segunda-feira, 4 de junho de 2012

Visível

.




Não existem os vultos que vejo
ao menos não para ti
embora para eles
sim
e para mim.
Somos nós todos
matérias soltas
em cordas distintas.
Estou aqui
ou aqui estás em mim?
O que é real
inventado
ou experiência
eu não sei.
Só é verdade o que se toca?
Só vale a pena o que se vê?



.

Vozes outras

.




Das vozes que me ouvem
digo palavras esparsas
ventos e brisas e cochichos
burburinhos devassos
de conversas outras
que eu não vi.
Sou rádio.
Talvez caixa de som estragada
emperrada de ruídos
que não pertencem a mim
nem àqueles que dizem
o que me esforço por entender.
Não se dirigem à minha pessoa
nem interessados estão
no que penso
no que sinto
ou no que conheço
nem sabem se os ouço
nem sonham que anoto
e esmiuço em versos
o que a mim sopraram
distraídos.

Bolhas de sabão
d'outros Universos...





.

*É mais ou menos assim que acontece...


.

terça-feira, 29 de maio de 2012

FOME

.


Cultivo meus versos
como quem escreve
a um curandeiro qualquer
inventor de milagres
e cinzas de bendizer.

Sereia
enfeitiço o vento
e lanço raízes ao mar.
Oceanos são limites virtuais
nos quais enfeito os braços
de pérolas
anzóis
e sais.

Não me bastam
duas ou três estrofes
nem múltiplos orgasmos.

Não me basta Tudo.

Eu quero mais.



.

Alma

.


Experimento o sopro
do que não existe
nem disfarça o frio corrente
nas bandeiras desfraldadas
que balançam ao vento
de um outono vazio.
As velocidades limitam os olhos
e o espetáculo é fio de seda partido
na boca da borboleta tonta
que a pedra escorregadia incendeia.

Dependo do orvalho nas folhas frescas
e do atropelo dos minutos
- que pingam -
dos incansáveis ponteiros da vida
- que dançam -
em redemoinhos de poeira
linha
e
argumento.

 
Na calmaria
- sedento -
meu coração
expira...


.

Leve

Das feridas já sofridas
nenhuma dor me guarda.
Alimento em mim
o que de mim
ainda me traga
e as efemérides liberto
que voem as mágoas
não quero o peso
da lágrima derramada
depois de seca
nem a hora que não deixou
de ser alegria.
É o riso que eu abraço
eu preciso é da saudade
eu gosto é de folia.

sábado, 26 de maio de 2012

Eu amo o Amor

.


Meu amor não tem nome
nem em ninguém habita
meu amor é o amor
é por ele que me perco
é dele meu anseio
é com ele que adormeço.
Meu amor não tem corpo
nem endereço
posto não ter fim, meio ou começo
que não tenha vindo dele mesmo
o único amor que conheço
o único por quem estremeço.
Eu amo mesmo é o Amor...



.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Despedida



Recolho-me à minha insistente insignificância de pingo d'água.
Vou pela sombra de minhas próprias árvores.
Voo nas asas livres de meus versos.
Persigo meus instantes
como quem corre ao encontro de si mesmo.
Emolduro os sonhos
que hoje soube imperfeitos.
Caço os medos
e as pontas dos saltos
perpetuam sonidos
estreitos
que eu calço
e ando.
Sem ilusão
de nada serve o caminho.

Adormeço.



.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Premonição





`As vezes eu gosto de sentir
antes que aconteça
o que acontecerá.
É como ver embaçado
na janela do tempo
antes que o tempo haverá.
Mas eu não gosto sempre.
Incomoda perder o prazer
da ilusão cega.
Perceber
antes
o que virá
faz tudo mais duro
descolore o encanto

e me perde


e eu ando


pra longe


eu ando...



segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sonolência

Danço nua um tango exausto
de energias represadas
e listras azuis na íris.
Sozinha
desamarro os espaços
e contribuo com uma única gota do suor do meu dia.
Engulo uma palavra à toa
regurgito um grito na garganta
fechada
de abelhas e guizos
e saltos mortais
repentinos.
Escrevo
pra não perder a linha
embarco na canoa que ascende ao limite exato
do que não estendo
diante do que não visito.
Visto a colcha de retalhos
e me revisto de restos de risos
que eu mesma teci
a despeito da falta de linhas.
Alinho meus pertences
os dois
nos meus mundos
os dois
e recolho-
ME.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Antes de ir



... ou me é dito, com todas as letras, ou eu não entendo.
O que a mim não for explicitamente endereçado
não entendo como tendo sido endereçado a mim.

Se pinga da tua língua
a palavra a ser dita
diz.

O tempo não perdoa
o que se engole
e o nó na garganta
se desfaz
sim
substituído
pelo desejo de ter dito
o não-dito
depois do fim.
Se a voz urge cuspir o verbo
cospe
escancara a frase
liberta o des-a-sossego.
Não há vento que apague
o dividido
quando a fala salta
da janela dos olhos
e fica impossível
desmentir o dia.

Se pinga da tua língua
a palavra a ser dita
diz.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Ser, ou não...

