terça-feira, 4 de agosto de 2009
Invenção
Estou boa de inventar
um outro jeito de poetar
um jeito assim meio moleque
de quem não se arrepende
de nada dizer direito.
Estou pra inventar um jeito inocente
de quem está ou é meio doente
meio sem pé nem cabeça
meio coluna do meio sem intenção de pretendente.
Estou boa de inventar
um jeito contente de poetar
que não conte as sílabas
nem os espelhos.
Que não tenha vernáculos rebuscados
ou formas estabelecidas antes do começo da escrita.
Estou boa de inventar um novo invento
uma coisa qu'inda não exista
uma vírgula no verso
um raio de sol que rasgue a noite sem lua
um suspiro de alívio sem dor.
Faço votos que meus novos versos
esses mesmos
assim meio desconexos
meio sem medida
mancos
descalços
ou de saltos altos
ou de pernas de pau enormes
sejam mais que versos
sejam gritos.
Que poesia é essa coisa absurda
de dizer as coisas entre os dentes
e não ir dizendo nada que construa
e mesmo assim ir construindo paredes
d'algo que ninguém enxerga
mas que todo o mundo sente.
Ando com muita vontade de inventar o verso mudo
ou o verso de dois quilômetros de largura
ou de mais de mil metros de diâmetro.
O verso número mil
o diverso
o reverso
o que dá vontade de ver
ou não.
O que dá vontade de ler
ou não.
O que dá vontade de ter
ou não.
Escrito
gritado
manipulado
desfeito
maldito
comprido
comprimido
contrafeito
destoado
destonado
desenterrado
do mito
do muito
do famoso
"diga ao povo que fico".
Fico onde, se não caibo no espaço da folha?
Fico aonde, se não minto o bastante?
Estou pra inventar o verso mentiroso
um jeito de poetar que finja alegria
ou um sorriso faceiro
quando chorar era o que eu queria.
Estou pra inventar um jeito amargo de poetar
o verso que não sustenta
a língua nem o prato
quanto menos o pranto.
Estou boa de inventar essa reviravolta
que eu não sei de onde tiro
se foi ontem
se ontem se foi
se se cumpriu o delito.
Se gaguejo poetando
se, ao poetar, gaguejo
se gargarejo um poema
se cruzo os braços
e praguejo.
Estou boa de inventar
esse jeito de poetar desamassado
que compara a porta ao descabelado
e estremece de dó
de pena
e de vínculo
nos fios da tomada exposta
desconstruída.
Estou boa de inventar
um novo unguento
pr'essas minhas feridas doridas...
Ai...
04.08.2009 - 16h17min
Tresloucada
Tresloucada escrevo novos versos
meio sem nexo algum
que é pra ver se desvirtuo
um tantinho só
um só tantinho
essa minha vontade de ser certinha
a certeza que eu nunca tive
o caminho que eu não cheguei a seguir.
Solto os dedos no teclado
e permito que eles mesmos digam
o que eu não ousaria dizer
de boca lavada
e cara limpa
diante de um espelho quebrado
ou de um microfone a todo volume.
Quero distância das sinceridades todas
prefiro as mentiras cabeludas
pra fazer tranças e longos penteados
e fingir que tudo permanece intocado
feito relva virgem
em clareira aberta na floresta desconhecida.
Permito que meus membros gritem
as coisas que eu não pronuncio
nem sonho em dizer sem testemunhas
ou quadros de funcionários
e discursos de teses sem sentido
sem intenção
sem conclusão precisa.
Eu quero a liberdade de saber-me nua
despretensiosamente destituída de conceitos
e propostas oficiais.
Eu quero a cicatriz que me rasgou o peito
e o peito que recebeu a cicatriz.
Quero a marca
a trégua
a régua que traçou a linha
que eu não fiz
que eu não pedi pra fazer
mas que tenho que seguir
à risca
dia
após
dia
no interminável solo aberto
diante de mim.
Tresloucada escrevo
e digo
despudoradamente
o que me vai nos extremos
dos membros que me bastam
dos socos sovados no estômago
dos santos orados olhados ocupados
pelas orações que eu não pedi.
Tresloucada.
Escrevo...
E tu não entendes.
Nem deverias.
Nem poderias.
Nem ousarias.
Escrevo
mesmo assim...
04.08.2009 - 15h
Cuidado comigo.Eu queimo!
É feita de sonho essa minha vertigem
de frutas do conde
de restos de tijolos
das construções erigidas a dedo nu.
Eu mesma entalho os quadros
que penduro nas paredes imaginadas
das celas dos quartos dos brancos hospitais internos.
Incomodo uma meia dúzia
e outra dúzia e meia abençoo.
Se sou artista
e soo comunista
ou um tantinho autista
busco as rimas na gaveta vazia de dicionários
extintos vocábulos ardentes
nas chamas das velas que anunciam
um novo amanhecer.
Dolorido amanhecer radiante de raios de sol coloridos.
Quem pediu pra nasceu?
Quem conduziu os braços e os padrões
estabelecidos anteriormente
quando nem sinal de vida havia?
Se sou comunista
e soo autista
é que sou artista
da letra desconjunta.
Junto verbo com verbo
e sai um amontoado de minhocas famintas
de entendimento.
O sebo não gruda as canelas
nem os prantos liberam alegorias deveras.
Das Veras, dos viadutos, dos verões
que evaporaram nos dias de frio
sucessivos arranhões nos portões
de um céu sem nuvens.
Vadio.
Ou do inferno.
Que seja.
Se sou autista
e soo artista
é que sou comunista
sem um pingo de remorso
pelas noites mal dormidas
insones pesadelos desacompanhados
ou mal acompanhados
ou indispostos pesos nos cabelos
que operaram maravilhas
num mundo inexistente
in-ven-ta-do.
Ventania.
Se sou comum
se sou arisca
se sou feminista
enfrento a conquista
e todos os xis e todos os 'ipisilons'
impostos pela minha condição
de ser nada
num mundo vazio
de milhares de pontos finais
de sem números de pingos nos is
de incontáveis exclamações viris.
De meninos hostis.
De ocos homens soltos.
De zumbis.
Se arrisco
se petisco
se permeio
se costuro
se entretenho
se encorajo
se arrebento
atormento
enterneço
atordoo
é que sou pólvora
e assoalho.
Não me tem nenhum povo.
Não me agrada nenhum enigma.
Não me prende nenhum perdão.
Danço e disfarço as letras
em cantigas quase insaciáveis
de compreensão.
Se sou delírio
não me abuse.
Não lamba os beiços da lua.
Que o mistério é explosão.
E nenhuma costura
te alcança a alma
depois de rasgado o desejo
depois de tida a expulsão.
04.08.2009 - 14h30min
Já vai tarde
Um passo em falso
e já era.
Foi num tempo disperso
deixou de ser sem rastro
nem pegada alguma
que denuncie sua estada.
Foi.
Já era.
Perdeu o bonde
o trem andando
o táxi na curva do caminho
bem no meio da lida
num dia chuvoso
e escuro.
Foi
Já era.
Perdeu a passagem
o passe, o vale, o ticket.
Foi.
Já era.
