terça-feira, 29 de abril de 2008
SIM ou NÃO?
Quem ousaria dizer SIM?
Com quantas luas se faz uma vida?
Com quantas vidas se abre um portão?
Quem ousaria dizer NÃO?
Com quantas vozes se entoa a canção?
Com quantas chaves se assina à mão?
Quem ousaria dizer SIM?
Quem com flores fere
com mágoas será ferido?
Em casa de professora
caneta nunca tem tinta?
Quem ousaria dizer NÃO?
Amar e perdoar, é só começar?
O que o coração não sente,
os olhos fingem não ver?
Quem ousaria dizer SIM?
Em terra de videntes,
têm espaço os cegos?
Crocodilo chora?
E político, depois da eleição?
Quem ousaria dizer NÃO?
Ou SIM, ou TALVEZ?
Quem ousaria dizer?
Quem ousaria?
Quem não?
Talvez.
29.04.2008 - 23h04min
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Deriva
Antiga conhecida, a solidão arrasta o manto suave
entre as alamedas acinzentadas e tristes.
O sol, há muito desistente de clarear esses caminhos,
escolheu arder em outras paragens, fazer sorrir outras cores,
exercitar o calor em corpos menos dormentes.
A História recolheu as febres e as criações desses pastos
e passou a ferro quente as folhas amarrotadas
onde escrevera esses restos de ilusões amareladas.
Caminhar constante de lentos panos esvoaçantes
num dia sem vento ou desejo algum de servir mate gelado
aos fantasmas engasgados pelo desgaste de nada esperar.
As cobranças multiplicadas pelas décadas de silenciosas
amarguras, despetaladas as margaridas na última primavera
que ninguém lembra mais há quanto tempo se foi.
Os círculos se repetem e se repetem e se repetem
giram em torno de si mesmos, copiando o movimento
de um Planeta em extinção. Inesperada centrífuga de talheres
postos sobre uma mesa vazia de propósitos.
Dormem os viventes envaidecidos pelos sonhos.
Mal sabem que os olhos são cegos e que o ontem é repetido
mais de cem vezes, sob diferentes prismas e pacotes coloridos,
entre o real e o desejado humano, entre o saber
e a ignorância
total.
Dois extremos.
Entre eles, a humanidade toda.
À deriva...
28.04.2008- 19h30min
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Premonição
Inconstante, canso de divagar.
São lentos os passos que me cercam
e os pesos impressos na folha
reluzem os pedaços do passado recente.
O gosto de fruta gelada
confude a canção que acompanha
o vaso de flores no jardim recém plantado.
A tarde livre dessa quarta-feira triste
é tapete de escala de cores
na escolha que urge entre os afazeres
esquecidos, de tanto retomar a antiga lista.
O sonho da alma liberta a libélula do pensamento.
Empresto o brilho de um céu vago
aos instantes que julgo meus, contigo.
Teus versos invadem a solidão
e quebram os vidros embaçados da lua
que se escondeu atrás de uma nuvem
de doce e branco algodão.
Espero a tempestade que se arma no horizonte,
quando já não estiveres aqui.
As possibilidades de cristal correm riscos.
As portas do futuro estão abertas hoje.
E eu temo que o medo seja tão palpável
que acabe por congelar as mãos do poeta...
24.04.2008 - 01h30min
Canção
Uma canção não precisa de partitura,
nem de letra, nem de arranjo.
Uma canção não precisa sequer de um intérprete.
Uma canção só precisa, para ser devidamente ouvida,
de um leve, suave e delicado coração.
24.04.2008 - 01h18min
Partitura natural
O VÔO
Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas,
tempo e vento, desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite
enche-o de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu vôo
te leva sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro,
as canções que tens na garganta.
Canta!
Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo do céu?
Que importa a rota?
Voa e canta, enquanto resistirem as asas.
(Menotti del Picchia - 1892/1988)
24.04.2008 - 0h40min
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Da fragilidade da vida
Um dia, por inocência, desejo de ajudar o outro ou pra chamar a atenção mesmo, a gente resolve prender a vida a um balão de gás. E esquece que o fio dessa mesma vida é frágil demais. Melhor não esticá-lo muito... ele pode não suportar... e aí ...
23.04.2008 - 01h43min
terça-feira, 22 de abril de 2008
Dos julgamentos
Creio que nenhum julgamento seja legítimo, desde que proferido por um homem. A visão humana é extremamente limitada e sujeita a influências as mais variadas; portanto, pouco confiável. Julgamentos nunca são justos, em hipótese alguma. Além disso, nem sempre as vozes dizem o que realmente querem dizer. Mais um ponto em que a legitimidade é questionada. Logo, não pergunte de onde vem uma legitimidade que não existe, de uma voz que não diz tudo o que quer dizer e que profere um julgamento limitado, inclusive, por sua condição. Seja você. O resto é apenas a vida, em movimento.
