sexta-feira, 7 de maio de 2010

Amor de verdade

Eu disse que não diria
e assim o farei
nem uma única palavra sobre o dia
instituído sabe-se lá
por qual lei
de homens 
de comerciantes
de interesseiros de plantão
não sei.

Eu disse que não diria
e minha palavra conservarei.

Daí dizer outra coisa agora
que a data se aproxima
logo ali, depois da lua
enquanto o dia de hoje
já quase se inicia.

Direi do que nos faz diferentes
do que nos põe à prova
diariamente
do que nos liberta 
do que nos angustia
e ao mesmo tempo nos acrescenta
outros tantos bons motivos
de enorme alegria.

Direi do que nos faz maiores
e do que nos presenteia
sem presentes ou enfeites ou cartões
não precisa, não faz falta
nenhuma dessas representações.

Direi do que carregamos ao colo
independente do tamanho
pode ser um mês e meio
pode ser o primeiro fim de semana
pode ser a vida inteira
mesmo depois de marmanjo.

Direi da eterna companhia
inda que conosco só permaneça
poucos anos de folia.
Direi do amor sem tamanho
que dia e noite nos acaricia
e nos leva a torcer juntos
pelo dia seguinte.



Nada direi das mães.
Direi dos filhos
que nos emprestam olhos
com outros olhares
diferentes dos nossos.

Direi dos filhos
que dormem suaves
que crescem num repente
que choram de saudade.

Direi dos filhos
esses sim
nosso bem permanente...









07.05.2010 - 1h56min
Para Alina, abençoada escolha minha,
meu amor verdadeiro.

*Clique nas fotos, para ampliar.

Desde antes...

...até depois 
de todos os invernos
de todos os precipícios
de todas as torrentes
de todos os sacrifícios.

Desde antes
até depois
do último suspiro
do último lamento
da última parada
do último tormento

Desde antes
até depois
de todas as alegrias
de todas as gargalhadas
de todos os degraus
galgados a ferro e fogo
e vencidos.

Desde antes
até depois
das experiências
das alianças
das descobertas
das esperanças.

Desde antes
até depois
de tudo em mim
o teu brilho
o teu salto
a tua luz
seguindo
o meu calor.









07.05.2010 - 1h13min
Para meu príncipe guerreiro,
Blue Knight - o único.
'Me entrego com  a confiança
do trapezista vendado'

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Paixão

Tenho nas conchas das mãos
o som do teu riso.
Circulando meus dedos
os teus anéis
os mesmos que te enfeitam
(como se fosse necessário)
quando andas no meio 
de vorazes feras nunca satisfeitas
com o gosto da carne humana.
Tudo o que eu queria
vibra ao som da tua guitarra
e só debaixo do teu toque.
Tenho no limite do peito
o som do teu coração.
Circulando meu rosto
os teus cabelos
os mesmos que se fazem inverno
enquanto a curva do teu tempo
se alinha à minha.
Tenho no limite das horas
as honras de saber-te meu
as delícias de saber-me tua.





06.05.2010 - 02h25min





Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinícius de Moraes


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Liberdade

Afio a língua
e cego a foice.
Liberdade é imperativo
pra quem sabe amar.
Abre as asas e voa.
Que os Oceanos não te sejam
obstáculos precisos
ou motivos suficientes
pra impedir-te do teu vôo alçar.
Cego a língua
afio a foice.
O cordão não é elástico
é preciso cortar.
Voa teu vôo livre.
Não te seja meu afeto
algema
que te impeça de permaneceres
no ar.
Vai.
Qual Menotti, voa e canta.
Diante dos teus olhos
o infinito.
Um mundo inteiro
a conquistar.
Vai, voa, e canta.
Constrói tua estrada
que o trem já vai passar.

Corto a língua na foice
afrouxo o nó.
Liberto.






03.05.2010 - 04h17min


Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.

Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas.


Conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre
para o mais alto.


No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens
na garganta.
Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desce que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo do céu?
Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.


(O Vôo - Menotti Del Picchia)

Cidadania?

Sento a um canto, abro o jornal, e assisto escorrer o sangue.
Sento a um canto, ligo a televisão, e leio o mesmo sangue escorrido
do jornal assistido, pela manhã diária.
Sento a um canto, acendo a luz, e cego o pegajoso sangue
assistido no jornal, lido na televisão e grudado nos meus dedos
de espectador aprendiz.
Sento a um canto, deito os olhos na estrada e nada ouço
além do nada que cabe a mim.








