terça-feira, 15 de julho de 2008
Poetar é...
I
... ser pega pelo bafômetro da vida,
bêbada de luz.
II
...ter coragem o suficiente, pra temer.
III
...expor-se tão desavergonhadamente,
a ponto de se esconder...
15.07.2008 - 13h25min
O grito
Descabidas combinações desiguais
em trôpegos mistérios baratos
de insensatos poetares vorazes
de canções e insetos esquálidos
na folha vazia de equilibradas constatações..
Escrevo pra discernir meus erros;
exerço o direito ao silêncio gritado
em que a boca se fecha
e as mãos se armam
de lápis e letras impressas.
Descrevo o murmúrio distante e frio
das vozes que se deixam enganar.
Espalho cinzas de sorrisos
- cantos de sereia -
nas linhas desertas
que ninguém mais lê.
Penélope, bordo o milagre em versos,
enquanto espero por ti.
15.07.2008 - 13h
Fonte
Letras soltas
dispersas no ar
arriscam sentidos
de encantamento.
Símbolos e imagens
são miragens quentes
de olhos cegos
que engatinham
em direção das setas
que não apontam pra lugar algum.
Incertas horas de espera
em que os estalos do dia
soam feito arrependimentos
saídos de escritos
em letras garrafais.
Garrafas d'água potável
enfileiradas no escuro
da via que não vai
nem volta jamais.
Genéricas são as palavras
que te soam particulares
enquanto pronunciadas por mim.
Espetaculares versões de mundo
de um futuro próximo
que se distancia cada vez mais...
15.07.2008 - 12h03min
Da solidão
Da solidão nascem tantas estrelas...
Da solidão criam-se ardências...
Da solidão brotam vertentes...
A solidão imita o eremita que se esconde,
pra fazer valer o direito de não ser visto,
de não compartilhar a febre, a dor, a ganância até...
A solidão faz milagres.
A solidão mata milhares.
A solidão silencia os olhos de quem já viu o bastante.
A solidão solta a garganta de quem não disse o bastante.
A solidão é a companhia de quem ouviu tudo o que havia pra dizer...
15.07.2008 - 03h30min
Traição
Esperei que voltasses, perdido que estavas
entre os cabos e as serpentes...
Esperei longas distâncias, e, de tempos em tempos,
marquei presença,
pra ver se encontrava tua sombra
n'algum verde vale ondulante.
Nada.
Não piscam as luzes que me avisavam teus olhos,
não cantam os sinais que me mostravam tua voz,
não pintam os canais que me clareavam tuas mãos.
Nada.
Esperei longas datas,
té que o sono chegou antes de Ti.
Foi com ele que eu te traí.
Foi com ele...
15.07.2008 - 02h47min
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Heterônimos
Quantas de mim há em mim
diferentes umas das outras
extremos opostos de pensares
ou semelhantes dizeres de mim?
Quantas outras me habitam
eu, que nem sei direito
quem chegou primeiro à reta final,
se a original ou as derivadas de mim?
Quem criou essas terceiras,
quartas, quintas vértebras a mais,
que usam minha boca pra dizer
que abusam dos meus dedos, a escrever
o que querem e o que as assombra?
Quem enxerga, além delas,
a verdadeira moradora do meu corpo,
que nem sempre se manifesta
emudecida pelos gritos das outras?
Quem me alcança?
Com quantas pessoas diferentes consigo conviver
dentro da minha própria casca,
cada uma querendo a expressão exata,
pr'aquilo que nenhuma de nós consegue exprimir?
Qual delas é a verdadeira
escondida por trás das faces múltiplas
que foram nascendo
[ou que foram sendo construídas]
sem aviso prévio
sem licença ou permissiva minha?
E se qualquer delas
quiser se valer da morada
e assumir o controle do espaço
reservado pra todas as outras?
E se essa não for eu?
Quantas faces existem
por trás da máscara com que nasci?
Quantas máscaras têm
as mulheres que usam meu corpo?
Quantas são as cicatrizes
que escondo atrás delas?
Quem eu seria
se não fosse um heterônimo?
Nada além de um fantasma, talvez?
14.07.2008- 13h18min
domingo, 13 de julho de 2008
______________
Olha, cá entre nós
o que há entre nós dois
só a nós pertence...
13.07.2008 - 03h40min
sábado, 12 de julho de 2008
_____________________________
As luzes difusas
Sem trapézio ou inspiração
Rabisco círculos
Por entre as páginas
De um dicionário de mitologia.
Invento pra eu mesma
Alguma forma de perdão.
Minto sobre minhas intenções
E escrevo amenidades.
Não tenho vontade de te seduzir.
Passa.
Esquece.
Recita algum verso triste
De despedida lacrimejante.
Eu avisei
Pra não insistir...
12.07.2008 – 0h56min
HERMÉTICO
A verve ferve o antídoto
Engole a garganta muda
Que acende a palavra dura
No fundo do precipício
Aberto pelos que crêem.
-Eles ainda existem.
Eles. Os que crêem –
As páginas lotadas de versos
Na agenda vazia de compromissos diários
Esquecidos n’alguma esquina
Que insiste em não se dobrar.
-Elas ainda existem.
Elas. As teimosas esquinas cruas-
A caneta falha e a história tarda
Talha o leite na caneca
E o doce na compoteira azeda.
Esvaziam-se os versos
Como se esvai a vida
Do corpo que sangra deveras.
-Eles ainda existem.
Eles. Os corpos que sangram -
Por entre as grades da janela
A prisão lá de fora
Tem cor de liberdade fria.
Espetáculo cancelado
Por absoluta falta de público pagante.
De graça, só se for palhaço,
Que faz rir ao entardecer.
Ao entardecer
Faz rir, pra não morrer
De fome de justiça,
De fome de amor,
De fome de prazer.
-Eles ainda existem.
Eles. Os mortos de fome-
O espaço é restrito
Não há como dizer
Ou des-dizer ou contra-dizer
Ou usar hífens sem autorização judicial.
As palavras têm cheiro de adeus.
*Derrapo na pista molhada. Fechei os olhos sem querer. Sem querer escrevi uns versos que me recuso a ler. Sem querer rompi os laços . O ponto de táxi procurei, sem querer. Sem querer tranquei a sete chaves a vontade de querer. E agora nada mais me prende. Uma semana é o suficiente pra eu saber que vou partir. Que vai doer... Em ti.
12.07.2008 – 01h12min
Desejo II...
... passar por ti na linha imaginária do tempo, e saber...
