quarta-feira, 19 de maio de 2010

Medição

Procuro o vocábulo exato
que defina a medição única
do que já não cabe em mim.
O idioma não importa
nem a dificuldade de pronúncia
ou o número de sílabas expostas
carne viva no face a face
de nós dois.
Invoco os dicionários de rimas
e enredo-me nas teias do instante
feitio de feltro e sensação.
Empacoto os conceitos
inverto as consequências
crio alternativas que não são.
Engravido do vocábulo
despido de previsões absurdas.
Absolvo as expectativas
e resolvo a questão -
o vocábulo já existe
teu nome,
envolto em papel de seda e ouro
a medida exata da minha paixão.



Aos 57 minutos do dia 19.05.2010


..................................................................................................


Onde vá


Onde quer que vá

Leva o coração feliz

Toca a flauta da alegria

Como doce menestrel
 
 
Onde vá
Onde quer que eu vá
Vou estar de olho atento
À tua menor tristeza
Pôr no teu sorriso o mel.
 
Onde vá


Vá para ser estrela

As coisas se transformam

E isso não é bom nem mal

e onde quer que eu esteja

O nosso amor tem brilho

vou ver o teu sinal.
 
 
POR BRILHO - Oswaldo Montenegro

terça-feira, 18 de maio de 2010

Insieme a te

As feras, as belas, as luas, as gruas,
os irritantes incidentes diários
que atropelam as calmas e as alegrias,
não têm força, nem arranham os princípios
da história por escrevinhar.
Desenhamos trajetos
inventamos poções mágicas
de asteriscos e tramas e porções
de traçados e linhas de trens
envidraçados nos respingos de hoje.
Metal e Poesia
gerando um filho.
Instinto...







18.05.2010 - 22h46min
Por nós três...ou mais...

Anuário

Este ano todos os sonhos possíveis
na dobra das mangas do tempo
um sorriso de elástico e um pedacinho de céu.
Este ano todos os encantos passíveis
de consolação e acalanto
um sentido de plástico e um tantinho de mel.
Este ano todas as alianças críveis
na falange d'ouro e no azul da íris
um sentimento comum e um dedinho de criança.


18.05.2010 - 20h19min

domingo, 16 de maio de 2010

Quem sou eu?

Sou a pedra de Drummond
que jamais chegou a ser
castelo de Pessoa
ou jamais chegou a ver
de Sísifo as mãos.
Sou letra redondinha
e fome de leão
carteira vazia
e voz de assombração.
Sou quem me alicia
língua queimada
fantasia.
Sou mesa posta para o jantar
e tristeza repentina.
Sou mãe, irmã, filha, avó
e cama vazia.
Sou manhã de luto
e luta inglória.
Afasia.
Sou feita de percevejos
e pontas de espadas frias.
Sou pimenta malagueta
no canto da boca do dia.
Sou quase nada
do que em mim havia.
Sou tropel, chapéu de palha
porta aberta, verso sem rima,
gaveta trancada,
chave pendurada
no esconderijo de onde
ninguém tem coragem
de pronunciar o nome.
Sou túnel e corpo possesso.
Sou veludo e enternecimento.
Sou cabeça, corpo e coração
separados de mim
para entretenimento
todos na palma úmida
da tua mão...


16.05.2010 - 20h20min
*Da Série - SOBRE QUEM SOU

O que eu sou?

Sou o tudo e o nada na imensidão do paraíso

montada num cavalo alado

unicórnio sem pousada ou sossego.

Sou um poço de desejos satisfeitos

e vontades não reveladas

segredos e milagres rotineiros

desses que ninguém enxerga

nem importância alguma dá.

Sou o passo depois do limite

e a interminável hora do fim.

Sou o que não se conhece

nem se determina

num toque sem instinto

ou num pretenso vazio.

Sou o que se apaga depois da vela acesa

e o som que não se mede

em acordes ou decibéis

ancorados na noite sem estrelas

ou raios de luz de manhãs maquiadas

de sombras e batons vermelhos.

Sou o que não se pensa

nem nas horas mais impressionantes

desesperadoras chances nas camisas de força

dobradas sobre as penteadeiras manchadas

de ilusões febris.

Sou o que não se ganha fácil

nem o que se derrete no fogo.

Sou corpo molhado de chuva

e chuva seca de lágrima

sem motivo aparente.

Sou parente do impossível

e o rasgo na folha de hoje

que pinta meus olhos de azul petróleo.

Sou serpente e sonho à solta

nos campos de trigo seco

pronto para a colheita .

Sou ingresso para o inferno

e fim de inverno de monotonia.

Sou tia do encontro

e prima-irmã da alegria

mas só quando durmo

e meus sonhos me levam

pra onde eu queria.

Sou o fim antes do começo

e a história nunca escrita

no papel de seda rosa

que embrulha o Presente.

Sou vôo de árvore

nas asas da ave-guia

e bengala de cego colorida

mal comportada ponta de flecha

presa no cabo da maçã

de uma certa utopia.
 
 
16.05.2010 -  19h37min
*Da Série - SOBRE QUEM SOU

sábado, 15 de maio de 2010

FECHADA
PARA
REFORMA

Dedicatória

Planto um sem número de vezes
as raízes de uma paciência que não tenho
mas que acreditei possivel cultivar,
o que não é garantia nenhuma
de nada...
Agora sei da brevidade do instante
que se não fosse breve
teria outro nome -
esse tal instante que passa
se chamaria eternidade.