Traduziu o reduto
do meio da linha
no fim da linha o fundo.
Foi.
Já era.
Nem um assovio
nem um aceno
nem um deslize.
Nada que indique presença
presente ou passada
distante ou futura
nem um vestígio.
Foi.
Já era.
Os escombros
os aquedutos
os restos mortais
os entulhos.
Nada.
Foi.
Já era.
Um fio de cabelo
o fio da navalha
o fel na lábia.
Foi.
Já era.
É tarde.
04.08.2009 - 14h10min
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Epitáfio Segundo
Aqui jaz a aurora
de dias ardentes
tão ardentes que consumiram
a si mesmos
na própria chama.
Aqui jaz a fauna e a flora
a lágrima solitária
o riso falante
o desejo latente
de permanecer
n'algum brilho anoitecido
n'algum som difuso
n'alguma gota de chuva.
Aqui jaz a que nunca esteve
o estudo do improviso
a exaustão em forma de gente.
Aqui jazem os livros
os versos
os sonhos dormidos
os sonos despertos.
Jaz meu limite
meu fôlego
meu intelecto.
Jazem minhas duras penas
minhas pás diversas
meus pés velozes
meus papéis rasgados
meus punhos cerrados
meus erros
meus medos
meus modos.
Aqui jaz meu epitáfio.
03.08.09 - 16h
Desassossego
De todos os imprevistos
o que mais me desassossega
é o que vem do coração.
Do meu coração
essa bomba relógio
que fica tiquetaqueando
sem trégua e sem aviso prévio
do instante exato
em que vai ser tomado
de susto por algum repentino clarão.
Ah...
É quando tudo se ajeita
todos os problemas ficam pequenos
todas as ilusões possíveis
as distâncias transponíveis
os jargões aceitáveis.
É quando todo mal vira cura
toda intenção é saudável
todo invento é bem vindo.
Quando essa bomba relógio
tiquetaqueia mais alto
desfaz as trevas e as tremedeiras
soma raízes e trepadeiras
alumia o dia
a noite
o tudo
o toldo do mundo...
E me desassossega...
03.08.2009 - 15h33min
Aridez
Ando a esmo
nos ermos trilhos
de trens absolutos.
Sou pardal
meretriz
luz divina em flash.
Sou solução
que não se busca
e interrogação
que carrega em si
outra pergunta.
Sou flor
orvalho
e pimenta
nas frontes
de desconhecidos.
Ando a esmo
nos ermos trilhos da vida
sem espátula
ou barganha,
sem despedida.
Sou folha ao vento
filha de Minuano
neta de Sicrano
e mãe desmedida.
Sou parente de mim mesma
e da própria comida
sou irmã e confidente.
Sou a exaustão
e o mistério
a compra sem limite
a coleção de borboletas
espetadas num céu de aquário
em pleno inverno primaveril.
Sou a opção vermelha
da queda brusca imprevista.
Sou trilogia;
sou artista;
nesse mundo de orvalho
de ermos caminhos
de escombros
de exemplos corrigidos
e de descabidos estorvos.
Ando a esmo
nos ermos caminhos
inválidos.
Onde vão dar os trilhos
dos descarrilados trens
que eu tomo
na xícara de chá preto
entre uma estação e outra
entre a minha primeira
e a minha segunda
e a minha terceira escolha
que em breve haverá de ser
ex?
Ando
esmo
ermo
... árido...
03.08.2009 - 15h34min
domingo, 2 de agosto de 2009
Flores, jardins e arco-íris
Não sei mais escrever sobre jardins,
flores e lírios.
Deixo os arco-íris para Alberto Caeiro
e seus rebanhos.
Eu falo de angústias e quedas
de solidão, assombro e raça.
Eu falo do que não se diz,
do que se tem medo de medir,
do que se evita verbalizar.
Eu falo do desejo de descobrir
não o que todos já saibam
mas o que ninguém voltou pra contar.
Eu falo do talo da flor que murcha
da folha rabiscada
ao lixo jogada
sem piedade ou dó.
Eu falo do olho que não pisca
do cabelo que não se ajeita
das mãos paradas no ar
esperando constantemente um motivo
ou não.
Eu falo do que te desacerta
do que anula a parceria
do que paralisa o gelo.
Não falo de jardins
flores ou arco-íris.
Falo do que te incomoda
e a mim...
02.08.2009 - 14h10mim
Pendência
Se escrevo sobre a morte
quero morrer?
Não sei.
Dorme comigo
e comigo amanhece
essa idéia fixa:
morrer.
Traduzir o mistério.
Abrir o parêntese.
Atravessar a cortina.
Conhecer.
Será penumbra,
breu,
solstício?
Será vazio,
jardim,
colchão?
Será uma escapadela
ou eterna vigília?
Buscar a resposta
será coragem
ou covardia?
Depende do dia?
Depende da forma?
Depende do curso?
Depende do que se pretendia?
Depende de quem me encontre?
Depende de quem entenda?
Ou in-depende de tudo?
02.08.2009 - 13h02min
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Pretexto
São claras as sombras
que me permitem vaguear
pelos desertos infestados de olhos.
Cruzo os dedos das franjas
enfeitadas de cinema e lembrança.
Ensurdecedor silêncio mal visto
anoitecido disfarce de lua
ainda não desenvolvido.
Folhas secas compondo auroras
ranhuras de lábios nas conquistas
e trilhas abertas pela esperança.
Construo solidões
e desintegro gotas de chuva.
Afio a navalha cega.
Sou poeira...
Suposta invenção...
31.07.2009 - 23h16min
VeRtIgEm
Por vezes a vida me deixa tão tonta
que eu quero morrer.
Morrer deve ser mesmo um descanso
muito parecido com alívio
talvez um entreter,
não sei.
Divago devagar sobre as questões que me afogam.
Devagar me aventuro no interminável hoje
que transforma amanhã em agora
e ontem em nada além de uma lembrança cortada.
Devagar apresso o passo adiante
e não adivinho a têmpera
muito menos a temperatura
abaixo de zero
na grama tapada de geada dura.
A mesma geada que me endurece a manhã inteira.
Porque meu hoje é uma manhã
talvez uma noite
muito provavelmente uma madrugada fria.
Estanque talvez.
Talvez em movimento lento.
Não sei.
A repetição traz desinteresse
e o stress, repugnância.
Estanque, talvez, esse sangue
que me corre, ou não.
Talvez um lamento.
Alimento a sensação de vazio no oco do peito.
Ouço ecos na esquina da vida.
São meus mortos, chamando por mim.
São minhas chamas, morrendo por mim.
São os mins e os eu mesmas colhendo estrelas
que esqueceram de parir.
Desempato o jogo com um tiro no escuro
e acerto no ouro do vício.
Desmancho as cortinas e os cortes exaustos.
Entro na estrada e me perco
bem no meio do mapa das horas.
Não sei onde perdi meu tempo.
Não sei onde encontrei a noção
de perda de tempo .
Não sei como calar esse deus pagão
que desconheço.
Não erro nem acerto nem endireito.
Finco estacas bem no meio dos meus planos
e eles explodem
pra nunca mais.
Não sei onde perdi o encontro.
