segunda-feira, 2 de junho de 2008

Dispensa

Desfio palavras múltiplas levianamente lançadas ao léu. Voam soltas as carapuças vocabulares entre tempestades e interrogações intermináveis construções frasais que soam verdadeiramente melodiosas encantadoramente hipnóticas no que há de melhor entre nós: o entendimento, além delas, as palavras... 02.05.2008 - 20h26min

domingo, 1 de junho de 2008

Constatação

Sem sombra de dúvida o mundo não dá mais voltas; qual pêndulo, balança suavemente entre as prosas e as canções entoadas por artistas anônimos maquiados de surpresa e solidão. As pressas são presas dos preços pagos por milhares de ouvintes que se apertam entre os presentes e encobrem suas dores e dúvidas com plumas de algodão doce azul. Pretende-se que o dia amanheça. Sonha-se com mãos dadas e lentos passos seguros. Convida-se ao delírio da vida onde espectador também é ator também é juiz, também é a parte ferida. Onde não se tem divisões ou cantigas que liberem qualquer da festa da diária festa escolhida. Sem dúvida, sem sombra, sem volta. Os dias com sol, nublados ou estreitos são compromissos que assumimos entre sorrisos e gemidos entre desejos e concursos entre saudades e tormentos. E é bom que seja assim. Aos 7 minutos do dia 02.06.2008

Realidade

A primeira boa impressão não se desfaz em vídeo antigo reafirmada na fragilidade exposta do peito largo que se abre e aposta na partitura do mantra sagrado no violão de Vinícius, no piano de Jobim, na voz de Chico, nas histórias afins, embaladas pelas canções de sempre embrulhadas em vistoso papel de presente como só a saudade é capaz de fazer. Reconhecer os passos já dados nas pegadas dos risos deixados pra trás e sentir-se absurdamente novo diferente, estável e preciso como só o tempo é capaz de mostrar. E encontrar numa curva qualquer a letra-metralhadora-palavra-mulher e saber que o colo existe independente da temperatura ambiente do gelo, do suor, do trabalho, independente do que houve, do que gerou, do que deteve, independente de hoje não haver de ontem já ter sido do amanhã entrecortado de paralelepípedos. Tanto faz! A vontade de estar é voraz. A vontade de acompanhar é voraz. É voraz a vontade de SER. Impressão impressa n'alma protegida por luvas coloridas estampada de beijo com sorvete. *Porque a primeira boa impressão é que fica não adianta tentar me provar o contrário, ok? 01.05.2008 - 01h50min

sábado, 31 de maio de 2008

Leitura

Leio meus poetas preferidos. Leio os poetas, não as letras. As letras são vias veias por onde o sangue queima. Leio o tesouro brilhante plantado na página vertiginosamente pranteada. O movimento azul o sonho descrito colho na saliva da noite. Banho as vírgulas na raiz da mente. Meu alimento é o poeta. A letra é apenas detalhe. Entalhe na tinta fria. Deslizo entre devaneios provocados pelas viagens do poeta que leio. A incompletude é um fato - a minha, principalmente -. Cada vez maior, cada vez mais evidente enquanto leio os poetas enquanto me faço mais gente. 31.05.2008 - 18h

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Poesia, paixão, inveja...

Poesia mata? Paixão mata? Inveja mata?
Poesia castiga.
Paixão grita.
Inveja mata.
Poesia redime.
Paixão cega.
Inveja mata.
Poesia abençoa.
Paixão maldita.
Inveja mata.
Poesia aproxima.
Paixão destoa.
Inveja mata.
Poesia acompanha.
Paixão afasta.
Inveja mata.
Poesia é tua voz.
Paixão é cópia.
Inveja é morte.
Poesia são esses teus olhos,
é esse teu riso,
é esse teu jeito de menino solto nos prados,
de homem forte no leito.
Paixão são os desatinos,
é a perda da cabeça,
da memória, do discernimento
do que é bem ou mal
do que é bom ou ruim
do que é vida ou é fatal.
Inveja é morte.
Poesia é tua presença,
tua atenção,
teu carinho misturado com letras
que são pura leveza, uma quase canção.
Paixão é desarmonia,
desarruma, desajusta.
Desastre!
Inveja
é
morte.
30.05.2008 - 04h47min
Se for pra morrer, que seja de poesia por ti,
que com amor tem a ver....

