrir o rasgo
feito no lençol do abuso
quando o gasto e o absoluto
simplesmente passarem da medida?
E se a conta e a perfeição
forem irmãs da conversa
e a discussão disser que não interessa
o fio da navalha estendida?
E se tudo não passar de um grande erro
ou de um tropeço
de um soluço
de um começo?
Que começo?
O começo do absurdo?
08.08.2009 - 14h15min
Amanheceu
Ser ou não ser
O Tudo e o Nada
Fera assumida
desfaçatez no disfarce
assola os tais dias
cheios de nada mesclado a nada.
É ocre a tez da noite.
Lágrima engolida
atravessada na garganta:
câncer.
A crise solta as amarras
e o polvo dá cria.
A prostituta gargalha
uma gutural alegria.
Perdidos os escritos
o poeta se perderia?
E o que há de comum
naferananoitenocâncer
nacrisenopolvonaprostituta
nopoetaesuasembolias?
Tudo.
08.08.2009 - 13h10min
Para Sartre e Quintana;
o que eles têm em comum?
Tudo!
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Uma pitada de polêmica
Descobri assim meio que de repente
num desses costumeiros insights
que acontecem com toda gente
que os homens muito carinhosos
aqueles que se declaram diariamente
aqueles que se desmancham nos elogios
aqueles que estendem tapete vermelho
e juram amor eterno
e juram fidelidade eterna
e juram juras eternas
são os menos confiáveis
ainda que sejam os mais agradáveis
os mais bonitinhos, os fofos demais,
aqueles com quem gostaríamos de passar o resto da vida
se não fosse a multidão de concorrentes
querendo o nosso lugar - e tendo, de vez em sempre.
Os outros, todos os outros,
os que são estúpidos de vez em quando
que dificilmente falam de amor
que não juram nem pela pele da sogra
(o que aparentemente resolveria dois problemas)
que nem sabem que existem tapetes vermelhos
aliás, nem sabem que existem tapetes
e que de vermelho só reconhecem
a bandeira do time do coração.
Todos os que roncam de noite
os que roncam de dia
os que não ronronam nunca
os que vão embora sem se despedir
os que não respondem pergunta alguma
os que se divertem pouco e pouco riem
os muito sérios
os muito aplicados
os muito bonitos
os que evitam falar em fidelidade
os que evitam falar em eternidade
os que evitam falar em cumplicidade,
são os que permanecem.
Não se rasgam de gentilezas
mas também não te rasgam o coração;
não se declaram abertamente
mas também não te machucam intencionalmnte.
Não são a alegria em pessoa
aliás, até que são meio tristes
têm mesmo certa intimidade com a melancolia
e não raras vezes são declaradamente infelizes.
Mas são constantes.
Estão ali.
Aguentam o tranco
(se a gente aguentar o ranço).
São firmes e oferecem segurança
inclusive essa, aos trancos e barrancos.
Só não lhes peça romance
que tudo tem um limite...
Ah, se tem...
05.08.2009 - 15h
(Porque a proximidade da primavera me deixa assim:
engraçadinha..hehe)
Agosto
Arrisco dizer que senti um gosto de flor no ar
um tentáculo primaveril roçou-me as faces
um calor de sol invadiu-me a alma.
Confesso que estava com saudade dessa leveza
de não ter que vestir 5 blusas por baixo do casacão
de não ter que enrolar-me no cachecol largo
- quase um cobertor -
e ainda assim sentir frio.
Confesso gostar da despedida da montanha de edredons
que me cobre toda noite
desde que o rigor resolveu fazer morada
nesse meu longo inverno gaúcho.
E o gosto de flor no ar
Ah... que gosto
que gosto
que gosto...
Mal espia pela porta fria o mês de agosto
setembro libera perfumes
pr'avisar que já vem entrando
pelos lados dos ventos uivantes
que sopram nessa minha serra de morros muitos.
O que me encanta desta feita
é a surpresa do gosto de flor no ar...
Ah.. gosto....
05.08.2009 - 14h30min
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Uma
Eu hoje escrevi feito louca
pra não perder o jeito
ou não perder a loucura
tanto faz
as duas coisas andam juntas
meu jeito
minha loucura
minha poesia.
São três?
Não.
Nem duas.
São uma.
04.08.2009 - 16h30min
Invenção
Estou boa de inventar
um outro jeito de poetar
um jeito assim meio moleque
de quem não se arrepende
de nada dizer direito.
Estou pra inventar um jeito inocente
de quem está ou é meio doente
meio sem pé nem cabeça
meio coluna do meio sem intenção de pretendente.