Aos 30 minutos do dia 12.07.2008
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Insônia
Teço o infinito na terça parte da noite
quando teu sono abastece de sonhos
as luas e os astros que luzem por ti.
Tranço sementes de sombras
nas arestas exatas das horas que passam.
Enfrento sozinha os monstros que passeiam
descalços nas silenciosas madrugadas.
Ruas vazias de empertigados viventes hostis.
Ruas exaustas de riso e esperança
exultantes de prazer e crença
extenuantes: fulgor e dança.
Enriqueço a presença rasgada
na fotografia escura que fiz.
O verso encoberto de areia
e a curva no corpo insone
serão testemunhas das linhas
que eu jamais escrevi
mas que leste em meu ventre
ontem
quando te servi.
11.07.2008 – 02h33min
Vieira
Voam meus ares por novos ares
A vara de condão distante
Desnuda teu corpo de letras
Tu’alma de suspiros lentos.
Sou eu quem desvenda
Os mistérios da ostra,
Rara pérola negra
Nos olhos meus...
11.07.2008 – 01h23min
Alegria
Todos os tentáculos da alegria me alcançam
E mordem a isca, presa aos cantos da minha boca
E no centro do meu olhar.
11.07.2008 – 01h17min
Estrada
Meus caminhos são os que eu mesma invento
Meus caminhos são os que desconheço
E carrego nas costas a passos largos
Enquanto a vida se distrai
E eu me vingo da areia
Que não pisei...
11.07.2008 – 01h07min
Milagre
Arrisco recortes de estrelas
No céu arisco sobre mim
Encontro flores vermelhas
E espinhos maduros:
Vida e rumores estáveis
Nas pouco prováveis oscilações
Das malhas de um tempo e de um espaço
Que não almejam o fim...
11.07.2008 - 02h
Divagar
Deixo transparecer as transparências
Da minha essência invisível.
A olho nu encontras minúsculas
Partículas do que tento evitar a todo custo.
Desconsidero o confronto voluntário imediato
Entre a garganta e o verbo obtuso
Que esqueci de pronunciar
Em todas as horas em que minh’alma foi tua.
O milagre é reticente
E condescendentes todos
Os beneficiados por ele.
Nuvens são cães, são gatos,
São leopardos, são corpos inflamados
De raiva, desejo ou pudor.
Três tentativas de eternidade.
Três tratativas de poder.
Três formas de dor.
E o amor?
Aos 58 minutos do dia 11.07.2008
Ostra
Coleciono opiniões próprias
só pra delas discordar
a interrogação mora em mim
e a fatalidade, no ponto final.
São cercas de arame farpado
todas as horas em que me vi
obrigada a viver um instante
que eu não criei,
que não nasceu de mim,
que eu não pari.
A catarse me ganha
o grito, a gana, a saga,
a sina, a sanha.
Ensandecida, rabisco versos livres.
Recuso-me à permissão do erro.
Entrincheiro a alma e aguardo nua
a lágrima restante.
Inteira, eu mesma mergulho no lodo
ao lado da primeira estrela
e deixo rolar a pedra sagrada:
pérola negra
ao longo do corpo
cujos olhos observam, ao largo.
Recolho as amarras guardadas
nos parcos silêncios, nas abundantes palavras.
Tranco a sete chaves a ostra
nenhum olhar me alcança
nenhuma luz me arranca.
Rasgo a opinião própria
e me aproprio do grão de areia:
promessa de jóia vindoura.
11.07.2008 – 0h35min
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Morrer de rir
Um riso ecoa do fundo da vida
um risco de bala fura o ar
um corpo tomba
morreu baleado
perdido, ele e a bala
a bala, que chega pra matar.
Melhor seria a notícia
se um riso ecoasse da superfície da vida
se uma bala dançasse a refrescância
de um Halls na boca do corpo
que bailaria no espaço aberto do salão
morrendo de rir,
de alegria, de alegoria, de satisfação.
Melhor morrer de rir...
Nos primeiros 3 segundos do dia 10.07.2008
Falta de opção
Neste país, não temos muitas opções. Ou morremos nas mãos dos bandidos, ou morremos nas mãos da polícia, ou morremos de puro desespero, abandono, invisibilidade... Mas morreremos... Só não corremos risco nenhum de morrer de amor... ah, isso de jeito nenhum...
09.07.2008 - 14h54min
Norte
Estamos todos fora de foco? Perdemos o rumo? Ou eu é que, de repente, não consigo mais suspirar?
09.07.2008- 01h
Ainda bem que a gente pode...
...escolher....
...esquecer....
e
...tentar outra vez....
Aos 16 minutos do dia 09.07.2008
Eterno retorno...nem um pouco terno...
O homem continua cometendo as mesmas atrocidades que aconteciam na História Antiga. Só que, agora, com a ajuda da tecnologia. O resto é absurda e absolutamente igual.
08.07.2008- 01h15min
*E Nietzsche, afinal, tinha razão...
Nada a declarar
Soletre o sopro da letra
que espera o amanhecer desigual
nenhum princípio é agora...
06.07.2008 - 18h
domingo, 6 de julho de 2008
Sodadi
Sodadi é coisa que ardi bem aqui,
Nu meiu du peitiu da genti.
Sodadi é coisa ingrata, qui mautrata,
Qui machuca, qui dexa duenti.
Sodadi dá im quasi todu u mundiu,
Di uma coisa ô di otra,
Di quem viajô, di quem nim tá mais lá.
Dá sodade inté da genti mermo, das veiz im quano!
Mais a sodadi qui quasi mata,
Aquela qui ti finca u coração,
É a sodadi du bem,
A dor da paxão.
Essa, qui ti mata divagarinho,
Qui nem si tu fossi morrenu di fomi,
I nu fim é fomi mermo,
Fomi du
Bem que num tem mais...
Num tem...
06.07.2008 – 02h39min
Do gostar
Eu gosto de cheiro de pão, café e livro novo,
Incenso de canela em casa limpa, queimando;
Nascimento de idéia madura na cabeça.
Eu gosto de ver pensamento brotando,
Tomando corpo, iluminando a rua;
De sentar debaixo de árvore
De passar noites em claro
De comer chocolate em pó, de colher,
E dormir quando o mundo acorda.
Eu gosto de cheiro de chiclet
E de terra e capim molhado;
De abraço demorado,
De conversa bem longa,
De sonho que não termina nunca
De gente que sabe o que quer.