Ser mais ou ser menos
talvez ser discreta
quem sabe ser anonima ou
 arisca
ser inteira ou
minguada
enluarada ou
suficiente.

Ser ou não.
Abster-ME de visões.
Abastecer-ME de canções.
Talvez abater-ME quando em vez mas
 nunca
jamais
em tempo algum
NÃO SER...

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Paixão

 .




Pela vida eu sou apaixonada
- pela vida -
fosse d'outro modo
aquele plátano
não me ouviria o riso
nem dele eu saberia
a cumplicidade
levemente marcada
na folha
que ao vento
dança.



.

Emergência

.




E a pergunta dançou no ar
calada
feito poesia muda
mutante
feito avião de papel rasgado
translúcida
a própria oralidade disfarçada
de suspiro...




.

sábado, 12 de maio de 2012

Felicidade


No conta-gotas dos meus dias a energia é 
o que me fica...
A que eu tinha antes que esse mesmo dia clareasse
- esplendorosa manhã outonal -
e a que fui acrescentando nas veias das horas
pingos permanentes
que não se esgotam
- multiplicam-ME -.
 
 
 
 
 

Caneta

Arrisco uns traços
disformes
intenções de letras
que definem mundos
alimentam mistérios
e misturas.
Instigantes buscas.

Abuso da sorte
e faço versos.

Desconverso luzes e trincos
desconexos.
Conecto as chaves
batizo assuntos.

Sem tinta
não mudo.

Invento Universos.

Outonal

Do caminho percorrido
a parte pintada me assume
no delicioso delírio
da fantasia.

(Os assombros
assoviam
canções quaisquer).

Tanto faz se sol não houve..
ouvi dizer
que mesmo assim
se fez
calor...

domingo, 6 de maio de 2012

Apreço

Rabisco sabores
nas cores destras
dos lastros leves
esvoaçantes plumas ovais
contornos indeléveis
de espumas
e castiçais.
Penduro espelhos
reflito dimensões
insisto nas crenças
únicas
que habitam-me os espaços
e as esperas
dos princípios
e dos argumentos
que me bastam.

Mirante




Momentaneamente
congelam-se os partos
portos d'estrelas
d'estradas apartadas das bordas
dos retratos rarefeitos.
Escandalosamente
alimentam-se os pratos
d'estreitas fontes
forças beijadas na mesa
d'onde as cartas marcam
os próximos passos.
Toques e truques
d'espelhos pendurados
paredes vermelhas
pontes de facas
e pontas de dedos
nas faces.

Alegrias.




(A Cézar o que é de Cézar dai: ternuras.)




.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Movimento

Movem-se céus e terras
e livros desfolham
as árvores d'outono frio.
Comovem-se ilhas e abanos
refletem atitudes
e certas maneiras
de fabricar sonhos
em asas desiguais.
Erguem-se gessos e geleiras
dúvidas e divisões tantas
de rodeios e obséquios
guardados nas tardes de sol
de dentro de mim.

Pedaços de lírios
pétalas de frutas e cascalhos.

Rumores.

Tal vez...




Eu não canto.
Descabelo lãs e linhas
e agulhas trançadas de montanhas
e parreirais.
Não traduzo.
Embriago licores de interrogações
cascateadas
de rumores e espíritos leves,
esvoaçantes vestidos de seda
sem vento
brisa
ou sopro
que revele
o que protejo.
Escondo
Me
de
mim
e não sei d'onde colhi
as risadas
e as tentativas fracassadas
de dizer.
Eu não danço.
Reponho imperfeições
na minha cabeça franca
de fagulhas saudosas
e vermelhos feitiços
rasgados de tremores
e vírgulas
que não são respostas:
são beijos.

Eu, só




Toca inventar poesia.
Pincelar cá e acolá
um tantinho de cor do dia
feito manhã enluarada
ou sol posto na estrada
de pedras
e paus
e tropeços.
Toca desenhar soluções
e estruturas
nas paredes balouçantes
das pinguelas
que derretem
velas e veias
de palavras que não dizem
o que a areia

o pó e o desafio
dividem ao meio.
Uma parte é minha
a outra
achocolato
com ferro
fogo
cimento 
e bala de hortelã
e sigo adiante.

 




Farinhas


 Para meus amigos queridos: Carlos Farias, Claudinha Rebel e Lenita Lataes



Cambaleio
nas linhas firmes
do caderno extinto.
As tintas reunidas
ruminam sinais
irre
conhecíveis?
Farias outros versos
n'outros bares
ausentes de trapos
frangalhos d'outrora?
Sim, Carlos, Farias.
Farelos d'algodão ou cinzas
soprados das lareiras frias
apagadas freguesias
improvisos nos próximos quintais.
As canetas deslizam
nas curvas de rebeldia
de uma certa Claudinha,
na doçura inata
da nata da poesia: Lenita.
Tesouros e versos
nunca vem sós...
Saudosos trapos triplos
dos quais jamais
em tempo algum
desfarei os nós.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Precipícios


 (Pra ler, ao som de Sob Um Céu de Blues - Cascaveletes)


Incomensuráveis
devoram-meascoragens
abandonam-meàsorte

rala.