Não sei se perdi.
Não sei se encontro.
Não sei.
Não vi.
O fato é que a vida me deixa tonta
e eu quero partir.
31.07.2009 - 01h
Citação
Citações são perigosas.
Palavras, em geral, o são,
ditas por nós ou por terceiros,
quartos, quintos, décimos, não sei.
Palavras são serpentes.
Pentes que despenteiam os nervos,
sempre à flor da pele.
Palavras são peles que cobrem auroras.
Palavras são ranços e canções.
Espuma e espelho.
Palavras são dores ou cores,
depende de onde são pintadas ou tatuadas,
marcadas a ferro e fogo
- no couro? -
De quem?
Aos 25 minutos do dia 31.07.2009
(Considerando as citações perigosas,
cito a mim mesma, assim, brevemente... ?)
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Confessionário
Confesso que sempre que brigamos
eu disfarço o tamanho do sofrimento
que me acomete
porque penso que será a última vez.
Confesso que fica um rombo desse tamanho
quando tu não vens.
Confesso que tua primeira sílaba é minha
e que eu, de um jeito ou de outro,
estou sempre conTI*go.
Confesso que acho teu nariz lindo
e que adoro a tua risada
sempre tão limpa
sempre tão leve
sempre tão pra mim.
Confesso que essa tua juventude me assusta
e que não adianta contares o tempo
desse teu jeito maluco:
as duas décadas sempre serão duas.
Confesso que nem lembro disso tudo
quando estamos juntos
e que tua constância me conforta.
Há quanto tempo?
Quem se importa
se já se vão os dias
e tu permaneces
a despeito de tudo?
Confesso que viveres no meu mundo real
é mais que uma alegria
e mais que um prazer.
Confesso tudo o que tu sempre vais saber:
Eu TI* adoro.
29.07.2009 - 18h10min
*TI
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Ponto de Vista
"Amor é a gente querendo achar o que é da gente"
Ele aguenta o meu mau humor
sabe que eu adoro café
que assisto algumas novelas
que gosto de livros que ninguém lê
que estudo muito
e aprendo muito pouco
que não sei guardar dinheiro
que falo muito o tempo todo
e que não sei quando calar
que meu palavrão
mais cabeludo
é 'estúpido'
que gosto de chocolate quente no verão
e não tomo sorvete nunca
que odeio futebol de campo
futebol de salão
futebol de botão
e se for do Inter, então...
Ele sabe que eu adoro estar com ele
que quando ele some eu morro
de saudade
de solidão
de vontade
que sempre que tomo café
lembro que ele não toma
que penso no que ele pensaria
se estivesse lendo o que eu não leria
e o quanto de tudo isso eu aproveitaria
ele gosta de rimas
eu as evito
mas de vez em quando
caio no colo de uma delas
e acho confortável
e bonito
só por causa dele
eu copio as frases dele
e fico repetindo pra mim mesma
pra ver se entendo
onde ele quis chegar.
Ele sabe que admiração é pouco
pra descrever o que me vai
no peito, quando penso nele
(esse QUANDO é completamente
inadequado
já que penso nele o tempo todo)
ele mede o tempo sem relógio
e o relógio é meu senhor
ele é mais velho que eu
eu sou mais velha que deus
e esses anos todos me pesam
atrasam
crucificam
a oportunidade
que ele perdeu.
Ou não...
27.07.2009 - 16h24min
"...eu acordo de mal humor
não tomo café
não vejo novela
gosto de livros estranhos
não gosto de estudar,
mas gosto de competir
não sei ganhar dinheiro
as vezes falo muito
as vezes não falo nada
sou do tipo chato,
raramente me permito falar palavrão...rs
gosto de sorvete no inverno
e não perco um jogo do inter..."
(TI, em 27.08.2009 – 16h)
Pensamento
À mesa de trabalho solto meus punhos
escrevo sem sentido
e sem sentir carrego meu mundo
saco de vento e letra hermeticamente fechados.
Os fios de encaracolado negrume
despencam pelos ombros querendo voar.
Querendo vaiar o tempo
cumprimento a orla e o estribo;
estreito as vias das veias
e as velas são formigas companheiras
que eu não deixei de arranhar.
Desintegro a mão apertada na cintura
e o espanto de pontas e prantos
é produto dos ponteiros frios
que aplainam as prateleiras dos panos de prato
que destruí de tanto esfregar.
Reedito minhas opiniões
quantas vezes forem precisas.
Navegar é preciso, diria Pessoa;
impreciso é navegar, diria eu
tanto quanto o é, viver.
Variar estações e o tapete estender
de flores às provocações;
coisa de hospício e de delirantes vestimentas
que assumo nos meus dias
como se minha cara tivessem;
como se minha cara teriam.
Desmaio na tentativa.
Corrijo o que carrego.
Corro morro acima.
Corroo minhas tramas.
Coroo meu próprio medo.
Sem ele não dou passo nem possuo.
Sem ele não obstruo.
Sem ele não obturo a pena
nem ocupo o lugar que me é devido.
Bem ou mal ele existe.
O meu lugar.
O lugar vazio.
21.07.2009 - 13h51min
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Ferimento
As mãos feridas
produto do trabalho duro
ou do desejo de esquecer?
As mãos feridas
a fibra em carne viva.
A febre em viva ardência
na testa
nos olhos
nos músculos.
As mãos feridas...
Curativo
Correção
Concentração
Corpo de dentro
na tora de árvore cortada rente.
Na madeira, o sangue escorrido.
Morro eu, hoje.
E a oportunidade...
Perdida...
23.07.2009 - 20h25min
Entitular
Não foram as mãos na pele do outro
o sopro de intenção a embrulhar
o espelho o orgulho a sensação
de conformidade e de limitações.
São exceções diárias de rotas estendidas
que não foram escolhidas escritas
sequer pensadas muito menos corrigidas.
São sufocos escondidos nas grutas
de absurdos pareceres inválidos
antecedidos por arcaicas observações precárias
de terceiros surtos vários.
São partes quebradas de sonhos iguais
e quedas inesperadas das cortinas das janelas
que não flutuam nem dispersam as sombras
das laterais e dos parques assustados
nas fantasias diárias vestidas de insandecidas manhãs.
A luz rasga a veneziana aberta
e prende os olhos da curva nas laterais da vida
que pe(r)de um instante de atenção
na rota jamais escolhida e nunca trilhada
pelos paralisados pés descobertos de medidas vazias
nas curtas temporadas de caça aos fantasmas
que fogem por entre as frestas dos limites
entre o absurdo e o repentino clarão.
Sufoco na força escusa e nos argumentos engolidos
inválidas gotas perdidas de saliva seca.
Partículas de tardes esvaídas nos silêncios
de terceiros, quartos, quintos serões.
Varandas varridas de vento minuano.
Cantarolante ar arredondado
habitado por melodias antigas
e velhos casarões de fibra.
A finda história que não vi...
21.07.2009 - 13h38min
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Trilha
Destelho o que me cobre
desenterro meus cumprimentos
sentencio meus desejos
e minhas pragas aos quatro ventos
na rosa dos tempos perdidos.