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Companhia

Ele dorme. Adormecido entre os lençóis é quase um ente é quase um estranho entregue a sonhos que não posso alcançar. Descansa as provas das procuras por padrões que estilhaçam as vidraças e os fundos das lembranças guardados a sete chaves em chaveiros ovais. Ressona entre os travesseiros a cabeça pesada de sono leve feito operário feliz no primeiro dia de greve. Greve de insônia forçada. Por mim. Eu, responsável pelo cansaço e desalento do seu corpo. Eu, acostumada a atravessar horas escuras e insanas enquanto todos dormem, e que obrigo a companhia abençoada de/por/com ele. Hoje ele dorme e eu suspiro. Amanhã, ambos acordaremos. 29.05.2008 - 02h09min

Desabafo

Estupefata fico quando meus olhos veem o que decerto não é certo o que decerto é do mal semente. Tonteio pelas alamedas da vida quando a mão que dá, reclama quando a mão que recebe, rechaça. Questiono meus valores opiniões, desgastes que evito ou que procuro, em meio a questões jazidas ou recém paridas nos hospitais das almas que me cercam e que se intitulam donas de saberes exatos. (Que será isso, meu Deus?) Queimo em meio às labaredas das línguas malditas que se dão o direito e o crédito de saberem o que existe por dentro do cara que atravessa a rua e carrega o estigma que atesta: bandido! (sem nunca ter sido). Revolto meu estômago sensível ante a poluição de mentes duras que julgam ser esta a suprema ditadura: a de quem não tem mais nada além da própria opinião, diversa dessa podre maioria. Desabafo. E volto a ser aquela que observa e que promove, se não muito, ao menos um tanto de aflição nesses tais que são por incrível que pareça, apenas meus semelhantes. 29.05.2008 - 01h26min

Acordo

Eu queria um acordo com a vida: acordar de uma hora pra outra e descobrir-me 'encontrada' por mim mesma, por ti, por esses teus olhos escuros de madrugadas pagãs. Eu queria um acordo com a vida: um giro parado no Globo uma geral paralisia. Só eu. Só tu. Donos de nossos movimentos. Nenhuma testemunha invasiva. Eu queria um acordo com a vida: uma canção qualquer a passear em nossas línguas. Um torneio de dizeres inúteis tão fartos tão vermelhos quanto uma suculenta maçã amadurecida. Eu queria um acordo com a vida: um único sono sem sonhos uma eterna noite dormida em que meus dormentes membros estivessem presos aos inclementes membros teus. Eu queria um acordo com a vida. E ela me atendeu. 29.05.2008 - 01h17min

Vingança

Minha vingança é a poesia. Vingo-me da desesperança, vingo-me do enternecimento que me toma sempre que há de ti nas ruas, nos cheiros, nos sabores que adivinho nos meus sentidos como premonição provocada por um outro, que não conheço. E escrevo. Rasgo a folha, rasgo a vida, rasgo a roupa que me cobre as entranhas passionais. Fervem-me as veias e as velhas perguntas sondam minhas cicatrizes como se não bastassem os corvos, as diretrizes e os curiosos, que fuçam meus rastros e querem e precisam e clamam pra ser um tantinho de mim. Ou ter. Ou roubar. Ou invadir. Ou tomar. Ou ignorar. Ou... O lápis corre sozinho sobre as linhas escurecidas da agenda "milenar". São milhares de confissões veladas e lidas como literais. São pombas, são gravetos, são escadas soltas nos quintais da vida. Dessa mesma vida que dividimos nos segundos em que os mortais parecem mortos em seus berços. (Esplêndidos?) Dessa mesma vida de que tenho sede e que cedo a vez todo dia em que só o que quero são teus olhos postos sobre mim. Aos 53 minutos do dia 29.05.2008