Opalpávelédolorido
opalatável,amargo
oprovável,escorregadio.

Seminterrogações
abrem-seasfendas
afundam-seaspoeiras
perdem-seaslinhas
easbandeirasdesfraldam
osselos

novos.

Àbeiraabismal
quecircunda-mea'lma
umrasgodevoz

ecoa.

Semcorsalientam-seasamarras
agarro-meàsfitas
prestesamediscernir
nostrilhosexaustos
queemdoispartem
osnós
dasmesmasferidas.


Escorro.

terça-feira, 1 de maio de 2012

SHIM'ON

Aquela que escuta
carrega uma afirmativa
permanente.
Uma vez ignorada
perdida

definitivamente

porque
única
e nunca repetida:

SIM
ONE.






segunda-feira, 30 de abril de 2012

Fica...

Dizer do dia
das horas 
que esvaem
dos tempos 
que escorrem
minutos sem dó 
que vão.
Dizer do rastro
do gosto
do riso
da companhia
que assim que começa
termina.
Do dia
das horas
do tempo
que assim que começam
se vão...

quarta-feira, 25 de abril de 2012

terça-feira, 24 de abril de 2012

Vide Verso

Sonolenta, esvazio sinistros assovios
no palco lento
do lerdo cruzamento
de esfumaçados padrões.
À beira das decisões
encosto fraturas
aos versos expostos
as espelhos d'água vistos
aos recortados portões.
Grito.
De rouquidão vidente
avaliso a longevidade do lábio
que brilha.
Razão  de sobra
degrau sem lenço
corrimão sem linho.
Acuada, risco a sombra
como quem padece
nas entrelinhas da testa
e descobre os segredos
os santos
os atalhos.
As dimensões flutuam.
Os vultos são só detalhes.
Confesso.
Confirmo o já sabido:
gente não sou
sou verso desnudo
cuspido por deus errante
sem rosto
língua
ou resto.
Sonolenta
poetiso...







Reflexo

Espanto os pontos abertos
dilacero quadriláteros
enferrujo algodões etéreos
a eternidade é grão d'areia
no deserto d'outras almas.
Erro a mira.
No mirante não vislumbro
a via estreita
o lume
o raio.
Exagero a ponta do lápis
na grosseria da escalada
interno assombro do recomeço.
Veredas são feridas
histórias de hiatos perdidos
futuros vindouros
vinhas
ouros
áureos dias.
Outras paragens....

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Interpretação

Nada entendas
do que invento
nos versos
que se me escorrem
pelos cantos da boca úmida.
Nada esperes
do que digo
porque meus dizeres
são pássaros avoados
doidas sentenças
sem sentido diferente
além da tinta de
uma pintura intransigente.
Nada argumentes
contra meus mundos
que se atrelam
aos pedaços dos cedilhas
e das sinas insistentes
que se prendem
aos meus tornozelos

todos os dias

inevitavelmente.


O que?

Se dou um passo
me arrependo
se abro a guarda
incorro em erro
se calo, tremo
se falo, termino.
Se me abro
rasgo o momento
se me tranco
não experimento.
Se busco, não acho.
Se fico, não tenho.

O que quer que se encontre
lá adiante
ou cá
no meio do caminho

se diviso
some

se apalpo
rompe

se sonho
rebento.












terça-feira, 17 de abril de 2012

Metáfora




Escorrem-me os verbos nos cantos da boca
enquanto as vias de fato
falham-me às pernas bambas.
Confirmo acontecidos
relato neblinas e delírios
em decúbito dorsal (in)sano.
A pedra cantada
tem cor de umidade
e tinta vermelha
na cabeceira.
Os ciclos são mistérios.





Gotas de metáforas mordidas.







segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ternura


Vestígio de Imperador
marca vertiginosa
viga no braço
vista embaçada
de perto
de perto
muito mais laço
rouca caligrafia
precisão cartográfica
de muito perto
a Cézar
o que é de Cézar
dai:
ternura.


domingo, 15 de abril de 2012

Passagem

Tudo é breve.
Ao minuto sucede
esvair-se n'outro
feito areia
ao vento uivante.
A vida é breve.
Errante.
O tempo perde
o instante
que já é outro
na estrada
em frente.
O asfalto segue.
Falha
a folha seca
no chão seco
da seca vela
que acende
mais uma noite.
Breve
breve
té que outro dia
este dia
leve...

Ou não


Dirá
de vez
ou quanto
talvez
terá
talvez
um quando
talvez
enquanto
o tanto
será

talvez.

sábado, 7 de abril de 2012

Duas


Sou duas.
Duas broncas
duas ruas
duas alegrias.
Sou duas
distintas luas
errantes construções
inconstâncias suas.
Duas ligações
imprevistas
presumíveis
opiniões nuas.
A que alimenta
e a que investiga
os vestígios
das próprias incursões
cruas.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Intertextualidade


Compartilho do prazer de Pessoa
não cumprindo um dever
curto ou comprido
tanto faz.
E minha desculpa
maltrapilha
é o acúmulo de caos
nesta mente doentia
que mora em corpo
que se finge são.
O que me leva a considerar
tudo o que há pra viver
e a insuficiência dos anos
pra dar conta de metade
dos projetos
que sempre ficam pr'amanhã...
"Hoje não", diria Pessoa.
Hoje não,
minha boca diz...




sexta-feira, 30 de março de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ilusionismo

Entre o sabiá e a cicatriz
vivem meus versos
sem eira nem beira nem esparadrapo
que os desprenda dos galhos
enredados
feito ninho
de quem se traduz feliz.