Eu gosto de música suave
E de emoção à flor da pele;
De cabelo curto em homem,
De cor de tinta e poesia fresca
E de agradecer por ser mulher.
05.07.2008 – 01h21min
*Aí, Dani, não te disse que dava poesia?
Rédea - curta?
Não tenho as rédeas da minha vida
Ela é que me guia, pra onde quer me levar.
Ela é quem decide pra onde devo ir
O que escreverei, com quem conversarei,
Que acento terão minhas palavras,
Quais interações me aguardam logo ali.
Não tenho as rédeas
Não sei o que será
Não sei do que se trata
Mas acordo todas as manhãs
Sabendo que andarei pr’algum lugar,
Darei boas risadas e serei esperada
Por alguém em algum outro lugar.
Não tenho as rédeas da minha vida
Nem preciso ter, pra poetar...
05.07.2008 – 01h
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Motivo único
A razão da minha poesia
são esses versos tristes
que chovem sobre mim
nas noites sem luar...
04.07.2008 - 04h35min
Lei Seca
No âmago da questão,
a velha máxima:
lugar de bêbado é na cadeia...
(o quê? essa máxima não existe?
como não? se acabei de inventar!)
04.07.2008 - 03h43min
Ensaio sobre a surdez
Estudei os acordes
que acordariam os cérebros
das bizarras bailarinas
e seus bastardos espectadores.
Estudei todos.
Comprei partituras
e os ensaios vararam as noites.
A existência é tão curta
(da inteligência)
e a expectativa do sucesso
passa pela forma
de abundantes glúteos
desprovidos de conteúdo.
O sexo explícito escorre do rádio,
da televisão,
da letra daquilo que se convencionou
no século passado, a chamar 'canção'.
Canção? Concluo, então,
ser mais prudente ensaiar outra coisa:
a minha surdez, por exemplo,
antes que uma melancia
amasse a minha poesia...
04.07.2008 - 01h20min
*Depois de uma conversa muito proveitosa com meu amor eterno
Carlos Martinelli, que sabe o que é uma canção de verdade.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Desencontro
Exceto quanto te desejo
meu dia tem um vácuo
espaço de buraco sem fundo
faltoso de significado.
Exceto quando te espero
as horas se prendem aos cabelos
as bengalas não apóiam meus calçados
as calçadas não amparam os passos
[frios.
Exceto quando te quero
sou máscara ambulante, insensível
sou prato de feitos e frutos invisíveis
sou ninguém, que mira um ponto distante.
Exceto quando o quanto é presente:
TU!
03.07.2008 - 23h58min
Quantidade
Quantas vozes
declamarão meus textos?
Quantos corações
buscarão consolo
nas linhas que escrevo?
Quantas descrições
farei dos meus sonhos,
do que sinto,
do que vejo,
do que minto,
do que suspeito?
Quantos anos serão necessários
té que se entenda
que a letra é grito
que a noite me pertence?
Quantos delírios e ilusões
formam uma ponte
até o portal das intenções?
Quantas vozes
derramarão os suores
do meu rosto?
03.07.2008 - 22h58min
Exclamação
Olha só!
O tempo tropeçou
nos ponteiros do relógio
sem corda!
Olha só!
A vida voou em duplas
e os santos aplaudiram
o minguar da lua
como se fora bênção
chegar atrasado
em plena procissão
marcada pra depois da missa
na manhã de um sábado azul.
Olha só!
São três horas da manhã
e o galo avisou que já vai partir,
que a tristeza abandou o dia
e que a noite vai dormir.
Olha só!
Minúsculos pingos de chuva
molharam os anéis dos meus cabelos
enquanto eu ia pelo aterro
pra entender direito
o que é, afinal, essa velha Poesia muda,
que mudou o meu jeito e
gritou no meu ouvido
que a verdade anda crua,
precisando de um pouco de sal,
pra parecer mais gostosa.
Olha só!
Se esse nó te amarrou agora
quanto maior será o fio do luto
que a pressa da vida
te amarrará...
03.07.2008 - 19h36min
O valor do silêncio
Shhhhhhhh
Não digas nada
busca em silêncio
a rima pra tua dor.
O embuste te aguarda
na próxima esquina
disfarçado de amigo
disfarçado de circo
disfarçado de amor.
Evita as ruas lamacentas
evita as alamedas lotadas
evita as grandes multidões
e os dias de chuva
e os dias de sol
e os dias nublados.
Evita a presença da luz
mas também foge da escuridão.
Evita a palavra
sequer pensada.
Não, não pensa em nada.
Evita o pensar.
Busca a tal rima em silêncio
absoluto
absurdo
abstraído
de algum lugar.
Evita tua própria imagem
refletida no espelho do olhar.
E compra o bilhete só de ida
lá, pra onde queres estar.
A rima te aguarda
de pé, no topo da escada,
que te leva para além
de onde desejaste ir.
Para além de qualquer parar.
Shhhhhhh
não digas nada
até lá chegar.
E quando chegar,
CALA!
03.07.2008 - 19h22min
terça-feira, 1 de julho de 2008
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Depoimento para Adrebal
Fotografia e poesia andam de mãos dadas.
Alheias ao alienado olhar aleatório
dos que têm olhos, mas não vêem.
A tua arte, fotografada, não é inerte.
Ela se movimenta.
Ela grita.
Ela ferve.
Ela inunda a rua
e pinta de vermelho a esquina,
pra mostrar que está viva.
A tua arte arranca da minha garganta
o verso, e transforma em lente
o que é convexo,
o que desmente a voz ausente.
A tua voz que me faz falta...
30.06.2008 - 02h
In memorian:
... pedidos perdidos no tempo são asas quebradas
de pássaros, de lamentos.
Segredos sussurrados ao vento,
pra sorrirem à distância na resposta:
"eu entendo"...
30.06.2008 - 02h26min
Comentário
Se não me engano a palavra prende a presa
e faz do longe o fio, de onde pende o anzol...
30.06.2008 - 02h23min
domingo, 29 de junho de 2008
Fechado!
Meu peito está fechado
a chave não existe
não há como entrar
não fique triste...
29.06.2008 - 14h35min
O que dizem por aí
Dizem que quando o sol se fecha
a noite vira solidão.
Dizem que a lua é mãe da paixão,
que o bonito M
aqui gravado na palma
significa MORTE
que me leva pela mão.
Dizem que sonhar é inútil,
que poetar é fútil,
que ganhar dinheiro é que é o Ó!
Dizem que as lembranças são caras,
que algumas pessoas são raras
e que o espelho é o culpado
pela crise.