Espanto os fantasmas que me chamam
e que tentam me atravessar.
Endureço mais um pouco
a cada dia.
Um tantinho hoje
outro tanto sutil amanhã
té que nada mais reste
além do que não restou
de tudo o  que havia em  mim...

Até que o instante,
esse que veio depois,
passe...
E passa...





15.05.2010 - 01h56min
Para minha amiga querida, que sofre.
Acredite. Eu sei o quanto dói. Eu sei.
Mas também sei que passa. Ainda que o saldo seja duro.
Passa...

sexta-feira, 14 de maio de 2010

In saecula saeculorum

Insana insônia
me acomete de medos
e de frases soltas
gaguejantes procuras
por pontos de luz
na noite escura.
Insônia errante
vagueando pelos ladrilhos
de uma estrada sem volta
sem curvas
sem distâncias.
Insensata ânsia
de malignos desígnios
e cercas de arame farpado
comme il faut
aos mortais exaustos
de tanto viver.
Insondável insônia
que atravessa meus séculos
e meus tremores,
perpassa meus ossos
e alcança a linha
desse horizonte que é só meu;
eu,
solitária sobrevivente
à morte diária
que a manhã ressuscita.







14.05.2010 - 16h

De emoções, de razões e de (in)conclusões

Concluir?
E desde quando os "sem razão e sem falta de razão"
concluem alguma coisa?
Minha vida,
meus delírios,
minhas abastanças,
minhas invenções,
minhas danças,
meus dizeres,
minhas falácias,
meus sonhos,
meus maltrapilhos abraços,
minhas incontáveis faltas de noção,
minhas premissas,
meus sabores,
nada disso tem conclusão...
nada jamais continua,
diria Quintana,
tudo vai recomeçar...
Inclusive essa minha repetida inconclusão...
Ela não continua;
com renovadas forças,
recomeça.


E só isso já basta pra definir toda a minha loucura....





14.05.2010 - 15h40min

CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE

Tão bom viver dia a dia
a vida, assim, jamais cansa
viver tão só de momentos
como estas nuvens no céu....
E só ganhar, toda vida,
inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
presa à copa do chapéu.
NUNCA DÊS UM NOME A UM RIO:
SEMPRE É OUTRO RIO A PASSAR
NADA JAMAIS CONTINUA
TUDO VAI RECOMEÇAR!
E sem nenhuma lembrança
das outras vezes perdidas,
atiro a rosa do sonho
nas tuas mãos distraídas...

Mário Quintana

Cancioneiro

E a vida
(essa louca vida breve
na boca de Cazuza)
amanhece todo dia
atrelada aos raios de um sol teimoso
que rasga as nuvens pesadas
e insiste em dar à luz
um tantinho de calor.
E a vida
(essa mesma vida
sempre igual de Cazuza)
surpreende toda hora
com uma ponta desigual
com um tanto de mudança
visível apenas e tão somente
para quem tiver olhos de ver.
E a vida
(essa mesma vida escrita
na letra de Lobão)
nasce no despertar
dessa minha compreensão
de que a minha e a tua
são duas
e não há como unificar.

Vida intensa no céu da minha boca
na contrapartida da mão espalmada
sobre a parte escura da lua.

É noite
vida espremida
premeditada largura.

Um fio de fogo a salvo...

... da correnteza viva?



14.05.2010 - 4h37min
(Insone rabisco...)

Justificativa

Escrevo.
Destilo meu medo
nas linhas finas das costuras
dos meus verbos.
Encontro avelãs nas dobras
dos trovões de dias passados.
Fabrico sacolas de risos
e enriqueço o mel dos meus dedos.
Escrevo.
Sem pensar, aqueço as chaleiras no fogo
das estrelas caídas da noite.
O dia assalta o começo de tudo
e a folha branca é veneno vermelho
rasgado de agitado oceano.
Escrevo.
Revejo o sol por instantes
té que a caneta se canse
e eu volte a ser oca:
zumbi sem alma nem alegria
invisível pedra nua sem pena
que me absolva dos atalhos
e das síndromes que viajam em mim.




Aos 23 minutos do dia 14.05.2010

Louca


Sou uma louca, bêbada de ilusão


sou luz de vagalume queimado

e vestido vermelho transparente

em noite de lua cheia

e cupido sorridente.

Sou o que nunca tinha sido

e pesadelo de olhos acordados

em ovelha sonâmbula imprecisa.

Sou a junção de juncos empobrecidos

de fios de algodão e laços de tinta

pendentes de enfileiradas facas sem fio.

Sou o ontem decente

e a revolta desta manhã

lutando nas minhas pernas

que insistem em me levar

até o limite do dia que vira chuva de confete

sem resposta que se alimente.



Sou uma louca

dançando sobre folhas

de fios de espadas enfileiradas.



INDECENTE.
 
 
 
 
Exatamente à meia noite, no limite entre os dias 13 e 14 de maio de 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Perguntinha

Nossos irmãos gregos precisam de ajuda.
Nossos irmãos brasileiros não?