Estou boa de inventar
um jeito contente de poetar
que não conte as sílabas
nem os espelhos.
Que não tenha vernáculos rebuscados
ou formas estabelecidas antes do começo da escrita.
Estou boa de inventar um novo invento
uma coisa qu'inda não exista
uma vírgula no verso
um raio de sol que rasgue a noite sem lua
um suspiro de alívio sem dor.
Faço votos que meus novos versos
esses mesmos
assim meio desconexos
meio sem medida
mancos
descalços
ou de saltos altos
ou de pernas de pau enormes
sejam mais que versos
sejam gritos.
Que poesia é essa coisa absurda
de dizer as coisas entre os dentes
e não ir dizendo nada que construa
e mesmo assim ir construindo paredes
d'algo que ninguém enxerga
mas que todo o mundo sente.
Ando com muita vontade de inventar o verso mudo
ou o verso de dois quilômetros de largura
ou de mais de mil metros de diâmetro.
O verso número mil
o diverso
o reverso
o que dá vontade de ver
ou não.
O que dá vontade de ler
ou não.
O que dá vontade de ter
ou não.
Escrito
gritado
manipulado
desfeito
maldito
comprido
comprimido
contrafeito
destoado
destonado
desenterrado
do mito
do muito
do famoso
"diga ao povo que fico".
Fico onde, se não caibo no espaço da folha?
Fico aonde, se não minto o bastante?
Estou pra inventar o verso mentiroso
um jeito de poetar que finja alegria
ou um sorriso faceiro
quando chorar era o que eu queria.
Estou pra inventar um jeito amargo de poetar
o verso que não sustenta
a língua nem o prato
quanto menos o pranto.
Estou boa de inventar essa reviravolta
que eu não sei de onde tiro
se foi ontem
se ontem se foi
se se cumpriu o delito.
Se gaguejo poetando
se, ao poetar, gaguejo
se gargarejo um poema
se cruzo os braços
e praguejo.
Estou boa de inventar
esse jeito de poetar desamassado
que compara a porta ao descabelado
e estremece de dó
de pena
e de vínculo
nos fios da tomada exposta
desconstruída.
Estou boa de inventar
um novo unguento
pr'essas minhas feridas doridas...
Ai...
04.08.2009 - 16h17min
Tresloucada
Tresloucada escrevo novos versos
meio sem nexo algum
que é pra ver se desvirtuo
um tantinho só
um só tantinho
essa minha vontade de ser certinha
a certeza que eu nunca tive
o caminho que eu não cheguei a seguir.
Solto os dedos no teclado
e permito que eles mesmos digam
o que eu não ousaria dizer
de boca lavada
e cara limpa
diante de um espelho quebrado
ou de um microfone a todo volume.
Quero distância das sinceridades todas
prefiro as mentiras cabeludas
pra fazer tranças e longos penteados
e fingir que tudo permanece intocado
feito relva virgem
em clareira aberta na floresta desconhecida.
Permito que meus membros gritem
as coisas que eu não pronuncio
nem sonho em dizer sem testemunhas
ou quadros de funcionários
e discursos de teses sem sentido
sem intenção
sem conclusão precisa.
Eu quero a liberdade de saber-me nua
despretensiosamente destituída de conceitos
e propostas oficiais.
Eu quero a cicatriz que me rasgou o peito
e o peito que recebeu a cicatriz.
Quero a marca
a trégua
a régua que traçou a linha
que eu não fiz
que eu não pedi pra fazer
mas que tenho que seguir
à risca
dia
após
dia
no interminável solo aberto
diante de mim.
Tresloucada escrevo
e digo
despudoradamente
o que me vai nos extremos
dos membros que me bastam
dos socos sovados no estômago
dos santos orados olhados ocupados
pelas orações que eu não pedi.
Tresloucada.
Escrevo...
E tu não entendes.
Nem deverias.
Nem poderias.
Nem ousarias.
Escrevo
mesmo assim...
04.08.2009 - 15h
Cuidado comigo.Eu queimo!
É feita de sonho essa minha vertigem
de frutas do conde
de restos de tijolos
das construções erigidas a dedo nu.
Eu mesma entalho os quadros
que penduro nas paredes imaginadas
das celas dos quartos dos brancos hospitais internos.
Incomodo uma meia dúzia
e outra dúzia e meia abençoo.
Se sou artista
e soo comunista
ou um tantinho autista
busco as rimas na gaveta vazia de dicionários
extintos vocábulos ardentes
nas chamas das velas que anunciam
um novo amanhecer.