16.02.2012 - 16h44min






quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Ninguém

Não sou ninguém 
que já não conheças
que nunca te tenha
pesado na cabeça
ou na circunstância devida
dividida ao meio
da laranja suculenta.
Não sou ninguém
que já não tenhas visto
nem que de relance
num instante justo
ou in ou ex ou terminantemente perdido.
Não sou ninguém 
que já não tenhas ouvido
nas vozes que entrelaçam
teus tímpanos
teus surdos
teus silenciosos limites.

Não sou ninguém
além de uma curva
que adivinha minutos adiante
a janela
que me define.





15.02.2012 - 23h18min

Insanidade

Um poeta é um louco varrido
de caneta na mão
e ideias sem pé nem cabeça
batendo
no lugar do coração.
Mas se as ideias tivessem pé e cabeça
não seriam ideias
seriam canção
e dançar fariam os velhos
sisudos
que só precisam de um dedinho
pra virar verso 
estrela
e passarinho.






15.02.2012 - 23h

Quimioterapia

E o pente foi criando tentáculos
tentando criar atos
nos nós dos cabelos caídos.

Não éramos nós.

Eram ninhos.



15.02.2012 - 23h

Urgência



E das tintas que destampo
sobra-me uma coragem bêbada
um delírio, quase um quebranto,
um não-sei-que de emergência
que urge a exposição do exato
que desconheço
posto a metáfora já não pertencer
ao poeta
cego de luzes
mas ao passante
desatento de haveres
e de respostas perguntantes.

O meio fio é meu banco de dados
que jogo aleatoriamente
bloco de um carnaval que não brinco
nas pontas das orelhas abaixadas
do animal passivo
que insiste em mim
fazer morada.

Rio da incontinência
da providência que não vinga
e do produto falsificado
que dança nos pés de uma centopeia
cambaleantemente
descoberta.

Adoeço aos pés da poesia
em partes
deslocadas dos meus membros
e das imagens mais fantásticas
sem fim nem começo
apáticas.

Não foi pra isso que inscrevi meus versos
na ponta d'areia fina
do tempo
que devora
e definha
antes que se defina
a ponta do alicerce
que entrelaça a linha
daquele meu primeiro arremesso...




15.02.2012 - 22h18min

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Imprecisão

(...esvaziar as gavetas de nada serve
se de notas a cabeça anda cheia...)




Guardo galhos de árvores
que um dia floriram as ruas
enfeito meus dias
com frutas e sais aromáticos
que planto nos sonhos
teias de recomeços
e afuniladas tramas.

Suponho que as somas
salientem horários
e determinem direções opostas
àquelas em que me perco
e encontro culturas dispersas
fumaças e sinais
d'outros tempos.

A tênue linha do absurdo
rodeia meus passos
ridiculamente trôpegos
e sóbrios
e barulhentos.

Um assovio me distingue
dos que desconheço
no horizonte sombrio
que não alcanço
- nem ele a mim -
(grande mistério).

Se conservo
absorvo orações de duplo começo
enriqueço as divisórias do medo
e poluo as entranhas
com alheias devoções
desnecessários parágrafos
no vazio do Tudo.

Alimento
o que não sei ter fome
e mato mais um pouco
do que já sei pequeno
quase extinto
extraordinariamente
exausto
de procuras.


Sou espanto.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Andança

Tiro do bolso minha filosofia mais crua
cravejo de balas de menta
minhas metas norteadas
por cãs e começos.

Recomendo as últimas tiras
de fitas mimosas
baratas e desfiadas
plantadas com esmero
nos pulsos das moças.

Tropeço nos próprios pés
e trezentos conteúdos mínimos
brotam de ventiladores suspensos
cabelos de Medusas
empedrando gestos e vinhos.

E saio da casca
enfrento os maus modos
perco a linha que nunca tive
e encontro outras dúvidas.

Divido meu tempo
e meu suposto ponto de equilíbrio
que nem eu conheço
com quem me afronta.

Sou processo.





10.01.2012 - 02h16min

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Do Novo


Depois de apagar os borrões
círculos de luz explodida
confundem vozes
e diretrizes
miúdas.

Os espaços da próxima dança
iluminam a escuridão
sem rasuras ou hesitações
e os "Vivas!!" ecoam
de pés desconhecidas.

Poemas a serem escritos
pacientemente esperam
a hora exata
o instante sagrado
em que escorrerão
das linhas
dessas minhas digitais
já tão gastas.

Um outro começo...






02.01.2012 - 03h10min

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Apagamento

Sanções diluídas
em molduras d'espelhos
águas passadas
favas contadas
listagens permanentes
despistes de rastros

desertos.