13.05.2010 - 16h49min

Desdizer

Calo.
Na garganta, os calos se avolumam.
De gigantescas proporções
as nuvens rolam num céu de anil
manchado de negrumes.
Nos calcanhares
as asas alçam vôo
sem pressa de voltar.
Um risco violeta
corta os dias.
A esteira  ameaça a linha.
Na estreita via de acesso,
um desvio
"fechada para reforma"
é o que diz a placa.
Ninguém lembra do começo
nem o quanto valeu chegar até aqui.
Eu sim.
Mas calo
e os calos se avolumam na garganta.







13.05.2010 - 16h






Descompasso

Não sou de agora
um descuido do tempo
um buraco na esteira
que se estende
através dos séculos
e pronto
cá estou eu
fora do meu tempo
deslocada
louca
perdida.
Sem saber o que fazer
dessas minhas idéias
que não cabem em caixa alguma.
Sem entender os porquês
nem os interesses que me rodeiam.
Sem encaixe nem salvação.
Eu,
louca,
sem canto onde pousar a cabeça
e descansar da procura.







13.05.2010 - 13h

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Romeu e Julieta

'Não sou piloto, mas, se estivesses tão longe quanto aquela enorme praia banhada pelo mais distante dos oceanos, ainda assim me arriscaria por mercadoria tão preciosa'.




Romeu e Julieta - W. Shakespeare


Aos 20 minutos do dia 12.05.2010
(O livro que Alina me deu, no dia das mães...rs)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Apatia





Surpreende-me que haja alguém no mundo, 

capaz de não se entusiasmar com nada. 
Talvez pq eu mesma seja tão entusiasmada... 
E é difícil olhar a vida pelos olhos dos outros. 
Só que às vezes é necessário. 
Praticamente impossível deixar de fazê-lo. 
E aí, quando não há como evitar tal movimento, 
agradeço pelos meus olhos, 
que de vez em quando cansam de ir vendo tudo 
como se fosse a primeira vez. 
Melhor assim que nenhuma outra alternativa ter, 
além de passar por essa vida, 
sem viver...





10.05.2010 - 22h03min

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Eu II

Sou de tudo um pouco, inclusive nada.
Sou uma montanha de saudade.
Sou desperdício e verdade.
Sou fim e começo, intensa vontade.
Sou empolgação e estardalhaço
estilhaço de bala de menta
encontros sortidos e cores marcadas.
Sou torcida de fim de campeonato
e cicatriz em dedo anelar.
Sou estrondo e silêncio contido.
Sou da dança o passo
e a ponta da trança no verso
do rock pauleira
que eu aprendi a te devolver.
Sou confissão em página de diário
e vestido preto em filme antigo.
Sou presilha de cabelo em dia de chuva
e gota de orvalho escorrida na ponta do espelho.
Sou janela aberta para o Leste
e alinhavo de importância real.
Sou eu mesma
travestida de disfarce
e de sólida revelação.







10.05.2010 - 21h34min

Tuas

Sou UMA que carrega MUITAS na alma.
Sou santa, gulosa, faceira.
Sou uma besta completa e ligeira.
Sou faminta, delirante, entediante às vezes.
Sou linda quando não vista
e víbora quando não atendida.
Sou fogo e marca de ferro na pele lisa
raspada à faca de serrinha.
Sou o assunto do dia, um acinte.
Sou acidente mortal
e alegre coincidência no teu dia.
Sou perfume de gardenia
oculta sob fios de ouro
na dobra do percurso
apenas começado.

Sou UMA que carrega MUITAS na alma.
Todas tuas...









10.05.2010 - 20h35min

Eu

Eu sou uma imagem.
Pintada.
Concreta.
Iluminada quando lhe vê.

Eu sou uma pétala.
Solta.
Encantada.
Apaixonada por você.













10.05.2010 - 18h59min

domingo, 9 de maio de 2010

O signo da boa sorte

Um travalínguas
um pingente em forma de cruz
uma gargalhada
solta com toda a razão do mundo
um agradecimento
na garganta, uma emoção.

Entra, tranca a porta
e joga a chave fora.

O autógrafo na parede
Kiss na estante
e o símbolo da gente
sobre o outro, meu.

Pessoas diferentes
diferentes sabores
o teu, porém
incomparavelmente único...

Entra, tranca a porta
e joga a chave fora
que tudo em mim
já é teu...





09.05.2010 - 05h05min

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Amor de verdade

Eu disse que não diria
e assim o farei
nem uma única palavra sobre o dia
instituído sabe-se lá
por qual lei
de homens 
de comerciantes
de interesseiros de plantão
não sei.

Eu disse que não diria
e minha palavra conservarei.

Daí dizer outra coisa agora
que a data se aproxima
logo ali, depois da lua
enquanto o dia de hoje
já quase se inicia.

Direi do que nos faz diferentes
do que nos põe à prova
diariamente
do que nos liberta 
do que nos angustia
e ao mesmo tempo nos acrescenta
outros tantos bons motivos
de enorme alegria.

Direi do que nos faz maiores
e do que nos presenteia
sem presentes ou enfeites ou cartões
não precisa, não faz falta
nenhuma dessas representações.

Direi do que carregamos ao colo
independente do tamanho
pode ser um mês e meio
pode ser o primeiro fim de semana
pode ser a vida inteira
mesmo depois de marmanjo.

Direi da eterna companhia
inda que conosco só permaneça
poucos anos de folia.
Direi do amor sem tamanho
que dia e noite nos acaricia
e nos leva a torcer juntos
pelo dia seguinte.