Dizem que é melhor atacar,
que temer;
e tremer, que surtar.
Dizem que a forma da vida
é disforme
e que a informação é corrente.
Dizem que tudo tem um jeito,
que o que não mata, engorda,
que o que não entorta, endireita.
Dizem que Inês é morta,
mas o cadáver eu não vi!
"Dizem que sou louca"
e que pareço a Rita Lee.
O que mais dizem por aí?
29.06.2008 - 13h10min
O rosto
Não era o rosto de um morto;
recuso-me a acreditar que seria.
Era apenas e tão-somente um outro
que através de mim,
me via...
29.06.2008 - 12h40min
São? Não!
Não são feras
não são monstros
não são contratos de locação.
Não são suspenses
não são pertences
não são...
Não vão à forra
não se vestem de
falsas modéstias
não cantam vitória
não pirateiam amores
não reclamam
não são.
Não aparecem de repente
não partem num repente
não repetem a aflição
não são.
Não emprestam o rosto
não recitam oração
não são outonos
não são diários
não são os donos
das falácias, dos horários.
Não são limites
nem atribuições.
Não são encantos
devaneios
ou ocultas religiões.
Não são alianças
nem trancas
muito menos satisfações.
Não são providência
semelhança ou
alucinação.
Não são palha, nem espinho.
Não são pedra, nem caminho.
Não são...
Não são segurança,
estilhaço ou abandono.
Não são circuncisão.
São invejas
são duetos
são versos decassílabos
são invenção.
Criações estapafúrdias.
São idas e vindas
são espadas e cruzes
e tonéis de tinta.
São luzes?
Não são...
29.06.2008 - 11h45min
sábado, 28 de junho de 2008
Quero viver de poesia
Comer poesia no café da manhã,
no almoço e no jantar, ter cobertura de versos
na sobremesa de doce de maçã.
Respirar poesia leve
sem a poluição da palavra breve
sem a fumaça da regra cega.
Vestir poesia colorida no inverno
e poesia esvoaçante no verão.
Andar sobre pedras poéticas
poeticamente dispostas
em caminhos-sonetos
caminhos-poetrix
caminhos-duetos.
Se não for pra viver de poesia
prefiro morrer.
Mas não deixem, vocês, meus pranteadores,
de colocar na minha lápide
bem legível, o verso que diz:
Eu quis viver de poesia
só assim poderia ter sido feliz...
28.06.2008 -19h30min
Pesadelo
Eu mudei meu nome e meu jeito de dizer.
Eu inventei outra assinatura, fingi crescer.
Eu criei outro personagem, falei bobagens,
usei peruca, mudei a maquiagem.
Eu troquei o guarda-roupas,
comprei diferentes livros
(daqueles que 'a outra' que eu fui
jamais leria).
Eu passei a gostar de moto,
de funk, de fast-food, de perfume barato.
Eu comprei um jeans rasgado,
pus fora o dicionário,
esqueci o caminho da biblioteca
e passei a odiar poesia.
Eu nem sei o que é danceteria!
Mas me amarro numa rave...
Eu larguei o trampo,
não me importo com fumaça de cigarro,
com cheiro de cerveja
e com gás de refrigerante.
Eu agora gosto de destilados,
e de alta velocidade.
Eu não sei mais o que é jornal,
o que é animal, muito menos o que é vegetal.
Eu não tenho amizades, mas interesses.
Não lembro mais como se escreve
uma porção de palavras,
entre elas a que eu nem conheço
o significado: PAICHÃO
(ou será PAIJÃO?).
Eu não quero nem saber.
Eu não estou nem aí.
Agora que mudei, vai ser pra valer.
Vai ser pra arrepiar.
Vai ser pra ninguém colocar defeito.
Eu quero mais é bagunçar.
Afinal...
(Foi só um pesadelo!
Eu ainda sou eu... ai, que saudade de mim...)
28.06.2008 - 18h20min
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Ponto de vista II
Algumas pessoas dizem que eu penso ter o rei na barriga.
Mas eu só tenho um umbigo, oras!
27.06.2008 - 01h
Psicodélica. Um dedo de prosa... Poética?
Eu ganhei uma taça de fogo do Sol.
No vidro da alma, dividi a intenção de sempre.
Nas gélidas madrugadas de inverno, corri descalça
sobre as cinzas da Lua.
Meus erros quebrados escreveram versos
de sonhos tranqüilos, de trocas e lutas
melodicamente pagãs.
Nos paradoxos obtusamente orvalhados
cirandearam cicatrizes profundas.
O milagre é uma fera enraivecida
que engole parafusos de hortelã.
E eu danço nua!
Na mão esquerda, a castidade florescida.
Na direita, um frasco de perfume azul.
No tornozelo, discreta corrente, pequena placa:
“Bons ventos te tragam”, nela gravada.
E um cândido sorriso no movimento todo,
a convidar os passantes da vida
para um gole quente da taça de fogo;
da mesma taça que eu ganhei do Sol...
27.06.2008 – 14h
Assuntando
O assunto dita a direção da hora.
Se ele é puro, ela dura, ela é dura.
Se ele é duro, ela arrasta, ela fica.
Se ele é freio, ela estremece, é maldita.
O assunto dista do interesse
o espaço que não se permite medir.
O quilômetro rodado que não se vê.
O centímetro quadrado que não se espera.
O milímetro exato, difícil de se obter.
O assunto rasga a veia da retina,
engole a cobra, quebra o pau,
encerra a areia, cospe fogo
e se recolhe na inóspita insignificância
de quem já fez o que tinha que fazer.
E perdeu a oportunidade de calar.
27.06.2008 - 13h
Axiomas?
Quantos personagens cabem em nós?
Quantos nós cabem em "Nós dois"?
27.06.2008 - 01h27min
*Um pensamento
Resultado de conversa de poeta-atleta
Ao voltar do trampo,
tapou os olhos
e saltou do trampolim.
Virou pirilampo...
26.06.2008 - 23h16min
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Dúvida
No verão tenho preguiça
tudo me cansa
tudo me custa.
No inverno tenho frio
tudo me cansa
tudo me custa.
Ando desconfiada
que o problema não está
nas estações....
25.06.2008 - 15h02min
Proteção
O escudo preso
à mão esquerda
impede a queda
da brisa que sopra leve
na carapuça amarela
do suspiro de um deus sem rosto
diluído nos sonhos
de um indivíduo qualquer
que apaga sem pressa
os afazeres de uma vida
sem direito a rascunho...