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Canção de aniversário*

Cantar a pedra que te ofereço agora não pedra sabão nem pedra canção do tipo que a gente esquece no primeiro acorde ou do tipo com o qual a gente, de cara, concorde. Cantar a pedra da idade que te chega ou que de ti se esvai hoje feito poesia escorrida pelo telhado da vida da tua vida de insistente escritor. Cantar a pedra que, longe de ser doçura, é liberdade e provisão. Providência de verso escancarado que promove reflexão e escárnio. Escarram teus contos um quê de grito. Do teu grito? Do grito do pranto? Do grito do outro? Do grito de todos os que não têm coragem ou vontade de gritar? Cantar a pedra do começo permanente da busca permanente, do constante estudar. Cantar a pedra que te guia que eu não sei que nome tem, que tu não sabes também, mas que ambos conhecemos. Cantar a pedra dos teus anos. E desejar que sempre estejas bem. 28.05.2008 - 04h39min *Para Fabrício, meu amigo querido, no dia do seu aniversário

Vem

Quando ele vem não tenho tempo pra mais nada não estou pra mais ninguém. Desfaço as amarras das convenções liberto os delírios covardes das ilusões, acorrento o medo. E espero. Na capa do livro, apresento o estilo da história que quero viver no momento em que ele vem. Quando ele vem não há deserto ou instrumento que eu não tenha aprendido a tocar. Há liras, sonetos, soluções, há espadas e épicos e histórias bem contadas, quando ele vem... 28.05.2008 - 0h39min

Irônico rugido

Eu tenho o raro dom de domar a fera que há em mim e sou tão especialista que ela nem sabe que existo que ela nunca me diz 'Sim'. Mas a mantenho cá dentro em total silêncio e segura prisão. O que diriam os moços, as mulheres, as crianças, os dementes, os anciãos, se, de uma hora pra outra, assim, de repente, a fera virasse bela e quisesse o mundo de presente? 28.05.2008 - 0h32min

terça-feira, 27 de maio de 2008

Quintana saudade...




Para Quintana, que sopra versos ao vento, inda hoje.

Repara, observa, te concentra... percebes?

Eles vêm feito brisa suave. É preciso sentimento

e um tantinho de verdade, pra recolher seu toque nas faces.

Quintana, ah, Quintana, meu velho anjo-poeta...







Sentei-me ao seu lado.

Falamos de tudo um pouco

fantasmas, cadeiras de balanço,

anjos, ventos uivantes.

Ele ouvia mais que argumentava,

é verdade, é verdade, é verdade,

dizia, entre uma tragada e outra.

Passava a mão na cabeça calva,

sorria um sorriso largo

levemente a cabeça balançava.

E ouvia, sem pestanejar,

afinal era verdade que ele jamais

havia conseguido, em vida,

as asas ocultar...





27.05.2008 - 23h51min

Messes

Ninguém me ensinou a aparar as arestas das frestas por onde esse vento frio me invade. Ninguém cercou o terreno baldio nem sequer a sobriedade que me falta na hora exata em que pressinto teu riso solto na veia do medo que tenho de me concentrar em ti. E tu, impassível na tua mocidade, te divertes, indo embora de repente como quem não tem mais nada pra dizer. E tu, impossível na tua capacidade de fazer surpresas e de provocar desempates voltas sempre, com mil coisas pra eu perceber. E lá se vão os meses, semeadores de messes e de amparos nas madrugadas férteis. Não importam as horas excedentes. Somemos os brilhos e os assuntos desconjuntos. É assim que eu prefiro. 27.05.2008 - 23h22min