03.05.2010 - 03h40min

De verdades e mentiras

Talvez a verdade não exista
e seja só uma invenção
pra gente não viver tão triste.
Talvez não exista a mentira
 tudo um grande axioma
com facetas diversas
que parecem o oposto do que são.
Talvez a verdade dependa só da gente
e da nossa vontade de acreditar no que não é.
Talvez essa crença seja nossa cura
ou a razão única da nossa doença.
A verdade, disfarçada de outra coisa
pra nos dar força
pra nos fazer sobreviver.
Sobreviver a que?
Aos desmandos diários
aos nossos próprios demônios
às ilusões a que nos agarramos
como se nenhuma outra alternativa houvesse
além do oásis-miragem
no quadro sensacionalista
que a gente carrega debaixo do braço
pra não esquecer.

Talvez o espelho deforme a imagem
- quem garante que o que vês
esteja de fato representado
no que existe de concreto? Ou
será que o reflexo é que reflete
o que de fato o fato é?-.
Talvez a mentira seja uma verdade
que enlouqueceu - de burrice, talvez?-.
Ou a verdade seja só um instrumento
talvez só um meio, pra se alcançar...
O que? A própria sombra,
morta de embolia pulmonar.

Talvez um dia as duas se descubram irmãs
gêmeas.
Talvez, e apenas talvez, numa hipótese muito remota,
as iguais se fundam.
E aí, talvez, e apenas talvez,
não haja mais razão de ser
da dúvida,
essa mãe da insensatez...

Até lá, as verdades e as mentiras
permanecerão confundindo nossas mentes
nossos olhos, nossas mãos.
Até lá, as mentiras bem contadas
serão verdades, até prova em contrário,
e as verdades mal contadas parecerão mentiras
correndo nós o sério risco de perder nossas preciosidades.

Talvez a verdade seja uma mentira que enlouqueceu
de tanto acreditar
.
.
.
.
.
.
.
.
























03.05.2010 - 03h26min 

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Valor

Sofro meus passos
como se principiante fora
na matéria e no Cosmos
feito inconsequente literata
que trata mais de delírios
que de versos crus e raros.
Sofro meus atos
como se participante fora
d'algo grandioso e único
feito incidente de pleonasmo
feito diferença na multidão.
Sofro meus fatos
como se aceitante fora
na linha da vida riscada
feito faca translúcida
na palma de minha mão direita.

Sofro minhas esquerdas.
E pago o preço.
Alto.
Sem arrependimentos ou afins.
Pago.






29.04.2010 - 23h23min

Trago areia em minhas mãos...

... qual ampulheta,
que perde num ínfimo vão
o minúsculo grão,
assim eu perco meus minutos
plantando sementes de mel e paciência
num tempo que não é o meu
mas que eu finjo ser.
Um dia branco
é quase dicionário vazio
aberto
na pequena âmbula
sem óleo
sem olhos
sem sinônimo algum.







29.04.2010 - 23h07min

Das palavras. De novo. Outra vez.

Mais de uma vez escrevi sobre as palavras e suas armadilhas.
Mais de uma vez escrevi sobre as palavras e seus mistérios.
Mais de uma vez escrevi sobre as palavras e suas aderências.
Mais de uma vez escrevi sobre as palavras.
Dá-me vontade de rir dessa sede que tenho
de dizer o que me provocam as palavras
essas insensatas bastardas
que teimam em querer se definir
a partir dessa minha necessidade de escrever.

Mais de uma vez escrevi sobre as palavras
e que outro instrumento mais provável poderia haver
que elas próprias falando de si mesmas?
Té busquei alternativas outras
interessantes e talvez com algum toque diferente.
Nada, porém, mais me satisfaz, que as palavras.

Inda que elas sejam usadas pra me enganar
inda que elas sejam usadas pra me ferir
inda que elas sejam usadas pra fingir o que de fato não é.
Instrumentos de tortura, afago ou fé
tanto faz, não importa o aprendiz
nem que o resultado delas
me seja outra cicatriz.
Há tantas em mim!
Outra, pouco faria diferença...