25.06.2008 - 13h40min
Religião
Vibração.
O melhor do mundo
no símbolo avermelhado
que desconhece derrota.
Poema encomendado
aos pés do goleador
IN-TER-NA-CIO-NAL!!!
Ópio do povo,
delícia de um torcedor?
Mais que isso:
religião.
(O que não se faz
por amor?)
25.06.2008 - 13h56min
Egocêntrica
Ao redor do meu umbigo gira um mundo:
o meu mundo, que a tua língua insiste em definir...
25.06.2008 - 03h34min
A chave
*Esta tarde, depois de adiar por semanas a visita ao chaveiro, finalmente mandei fazer cópia da chave do portão de minha casa. Enquanto ele, muito rapidamente, atendia meu pedido, fiquei observando seu trabalho. E pensei: MÁGICA! Daí o poema a seguir...
A máquina faz chaves:
mágica.
Mágica é a palavra,
chave para um mundo inusitado.
Plantando dizeres
que abrem portas
vão os versos
vão as letras
que vão dentro da gente.
E o chaveiro, inocente,
mal sabe que poeta
é bicho triste,
vê chave de poesia
na fechadura do portão...
Pura magia....
25.06.2008 - 0h51min
terça-feira, 24 de junho de 2008
Controvérsia
Garimpo pensamentos raros
entre as obviedades do cotidiano
perdidos nas alamedas
do que jamais poderia ter sido.
Salto os obstáculos
que se interpõem no caminho
como se a lida fosse suficiente
como se perder já não fosse o bastante.
Estudo cuidadosamente
a imperiosa substância não-tida.
São fartos os dias
de fartura duvidosa,
de suspeita companhia.
Procuro o silêncio desmedido
pra escutar o que me diz
meu sonho distante
o mesmo que não pôde
rasgar a realidade.
Perco o ônibus
na estação do trem
enquanto espero as asas
de um anjo disfarçado
de sorrisos e de fruta
amadurecida no pé.
São lisas as arestas da aurora
e firmes as presas do espelho
que me sorri.
A noção de limite
é o sopro de um deus controverso
que controla um universo vazio.
São minhas as horas que doei sem pressa
que voltei atrás
que voei distâncias imprevistas.
São minhas as faltas
as ausências, as não-presenças
que parecem iguais
mas são contrárias entre si.
O ponto obscuro é o fim
do começo de vida que não conhecia
bastecida de alegrias
e divãs de analistas
onde nunca estive
pra voltar ao começo
e encontrar raros fragmentos
de pensamentos plantados
n'algum lugar
que eu nunca vi....
23.06.2008 - 16h
De repente
De repente tudo vira de cabeça pra baixo
de repente o tinto perde a cor
a cor perde a razão,
a razão, a palavra.
De repente, o espaço está do avesso
o passo é espesso
o escudo, uma invenção
de um louco desacostumado
com a luz de um outro olhar...
De repente, a desconstrução
e tudo passa a ser o que está em outro lugar.
De repente, a tese rasgada,
a antítese no verso da folha amarelada
e todo o dito des-dito, malfadado.
De repente, o que acredito
não sustento
o que sutento
não credito
no símbolo suspenso
sobre o teclado.
De repente, negror e sal amargo
torpor e braço dado
saliência e serpente
no delírio de um doente
que se pensa santo
e que atravessa o sol poente
como quem brinca
de ser criança.
De repente a conversa inocente
rasga as vestes
e enfurece a dança
de corpos distantes que estremecem
ante o afago
ante a proferida sentença
que nega a venturosa lembrança.
De repente acordam-se os sonhos
e andam em dimensões diversas
entre os paradeiros das criadas
das mulheres, das trapaças,
das vertentes de lábios avermelhados,
das madrugadas, das vizinhas,
das deslavadas caras de predadores
famintos por leite diverso.
De repente escrevo poema
quando queria escrever um risco
(apenas um risco)
um cisco no olho do passante
que arranca a trave
e grita, com o espinho entre os dentes:
"SE É POESIA, SIM!
DOU O MEU ACEITE!"
E o acerto é acordado
entre todos os presentes.
Se poetas, se dementes,
não faz mal,
a gente sempre ri de tudo mesmo,
a gente sempre vai estar aqui,
afinal
todo verso se inicia assim
num repente...
Bem assim, de repente...
24.06.2008 - 01h38min
Caminhos
*Para um RICO amigo
São tantos
são claros
são escuros;
são longos
estreitos
controversos.
São frios
calculistas
exatos.
São monstros
são medos
são fetos.
Caminhos
são tortos
são mortos
são tímidos.
Vazios
poluídos
excêntricos.
Caminhos voltam
pelos mesmos caminhos
vãos.
Caminhos são escolhas
porteiras abertas
ruas sem saída
florestas.
Caminhos são luas
estrelas
e
serestas.
Serenos nas madrugadas.
Festas.
Frestas.
Caminhos são velas acesas
são velhas histórias
são frutas diversas.
Caminhos são aberturas
e chaves-mestras
de nomes que não conhecemos
mas queremos saber
por quê.
22.06.2008 - 22h20min
Ando nua
A teus pés meu mundo
meu sangue
meu ar.
Esparramados diante de ti
meus membros
minha pele
meus sonhos todos.
Não preciso de mais nada disso.
Ando nua.
Não tenho morada.
Não tenho parada.
Não tenho dono.
Fica com tudo o que é meu,
inclusive essa minha alma
que te ama
que te ama
que te ama.
Ando nua.
Nem alma carrego
nem coração.
Fica com tudo o que é meu.
Eu?
Ando nua.
Não tenho dono.
Sou asa...
e solidão.
21.06.2008 - 01h41min
Dos sentimentos
Sentimentos são feridas abertas
carne-viva-pulsante-exposta.
Diminuição do que se entende
por "cuidado, não há mais tempo agora".
Sentimentos são canções
que desafinam no momento exato
em que nos apresentamos
diante de múltiplos olhares.
Sentimentos são alçapões
que se abrem debaixo dos pés
bem na hora da primeira pisada
a mais firme,
a que mais esperávamos.
E lá vamos nós,
abismo abaixo.
Sentimentos são fantasias
vestidas em pleno baile de carnaval.
Confundem a gente,
confessam o desfile e riem
como se a nós não pertencessem.
Preparam um espetáculo circense
e desaparecem no dia seguinte.
Sentimentos são ruínas
restos dos trapos que ficamos
ao remendar os dias que se foram
e que já tarde foram
e que furam a memória maldita.