15.12.2011 - 01h20min

domingo, 20 de novembro de 2011

Alimento

Vivem em mim
as dores dos anos
que passam
as dores
e os anos.

A solidão é qualquer coisa
que me alimenta
uma quase companhia
disfarçada de ninguém
em quem depositar meus medos.

Os cantos d'alma
guardo-os
todos
intactos
no meu álbum de visitas
últimas
as minhas
pé ante pé
submersas
em gelo seco
e unhas pintadas de azul.

Programo as próximas atrações
factuais
fracionadas
e diluídas em gotas
de um suor espesso.

Es
pe
zi
nho
a culpa
de saber-me só
sem nada pr'oferecer
além de um silêncio mortal
e de um fio de cabelo quebrado
que insiste
no embaraçado
e assumido
assunto
a contra gosto
encerrado.

Enceno uma bola d'algodão doce
enfrento fugas e míticos ataques
faço da fera
aliada
e alinhavo
outros cabrestos
nas pontas dos dedos cansados.

Satisfaço o que possuo de meu
sem nada consumir.

Calculo invasões
e danço...

Danço
como se o corpo fora
minha vida inteira
derretida na pista quente
na gota salgada que
devagar escorre
rente
entre a blusa fina
e minhas costas.

A solidão é qualquer coisa
que me alimenta...







20.11.2011 - 05h34min



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Finados

Todos os meus fantasmas
aos bandos me voltam
às voltas co'as colheitas
n'outros invernos perdidas.


Todos os meus fantasmas
bailam danças de sôfregos espinhos
infravermelhas lâmpadas
cacofônicos espelhos.
Bolhas.


Todos os meus fantasmas
esfumaçados de delirantes visões
primícias de demências sempre tidas.


Tudo a um tempo.
Sem minuto livre.
Sentinela
e gravidade urgente.
Vácuo.
Subterfúgio.
Incorreção.



02.11.2011 - 18h16min

Cambaleante

Sorrateiros

bêbados versos
buscam encaixes
nas estrofes tortas
do poema mal nascido.

Azuleja o vidro da mesa
sem caneta opaca nem tinta de parede ovalada.

Os quadros esquartejam líquidos
e pontas de semelhanças desfocadas.

Manca
a blusa azul atravessa o pente
comprime a ponta da cela
sem eira, beira ou macete

esperneia.

Cambaleantemente
suspende-se um ar falso
de falta d'água na premissa das gentes.

Pena...



02.11.2011 - 17h30min


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sem título

Despedidas as fantasias
obrigam-se as penas
a dizer verdades
mal vistas
nas quadras que bailam
na dança dos desesperadamente despidos
de esperanças esvaziadas de tudo.
Ninguém louva a queda da espera
pelo que há muito
fora esclarecido.
A falta de ousadia
cala a surdez
instala o absurdo
absolve o que não sabia
da rota raiz perdida.
Renasce a ignorância
à luz do dia
tão clara quanto a sombra
do infinito
es
tri
den
te
men
te
impura.


31.10.2011 - 14h50min

Herança

No ralo da pia
quase no primeiro golpe
a foice acerta o Norte.
Sede.
Meia de seda rasgada
joelho no chão duro
de velas amadurecidas há séculos.
O orvalho fede a cachaça.
Já não se pode buscar quimeras
nem levantar bom testemunho
em defesa das próprias ideias.
A justiça é fumaça de cigarro úmido
apagado na sarjeta dos corruptos.
Construto de veias
e longas alamedas
de incerto destino
a ultrapassado jargão.
Gota que pinga o sal
da saliva da cegueira
de toda uma geração.
Pernas de pau
bambas.
Incensário extinto.
Maldição.



31.10.2011 - 14h37min

Imagem II

Deserto de nervos
secas tempestades de eras
heroicos ventos
trajetos
contos rasgados de trajes
perfeições construídas a dedo


de dama



louca






31.10.2011 - 14h07min

Imagem

Calçadas tropeçam poetas
unhas de fome palavreada
em mangas de camisa bordada de sangue azul.
O passo retido na fonte
toca a ponta do céu da boca
seca de opinião devassa.
À espreita, laços de fita
disfarçam múltiplas intenções.
Um verso não basta
pr'abastecer sombras e fúrias.
Intacto, o ranger da porta
permanece
exausto de assombros.
Pintassilgos riscam linhas
onde verbos pousam assuntos
alheios às espátulas
que arriscam canteiros
e cravejam rubis
de nada.
As entrelinhas leem os olhos
vistas d'outros espaços
espelhos de fibras
e mármores frios.
Já não distanciam jazigos
amarrando cordas
ao longo da planta vingada.
Vincos de nuances
prenhes de pontas mudas
escondem barreiras e vinhos
nas queimadas sendas
da estrofe não tida.
Resvalam poetas nas grutas escuras.
do que fermenta sozinho
do que se pretende desinteressadamente
verdadeiro e
nu.