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Gerúndio

Foi ouvindo o canto da sereia que ele o problema resolveu rogou à lua humildemente, tristemente pediu ao céu, um único adjetivo que lhe fosse suficiente. E prometeu: Recebendo a graça, criando o dito, chegando a manhã e atendido o pedido, 'o infinito desbarato rompo as algemas da vida por todo o Planeta, meu grito!'. E assim se fez. Pois quando do mar se vê o agito respondendo pelo nome de Atrito, escreve gentilmente poemas sem o vocábulo 'talvez'... 26.05.2008 - 22h30min (...uma prosa poética...)

Definição

São prendas, presilhas, são laços, madeixas presas, são faces coradas, sorrisos maldosos. São sonos, são sonhos, são passos, escadas, caracóis, enlaces. São estrelas penduradas nos varais, madrugadas nascendo nos quintais são milhares de visões embaçadas. São fendas, são brilhos, são raças, são reluzentes solstícios, cachaças. São versos, poemas, sonetos, palavras, soluços, travessões, pedaços... de todos expostos nas praças.... 26.05.2008 - 22h

Cuore

Core. Pinte as faces da cor da vida. Decore o sorriso da estrela. Construa uma escada de versos e vibre na escala de notas que o violão do meu corpo incendeia. Desenhe em preto e branco as medidas aceitas. Não minta. Não sofra. Não suspeite. A surpresa é um deleite e o fogo tem a fome da sereia. 25.05.2008 - 23h40min

domingo, 25 de maio de 2008

Ameaça

Vou te contar um segredo... em voz bem baixa, chega bem pertinho pra ouvir (mas depois vou ter que te matar, sabes disso, né?): Palavras têm vida própria. Saem quando bem entendem, voltam quando dá na telha, esbofeteiam, acariciam, invadem, alimentam, desnorteiam. Palavras têm asas e mania de ruminar. São boas, são más, pegam a gente de jeito e não soltam mais. Palavras são dispensáveis, às vezes, mas ninguém conta isso pra elas, então elas não aprendem, e vivem dizendo coisas que não deviam, escorrendo olhos abaixo, e, por vezes, vestindo nossas mãos, luvas que são... Ah... as palavras... *Agora que te contei o segredo, e que ouviste, podes fazer o último pedido, mas faz sem palavras, por favor... 25.05.2008 - 05h24min

Passárgada


Vou-me embora como quem
se diz liberta do vício
mas volto, como quem
tem recaídas sobre recaídas
e recaio sobre o mesmo livro
que li na semana passada
e que escrevi no início do ano
mas não publiquei
por medo do olhar alheio.

Vou-me embora como quem
tem pra onde ir
ou onde ficar
ou quem amar.
Como quem tem o que escrever
sobre o que opinar.
Como quem ri e não diz
como quem sofre e é feliz
como quem não anda
mas sabe para onde ir.

Vou-me embora
faço as malas e esqueço
o dia do meu aniversário
o dia do teu começo.

Vou-me embora e não olho nem pra trás
nem para os lados
muito menos pra frente.
Olho pra cima.
Porque é pra lá que eu vou.


Não me siga.
*nem me obedeça






25.05.2008 - 03h32min

Homenagem


Alguém que tem olhos pra ver?

Adrebal Lírio.

Adrebal não é só vidente.

Adrebal é farol.

Mostra o que há também pra gente.

Mostra o que há para o mundo em geral.

Quem quiser, que ouça, que veja, que fale,

Adrebal não esconde.

Adrebal é grito que se ouve na imagem.

Adrebal é inconformismo selvagem

atado a uma simplicidade que ecoa

há milhares de anos-luz.

Adrebal é poesia que vai adiante

e que não pára,

não pára,

não pára...













*Beijos, meu querido. Te adoro, viu?(mas isso não é novidade pra ti)







Final de maio de 2008 - porque amizade verdadeira é coisa rara...