Sou conquista e contratempo
sou diversas lidas e outros unguentos
sou terço rezado na sexta-feira santa
e rito pagão cumprido à luz da lua.
Desespero a escolha
e começo de novo, do nada.
Visto a mortalha e deito na estrada
esperando o trem eterno.
Não sei mentir que sei o que emudeço.
Se amanhã eu estiver estremecida
é que meus brios se esgotaram
nos nervos que meus dedos permitiram
que se entrelaçassem sem custo.
Se hoje esqueço a hora
e perco de vista meus assombros
é que o cachecol enrolou os minutos
e eu peguei no sono que destila vãs vinganças.
Se ontem à toa sofri
é que as visões esvairam-se
entre os dedos da madrugada
e os começos derreteram as estacas
cravadas no coração da terra de ninguém.
Se aqui estou
é porque há vácuos e mútuos escombros
entre o que está por vir
e o que já houve
n'algum tempo obscuro
n'alguma falha de muro
n'algum reduto perdido
entre o que inventei
e o que poderia ter sido
se eu houvesse permitido.
Ou tu...
20.07.2009 - 10h
Questões
Se motivos eu não tivesse
motivos eu não daria
pra receber o farto livro
de mentiras e de soluções mal quistas
nos entrelaçados cordões umbilicais
que me enforcam
pra não dizer que me atrelam
a um passado que eu não foquei
mas que carrego às costas:
corcunda desconfortável
sem previsão de deixar de existir.
Sou sopro esvaído da boca
d'algum vento errante
que sumiu bem no meio do deserto;
daí essa imensidão de vazio
e esse calor debaixo dos pés
que me arranca as peles e as feridas
descascadas de cansaço.
Não passo de uma breve passagem
que nem pegadas deixa atrás de si;
nenhum vestígio de luta
nem de desejo
nem de conforto.
Conforme passam os dias
deterioro os pensamentos que não tive
não compro gato nem lebre nem lembrança alguma
dos fantasmas que pertencem aos mercados
guardados nas minhas entranhas.
Eles me acompanham
embora não os veja mais.
Eles me devoram
me denunciam
desdizem meus feitos
sem dó nem piedade
e consideram piegas essa minha doença
que me arranha a garganta
seca de palavras não ditas.
Apaixonadamente percorro minhas estradas
destituída de qualquer ambição
devorada por minhas contradições todas.
Comparo as curvas e fecho as cortinas.
Não gosto da viagem
gosto do porto desnudo
gosto da porta aberta
nem sempre
às vezes a porta fechada é um alerta
ou uma pretensão
nunca uma proteção.
Cerro as venezianas e encontro teias de aranha
nas dobradiças enferrujadas.
Sem canções tristes, tudo fica meio cinza,
as árvores não balançam
nem os pássaros conversam entre si.
Sem canções tristes não escrevo
nem faço meus rabiscos
que ouso de desenhos chamar.
São meus
são pra mim
são frutos do grafite
que eu gosto sem gasto
ou defeito de luzes.
São minhas curvas e meus açoites.
São meus gritos.
Restos das sobras
do que haverá de ficar de mim...
Não são pegadas
são nós frouxos
pra serem soltos
por quem me vir.
Por ti...
18.07.2009 - 15h
sábado, 18 de julho de 2009
Finada
Brincar com borboletas coloridas
correr e amarrar a alma
desatar os nós das cordas
e acordar intacta
da noite não-dormida.
Chuvas de letras explodem na tela
riscos violetas contornam imagens
transcendem
trançam
traçam reveses
revistam soldados
revisitam paredes sólidas
das provocações austeras
de um deus mudo e sem razão.
Risos distantes ecoam nos pastos
e passo a acreditar na força
que desconheço
e que vive atrás dos tules
que não alcanço.
Arranco os baldes de luas
e estrelas derramo nos pratos
que preparo no almoço
porque o jantar não existe.
O jantar são minhas entranhas
marcadas de lembranças
do que não tive
mas desejei deveras.
Brincar com borboletas coloridas
pintar as vestes de azul
cantar canções bonitas
sonhar sem sonhos a noite crua
anoitecer sem sal na mente nua.
Brincar com borboletas coloridas.
Morrer.
18.07.2009 - 21h03min
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Silenciosamente
Salvo as palavras que eu não disse
por absoluta impossibilidade de cuspir
cada vírgula do completo absurdo.
Deito curativos sobre as feridas abertas
e procuro o cisco do olho
caído n'alguma fresta da mesa
ou n'algum resto de orvalho
pendurado no orgulho da aurora
que pinga desses meus olhos castanhos.
A rima perdida no abuso
da saliva engolida sem língua
sem vocábulo certo.
A trova trocada a custo
e o trem que não apita
menos por não encontrar a estação
que por estar rouco de loucura
sem gana de luta
nem motivo de razão.
Silenciosamente
recolho-me à rua da amargura
que fecha a garganta
e mata o ar que não passa.
Mergulho nas sombras
e peço arrego.
Por vencida, dou-me.
Dôo meu medo.
Dôo quem deixei de ser.
Silenciosamente...
17.07.2009 - 17h
Tempo XXI
Estão extintas as horas exatas.
Só vejo os quebrados nos ponteiros tortos
dos relógios parados
que carrego ao pescoço
tiquetaqueando as sombras
que acompanham a passagem
vai saber de quem.
Penduricalhos inúteis,
os minutos são os limites do meu susto.
Cada quarto de hora
é um quarto de honra vazio
é um quarto de queijo prato
é um quarto de lua crescente minguante cheia.
Cada segundo é o primeiro espaço
na tela de contas entrelaçadas
que eu não sei resolver.
Quebro o vidro do tempo
que passa sem me avisar
nem me mostrar o porque.
Adianto o relógio
atraso a vida
tranco a medida exata
que eu não sei precisar
nem vou aprender.
E me dou por satisfeita.
Mais um dia.
Ascender?
17.07.2009 - 16h
Pacto
Compactuo com as luzes
que extraio das pontas dos dedos
por detrás da janela fechada
que não abri hoje
nem sei se vou abrir.
Enrolo o cachecol da loucura
na ponta doce de uma mentira
que me convenceu a permanecer
onde eu de fato nunca saí.
Corto os pulsos do umbigo
e não me desculpo
por me saber importante
e terminantemente insubstituível.
(Todos o somos?)
Sei das minhas forças mortas
e as portas das celas trancadas
amortecidas na cadeira
que me acomete de falhas
e de cruéis dúvidas escuras.
Assumo meus sonhos
como quem se diverte
co'a desgraça alheia
e acometo-me de fantasmas
que colaboram com minhas escolhas
como quem domina as metas
e desenha os finais.
Não sei honrar os buracos
que arrombam minha estrada perfeita.
Não sei alencar poeiras
que assombram minha pedra estreita.
Não sei assaltar saliências
que entortam minha vida aceita.
Mas sei o quanto posso,
sei o que possuo,
tudo o que disfarço.
Sei o que encontro
e o que perco entre as penas
dos discutidos dias passados.
Sei desse meu desencanto
que aumenta a unidade vazia
do meu telhado de vidro trincado
que eu insisto em não trocar.