31.10.2011 - 14h

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Essa tal felicidade

Um ponto desconhecido
num Universo distante
talvez um acorde
talvez um verso
talvez um sorriso
torrão de açúcar
em copo de cristal
quebrável
sustento de medida desconhecida
talvez um filme
talvez cena no quintal
do vizinho
no da gente
dúvida

assunto escrito
nas tábuas de uma lei que não sabemos

sem saber
escrevemos
cantamos
sustentamos nossos vãos desejos
nos desenhos de nuvens distantes

enquanto ela
essa tal felicidade
aos nossos olhos invisível
paciente e determinada
aguarda a chance
de nos abraçar.




10.10.2011 - 22h20min

"Filosofia é poesia, é o que dizia minha avó..." (Tremendão...rs)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Vertigem



Dedilhar a próxima hora
balanço de lua sem luz
limiar de explodidas menções
n'uma ou n'outra nota musical
de revés.
Ao invés de saturar-se de nadas
delineia-se um azul difuso
na próxima curva.

Côncavo.

Convés.






24.08.2011 - 22h

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Previsão



Canto a pedra da próxima hora
abrem-se os parênteses
e as linhas curvas turvam
os olhos
esvaziados de composturas.
Disponho as cartas
sobre as mesas verdes
de algodão doce.
Não tenho tempo
nem cruéis esperanças vãs.

Voo.





10.08.2011 - 20h19min


sábado, 6 de agosto de 2011

Inacabado




Abotoo as portas
amontoo os freios
e fricciono vertigens
comporto miragens
e experimento limites
basta que os olhos pintem
Artes e ofícios
e debaixo dos tapetes
escondam os ouvidos mudos.





06.08.2011 - 20h

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

À Francesa

Esteira

estende-se
port'adentro

o soco soa fundo

esguia

esgueira-se
port'afora


o fundo falso
abalroa
o passo


ninguém vê


a boca miúda


não comenta





05.08.2011 - 22h

Realidade

Pé no chão
assoalho gelado
pra fazer lembrar do dia
da hora precisa
em que o real virou fantasia
e o suposto bem mais que deveras
existira.
A língua trava no meio da rua
não olha o lado
e cospe fora a palavra
que jamais diria
não fosse o azul que grita:
SOPRA!
e o sabão se esvai na bolha
antes que o dia acabe.

Pé ante pé
o chão
resvala...



05.08.2011 - 15h23min

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Trajeto

Ganhar não é difícil
mas exige esforço
jogam-se os dados
e os próximos passos
são marcados de mistérios
sem verdade, impossível
sem entrega, improvável
as linhas não garantem
segurança de nenhum lado
té que no meio do deserto
surja o milagre.




04.08.2011 - 21h

Jogo

Jogo
mas não jogo alto
ando pelas beiradas das regras
recuo alguns instantes
e uso armas-surpresas
de vez em quando
pra não perder de vez a mão
a mão que do outro lado
recua alguns instantes
e usa desconhecidas
artimanhas suspeitas
de vez em quando
pra não perder de vez a linha
conheço alguns movimentos
outros invento
ao longo do campeonato
que pode se estender
por uma temporada inteira
e
se os jogadores tiverem
sorte
astúcia
vontade
repetir a dose
na próxima
enquanto isso eu jogo
mas não jogo alto
vou reconhecendo terreno
descobrindo o adversário
calculando os erros e
as possibilidades de acerto
equilíbrios perfeitos
nas mãos de quem joga
mas não joga alto

por enquanto


por enquanto
há que reconhecer terreno
avaliar o adversário
considerar as possibilidades de erro
e de acertos
certamente


nas mãos de quem joga
mas não joga alto


por enquanto



nas mãos dos participantes
o resultado
impactante


por enquanto


empate







04.08.2011 - 17h24min

Xadrez

Pontos de linhas cruzadas

costuras alinhavadas em quadros

devagar

perde sentido a couraça

estrada

um passo de cada vez

som de colírio nos ouvidos cansados

sem mestres

ninguém dirige nada

nem nada impede

nem nada empaca

jogo de dama

no xadrez vestido

posto à prova

na dificuldade do nó

que não intimida




desafia.









04.08.2011 - 01h34min

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Atuação






Aparo as pontas quebradas

lixo as arestas

corto as linhas em excesso

traço as próximas metas

meticulosamente

liberto-
-me.








02.08.2011 - 23h04min

Evasão


Foge
desesperadamente evita
os pontos escuros
da rua
foge
a rua
desemboca em beco
migra
esconde a embocadura
foge
alucinadamente pinta
laços obscuros
no lado de lá
íntimo
foge
a fuga espantada
do susto
estampado
na folha tingida
de nada
foge
no lado de cá
lançada a sorte
resulta em fuga
o que hoje me foge.

Como sempre
é minha
a palavra final.






02.08.2011 - 22h23min

Quieta

.
.
.
.



Nada direi
do que nada me resta dizer
falar confunde os termos

silenciosamente

tremo.


.
.
.
.




02.08.2011 - 01h03min

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Interpretação

Eu quero tudo às claras
meias palavras não bastam
vírgulas não revelam
insistentes reticências assustam
o que as metáforas permitem:
entendimentos vários.
Eu quero tudo decidido
saber onde meus pés pousam
entender o que me espera
do outro lado do pântano
e do nebuloso assunto.