Nada direi das mães.
Direi dos filhos
que nos emprestam olhos
com outros olhares
diferentes dos nossos.

Direi dos filhos
que dormem suaves
que crescem num repente
que choram de saudade.

Direi dos filhos
esses sim
nosso bem permanente...









07.05.2010 - 1h56min
Para Alina, abençoada escolha minha,
meu amor verdadeiro.

*Clique nas fotos, para ampliar.

Desde antes...

...até depois 
de todos os invernos
de todos os precipícios
de todas as torrentes
de todos os sacrifícios.

Desde antes
até depois
do último suspiro
do último lamento
da última parada
do último tormento

Desde antes
até depois
de todas as alegrias
de todas as gargalhadas
de todos os degraus
galgados a ferro e fogo
e vencidos.

Desde antes
até depois
das experiências
das alianças
das descobertas
das esperanças.

Desde antes
até depois
de tudo em mim
o teu brilho
o teu salto
a tua luz
seguindo
o meu calor.









07.05.2010 - 1h13min
Para meu príncipe guerreiro,
Blue Knight - o único.
'Me entrego com  a confiança
do trapezista vendado'

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Paixão

Tenho nas conchas das mãos
o som do teu riso.
Circulando meus dedos
os teus anéis
os mesmos que te enfeitam
(como se fosse necessário)
quando andas no meio 
de vorazes feras nunca satisfeitas
com o gosto da carne humana.
Tudo o que eu queria
vibra ao som da tua guitarra
e só debaixo do teu toque.
Tenho no limite do peito
o som do teu coração.
Circulando meu rosto
os teus cabelos
os mesmos que se fazem inverno
enquanto a curva do teu tempo
se alinha à minha.
Tenho no limite das horas
as honras de saber-te meu
as delícias de saber-me tua.





06.05.2010 - 02h25min





Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinícius de Moraes


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Liberdade

Afio a língua
e cego a foice.
Liberdade é imperativo
pra quem sabe amar.
Abre as asas e voa.
Que os Oceanos não te sejam
obstáculos precisos
ou motivos suficientes
pra impedir-te do teu vôo alçar.
Cego a língua
afio a foice.
O cordão não é elástico
é preciso cortar.
Voa teu vôo livre.
Não te seja meu afeto
algema
que te impeça de permaneceres
no ar.
Vai.
Qual Menotti, voa e canta.
Diante dos teus olhos
o infinito.
Um mundo inteiro
a conquistar.
Vai, voa, e canta.
Constrói tua estrada
que o trem já vai passar.

Corto a língua na foice
afrouxo o nó.
Liberto.






03.05.2010 - 04h17min


Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.

Não indagues se nossas estradas, tempo e vento,
desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas.


Conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre
para o mais alto.


No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tens
na garganta.
Canta. Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desce que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo do céu?
Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.


(O Vôo - Menotti Del Picchia)

Cidadania?

Sento a um canto, abro o jornal, e assisto escorrer o sangue.
Sento a um canto, ligo a televisão, e leio o mesmo sangue escorrido
do jornal assistido, pela manhã diária.
Sento a um canto, acendo a luz, e cego o pegajoso sangue
assistido no jornal, lido na televisão e grudado nos meus dedos
de espectador aprendiz.
Sento a um canto, deito os olhos na estrada e nada ouço
além do nada que cabe a mim.








03.05.2010 - 03h40min

De verdades e mentiras

Talvez a verdade não exista
e seja só uma invenção
pra gente não viver tão triste.
Talvez não exista a mentira
 tudo um grande axioma
com facetas diversas
que parecem o oposto do que são.
Talvez a verdade dependa só da gente
e da nossa vontade de acreditar no que não é.
Talvez essa crença seja nossa cura
ou a razão única da nossa doença.
A verdade, disfarçada de outra coisa
pra nos dar força
pra nos fazer sobreviver.
Sobreviver a que?
Aos desmandos diários
aos nossos próprios demônios
às ilusões a que nos agarramos
como se nenhuma outra alternativa houvesse
além do oásis-miragem
no quadro sensacionalista
que a gente carrega debaixo do braço
pra não esquecer.

Talvez o espelho deforme a imagem
- quem garante que o que vês
esteja de fato representado
no que existe de concreto? Ou
será que o reflexo é que reflete
o que de fato o fato é?-.
Talvez a mentira seja uma verdade
que enlouqueceu - de burrice, talvez?-.
Ou a verdade seja só um instrumento
talvez só um meio, pra se alcançar...
O que? A própria sombra,
morta de embolia pulmonar.

Talvez um dia as duas se descubram irmãs
gêmeas.
Talvez, e apenas talvez, numa hipótese muito remota,
as iguais se fundam.
E aí, talvez, e apenas talvez,
não haja mais razão de ser
da dúvida,
essa mãe da insensatez...

Até lá, as verdades e as mentiras
permanecerão confundindo nossas mentes
nossos olhos, nossas mãos.
Até lá, as mentiras bem contadas
serão verdades, até prova em contrário,
e as verdades mal contadas parecerão mentiras
correndo nós o sério risco de perder nossas preciosidades.

Talvez a verdade seja uma mentira que enlouqueceu
de tanto acreditar
.
.
.
.
.
.
.
.
