Meu pacto é comigo mesma.
Egoísta eu
minha escolha
vida minha.
Se não fora assim,
assim seria.
17.07.2009 - 15h33min
Limite
Vivo na ponta da faca.
Equilibro as pedras do caminho
pra chutar meus entulhos
e minhas vertentes todas
como se fora música
aos ouvidos de uma chuva
quieta de granizo liso azul.
Maria não sou,
não sou bendita,
nem santa,
às vezes prostituta.
Converso com o fio da espada
e engulo o fel que extraio
de minhas próprias arestas abertas.
Não sou Maria,
bendita não sou,
santa sequer,
prostipura, às vezes.
E se rasgo a roupa da lua
no intento de cumprir meu fado,
estouro os miolos da fibra
que abracei sem medo,
na luta desigual diária
que travo comigo mesma
e que perco, sempre.
Maria bendita santa
prostituta pura, às vezes
outras vezes, nem tanto.
Sempre azul.
17.07.2009 - 14h37min
domingo, 5 de julho de 2009
Perigo
Sobre o fio da espada
descansa minh'alma nua
compreendo as impertinências
e as desistências vazias
nos limos dos limbos das luas
que assombram meus sonhos
nas compras das imediações
dos meus segredos todos.
Ah, os meus segredos
degredos de soluços
que escondo das gentes
pra não perder a mania
de sorrir sem motivo
de viver sem razão.
05.07.2009 - 03h
sábado, 4 de julho de 2009
Confissões
Confesso que as confissões me assustam.
Tremo toda.
De frio.
Aqui faz muito frio,
nesse torrão onde nasci.
Confesso que as ilusões me assustam.
E ando atrás delas feito borboleta, da luz.
Confesso que as impressões me pressionam.
Temo todas.
O tino me foge.
E aqui faz frio.
Sempre frio,
nesse torrão onde nasci.
Confesso que as confusões me assuntam.
Espreitam meus pontos e meus peitos.
Estreitam minhas idéias,
já tão limitadas de aniz.
Confesso que as canções me amansam.
Mergulho nas letras profundas
e a imersão é minha luz.
Confesso que as paranóias me cansam.
Inclusive a de me saber paranóica
e me verter sangues quentes
das veias azuis.
Confesso que os limites me custam.
E a folha, a técnica, a letra, o assovio,
são breves espaços da vida que me seduz.
Confesso....
Confesso....
(Sofri...)
Aos 54min do dia 04.07.2009
Enquanto minha filha penteia-me os cabelos
(doce traço de normalidade...)
Alucinação
Se contra a maré
remam meus faros
meus ombros se curvam
no delírio da manhã
que azulou o horizonte escuro.
Rachos nas sombras das telhas
dos caminhos sem curvas
dos corvos sem pontos
distantes eventos avaros.
Folguedos juvenis.
São castas as unhas que te ferem
e frutas os fios das lãs estreitas
que pintam os sossegos
de cores que não são.
Galgo as tralhas carcomidas
das futuras gargantas
criadas por cinco oitavas
acima de onde nasci.
Córrego...
Aos 15 minutos do dia 04.07.2009
Eu deveria dormir...
Recado aos leitores
Meus queridos, perdoem a falta de postagens. Prometo não deixar faltar poesia para nenhum dia, daqui pra frente. Explico: estou produzindo mais do que nunca, escrevendo, na verdade, como louca (que sou...rs); mas não posso publicar tudo. Há que se ter muitos textos inéditos, pra serem publicados um dia... um dia... quem sabe... talvez.... Até lá, vou guardando manuscritos (muito mais charmosos que frios arquivos)... Um dia... quem sabe... talvez....
Mil beijos, meus queridos....
Amanhã tem mais
E depois
E depois
E depois
Até que não haja mais depois
ou que eles sejam deslocados
pr'algum lugar que desconheço
mas qu'inda irei ver....
Aos 23minutos do dia 04.07.2009
Aurora!
Breu
Apagaram a luz do breu
e fez-se a escuridão
no longo dia que a antecedeu.
Ceder.
Voltar o véu da lua
brilhante aurora boreal
apagada e rabiscante estrela
no deserto do prado afastado
que a vida esqueceu.
E agora o céu se fecha
e a escolha é tua.
Confunde os passos
na estrada aberta sem trilhas
sem esconderijos nus
ou esforços vãos.
As pedras das calçadas
escorregam os limos plantados
nos cílios das chuvas
que piscam
que piscam
que piscam
e pescam soluções.
Cavalgo sem linha
a frente do número rabiscado
no canto da folha de jornal velho
que peguei pra embrulhar o guarda chuvas
molhado de granizo e pressa
na volta da tarde
que ficou pra trás.
Lá fora,
bem longe,
n'algum ponto irreconhecível,
quer brilhar uma luz....
Acende.
Ascende.
Transcende...
No primeiro minuto do dia 04.07.2009
Nasce uma esperança
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Queda
Caio eu
cais tu
caimos nós
na mesma curva do rio
e eu rio da linha torta
que amortece a queda.
Caio eu
cais tu
não seria mais acertado dizer
que o mundo é cá no chão
ao invés de alto ser?
Caiamos nós
na vertiginosa viagem de ir-se
sumindo aos poucos
como quem se esvai
em fumaça e perfume barato.
Caio eu
e meus ferrolhos
minhas tralhas
meus tesouros.
Cais tu
e tuas bolhas
tuas folhas amassadas
tuas preces amanhecidas.
Caimos nós
no mesmo abismo imposto
ninguém sabe d'onde
ninguém sabe por que.
Uma pá de cal
sobre o buraco aberto da ferida.
Sem pena ou esquina
ou motivo algum que faça valer
a vontade de sair daqui
e resistir à dormência dos membros
à partilha do remédio amargo
ao aceno cru de adeus.
Caio eu.
Cais tu.
E o cais do porto é um quintal
de videiras e pontas de lanças
que balançam sob a chuva.
Uma chuva de gotículas salgadas
que eu, de mim, doei
pra secura do passo que eu dei.
Caio eu.
Mas tu...
26.06.2009 - 04h (reescrita)
Ando com uma vontade louca de não levantar mais
depois dessa última queda...
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Último suspiro
E eu me concedi o direito de calar
calei a voz
calei a dor
calei o absurdo
de abster-me de dizer.
Fechei os olhos, a boca, os ouvidos,
curei os rastros
apaguei as cicatrizes todas.
Verti os sonhos
nas taças do medo
que emergiu do precipício
onde resolvi me libertar.
Calei a secretária eletrônica
e as luzes dos faróis
as fumaças dos cigarros
e os sentidos
e os surtos
e os lençóis.
Calei o silêncio.
Pr'onde sopro,
agora,
os véus?
Ausente de tempestades
os vendavais são delírios acesos
no meio dos quintais
das famílias abastadas
que se afastam
e me arrastam
no redemoinho das convenções.
Pr'onde sopro,
agora,
os véus?
17.06.2009 - 0h45min
Um tênue e extenuado último suspiro
terça-feira, 16 de junho de 2009
Ordem dos Elementais
Ordeno a história dispersa
presenteio o futuro com o que construo
a partir de recortes do passado remoto.