21.04.2008 - 23h39min
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Inspiração
Inspiração é coisa que a gente planta
entre as fagulhas deixadas pelo poeta.
Molha na língua o gosto da vida
e aquece o peito enrolado na manta.
Inspiração a gente colhe dos passantes
que tomam suco de melão e aguardentes.
Inspiração é aquela estrela que a gente ainda não vê
porque o sol arde forte entre nuvens esvoaçantes.
Inspiração é bicho de pluma e asa enorme
que voa sem avisar nem dizer porquê
e a gente até acredita que ela não volta
até que de repente, ela grita o nosso nome.
Inspiração é amiga revoltada e carinho no rosto
é pele arrepiada e beijo no pescoço
é sorriso disfarçado e voz rouca
é tristeza repentina e dor louca.
Inspiração é isso mesmo que envolve a gente
e faz crescer o desejo de riscar de caneta
o papel, a tez, a parede, a mente
de palavras que talvez nem tenham muito sentido
mas que estão impregnadas de sentimento.
21.04.2008 - 17h
Procura
A procura é uma das minhas inquietudes
estou sempre à procura.
Procuro por ele,
procuro por mim,
procuro por nada,
procuro o sim.
Busco aqui, acolá, mais adiante,
e dou de cara sempre com um gigante
que se chama vida, a me olhar, impaciente.
Ai, ai, ai,
que moça mais impertinente,
que não sossega nunca,
que anda sempre pra frente.
É assim que passo meus dias.
São assim minhas insones escurescências.
Essência de rosas no incenso
queimando no meu quarto.
Não espero. Nego os braços cruzados.
Se páro, é só pra renovar as forças.
Movimento é meu lema.
Movimento a minha vida.
O gigante que me abraça
e cura qualquer ferida.
Na rua, acendo os olhos.
Na tela, acendo as luzes.
No espelho, acendo a alma.
Vou em frente, que atrás vem gente.
E nunca se sabe até onde
se pode inventar uma nova doçura.
É o que eu quero:
a alquimia do dia-a-dia.
A invenção de um novo amor pulsante.
21.04.2008 - 16h13min
Renovar
Terminei a faxina da casa
(feriado, sabe como é...)
e aproveitei pra fazer faxina na vida
com o pó, foi a tristeza
com o lixo, o cansaço
com a sujeira, a desesperança.
Agora, banho tomado,
cheiro de limpeza no ar,
sinto o peito renovado
e estou pronta para amar.
Ah, não dou mole não
não vim pra ficar sozinha
não estou aqui pra curtir solidão.
Meu negócio é companhia.
Se for boa, fique até que queira ficar.
Se ruim, vá embora,
que eu não quero me chatear.
Quero paz, alegria, doçura e carinho.
Sem isso, não sou ninguém.
Mas recomeço sempre, se não tiver alguém.
E agora não tenho.
Estou à procura.
De novo.
E quantas vezes forem necessárias.
Até que...
Eu morra?
21.04.2008 - 15h30min
Gênero
Passado e futuro, substantivos MASCULINOS.
Alegria, substantivo FEMININO
e bem se vê que ela faz parte do nosso universo.
Passado bem vivido, Futuro bem esperado,
Alegria o tempo todo, inda que um resto de lágrima
no canto de um dos olhos tenha ficado.
Alegria é companhia certa na roda de amigos
inda que o peito pese e que a folia seja apenas um escape.
Escapa da tristeza prolongada, deixa a dor no passado
que é substantivo masculino e pode te proteger dela.
Escolhe sempre o sorriso hoje, aqui, agora
e espera encontrá-lo de novo lá adiante
como foi em outros tempos, como foi outrora.
Vive o instante presente, também masculino
(cá entre nós, ainda bem)
e engole o mel do momento doce que não volta
mas que haverá de ser sempre teu.
Aos 52 minutos do dia 21.04.2008
Proteção
É preciso dormir.
Reconhecer que outro dia se foi
e o prato das novidades
permaneceu vazio.
A tinta do cabelo ruivo
escorrendo pelo corpo
debaixo do chuveiro quente
o cheiro do shampoo suave
e as extremidades dos membros
cheias de espuma macia vermelha.
Os cachos molhados se alisam.
São lisas as horas sozinhas
escorregam entre os dedos
feito sabonete molhado. Passam.
As passagens estreitas são vales
que não levam a lugar algum.
O escuro é silêncio.
O silêncio é a porta de entrada
do suspiro profundo.
As camisas, as saias, os mundos,
se diluem no espaço inventado.
Juramento sacramentado:
na próxima vez a porta estará trancada.