Já pareceram melhores.
Sentimentos são bolhas
são borboletas
são fiapos de lã
que não servem para tricotar
a blusa de inverno no calor do verão.
Sentimentos são espinhos
são rosas que jamais nascerão
nos vasos arrumados
das salas de espera da vida.
Sentimentos não são...
20.06.2008 - 02h45min
Mistério
*"A coisa mais bonita que podemos experimentar é a misteriosa"
(Einstein, soprado por uma poeira brilhante...)
Nuances de cores
na tela fria
risos de diversos sabores
pinturas inexatas
insustentáveis pareceres
cortados por cronologias absurdas
e abstratas liras.
Médicos, pacientes, malucos,
internados na letra
que dirige um olhar de soslaio
entre o que seja
e o que solucione
o enigma transparente
da palavra inexistente
no dicionário vazio.
Não pensamos, não olhamos,
não diluímos os múltiplos 'eus'
na catastrófica realidade
- martelo de sono -
que prende a vida por um fio.
Não somos meninos
sequer poetas somos.
Estamos leitores do outro
ou de si mesmos, espectadores?
Mistério.
19.06.2008 - 23h20min
Restos
Restam-me os pingos dos 'is'
as gotas de saliva
expostas nas portas da garagem
de um poeta aprendiz.
Resta-me a manifestação
da natureza insólita
perversos verbos e versos
presos à porta da geladeira
com imãs que falham.
Resta-me a cura que eu não quero
nem pedi.
(O que seria de mim
sem essa minha loucura?)
Resta-me a insensatez
o delírio, a busca cega
pela chave da prisão de giz.
Resta-me a febre gasta
o suor, o calor, o cansaço,
a prenda que não ganhei,
o cavalo que não montei,
a lágrima que não disfarço.
Resta-me o movimento extinto
na boca pintadade vermelho vivo.
Ao menos na boca, a vida.
Ao menos na vida, a boca que diz:
'eu não quero mais
já tive o meu quinhão
já não me basta
ser feliz'.
19.06.2008 - 16h
Fardo
O pardo fardo
na poeira da estrada.
O farto prato
na beira do abismo.
A língua amarrada
na farpa do clima.
O cataclisma aquecido
na prece do dia.
A tecelã embrutecida
no fiapo da vida.
A faca, o queijo, o pão,
o mantimento da lida.
A mala, o beijo, a mão,
o lamento na partida.
O parto da letra
na folha da sina.
Palavra vazia.
18.06.2008 - 23h32min
*Só mais uma dor...
Corre,rio
*Quintana, citado pelo brilho ofuscante da poeira de uma certa estrela:
"A tristeza dos rios é não poderem parar"...
Corre, rio.
Teu destino é o mar.
Na passagem, admira,
ama, deseja,
a hera, a chama acesa,
o acampamento, os riscos.
Os sisos das serestas alheias.
Corre, rio.
Teu destino é o mar.
Adocica caminhos
alimenta verdades
dá de beber ao luar.
Banha as gentes,
os peixes, os olhares.
Transborda de vez em quando,
provoca mudanças,
acende nuances
jamais suspeitadas
na margem direita
do teu braço
dado co'a chuva
que te abastece e delira,
prazenteira.
Corre,rio.
Teu destino é o mar.
O meu?
Oras!
Eu nasci pra te navegar!
18.06.2008 - 23h
Aviso aos navegantes
Não tente me entender. Não pense em me alcançar. Estou longe. Sou o vento que sopra no deserto. Sinta a essência, e trema. Mais que isso, impossível. Não se permita o interesse. Seria desperdício de tempo. Acompanhe o trabalho, se te apraz, mas não espere aproximação. Não há possibilidade. Nenhuma. Conserve a sua paz. O resto pertence ao nada. Não vale a pena.
18.06.2008 - 19h13min
Pensamento inacabado
A loucura tem gosto de mel. Um tantinho por dia protege das intempéries. Há quem a considere um perigo. Perigosa sou eu, que vivo a um triz da lucidez completa. Isso sim é que inspira cuidados. A loucura não...
Complete, caro leitor, como preferir...
18.06.2008 - 01h29min*Enquanto todos os lúcidos dormem. Lúcido é o cara que sabe que está um frio de rachar e se protege debaixo das cobertas, na cama. Louca sou eu, sentada diante dessa tela fria, digitando num teclado frio, palavras sem nenhum propósito além de esquentar um pouco a escuridão que atravessa o universo. Geladas estão minhas mãos. Louca! Uma louca, eu, com sabor de mel nas veias. Gotas de mel na pele. E gelo no lado esquerdo do peito. Inverno em mim.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
O 'X' do cinto
Não sinto
o cinto.
Se sinto
não minto.
O instinto
desmente
o sentir
que é sina
no badalo do sino
que pressente
o discernir
da mente
ausente de si.
Ensimesmada
retorno à sala
e sugo a frase
soletrada por ti.
A fase de hoje
é só um passo
no descompasso
certeiro
do mistério em
que eu não soube
per-sis-tir.
A luz acende o Sul.
22.06.2008 - 23h12min
domingo, 22 de junho de 2008
Caminhos
São tantos
são claros
são escuros;
são longos
estreitos
controversos.
São frios
calculistas
exatos.
São monstros
são medos
são fetos.
Caminhos
são tortos
são mortos
são tímidos.
Vazios
poluídos
excêntricos.
Caminhos voltam
pelos mesmos caminhos
vãos.
Caminhos são escolhas
porteiras abertas
ruas sem saída
florestas.
Caminhos são luas
estrelas e serestas.
Serenos nas madrugadas.
Festas.
Frestas.
Caminhos são velas acesas
são velhas histórias
são frutas diversas.
Caminhos são aberturas
e chaves-mestras
de nomes que não conhecemos
mas queremos saber
por quê.
22.06.2008 - 22h20min
Eles
Eles têm mais paciência
têm mais sabor
têm mais consistência.
Eles insistem mais
acreditam mais
vivem mais.
Eles apostam mais
arriscam mais
enfrentam mais.
Eles se doam mais
se entregam mais
se expõem mais.
Eles se aventuram
se aperfeiçoam
se comprometem.
Eles,
os homens mais jovens.
22.06.2008 - 20h
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Revolução
Juntaram-se os loucos e os profetas
nas praças das cidades sem lei
e o que se viu jamais se disse de ninguém:
a poesia a dançar de mãos dadas
co'a tortuosa faca de dois gumes;
a romper com as barreiras e os umbrais
que mantinham em pé as estruturas
das pessoas de beleza vazia.