Removo as teias de aranha dos quadros
guardados desde o tempo da escravidão dos olhos
quando nada era permitido
quando nada era lido
quando nada era declarado.
Mas os Elementos adormecidos despertam
a dificuldade fecunda a terra
as peças do quebra cabeças se juntam
e os fortes prevalecem
com outros nomes
com outras peles
com outros motes.
A noite, grávida de assuntos,
ávida de prazeres,
delira ao alvorecer:
eles estão lá,
os criadores,
prontos pra nascer.
Na Idade das Trevas,
um ponto de luz ELEMENTAL.
16.06.2009 - 20h05min
RESPOSTA
Não sei quem és, nem a que vieste, mas parece que pensas saber da minha vida. Pensas, pq de fato não o sabes. Tanto é que consideraste estar eu desabafando por um motivo criado pela tua imaginação. Fértil imaginação, que se atreve a entrar na minha vida e dizer coisas que não me interessam em absoluto. Se desabafo, quem te disse que é pelo motivo descrito por ti? Sugiro que, ao ler um poema, procures nele algo que fale alto dentro de ti; não tente perscrutar o poeta ou adivinhar-lhe as razões e os nomes de seus objetos de inspiração. Não conseguirias, deveras. Ainda que possas apostar que sim.
Os jargões usados por ti denunciam teu lugar. E teu lugar, certamente, é bem longe de meus motivos, e de minha vida. De todas as minhas vidas.
Dispenso teus comentários.
16.06.2009 - 18h30min
*Perdoem-me os leitores que tão simpaticamente comentam meus poemas, no blog ou por mail. Prefiro deixar claro para esse tipo de pessoa, o que penso a respeito desse tipo de atitude.
Tenho certeza de que vocês, que acompanham e apreciam minha arte, irão entender...
Este assunto, a partir do próximo minuto, pra mim, estará encerrado.
E vamos em frente...
Nitidez
As sombras de sol insípidas
nas solas dos sapatos
de lama pintados
insistentes crueldades limitantes
nas molduras dos quadros hostis.
Os quadris encaixam fluidos
e lembranças esvaem melodias.
Consigo hibernar das dores
e as pernas bambas afogam os olhos
que espreitam os restos de luz.
Transfiro canções do peito
e meus lábios emudecem na tua boca.
A passagem dos minutos
convence a chegada da hora.
Arrepiam-se as gramas
e os pássaros gorjeiam paralisias.
Imagens se fundem
construções sem força se erguem do nada
emergem das linhas verdes
da tua íris clara
asas de um futuro querido.
Meço a distância que já conheço
e desisto de partir.
Meu sangue é teu
oferenda voluntariamente pensada
bordada nas dobras de tuas vestes
nos couros que tua pele protegem
no teu passo, na tua palavra, nas tuas escoras.
Eu, tua.
16.06.2009 - 16h31min
Contigo
Se são nítidas
as impressões das lâmpadas apagadas
na estrada que desconheço
e se tateio o espaço
à procura do calor que não alcanço,
se bendigo o teu nome
e se sustento meus caprichos,
se lanço sementes de sonhos
e se abrigo tua insegurança,
se moro num projeto distante
e se assumo tuas lutas
como se minhas fossem,
se encontro a tarde calada
e se entendo teus tímidos sinais,
se espero pacientemente
pelo vão do tempo escasso,
se atraso os afazeres
e enfeito de cuidados
as horas dos sustos
lembrando que as quedas fortalecem
e que não há motivo para sofrimento,
se jogo e permaneço,
se não durmo, se estremeço,
se molho minhas entranhas de desejo,
se escolho acreditar nas tuas escolhas
se opto por andar contigo
e se abraço tuas causas
porque elas estão em ti
e tu carregas meu peito,
então não temo, nem desisto.
Estar contigo é o que me basta.
16.06.2009 - 14h10min
terça-feira, 9 de junho de 2009
Desabafo
Banana?
Tomate?
Remédio de farmácia
Amitriptilina
E sei mais lá o que....
Uma tonelada de bananas
Dois mil quilos de tomate,
suco de comprimidos
compreensão
e compressas de panos úmidos.
Tapo o sol com a peneira
e peneiro o ouro
que escorre da manga
do pólen do girassol
que virou anjinho
e me trouxe um sopro
de descanso
nesse raio de deprê...
Uma tonelada de Rivotril
com suco de tomate
e batida de banana caturra
misturada com cenoura
e leite gelado
nesse frio do sul
o meu sul
pólo sul agora
nessa minha bipolaridade latente.
Haja bananas
haja tomates
haja farmácias
haja ombros
e ouvidos
e abraços
e travesseiros de penas
e provas de motivos
pra sobreviver.
O Sono me suga
e a fome me devora
nesse pólo de agora....
Quanto tempo, pra muda
de pele da cobra?
Não sei;
ninguém sabe,
mas as bananas existem
e os tomates também.
Vamos aos sucos
espremer meu sangue
no copo transparente
da bula do corpo esguio
que eu tento carregar todas as manhãs
inventando novas manhas
pra desviar dos bueiros enormes
que se abriram no meio do caminho;
pois é
a pedra de Drummond
virou bueiro
nessa minha depressão...
E haja bananas....
09.06.2009 - 2h
Ainda não é uma volta.... só um desabafo
sábado, 6 de junho de 2009
QUERIDOS LEITORES:
Ficarei algum tempo fora do ar, para resolver algumas coisinhas de dentro de mim.
Organização interna...rs...
Não sei quanto tempo precisarei pra essa faxina.
Costumo ser demorada nas minhas 'arrumações'.
Mas voltarei qualquer hora dessas, renovada, estejam certos.
Tenho certeza de que vocês ficarão bem.
POESIA
SEMPRE!!!!!!!
Mil beijos e até a volta...
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Tempo
Na primeira metade do tempo
menti que podia.
Na segunda metade
fingi que sabia.
Na terceira metade
fiquei, à revelia.
Na quarta metade
sorvi o peso do dia.
Na quinta metade
descobri que sofria.
Na sexta, desisti...
De quantas metades precisa
um pretérito mais-que-perfeito?
05.06.2009 - 20h02min
Contração
Persigo o horizonte
caçada ininterrupta
coberta de abelhas mortas
e estradas de areia movediça.
Imito o som que não distingo
afogo as mágoas
na cachoeira do destino
e nas lágrimas que guardei.
Exercito meus dotes culinários
e produzo maravilhas incomunicáveis.
Apimento meu sangue
na moldura do espelho
e devoro os sinais que não entendo
porque sou felina e ferina e faminta
de imagens coletivas
que não sou capaz de discernir.
Engulo a fama de louca.
Aprendiz de marinheiro,
navego em terra firme.
Passeio os olhos pelas promessas
apenas suspeitas
penduradas nas paredes
da sala de trás do parto da rua.
Misturo mel e sal
sobre uma fatia de pão seco.
Assalto o medo
e machuco a queda instintiva.
A multidão vazia
abstrai meus brios
sufoca meus estrondos
encolhe meus nervos
na tentativa absurda
de calar-me o chão.