Mas as palavras riscam meus caminhos
surrupiam meus sonhos
deliram minhas veias
amaldiçoam meu futuro que nunca será.
E eu sei que é assim.
As palavras me enrolam
me amordaçam
me sequestram
e me matam.
Sim.
As palavras me matam.
Morro na boca delas todos os dias.
Pelo mal, mas, principalmente, pelo bem.
Morro pelo bem delas
que povoam meus pensamentos mais íntimos
e dançam entre as imagens mais queridas
e os sons que guardo pra mim.
E todas as minhas exposições.
Eu, publicamente nua,
sem pudor ou decência,
nas palavras que digo, que faço ouvir,
que defendo, que cuspo, que escrevo
inclusive nas que planto em versos
feito bordados de candura.
Eu, vestida só de sentimentos.

Mais de uma vez escrevi sobre as palavras
e sei que elas são vento...







29.04.2010 - 22h54min

Dia disso, dia daquilo, daquele outro, infinito...

Nada direi sobre as datas
a não ser que as tais se refiram
a nada que já esteja escrito.

Não gosto de datas impostas
que quase nada significam
a não ser
ser igual a ninguém.
Não, não errei.
Todo o mundo pensa ser visto.
Visto de fato, não é quase ninguém.

E então fez-se a data
muito esbelta e bonita
no sexto, segundo ou décimo dia
de um mês qualquer
que qualquer inventaria.
E o visto quis ver.
E o fato foi bem quisto.

Por isso mesmo
do que se convencionou ser
nada direi
mesmo que o seja.


Calarei.











29.04.2010 - 01h34min

Divagações

A voz rouca
de dizer as mesmas frases
o assovio apagado
de falar o mesmo nome
a mão firme de gelo
de plantar a mesma chama.
Um passo em valsa
organizado pelo arremesso
do falso espelho.





Pára!




Sem risco, que sentido há no mundo?







29.04.2010 - 01h26min

Desconjunturas

Lá fora a noite fria
um som distante de lua
uma quietude paciente
um não-sei-quê previdente.

Fui eu?
Foi a lua?

Quantas vezes deitei meus açoites
quantas coisas disse sem lei
quantos alfinetes enderecei sem porte
quantos livros deixei de ler?

Sopro a espuma insistente
do banho recém tomado
com cheiro de flor
e cabelo orvalhado.
O sono sem sonhos
traduz o momento.
No ar, a caneta vazia
dança.








Escrever será poesia?










O bar ameaça um movimento
e fazem falta antigas companhias
na luzinha crua da mesa vazia
trancafiada entre as tábuas gastas
que lentamente se diluem
e num único gesto excluem
os lenços batidos de feridas ex-postas
à condenação das massas.
Os cartazes explicam sem consistência.
Nada resiste à resistência
e se tudo é palha
o fogo é bandido
e a água é só o contrário dele.


Amanhã
festa e festa e festa
pra ver se o corpo atesta
o que hoje a alma adivinha.








No mesmo instante
gravado no pouco que resta
vida e morte
severinas ou não
de mãos dadas
e pés descalços
sem qualquer direção.







29.04.2010 - 01h12min

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Consonância

Que amor rime com dor seja um fato
todo o mundo o sabe
o que não sabem os desavisados
é que a dor não precisa ser por motivo
que defina um fim a tudo
mas simplesmente de saudade
num instante sofra o pobre improviso
e mesmo de longe um olhar
um sorriso
uma prece sobre uma pedra
alivie o olhar triste
e d'esperança cante a cura
crave a atadura emergente
e já não haja sinônimos concludentes
mas um leque de símbolos
que supram o espaço vazio
té que 'ele' chegue
de novo
e outra vez
e a rima seja só um entalhe
esquecido debaixo dos travesseiros.


Dos três.








28.04.2010 -22h48min

Modulação

Mais ao Leste
d'onde brota o fruto da vide
a vida floresce devassa
nas metalizadas cordas de um Blues.
As caveiras nas falanges
as histórias de viagens
de amigos, de amores
de notas medidas nos versos.
Os sinais que só dois conhecem
e os horários contrários
impróprios para menores palpites.
Descomunais intentos
incrementos de couros e cetins
óculos escuros e troncos 
velhas memórias e risos de arlequins.
Mais ao Sul
d'onde tudo acontece
a vida medita um lance de escada
a escolha aceita num pote de mel.