03.05.2010 - 03h26min 

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Valor

Sofro meus passos
como se principiante fora
na matéria e no Cosmos
feito inconsequente literata
que trata mais de delírios
que de versos crus e raros.
Sofro meus atos
como se participante fora
d'algo grandioso e único
feito incidente de pleonasmo
feito diferença na multidão.
Sofro meus fatos
como se aceitante fora
na linha da vida riscada
feito faca translúcida
na palma de minha mão direita.

Sofro minhas esquerdas.
E pago o preço.
Alto.
Sem arrependimentos ou afins.
Pago.






29.04.2010 - 23h23min

Trago areia em minhas mãos...

... qual ampulheta,
que perde num ínfimo vão
o minúsculo grão,
assim eu perco meus minutos
plantando sementes de mel e paciência
num tempo que não é o meu
mas que eu finjo ser.
Um dia branco
é quase dicionário vazio
aberto
na pequena âmbula
sem óleo
sem olhos
sem sinônimo algum.







29.04.2010 - 23h07min

Das palavras. De novo. Outra vez.

Mais de uma vez escrevi sobre as palavras e suas armadilhas.
Mais de uma vez escrevi sobre as palavras e seus mistérios.
Mais de uma vez escrevi sobre as palavras e suas aderências.
Mais de uma vez escrevi sobre as palavras.
Dá-me vontade de rir dessa sede que tenho
de dizer o que me provocam as palavras
essas insensatas bastardas
que teimam em querer se definir
a partir dessa minha necessidade de escrever.

Mais de uma vez escrevi sobre as palavras
e que outro instrumento mais provável poderia haver
que elas próprias falando de si mesmas?
Té busquei alternativas outras
interessantes e talvez com algum toque diferente.
Nada, porém, mais me satisfaz, que as palavras.

Inda que elas sejam usadas pra me enganar
inda que elas sejam usadas pra me ferir
inda que elas sejam usadas pra fingir o que de fato não é.
Instrumentos de tortura, afago ou fé
tanto faz, não importa o aprendiz
nem que o resultado delas
me seja outra cicatriz.
Há tantas em mim!
Outra, pouco faria diferença...

Mas as palavras riscam meus caminhos
surrupiam meus sonhos
deliram minhas veias
amaldiçoam meu futuro que nunca será.
E eu sei que é assim.
As palavras me enrolam
me amordaçam
me sequestram
e me matam.
Sim.
As palavras me matam.
Morro na boca delas todos os dias.
Pelo mal, mas, principalmente, pelo bem.
Morro pelo bem delas
que povoam meus pensamentos mais íntimos
e dançam entre as imagens mais queridas
e os sons que guardo pra mim.
E todas as minhas exposições.
Eu, publicamente nua,
sem pudor ou decência,
nas palavras que digo, que faço ouvir,
que defendo, que cuspo, que escrevo
inclusive nas que planto em versos
feito bordados de candura.
Eu, vestida só de sentimentos.

Mais de uma vez escrevi sobre as palavras
e sei que elas são vento...







29.04.2010 - 22h54min

Dia disso, dia daquilo, daquele outro, infinito...

Nada direi sobre as datas
a não ser que as tais se refiram
a nada que já esteja escrito.

Não gosto de datas impostas
que quase nada significam
a não ser
ser igual a ninguém.
Não, não errei.
Todo o mundo pensa ser visto.
Visto de fato, não é quase ninguém.

E então fez-se a data
muito esbelta e bonita
no sexto, segundo ou décimo dia
de um mês qualquer
que qualquer inventaria.
E o visto quis ver.
E o fato foi bem quisto.

Por isso mesmo
do que se convencionou ser
nada direi
mesmo que o seja.


Calarei.











29.04.2010 - 01h34min

Divagações

A voz rouca
de dizer as mesmas frases
o assovio apagado
de falar o mesmo nome
a mão firme de gelo
de plantar a mesma chama.
Um passo em valsa
organizado pelo arremesso
do falso espelho.





Pára!




Sem risco, que sentido há no mundo?







29.04.2010 - 01h26min

Desconjunturas

Lá fora a noite fria
um som distante de lua
uma quietude paciente
um não-sei-quê previdente.

Fui eu?
Foi a lua?

Quantas vezes deitei meus açoites
quantas coisas disse sem lei
quantos alfinetes enderecei sem porte
quantos livros deixei de ler?

Sopro a espuma insistente
do banho recém tomado
com cheiro de flor
e cabelo orvalhado.
O sono sem sonhos
traduz o momento.
No ar, a caneta vazia
dança.








Escrever será poesia?










O bar ameaça um movimento
e fazem falta antigas companhias
na luzinha crua da mesa vazia
trancafiada entre as tábuas gastas
que lentamente se diluem
e num único gesto excluem
os lenços batidos de feridas ex-postas
à condenação das massas.
Os cartazes explicam sem consistência.
Nada resiste à resistência
e se tudo é palha
o fogo é bandido
e a água é só o contrário dele.


Amanhã
festa e festa e festa
pra ver se o corpo atesta
o que hoje a alma adivinha.








No mesmo instante
gravado no pouco que resta
vida e morte
severinas ou não
de mãos dadas
e pés descalços
sem qualquer direção.