Tremem meus pentes
nas fronhas das misturas
dos dias escusos.
Escondo o escuro.
Estrela
dolorida
de contração.
05.06.2009 - 19h16min
Criação
Pesco palavras
de terceiras línguas.
A embocadura do sax
não encaixa nas veias avessas
e nas filas sem senha
que assanham os botecos e os livretos
de impostores e viciados pastos
secos de armadilhas e ardis.
Quebram-se as passarelas enevoadas
de quentes hálitos cafeínicos
e chocolates brancos quebrados ao meio
derretidos nos bolsos vermelhos
de sonhos imperfeitos sabores impensados
nem um pouco sutis.
Esmiuço as colunas gráficas
do acervo de insistências
e despedidas acumuladas
pra desmontar motivos
e compreender propósitos
que escorreram dos minutos cegos
em que atentar contra meus próprios versos eu quis.
As mesmas palavras pescadas
de terceiras línguas
em veias devassas
sem senhas
ou sonhos
ou assanhados ardis.
As mesmas palavras
redentoras de poemas
e de problemas que brotam sem trégua
das línguas de terceiros
nos traços que eu fiz.
Assustadoras armadilhas senis.
05.06.2009 - 16h12min
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Mea Culpa
Produzo minha poesia
como quem ergue muros
ou edifica uma cidade
de letras e vocábulos ocos
rebelados contra um poder
que invade minhas entranhas
e os caminhos de meu sangue
mergulhado de solidão.
Planto curativos nas minhas feridas
vertentes de sonhos e saltos
nascentes de representações
e obstáculos e raízes e cordões.
Posto as folhas brancas
nas gavetas das curvas vazias
e respondo ao sol escondido
que não quero nada.
Um tiro no claro da noite de brumas...
Corpo inerte da construção erigida
atrás de outra porta
escancarada.
Emudeço a escolha e a raça
dôo o acento e assento meu lápis
no topo da lista
que não escrevi.
Minha poesia é um muro
que divide uma cidade
de letras escorridas de sangue
de véus e de verdades nuas.
Minha poesia é um soco
no estômago de dentro de mim
pra desviar a dor
a oca dor ventríloqua
uma louca dor poetada...
04.06.2009 - 22h08min
Chocolate
E o chocolate de bule
não leu a bula que informava
célere, como todas as bulas do mundo:
"Não me tome
não me dome
não me domine
não me trema
nem me tema
que sou demônio
ou bálsamo amargo
que te cobre de doce
e te adocica a fome
de quê?
quem poderá saber?
talvez de força
talvez de dores
talvez de formas
ou de falta de cores
quem poderá saber?
os sintomas não mentem
nem desmentem deveras
o que não soa da flauta
nem dá conta da falta
que te corta e flutua.
Não me dome
não me tome
não me forme
não me informe
não me insone
nem me ame.
Não.
Não me ame"
O bule não achocolata
nem o chocolate bule
embolo o bolor
e choco a visão do leitor.
Desavisado leitor
de versos tortos...
04.06.2009 - 22h
Círculo (vicioso?)
O eco espera o grito
o rito não assunta
o prêmio não delira
o pêndulo espreita o rumo
o prumo incendeia a culpa
a catapulta não define a linha
a dupla não definha a sobra
o sopro esfria o leite
o luto esconde o enfeite
a luta esfrega o azeite
o verso não tem medalha
a migalha não tem respeito
o remendo emenda a hora
a honra ocorre sem medo
o cinto não reclama os dentes
os pentes não alisam os pontos
o peito deleita o amigo
o ronco mente o sono
o ranço pinga o sonho
o som dança a valsa
a vala abraça o corpo
o copo afasta o beijo
o susto afasta o desejo
o medo afasta a meta
o modo afasta a liga
e eu?
04.06.2009 - 21h11min
terça-feira, 2 de junho de 2009
Lembrança
Rasgo a alma
o peito
a gana
no arame farpado dos anos
que me viciam de vida.
Chuto o balde
quebro os elos
alicio as sombras da palidez
nas faces do espelho
que arrebento.
Observo os estilhaços da imagem
que se forma de quebra-cabeças
depois das fronhas
depois das presilhas abertas
das poses pedidas
das fotos oferecidas
do corpo exposto
das veias expostas
do sangue exposto
do sonho escorrido.
Depois...
Prendo as audácias
e reconheço o erro
- o meu erro
tenho a posse dele! -
eu e minha vasta experiência.
Apesar das cicatrizes
erro...
Um caco do espelho
na capa do álbum
coleção das minhas dores...
02.06.2009 - 23h40min
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Dados
São três dados
no seis.
São seis lados
nos dados dos dois.
São duas décadas de vida
e o dobro de seis meses de audácias.
São três dados no seis.
E uma aposta alta.
Que vale.
Que vale....
25.05.2009 - 20h50min
Desafio
Desato o fio do mundo
desenrolo a lã da espada
e a estrada já não é tão lenta
nem os prados tão espertos
quanto antes pensara ser.
Desabotoo as presas dos dedos
e as contas são espelhos
ou pontas d'algo que deixei de possuir.
Desço as pontes e os pratos se quebram
nas escadas que não subi.
Os ferrolhos descendem de plantas carnívoras
que engolem insetos e envenenam os poros
das viagens apenas pensadas
e cobertas de cetins.
Os cabelos se perdem entre os dedos ágeis
e a penumbra rompe a luz
no parto diário da noite
e seu sonolento manto pesado de negror.
Desfolho a margarida e esqueço o tempo.
Afasto de mim os vinte sentidos
ou os vinte metros
ou talvez as vinte ousadias
que refletem tua imagem emoldurada
por trás da porta do teu quarto
e da tua rede de leves gentilezas.
Aproxima-se o pouco razoável argumento
de que bem antes do teu nascimento
eu já nascia.
Mesmo assim
desconheço os impedimentos
desato o fio do mundo
desenrolo a lã da espada
desabotoo as presas dos dedos
desço as pontes
desfolho a margarida
e TI encontro
em mim...
Desafio...
25.05.2009 - 20h45min
Cuidado, frágil...
Vidro
quebro com um sopro
vvvvvvvvvvvv
e meus ítens se partem
feito bolhas de sabão.
Exaustiva fragilidade
na imagem de força
que tento fingir.
As dores dos trincados
arrancam gemidos
das veias mudas.
Vidro.
25.05.2009 - 20h16min
domingo, 24 de maio de 2009
Poema
TI
24.05.2009 - 02h01min
(Não é um poema? Ah, tens razão, caro leitor. TI não é um poema; é uma Ode
tão perfeita, que nem Virgílio foi capaz de escrever. E eu tenho
o prazer e o privilégio de ler todo dia... Obrigada. TI adoro!)
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Sei lá
Às vezes eu acho que...
sei lá...
outras vezes eu acho que...
lá sei...
talvez...
e tu?