Eu quero todas as respostas
antes que venham as perguntas
dentro dessa minha impaciência tanta.



01.08.2011 - 02h33min

sábado, 30 de julho de 2011

O eterno retorno

(A Persistência Da Memória - Salvador Dali)



Todos os tempos são simultâneos
o futuro se desenrola
nesse exato instante
em que a pena fere a folha branca
na conjunção de um agora com um ontem.
Está tudo aqui, nesse mesmo momento
minha morte, meu nascimento
as escolhas que não fiz
e todos os meus tormentos.
O eterno retorno de Nietzsche
volta sempre para o mesmo lugar
d'onde jamais partira-e-irá.

Todos os tempos
simultaneamente
num mesmo lugar...






30.07.2011 - 13h32min

Liso

Escorrego e quebro a'lma
no ponto exato em que as pernas bambas
exigem direção curta.
Peso e tragédia são muros
de escovas e pinhas
nos galhos das horas
que passam.

Impossível engessar a alma
improvável alcançar a cura.

Resta-me uma ponta intacta
regenerativa...

Pulso.




30.07.2011 - 02h09min

Desabafo



Viajo na garganta seca
arranco meu sonho das nuvens
e planto sementes no inferno
onde o fogo suporta-me as crises.

Com força, sigo a linha estreita
dos costumes questionáveis
e das insensatas lutas.

Não abandono meus medos
nem eles desgrudam de mim.

Minha mente sua sangue
desestrutura a simplicidade
complica qualquer instante.

Arrebato restos de salivas
desperdiçadas entre dentes.

Rasgo a ferida.
Aceito o dia.
Permaneço
nua.

Em mim.



Na primeira hora e 37 minutos, do dia 30.07.2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Clareza




Arrasto minhas correntes
afundo os pés na terra
e sinto a dureza do chão
a pedra na janela
acertou-me a testa
sem culpa de ninguém
além da minha própria lama.

Eu
comigo.

Minh'alma descalça
descansa nos arredores do juízo
completamente perturbada.
Raspo os pensamentos
e as intenções que tive
descarto.
Recolho-me aos meus limites
que às vezes esqueço
que às vezes perco de vista
mas finco as estacas com força
té que outro vento me cegue.

Por enquanto me protejo.

Eu
comigo.





29.07.2011 - 23h38min

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Descrição

Eu gosto de dias claros
e roupas com cheiro de Sol
de luz natural
de primavera em flor.
Eu gosto de riso espontâneo
e de lágrima de emoção.
De campo, mato e cidade grande
cada um com seu encanto, lamento e confusão.
Eu gosto de dormir de conchinha
e de banho de mangueira na praia,
chantilly, gelo seco, manta uruguaia.
Eu gosto de fruta madura, toque de sino e sinal de fumaça.
Eu gosto de Tai Chi, arroz com feijão e mudança,
elevadores, cavalos e cães sem raça,
pinhão, batata doce e mel
e de estrelas coloridas, bordando o céu.
Eu gosto de quem acredita
de quem tem coragem
de quem segue a verdade
ainda que diferente da minha.
Eu gosto de gente bem resolvida
de quem não mente a idade
de experimentos gastronômicos e Arte.
Eu gosto de gente tímida
e de gente ousada
- mas só se for além da conta.
Eu tenho pena dos desesperados
e raiva dos injustos.
Eu fujo dos fracos e atraio bêbados.
Eu creio na infinitude
e gosto de acordar tarde.
Eu amo viagens
e vagens e fuligens.

Eu sou todas as miragens...



27.07.2011 - 12h03min

terça-feira, 26 de julho de 2011

Espólio

Minha poesia é espinho
cravado na minha pele clara
o sangue escorrido tinge a folha
e sobre ele desenho palavras.
Assim me doo
assim me doem as letras
a ferro e fogo arrancadas
a fórceps
no parto das madrugadas.




Minha poesia não tem a beleza da rima
cuidadosamente esfarinhada
pincelada a ouro
e dedilhada em violão afinado.
Não.
É manca a minha estrofe.
Coroa de pontiagudas foices
machucada de algodão
e grita
entre os dentes da caneta
grita
na face do papel
grita.

Minha poesia espezinha tudo
a rima
a métrica
o jugo
de ter perfeito ritmo
e coisa e tal.

E finca a faca
no olho maldito
que exige clemência
sem dar nó na garganta da lua
que brinca de clichês
e outros ques notórios
enquanto de mim
não é verbo que nasce
mas vida que escorre
vermelha de medo e vergonha
de tanto ser pequena
na'scuridão da noite fria.

Minha poesia é putrefato despojo.

Sobre o túmulo dela
uma lápide vazia.

Nada havia
a dizer
nada via...



26.07.2011 - 04h34min

Bah noite

Recolho-me à minha insignificância.
Versos travesseiram-me.
Atravessam as 4 horas que se esvaem em pedaços de vírgulas nos instantes.
Vou pela sombra.
Refaço o caminho da vinda.
A vinha afoga o lenço arrastado.
O sonho que não enraizou-se.
O lance de escada que não deu o primeiro passo
o primeiro invento
o primeiro pedaço de luz.