29.04.2010 - 01h12min

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Consonância

Que amor rime com dor seja um fato
todo o mundo o sabe
o que não sabem os desavisados
é que a dor não precisa ser por motivo
que defina um fim a tudo
mas simplesmente de saudade
num instante sofra o pobre improviso
e mesmo de longe um olhar
um sorriso
uma prece sobre uma pedra
alivie o olhar triste
e d'esperança cante a cura
crave a atadura emergente
e já não haja sinônimos concludentes
mas um leque de símbolos
que supram o espaço vazio
té que 'ele' chegue
de novo
e outra vez
e a rima seja só um entalhe
esquecido debaixo dos travesseiros.


Dos três.








28.04.2010 -22h48min

Modulação

Mais ao Leste
d'onde brota o fruto da vide
a vida floresce devassa
nas metalizadas cordas de um Blues.
As caveiras nas falanges
as histórias de viagens
de amigos, de amores
de notas medidas nos versos.
Os sinais que só dois conhecem
e os horários contrários
impróprios para menores palpites.
Descomunais intentos
incrementos de couros e cetins
óculos escuros e troncos 
velhas memórias e risos de arlequins.
Mais ao Sul
d'onde tudo acontece
a vida medita um lance de escada
a escolha aceita num pote de mel.

Lá onde os sons se confundem
e os sóis se divertem
em espaços vermelho-vivos
esculpidos n'ouro
cravejados de rubis,
é que os pontos unem as linhas
e nenhuma outra palavra existe
além do SIM!




28.04.2010 - 21h06min

Família

Laço independente
fita mimosa latente
nó que amarra sem dor
flor que voluntária nasce
e-terna semente de amor.

Quem disse que a gente não escolhe?




28.04.2010 - 07h04min
This is my message to you

Metamorfose

Do lado de cá da folha branca
o pote de ouro do arco-íris 
pintado na dobra exata do teu ombro
onde minha cabeça descansa
da fadiga diária.
Entre tuas cores invento moda
eternizo a história esquecida
modifico a canção antiga.
Dando um passo de cada vez
redigimos nossa epopeia
enquanto o sonho bom
fantasia a realidade
cria asas
vira anjo
meu.
Tu.






28.04.2010 - 06h09min

terça-feira, 27 de abril de 2010

Compor





Escrevo.
Vão-se meus dedos
anéis e planos
escorregando por oceanos
de detalhes, vírgulas e sensações.
Grãos de areia nos sapatos das gentes
gotas d'água nos tempestuosos copos
virados de cabeça pra baixo
sobre mesas vazias 
de desconhecidos ausentes.
Escrevo.
Vão-se os suores e as permutas
os sonos  e as calculadas
variações nas rotas dos cometas.
Vão-se os vãos das cartas marcadas
e as premissas de estiletes afiados.
Vão-se os meus delírios
e as minhas sacadas
os termos abstratos e as favas contadas.
Vão-se os interlúdios
os colóquios
os diálogos certeiros
as prendas bonitas
as plantas rasteiras.
Vão-se as almas de terceiros
e os nascimentos 
os fins e os meios.
Escoam
quando escrevo
os meus 
medos...






Aos 52 minutos do dia 27.04.2010

Bala Fumaça





Nas avenidas movimentadas
inevitáveis cruzamentos
e ocultas forças desiguais.
Há que se ter paciência nas paradas
consideração nos silêncios
alegria nas arrancadas.
Há que se ter domínio de passos
e um guarda-chuvas gigante
pra evitar as repentinas trombadas
de chuva ácida e despeito evidente.

Quando o trem passa
bala ou fumaça
o resto é detalhe
pequenas impertinências
querendo impedir viagem.

O trem, maior que a maldade
o trilho, maior que a intenção
o destino,
fornalha,
paixão.





Aos 27 minutos do dia 27.04.2010


segunda-feira, 26 de abril de 2010

Insônia

E daí se daqui a pouco
o dia começado a pouco
pouco a pouco ameace
amanhecer de novo?

O silêncio arranca-me sossegos
virados em estrofes
que eu nem sabia escondidas
nos recônditos da alma.
Pergaminhos e frascos de tinta preta
nos achados e perdidos das letras
que me impedem de despedir.

E daí se meu sono não chega
e se já começam os primeiros passos
da passagem das horas que eu nem vi?

A quietude é boa amiga
inspiração cuidadosa
na exata medida
igualzinha aos teus suspiros
que eu ouço e bendigo.
Tu, minha vigília eterna.
Tu, meu amor sem fim.






26.04.2010 - 04h

Blues



Já não distingo estações
os espaços se fundem
e o Sul mora no Leste
enquanto Cazuza canta um Blues.

São 3, 4 ou 5 da manhã
e teu nome povoa meus pensamentos
rodopia nos meus cabelos
disseca a filosofia que eu não conheço
(eu, que adoro filosofia!)
enquanto Cazuza brinda com Blues.

Digito poemas que são teus
divirto meus versos que te oferto
divido meus sonhos nas palmas das tuas mãos
deposito minhas ganas na tua pele nua
enquanto Cazuza brinca de Blues.

De pés descalços não vejo espinhos
de religiões, fumaça e aguardente
de sofismas, previdente
enquanto Cazuza inventa Blues.

Transgrido a lei e a ordem
natural seria nem tentar
convenciono uma nova regra
pra ver se cola
enquanto Cazuza chora um Blues.

Meu argumento é uma pedra preciosa
meus dedos têm o mapa da mina
meus partos nascem tuas letras
enquanto Cazuza planta Blues.