A poesia, correndo solta nas bocas
das malas pesadas, nas cabeças ocas
que se soltaram e viveram a folia
como nunca dantes fora permitido.
A poesia, a bordar e pintar o dito
e o não-dito popular.
A poesia, a libertar o povo cansado
de tanta heresia, de tanto falar.
A poesia, a cantar a liberdade,
a sorrir e a escutar o verso que,
de fato,
finalmente, virá...
19.06.2008 - 0h46min
terça-feira, 17 de junho de 2008
Eu não sou. Por tempo limitado.
Eu sou o nada.
Eu sou tudo o que vai além
da tua capacidade de percepção.
Eu sou o que se esvai
nos minutos que não me prendem
a ti ou a qualquer outro.
Eu sou o esquecimento
em pele de mulher nua.
Eu sou o que ainda serei
e também o que jamais fui
nem tenho a menor vontade de.
Eu sou o oposto do que procuras
o oposto do que precisas
o oposto do que anseias tu.
Eu sou a esfinge e a pergunta
e a solução do enigma.
Eu sou o deserto e a metrópole,
a multidão e a solidão completa
enclausurada em campo aberto.
Eu sou tudo o que desejas
e o tudo que jamais gostarias de ter.
Eu sou a completude e
o imediatismo.
E sou a eternidade e
a dispersão.
Eu sou o que não vês
o que não tocas
o que não sentes
tudo o que provocas
tudo o que pressentes
tudo o que invoca a tua mente
irrigada de sangue quente
e de fresco orvalho da manhã.
Eu sou um sopro breve
o ligeiro movimento da cortina
o que jamais esquecerás
por toda a tua vida.
Eu sou o esquecimento
e a virtude.
O que está por vir
e o que morreu há tempos.
Eu sou quem desfila
diante dos teus olhos desatentos
e que perdes na curva do tempo
por não teres a devida explicação.
Eu sou o que não sei
o que alguém procurou
em algum lugar do universo.
E jamais
em tempo algum
encontrou...
17.06.2008 - 22h
segunda-feira, 16 de junho de 2008
A lava... a tua...
No céu sem estrelas
a língua
a tua
no meu céu sem estrelas.
Na curva da pele
a língua
a tua
na curva da polpa.
Nos poros abertos
a língua
a tua
no céu das curvas da polpa
de poros abertos
sou tua.
Suspiros certeiros.
No pico do monte
a lava
a tua
na polpa madura.
Açoite.
16.06.2008 - 01h
domingo, 15 de junho de 2008
Gosto de palavra
Não ponha palavras na minha boca
palavras eu tenho e significantes também.
O que me falta é a tua saliva, o gosto, o rosto,
o sumo, o sentido, o signo.
O que eu quero é justamente o que eu não tenho
de ti.
...
("... mas a gente faz o que a distância permite...")
15.06.2008 - 15h35min
Contradições
Meu nome é CONTRADIÇÃO.
Se choro, repara, que rio em seguida.
Se rio, não te enganes, que a graça
encontrei no cio de quem nem sequer conheço
mas que me pareceu ridiculamente engraçado.
Se sou circunspecta, se te pareço concentrada,
não espere que eu esteja digerindo
todas as informações recebidas. Nada!
Devo estar nalgum lugar distante
entediada com a forma cansativa
como determinadas falas
chegam-me aos ouvidos.
Se te digo que sou sossegada, duvida.
Sou até certo ponto, mas não pague pra ver.
Porque posso ter energia que até
a bomba atômica ficaria corada.
Uma hora quero, na outra não quero nem saber.
Se espero quieta num lugar
é porque em outro quero estar.
Se me agito e me enturmo e atormento
é por não ter absolutamente mais nada pra fazer.
E por aí vai. Sou a sapiência em pessoa
e a mais ignorante de todos os mortais.
Sou amável, carinhosa e feliz
e estúpida, grosseira e deprimida.
Contradições à parte,
sou só mais uma mulher
que dança nua na praça
esperando que o povo peça bis.
15.06.2008 - 12h15min
Velha história
Não tenho palavras novas
nem novos dizeres
pra falar tudo o que já foi dito
em toda espécie de saberes.
Sou inexata e equívoca
sou intento e alma vazia
não tenho pretensão de nada
não tenho razão nem falta
de espelho fora de foco
ou de espera fora de senso.
Nada tenho pra contar
que já não saibas
ou que já não tenhas ouvido.
Talvez um jeito diferente
nem assim tão bonito
que te prenda mais que um
pequeno espaço de tempo,
um minuto, um milésimo
de segundo, talvez.
Depois te irás
e nem lembrarás
que um dia, nalgum lugar
na fina e tênue luz do luar
eu te contei uma história
que já sabias
e parti, pra não lembrar...
15.06.2008 - 12h03min
Direito
Uma das coisas de que não abro mão
nem por decreto
é do direito
de fazer da minha poesia
o meu grito.
Aos 24 minutos do dia 15.06.2008
Esse tal de amor
Porque é que se fazem poemas de amor?
Porque é que há declarações de amor?
Porque é que as juras de amor se proliferam
feito moscas em dias de insuportável calor?
Talvez porque o amor seja essa coisa inconstante
meio fugidia, meio rebelde, meio metido a menino,
que não sossega nem com calmante.
Talvez porque esse bichinho impertinente
te faça sentir um tantinho assim mais gente.
Talvez porque, afinal, tudo na vida passa,
inclusive esse amor que as pessoas acreditam
que nada mais é que um etecetera e tal...
Aos 22 minutos do dia 15.06.2008
sábado, 14 de junho de 2008
Não cantarei
Eu não quero mais cantar o amor
amor não é pra ser cantado
sequer vivido; amor é noite escura,
é pra ser dormido.
Eu não quero mais cantar a paixão
paixão é pra ficar quieta, muda, perdida
num canto qualquer de solidão.
Eu não quero mais cantar o riso
riso é soluço que de repente escapa da gente
e não tem mais como controlar.
E falta de controle é um perigo!
Vai que a gente não encontra
o caminho de volta
e não volta nunca mais?
Ah, não. Eu não quero mais cantar
o amor
a paixão
o riso.
Eu quero cantar...
(... mas, sem eles, o que sobra pra cantar?)