Dolorido amanhecer radiante de raios de sol coloridos.
Quem pediu pra nasceu?
Quem conduziu os braços e os padrões
estabelecidos anteriormente
quando nem sinal de vida havia?
Se sou comunista
e soo autista
é que sou artista
da letra desconjunta.
Junto verbo com verbo
e sai um amontoado de minhocas famintas
de entendimento.
O sebo não gruda as canelas
nem os prantos liberam alegorias deveras.
Das Veras, dos viadutos, dos verões
que evaporaram nos dias de frio
sucessivos arranhões nos portões
de um céu sem nuvens.
Vadio.
Ou do inferno.
Que seja.
Se sou autista
e soo artista
é que sou comunista
sem um pingo de remorso
pelas noites mal dormidas
insones pesadelos desacompanhados
ou mal acompanhados
ou indispostos pesos nos cabelos
que operaram maravilhas
num mundo inexistente
in-ven-ta-do.
Ventania.
Se sou comum
se sou arisca
se sou feminista
enfrento a conquista
e todos os xis e todos os 'ipisilons'
impostos pela minha condição
de ser nada
num mundo vazio
de milhares de pontos finais
de sem números de pingos nos is
de incontáveis exclamações viris.
De meninos hostis.
De ocos homens soltos.
De zumbis.
Se arrisco
se petisco
se permeio
se costuro
se entretenho
se encorajo
se arrebento
atormento
enterneço
atordoo
é que sou pólvora
e assoalho.
Não me tem nenhum povo.
Não me agrada nenhum enigma.
Não me prende nenhum perdão.
Danço e disfarço as letras
em cantigas quase insaciáveis
de compreensão.
Se sou delírio
não me abuse.
Não lamba os beiços da lua.
Que o mistério é explosão.
E nenhuma costura
te alcança a alma
depois de rasgado o desejo
depois de tida a expulsão.
04.08.2009 - 14h30min
Já vai tarde
Um passo em falso
e já era.
Foi num tempo disperso
deixou de ser sem rastro
nem pegada alguma
que denuncie sua estada.
Foi.
Já era.
Perdeu o bonde
o trem andando
o táxi na curva do caminho
bem no meio da lida
num dia chuvoso
e escuro.
Foi
Já era.
Perdeu a passagem
o passe, o vale, o ticket.
Foi.
Já era.
Traduziu o reduto
do meio da linha
no fim da linha o fundo.
Foi.
Já era.
Nem um assovio
nem um aceno
nem um deslize.
Nada que indique presença
presente ou passada
distante ou futura
nem um vestígio.
Foi.
Já era.
Os escombros
os aquedutos
os restos mortais
os entulhos.
Nada.
Foi.
Já era.
Um fio de cabelo
o fio da navalha
o fel na lábia.
Foi.
Já era.
É tarde.
04.08.2009 - 14h10min
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Epitáfio Segundo
Aqui jaz a aurora
de dias ardentes
tão ardentes que consumiram
a si mesmos
na própria chama.
Aqui jaz a fauna e a flora
a lágrima solitária
o riso falante
o desejo latente
de permanecer
n'algum brilho anoitecido
n'algum som difuso
n'alguma gota de chuva.
Aqui jaz a que nunca esteve
o estudo do improviso
a exaustão em forma de gente.
Aqui jazem os livros
os versos
os sonhos dormidos
os sonos despertos.
Jaz meu limite
meu fôlego
meu intelecto.
Jazem minhas duras penas
minhas pás diversas
meus pés velozes
meus papéis rasgados
meus punhos cerrados
meus erros
meus medos
meus modos.
Aqui jaz meu epitáfio.
03.08.09 - 16h
Desassossego
De todos os imprevistos
o que mais me desassossega
é o que vem do coração.
Do meu coração
essa bomba relógio
que fica tiquetaqueando
sem trégua e sem aviso prévio
do instante exato
em que vai ser tomado
de susto por algum repentino clarão.
Ah...
É quando tudo se ajeita
todos os problemas ficam pequenos
todas as ilusões possíveis
as distâncias transponíveis
os jargões aceitáveis.
É quando todo mal vira cura
toda intenção é saudável
todo invento é bem vindo.
Quando essa bomba relógio
tiquetaqueia mais alto
desfaz as trevas e as tremedeiras
soma raízes e trepadeiras
alumia o dia
a noite
o tudo
o toldo do mundo...
E me desassossega...
03.08.2009 - 15h33min
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