20.04.2008 - 02h27min
domingo, 20 de abril de 2008
Anonimato
Por trás de uma cortina de fumaça
a palavra pode ser qualquer uma
de deboche, de aceitação ou ciúme.
Por trás de uma cortina de fumaça
a maldade não tem rosto, não tem nome,
não tem grau de proximidade, não tem tesão.
Por trás de uma cortina de fumaça
se é quem se gostaria de ser,
se tem força, coragem e audácia.
Não se assina o documento escrito,
não se assume a bala disparada,
não se resume o texto do atrito.
Por trás de uma cortina de fumaça
se pode ser qualquer um.
Mas, se a gente não vale a pena
nem pra gente mesmo,
então tem mais é que se esconder
por trás dessa cortina de fumaça
denominada anonimato.
O anonimato é a proteção
de quem não tem coragem
de quem não tem argumento
de quem não tem história
de quem não tem opção.
E não ter coragem, argumento,
história ou opção deve ser muito triste...
20.04.2008 - 17h15min
sábado, 19 de abril de 2008
Conceitos
Mas, afinal, quais são os sentimentos, as idéias, a vontade do povo?
Onde está o povo?
Quem é o povo?
Onde ele se esconde - se é que se esconde?
Será uma entidade, o povo?
Ou o povo não seremos todos nós,
burgueses ou não?
O que é a burguesia?
Quais são os sentimentos, as idéias, a vontade da burguesia?
Onde está a burguesia?
Onde ela se esconde - se é que se esconde?
Será uma entidade, a burguesia?
Ou a burguesia não seremos todos nós,
povo ou não?
Que tipo de conceitos interiorizamos
e usamos como discurso diário?
Que tipo de discursos conceituamos
e usamos como diárias internalizações?
As idéias serão nossas mesmo,
ou as roubamos de terceiros?
Quem serão esses terceiros?
De que lado estarão?
Do lado burguês, ou do lado povão?
Há quantos lados nessa história?
Há lados na nossa História?
Questões.
Não creio haver
uma única resposta
a qualquer delas.
19.04.2008 - 02h22min
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Areia
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Deserto
hum.... local deserto...
posso dançar nua
gritar para a rua
disfarçar a dor de luz
de lua coroar a noite escura.
Posso falar besteira
e estender uma esteira
bem no meio da pista de dança.
Posso voltar a ser criança
e esperar que o dia amanheça.
Mas...
eu poderia fazer tudo isso
de qualquer jeito
inda que todos aqui estivessem
inda que os sons e assovios e tambores
também retumbassem
batucados pelas mãos e pelos dedos
dos poetas alegres ou entediados ou nervosos
que eu amo tanto e que respeito.
Mas...
o local está deserto
não há ninguém por perto
e eu desconfio que vou morrer
de solidão...
17.04.2008 - 20h10min
Depois do amor
Escancaro as janelas ao pôr do sol
as portas estão abertas
e se aproximam os visitantes.
Escolho as palavras que espero fluir
se escondo as escadas
é pra deixar claro
que não quero intrusos.
Exercito a audácia no risco
e recomeço de onde parti.
O prato quente repousa sobre
a toalha de renda improvisada
e nada disso é importante
tudo nada na imensidão do
que considero impreciso
e a solução não existe
nem aconselha a experimentação.
São demais os caminhos tortos
e o estertor que confunde
as lentes escurecidas dos óculos velhos.
Nas mesas dispostas, nenhum par.
Estão quebradas as pernas das cadeiras
e as carteiras estão vazias de sentimentos.
Um gosto de sal enche o espaço vazio
e a tinta acaba bem no meio de
uma frase sem sentido algum
e sem destinatário certo.
A televisão ligada se exibe para ninguém
e os fantasmas se sentem à vontade
para sentar entre os convidados ilustres
e amassar as almofadas de cetim lilás
jogadas sobre os tapetes batidos.
Não se deu o encontro.
O encanto não se fez.
Depois do amor
só um adeus curto e seco para se dizer...
17.04.2008- 18h01min
Sentença
Estaca cravada no peito da rima
ferida inútil nascida de cicatriz
amor moribundo entre almas cambaleantes
soco no estômago da noite sofrida
fervor de primavera em pleno gelo ártico
pele de urso polar.
O sol escorrega pelos anéis dos meus cabelos
envermelha o horizonte perdido
de vaporosas nuvens brancas
envenena os sais e os depósitos
de cristais azuis do quarto crescente
da lua de São Jorge
que desaba ao amanhecer.
São pragas as pregas das roupas
que não servem mais.
O ensino da língua é úmido
e corre o risco de secar um dia
in-ter-mi-ná-vel sombra que
acompanha o veredictum fatal:
FINITO!
17.04.2008 - 01h03min
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