14.06.2008 - 21h48min
Vendedora de mentiras
Escoam entre meus dedos os fios de esperança
que um dia acreditei eternos
eternidade é um ponto obscuro
nalgum lugar perdido de mim;
um dia sonhei que o mundo era menos duro
que o sol pra todos brilhava
que a alegria estava ali, o tempo todo,
era só tomar posse. Simples assim.
Nada.
O sol aquece quem tem amigos influentes.
A alegria existe pra quem
tem maior habilidade de enganar.
Pra quem alcança a maior cota de mentiras
estipulada no início do mês,
entre os fingidos de plantão.
Entre meus dedos,
o último fio de esperança
insiste em se agarrar
à pele quente da minha mão.
Mas eu não quero.
Eu não creio mais.
Num sopetão, me livro dele.
Pronto.
Agora sou igual.
13.06.2008 - 22h17min
Permanência
Inventei minha própria caricatura
cortei todos os meus exageros
varri as verdades pra debaixo do tapete
e ateei fogo à casa inteira
- melhor cortar o mal pela raiz -.
Depois virei as costas e parti;
não guardei migalhas na lembrança
nem ais, nem papéis de chocolate vazios.
Não comprei briga com a realidade
nem paguei pedágio pra ilusão.
Fiz plástica nas cicatrizes todas
pra não ter vestígio de dores.
Arranquei do peito o coração;
dói um pouco,
mas dor é coisa que dá e passa.
Ando vazia desde então.
E descobri que essa é a melhor forma
de permanecer...
14.06.2008 - 14h
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Não escrever
E se eu não quisesse mais escrever?
Pra onde iriam meus desabafos
meus espalhafatos, meus diários gritos?
E se eu não tivesse o papel em branco
na minha frente, na escrivaninha do quarto,
pra sangrar nele a minha dor, o meu delírio,
a espera insana, a arritmia?
E se eu só quisesse esquecer
como é que se junta as letras
e se formam os versos
e se formatam poemas
assim, dessa forma ligeira,
quase sem nem perceber?
E se eu não me quisesse mais lida,
e de repente fosse sumida
sem ninguém mais de mim saber?
E se eu descansasse,
finalmente descansasse,
dessa minha vontade de dizer?
Ah, minhas letras viriam sozinhas
acostumadas que estavam
com a caneta, com as linhas que bordam,
que guardam meus sentimentos todos,
minhas solidões perdidas nas noites frias
em que o orvalho lava a lágrima
e a escuridão acena ao riso
que não fere a garganta aflita.
E se eu aposentasse a pena?
Ai, ai, ai...
O que seria de mim?
13.06.2008 - 22h37min
Falsidade
Qual é o sorriso que mais te agrada?
Espera, deixa eu ver se tenho aqui.
Ah, sim, é este, o aberto,
que até parece sincero?
Sim, é este mesmo que tenho
pra te oferecer, hoje, aqui.
Não?
Queres que eu chore contigo
as tuas agruras, os teus delírios,
as dores que não pediste?
Sim, tenho lágrimas
aparentemente sinceras, aqui.
E posso até te oferecer um lenço
perfumado, bordado com as iniciais
de alguém que nem conheço
mas que leva o meu nome.
É de um abraço que precisas?
Tenho de todos os tipos
cores, formas e pressões.
Nem será necessário fazer força,
nem será necessário esperar,
nem será necessário questionar.
Terei abraços, sorrisos,
palavras de consolo,
juras de amor eterno
se for o caso.
É só pedir.
Trago tudo aqui...
13.06.2008 - 14h50min
Só mais uma
Decidi.
Hoje é meu último dia.
Amanhã não existirei mais.
Outra pessoa levantará da cama, em meu lugar.
Estou exausta.
Desisto, hoje, de ser quem eu fui até a presente data.
Sempre fui diferente.
Sempre joguei limpo.
Sempre fui sincera.
Contei quem eu era.
Nunca experimentei uma máscara.
Não sei que peso elas têm
(talvez até sejam confortáveis!).
Pois cansei de não encontrar lugar pra mim.
Cansei de ser diferente.
Cansei de ser apenas quem eu era.
E não serei mais.
Hoje é meu último dia.
Amanhã não existirei mais.
Amanhecerei mudada.
Mascarada.
Dissimulada.
Fingida.
Mentirosa.
Assim pode até ser
que eu tenha dificuldade
de encontrar um lugar pra mim,
posto estarem praticamente
todos ocupados,
mas serei apenas mais uma
entre os milhares e milhares
e milhares de outros seres com o dito perfil.
Não consegui pagar o preço altíssimo
cobrado de quem não finge.
Não tive meios de sobreviver sozinha.
Não dormi bem,
a despeito da minha consciência tranqüila.
Não fui mais feliz por ser mais sincera.
Não tive mais sorte por não mentir.
Não respirei aliviada por estar com a cara limpa.
Máscaras.
Hoje gastarei o dia escolhendo,
separando e preparando um belo estoque
de máscaras para todas as ocasiões.
Ensaiarei as mentiras mais convincentes,
os sorrisos mais cínicos
e os mehores fingimentos da praça.
Tive ótimos exemplos até agora.
Sou inteligente
(aliás, devo fingir burrice, também,
a partir de amanhã,
mas hoje ainda posso admitir
esse traço pouco valorizado no mundo),
e sei bem quais são as formas de mentir,
enganar,
ludibriar,
iludir,
dissimular
e todos os verbos
considerados mais sensacionais
e muito usados por esse mundo das pessoas
(de Deus é que não é).
Respirarei fundo, amanhã,
e sairei à rua,
com minhas máscaras tinindo de novas.
Exibirei todas elas.
Distribuirei falsidades
de todas as formas,
cores,
jeitos
e tamanhos.
E dormirei,
finalmente,
em paz.
Hoje é meu último dia.
Amanhã, no meu lugar,
uma mentira andará pelas ruas
e responderá quando chamarem o meu nome.
Porque eu não existirei mais.
Terei morrido esta noite,
de pura exaustão...
13.06.2008 - 14h
Amanhã?
E hoje foi só mais um dia
depois da noite escura
que manchou a face da vida
hoje foi só mais um dia.
Ontem esvaiu-se na lembrança
ficou pra trás, depois da curva
e não recebe mais visitas.
Hoje escorrendo-me das mãos
os risos se perdendo
o brilho se apagando
o som dos passos se distanciando.
Hoje escorre-me das mãos...
Só mais um dia.
Até que o amanhã nasça
pra começar tudo outra vez...
Aos 15 minutos de 13.06.2008Um novo dia...
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