26.04.2010 - 03h52min

Inocência

Ela manda um gesto de homenagem
na divertida inocência infantil.
Não sabe do efeito
não sabe dos detalhes
não sabe da profusão de cores
que ao ato procedeu.
Tu sabes.
Sei eu.






26.04.2010 - 02h15min

Garimpar-te

Se salvação é poema
não sei.
Poema é pedra preciosa
que existe...


Poema é teu lábio
e tua crise.
Poema é teu sonho
teu lamento
azulejada aura
da tua madrugada triste.
Poema é teu riso alto
teu cansaço
teu conforto
teu breve descanso.
Teu sotaque Leste
tua sofreguidão
teu abandono
tua entrega
e tua querência.
Poema é tua década
o movimento hippie
o rock'n roll
a suíça
o sono que se atrasa
pra acompanhar a melodia.
Poema é tua língua
o mel
o sal
a guarida.
Poema é a medida exata da vida.
A tua
bem ajustada
à minha.


Poema é Ouro.

Garimpar-te,
minha sina...





26.04.2010 - 02h10min

Letra de Mulher

Pingos intermitentes tamborilam no telhado vazio


Metal na mente, anel, arrepio
um sem número de gente é ninguém
se as cruzes são iguais.
Pingentes.
As melodias pesquisadas
contam histórias outras
desconhecidas graças
reconhecidas forças.
E agora que os sons diferem
daqueles com os quais me habituei
outros mundos se revelam
outras tendências
outra lei.
Rouquidão na voz amplificada
na filosofia matemática
da solução dos enigmas
em forma de arco-íris
de pingo de chuva na janela aberta
de gato preto no telhado da esquina monitorada.
Da próxima esquina
bem ali
onde meu braço alcança
onde vira hoje
o fio d'esperança
que se recusa a ficar pr'amanhã.
A fonte verte a vida
na  medida exata da minha sede
mais
decerto
me afogaria
e o sumo do teu sangue
não seria.
Tuas franjas
tuas barbas
tuas orelhas
as vertigens que provocas
e os sentidos que latejas
nas curvas quentes desta igreja
de virtudes e desejos
que te fartem
té que dancem teus olhares
e descansem tuas carnes
sem padres nem santos ou deuses.

Só eu.

Que os limites se\nos rasguem...




26.04.2010 - 01h42min

domingo, 25 de abril de 2010

Detalhes

Os detalhes moram nas entrelinhas
nas estrelinhas dos teus olhos
nos tremores das minhas mãos
ao tocar as tuas.

Os detalhes moram nos dedos
fortemente entrelaçados
que não se soltam
nem sob decreto-lei 
do Olimpo inteiro.

Os detalhes moram nas juras
mesmo multiplicadas
menores do que o significado
que, de longe, podem ter.

Os detalhes moram nos dias
nas horas, minutos, segundos, contados
revelados em ondas gigantes
pra nem um único perder.

Os detalhes escapam aos afoitos
preocupados com a fumaça
e com o barulho de dizer.

Os detalhes,
desde os inocentes
aos mais sórdidos
lentamente passando pelos picantes,
a nós pertencem.
São de nossa propriedade.
Tesouro nosso
adivinhado por bacantes
cobiçado por malditos
bendito por amantes.

Os detalhes
sinalizam nossas paciências
fortalecem nossos nós.






25.04.2010 - 05h06min

Da minha pequenez

Quisera eu o poder de inventar palavras
não
palavras não
um único vocábulo
na falta dele
que fosse uma única
expressão numérica
que definisse claramente
o que me transcende
o que é maior que eu.

Mas eu não sei...

Não sou grande o bastante
nem assim tão inteligente
nem tão boa artista
pra criar o que não alcanço dizer.

Eu não sei...

Não sou suficiente.
Não basto.

Pra dizer do que sinto
verdadeiramente
só posso mostrar.

Contigo.

Sozinha não sei
não sou suficiente
não basto.






25.04.2010 - 04h45min

Destino

Um estalo de dedos
e um desvio no caminho.
No fim da erma estrada
uma curva
uma cruz
um carinho.
Mudança de rota repentina
alívio da lancinante dor mortal
primavera em meio à chuva
música, poemas e carnaval.
No teu peito, o meu pulso
No meu pulso, tua alma.
Eu, teu destino.
Tu, minha direção.
Infinitamente.







Aos 30 minutos do dia 25.04.2010






sábado, 24 de abril de 2010

Breve citação, à guisa de resposta

'Não posso deixar, neste momento, de manifestar um grande desprezo, não sei se pela ingratidão ou pelo fingimento dos mortais. É certo que nutrem por mim uma veneração muito grande e apreciam bastante as minhas boas ações, mas, parece incrível, desde que o mundo é mundo, nunca houve um só homem que, manifestando o reconhecimento, fizesse o elogio da Loucura.
(...)
Sabeis porque Cupido se conserva sempre moço? É porque só se ocupa com bagatelas, porque está sempre brincando e rindo, sem juízo e sem reflexão alguma, correndo puerilmente de um lado para outro, sem saber ao menos o que se faz ou o que se diz. Porque a áurea Vênus mantém sempre florida a sua beleza? Não o sabeis? É porque é minha parente próxima, conservando sempre no rosto a áurea cor de meu pai Plutão. Além disso, se devemos prestar fé aos poetas e aos seus rivais os escultores, essa deusa aparece sempre com uma expressão risonha e satisfeita, sendo com razão chamada por Homero de áurea Vênus. E Flora, mãe das delícias, não era, talvez um dos principais objetos da religião dos romanos?
(...)
Asseguro-vos, por Deus, que, embora eu seja a Loucura e esteja, por conseguinte, habituada a toda espécie de extravagâncias, muitas vezes não consigo conter o riso'



(ERASMO DE ROTERDÃ - Elogio da Loucura)

24.04.2010 - 16h33min
Para o bom entendedor, meia loucura basta...