Lá onde os sons se confundem
e os sóis se divertem
em espaços vermelho-vivos
esculpidos n'ouro
cravejados de rubis,
é que os pontos unem as linhas
e nenhuma outra palavra existe
além do SIM!




28.04.2010 - 21h06min

Família

Laço independente
fita mimosa latente
nó que amarra sem dor
flor que voluntária nasce
e-terna semente de amor.

Quem disse que a gente não escolhe?




28.04.2010 - 07h04min
This is my message to you

Metamorfose

Do lado de cá da folha branca
o pote de ouro do arco-íris 
pintado na dobra exata do teu ombro
onde minha cabeça descansa
da fadiga diária.
Entre tuas cores invento moda
eternizo a história esquecida
modifico a canção antiga.
Dando um passo de cada vez
redigimos nossa epopeia
enquanto o sonho bom
fantasia a realidade
cria asas
vira anjo
meu.
Tu.






28.04.2010 - 06h09min

terça-feira, 27 de abril de 2010

Compor





Escrevo.
Vão-se meus dedos
anéis e planos
escorregando por oceanos
de detalhes, vírgulas e sensações.
Grãos de areia nos sapatos das gentes
gotas d'água nos tempestuosos copos
virados de cabeça pra baixo
sobre mesas vazias 
de desconhecidos ausentes.
Escrevo.
Vão-se os suores e as permutas
os sonos  e as calculadas
variações nas rotas dos cometas.
Vão-se os vãos das cartas marcadas
e as premissas de estiletes afiados.
Vão-se os meus delírios
e as minhas sacadas
os termos abstratos e as favas contadas.
Vão-se os interlúdios
os colóquios
os diálogos certeiros
as prendas bonitas
as plantas rasteiras.
Vão-se as almas de terceiros
e os nascimentos 
os fins e os meios.
Escoam
quando escrevo
os meus 
medos...






Aos 52 minutos do dia 27.04.2010

Bala Fumaça





Nas avenidas movimentadas
inevitáveis cruzamentos
e ocultas forças desiguais.
Há que se ter paciência nas paradas
consideração nos silêncios
alegria nas arrancadas.
Há que se ter domínio de passos
e um guarda-chuvas gigante
pra evitar as repentinas trombadas
de chuva ácida e despeito evidente.

Quando o trem passa
bala ou fumaça
o resto é detalhe
pequenas impertinências
querendo impedir viagem.

O trem, maior que a maldade
o trilho, maior que a intenção
o destino,
fornalha,
paixão.





Aos 27 minutos do dia 27.04.2010


segunda-feira, 26 de abril de 2010

Insônia

E daí se daqui a pouco
o dia começado a pouco
pouco a pouco ameace
amanhecer de novo?

O silêncio arranca-me sossegos
virados em estrofes
que eu nem sabia escondidas
nos recônditos da alma.
Pergaminhos e frascos de tinta preta
nos achados e perdidos das letras
que me impedem de despedir.

E daí se meu sono não chega
e se já começam os primeiros passos
da passagem das horas que eu nem vi?

A quietude é boa amiga
inspiração cuidadosa
na exata medida
igualzinha aos teus suspiros
que eu ouço e bendigo.
Tu, minha vigília eterna.
Tu, meu amor sem fim.






26.04.2010 - 04h

Blues



Já não distingo estações
os espaços se fundem
e o Sul mora no Leste
enquanto Cazuza canta um Blues.

São 3, 4 ou 5 da manhã
e teu nome povoa meus pensamentos
rodopia nos meus cabelos
disseca a filosofia que eu não conheço
(eu, que adoro filosofia!)
enquanto Cazuza brinda com Blues.

Digito poemas que são teus
divirto meus versos que te oferto
divido meus sonhos nas palmas das tuas mãos
deposito minhas ganas na tua pele nua
enquanto Cazuza brinca de Blues.

De pés descalços não vejo espinhos
de religiões, fumaça e aguardente
de sofismas, previdente
enquanto Cazuza inventa Blues.

Transgrido a lei e a ordem
natural seria nem tentar
convenciono uma nova regra
pra ver se cola
enquanto Cazuza chora um Blues.

Meu argumento é uma pedra preciosa
meus dedos têm o mapa da mina
meus partos nascem tuas letras
enquanto Cazuza planta Blues.





26.04.2010 - 03h52min