(Caco de espelho)

Que não deu a trégua que eu precisava.



Voo.




26.07.2011 - 04h12min

Embuste

Indago se me basta
um hoje raso.

Voos interrompidos
buscas com dia e hora
pra despedir os aplausos.

O vale reflete meus desejos e o Sol aquece o grão da uva inda nem nascida.

São longas as madrugadas em que vejo escoar-se de mim o que não houve.

Indago se me soa suficiente
um hoje exausto.

Fatos insistidos
bruscas linhas e honras
pra alimentar os instintos.

Os vãos engolem meus silêncios e a Sombra esquece a língua inda não inventada.

São negras as madrugadas em que, cega, tento desvencilhar-me das teias do que não tive.

Resvalo pelo que me esconde a essência.

Traduzo porões. Engulo cicatrizes. Repito erros. Disperso-me, feito estátua de mercúrio.

Uma palavra me perde. Um juízo. Uma cruz. E os limites me alcançam, famintos.

Sou água, escorrida na semente. Não brota ela. Broto eu, no sangue do dia. Todos os dias.

Vertente invertida.



Eu, aquela que ardia.





26.07.2011 - 03h54min

Obtuso-me

Invado devagar
devagar salvo as palmas
devagar não vou

fico.

Arrisco muito
quase tudo
e muito me afasto
quase de todo
no instante seguinte.

Não agrido
repito devagar
ao vagaroso ouvinte
o silêncio que petrifico.

Afundo
o beco.
Rasgo a hora.
Licencio a pergunta.

Mas a resposta não.

São redondas as pilhas de acertos
que eu não fui.

Estremeço e adiante sigo.

Eu
comigo.





26.07.2011 - 03h23min

Coleção

Coleciono palavras
intrusos vocábulos
substantivos vários.
Nos vãos dos espelhos
autorizo as frases
e adapto os dizeres.
Choro fácil
de lágrimas engolidas a custo.
Fácil rio
e amontoo vírgulas
misturadas a letras
matizadas de sal.


Coleciono palavras
nos olhos
nas pontas dos dedos
na saliva
nos ditos perdidos
e nos que não dou.


Só pra provar
quem manda

eu sou...






26.07.2011 - 02h43min

Encruzilhada

o mundo já não gira
vira a cabeça de lado
lança os ventos nas vestes
cambaleia nos sobrados
o mundo dá cambalhotas
meu corpo fechado anuncia a hora
agora tudo à volta importa
as portas abertas são livres
as liberdades, proféticas
o mundo abre as asas
canta no alto das árvores
e abraça as ruas estradas e trilhas

que eu não abri


no meio da encruzilhada
descubro um mundo
que não sei



26.07.2011 - 02h20min

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Abertura

E se as palavras aliviarem
a insistente tristeza instalada
alcançaremos enluarada vitória
entre as conchas das mãos espalmadas.

E se os risos forem constantes
e as condições permanentes
talvez vejamos nascer uma chance
de fazer com que tudo seja diferente.

Rimas, orvalhos, defeitos
confessos ou não nas letras
nos desenhos estrelados
ou ventos soprados nas janelas
plantados nuns versos devassos.

Eu planto sementes
tu decides se elas vingam...
Ou não...





25.07.2011 - 02h38min

quarta-feira, 20 de julho de 2011

À força

À força
as ondas espumam as águas
o sol alaranja o Guaíba
os olhos encerram a madrugada.
À força
os orvalhos umedecem flores
os bailes acendem os olhos
as lembranças nascem amigas.
À força
as distâncias rasgam entradas
os poemas pingam fatos
as estradas pintam existências.

À força
o sono se alimenta
de suave companhia.





20.07.2011 - 01h30min

Memória

Desmemorizo-me
pra peneirar os nervos
lembro aleatórias cenas
idas e vindas neurônicas
elegâncias passadas
invisibilidades minhas.
Movimentos da vida
que rola morro acima
                               te
                        men
                    te
               ten
           mi
       ter
   in
sem pedir licença
sem caber nas mãos
sem desculpas
ou razões outras
que não aquelas
que a memória aprovou.







20.07.2011 - 01h20min

sábado, 16 de julho de 2011

Arte

Minha arte é caco de vidro no sapato
estrada de brasas
que trilho descalça
pra não esquecer um verso sequer.
Minha arte
longe de conhecimento
é compulsão
necessidade imperativa
hiperativo verbo que brota
sem aviso
nem rendição
em tempo algum.
Minha arte exige tudo
e de todo fácil se desfaz.
É silêncio e escuta
brevidade longeva
detalhe e escândalo azul
destituída de pureza ou escravidão.
Escrava sou eu, dela.
Ela vem e se esvai quando quer.
Ela sopra, bendiz ou amaldiçoa
quando bem lhe apraz.
Minha arte é o desenho na janela
dessa minha vida
eternamente fechada
para o constante.
Caco de vidro
caco de telha
caco de instante
que me corta o pulso
e sangra
dissonante
feito fio de navalha vencida
na carne da folha branca.





16.07.2011 - 14h07min