Sagrado

Teu ritual de despedida
e o santo segredo
guardado nas conchas das mãos
de uma menina.












24.04.2010 - 04h33min

Ontem

Tu tinhas a chave da minha biblioteca
e eu, a da tua garagem
as duas, na casa construída a fios de ouro
e toques de guitarra
pra abrigar nossas mãos dadas
descalças de luvas
lavadas de sombras.
Nuas.







24.04.2010 - 04h30min

Espaço

E por falar em espaço
falta espaço em mim
daí o grito
o desabafo
não de tristeza
que já nem sei se existe
na face da terra onde piso
mas de radiância
palavra inexistente em riste
que me dou o direito de inventar.
Invento palavras
rimas
danças
e arremedos.
Invento tudo o que tiver que inventar
inclusive repetências.
É que ando saltitante
e satisfeita debalde
ou de balde
ou aos baldes e baldes e baldes
quantos forem necessários
pra comportar meus risos.
Ao longo dos dias
trancada na biblioteca, amo.
Amo nos coletivos
nos supermercados
nas farmácias
nas páginas dos livros
nas vídeo locadoras.
Ao longo das tardes
entre todos os sabores, amo.
Amo nos tropeços
nos desacertos
nos conformes
nos passos dantescos.
Ao longo das madrugadas
entre lençois e ternuras, amo.
Amo nos murmúrios
nos abraços
nas fomes
nos descansos.
Amo nas chegadas e nas despedidas
nas primeiras chego contigo
nas últimas me levas junto.

Falta espaço em mim
por isso preciso da tua ajuda
pra carregar o peso pena
do amor perfeito 
que vamos construindo pra nós.
Juntos.





24.04.2010 - 04h20min

Pertença


Dentro.





Aos 10 minutos de 24.04.2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Noção

Que chovam canivetes, delírios ou pétalas de rosas
que a neve cubra os caminhos
e que provoque as cãs
que as folhas das árvores tombem
e que as enxurradas tudo levem.

Tu, vivo, em mim, doce e quente verão...

Tu, minha eletricidade.
Eu, teus pergaminhos.







23.04.2010 - 02h29min

Diderot

Diderot, o que diria?




Tu, minha bem-aventurança
o melhor que me houve em vida
'Primus inter pares'
fôlego no encaixe
onda sonora sentida na 
pelecicatrizadadeorvalhoferidadefogoapaixonada.







23.04.2010 - 02h21min





Profética




Meu coração tropeçando 
na mágica do teu olhar de arco-íris.

Teu nome diferente de Pedro
tu, minha dourada pedra angular
meu templo, altar, ritual, energia.

Meu Norte, bem ao Leste
de onde o Todo se inicia.
Tudo e Nada entre teus dedos.
Poder supremo.
Escolha tua.

Na próxima esquina,
o meu endereço te guia.
Nome e sobrenome na placa
que dúvida não permite
sobre a extensão do limite
que de mim te aproxima.

Mais impossível?
Profecia.






23.04.2010 - 02h05min


Hiatos

Nietzsche dizia que o dia em que não se houvesse dançado
deveria ser considerado perdido...






Os dias em que não fui tua
todos os que vivi antes da tua vinda
todos aqueles em que ignorei tua existência
todos os que não ri contigo
nem te beijei
estão nulos.
Não existiram nem dias nem noites
nem outros estados 
nem outras tensões.
Não existiram minhas dores
nem lágrimas
nem vertigens
nem intenções.
Nada.
Antes de ti,
h
i
a
t
o
s
.
.
.









23.04.2010 - 01h45min

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Poetar

Não sou poeta
arrisco versos
que cantam meus poros
dos meus instantes caros
dos meus instintos vários.

Não sou poeta
pesco versos
em tudo o que aprendo
no que não domino
do que temo
e do que abomino.

Não sou poeta
colho versos
na pele do amado
pinto beijos na folha virgem
planto sementes no corpo dele
que é meu.





22.04.2010 - 22h44min

Barulho

Escrever meus poemas em ti
provocares acordes em mim
acordarmos a vizinhança
d'outras galáxias
nas madrugadas
iluminadas e aquecidas
pelo teu sol.





22.04.2010 - 22h37min

Público

Os segredos libertos das sete chaves
gritados de cima dos telhados
inundados de ternura e mel.
A guitarra geme um prazer
o apito do trem desafia o tempo
a cruz garante a multiplicação.
São os feitos diferentes
que fortalecem os elos.
São os elos fortes
que nos fazem ecos
d'outros espaços reais.
Os nossos
em luas crescentes
pavios de trovoadas
escalas termométricas
em cada minuto
nascido de nós.
Encantos.






22.04.2010 - 22h04min