19.05.2009 - 19h
Graças
Pela distância entre minha casa e meu trabalho
pelas minhas pernas fortes
pelos raros momentos de insuportável alegria
pelos abundantes momentos de suportável dor
pelas dúvidas, pelos rumores, pelos tropeços
pelas cãs, pelos cães, pelos sermões
por minha filha, por meu amor, por mim
pelo trânsito dificilmente congestionado
pela respiração lenta e pela acelerada
pelos chamados defeitos e pelas pretensas perfeições
pelas noites mal dormidas, pelo salário
pelo farto prato de comida, pelo horário
pelos raros amigos que cabem nos dedos
de uma única mão
pelos muitos inimigos que cabem nos dedos
de muitas mãos
pelos dias de sol, pelos dias de chuva, de frio e medo
pela solidão e pela necessidade de companhia
pela companhia e pela necessidade de solidão
pelas certezas
pelas construções
pelas raivas
pelos perdões
pela passagem dos dias
pelas imagens
pelas fotografias
pelas flores
pelos espinhos
pelos rasgos
pelos engasgos
pelos remendos
pelos assombros
pelos concertos e consertos
pelos encontros
pelas despedidas
pelos pontos, vírgulas e outros quês tantos.
Graças
pela vida...
22.05.2009 - 11h10min
Aprender... ou não...
Escrever são entorces
entalhes
entraves
do que eu não sei deixar.
São gotas oceânicas
num chão de gritos
são garras de feras
que não admito sustentar.
Escrever são disfarces
desfeitas
deslizes de portas imperfeitas
que eu não consigo ocultar.
Escrever são passos
são lentos laços
pedaços de telhas
nas tramas da vida
que eu não aprendi a traçar.
Ainda....
22.05.2009 - 11h
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Exagerada
O exagero é meu pai
meu irmão, meu camarada.
O exagero é minha canção
meu amante, minha estrada.
O exagero é meu companheiro
meu azulejo, meu raio de sol.
O exagero é minha água no deserto
meu cubo de gelo, meu farol.
O exagero são minhas mãos dadas
aos pássaros insones
que cantam canções sem soar.
O exagero é meu arrepio na espinha
meu passo decisivo, minha proteção.
O exagero é meu grito
e meu sussurro
e meu alívio.
O exagero é meu superlativo
e meu diminutivo
e meu equilíbrio
e meu segredo
e meu rebento
e meu lamento
e minha solidão.
O exagero é meu avental
e meu jantar
e meu carnaval
e meu príncipe sem princesa
e minha princesa-irmã solteira.
O exagero é meu sossego
e meu tormento
e meu pulso
que pulsa
que pulsa
que pulsa
que expulsa
a calmaria
e pulsa....
21.05.2009 - 20h30min
...só pra eu ficar aqui, delirante, delirando liricamente sobre meu próprio exagero demente...
quarta-feira, 20 de maio de 2009
TIme? Não. "Religião".
Vencer?
Alguma dúvida?
Ainda que perdesses de goleada
haverias de ser vencedor.
Se não pelo balanço da rede,
que seja por teres
como teu cego devoto
o mais perfeito torcedor.
20.05.2009 - 21h39min
Antes do jogo do Inter... com endereço mais do certo...
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Suposição
E se toda poesia dançasse no meu nome
eu não me chamaria assim
os outros me chamariam de
talvez
quem sabe
um outro nome mais doce
ou de maior sonoridade
não sei.
A rima me canta bem-te-vi
sem ter visto o véu estendido
na cachoeira de luz
que o aterro enterrou.
Derramo toda a poesia em teu colo
e gravo nela um nome que conheço
e que não esqueço
nem sob tortura
nem sob promessa
nem sob ira divina.
Um nome diferente do meu
mas que também mora em mim
e que um dia,
quem sabe
talvez
viva comigo
e seja meu rei.
11.05.2009 - 21h16min
De tempos em tempos
Cadê o resto?
I
Bar deserto
sono chegando
poeira no ar
poeira de falta
de ausência sentida
de inexistente publicação
ou quem sabe
pois não?
Ei, vejo um vulto na calçada
será o poeta quieto?
será uma libélula irriquieta?
será um será qualquer
que eu não sei definir
mas que também não importa
se souber discernir
entre um prato de sopa
e uma sopa de orvalho
ou de ervilhas
ou de letrinhas
nas linhas desse caderno amassado
que hoje debaixo do braço
trago.
II
Trago um gole da vida
que empoeira os olhos
e mareja os lábios
entre o cumprimento
e a despedida.
O bar deserto desperta o desespero
e a esperança é só uma palavra
que dança entre os lençóis
de seda ou de cetim ou de algodão mesmo
já que não faz diferença
quando o que se quer é só poetar
ou cambalear entre os dedos
d'algum cientista louco
disfarçado de professor de educação física
que tem coragem de encarar o mundo
de frente
de verso
de um único poema assumido
e que valeu uma vida
- a minha vida -
nas palmas das mãos escritas.
Espelho.
11.05.2009 - 21h
Viver
Vislumbro
no vão das frestas das vidas
uma ou outra vida
que me sorri
e me acrescenta dias
à vida que vivo aqui...
ou ali...
ou lá...
sei lá...
Viver é um mistério.
Quem haverá de duvidar?
11.05.2009 - 20h15min
Explicação
Se considero maravilhoso
ter o privilégio de conhecer
tão rara pessoa
não preciso de traduções instantâneas
nem de conceitos diversos
ou de razões específicas.
A raridade é tão preciosa
que seria perigoso andar com ela
feito jóia, atada ao pescoço.
Quantos ladrões cercariam a presa próxima?
Não.
Melhor silenciar os motivos
e deixar que os sonhos adormeçam
ou que as ondas engulam os bandidos
que espreitam a peça única
que guardo cá.
Melhor evitar longos discursos
e ater-se a uma pequena sílaba
veemente elo que une duas partes:
TI...
Aos 43 minutos do dia 11.05.2009
Onze vidas
Eu tenho onze vidas.
Não sei em qual estou
nem de onde tirei essa conta
mas garanto que onze vidas eu tenho
e vivo todas elas juntas
umas sobre as outras
enroladas aos cachos
dos meus cabelos vermelhos.
Eu tenho onze vidas
e só dez dedos pra contar nas mãos
por isso desisti da matemática
complicada demais pra quem vive tanto
e tão intensamente os últimos íntimos minutos
de onze vidas justas
desenrolando o ciclo do destino
de cada uma delas
como se não me bastasse
a única em que pareço passar.
Eu tenho onze vidas
mas isso é segredo de estado
e estado de permanente tensão
ou segredo de permanente opção
por não ter outra saída
a não ser viver as onze vidas
dentro dessa única
que eu mereço
padeço
pareço
viver.
Aos 23 minutos do dia 11.05.2009
Talvez nunca
O final do dia
é o começo do dia
de outro dia
talvez uma repetição do anterior
ou nunca
talvez uma novidade interior
ou nunca
talvez um começo exterior
ou nunca
talvez nunca haja nada
de surpreendente de fato
no começo do dia
ou no término do outro
ou nunca
talvez o nunca se traduza
no sempre
que se esconde no vão da calçada
ou n'alguma vertente
de medo e tesão
ou nunca
talvez não haja
talvez não aja
talvez não agarre nada
que não tenha uma jarra bem grande
na frente de um precipício
ou nunca
talvez um prepúcio
talvez um presbitério
talvez um prostíbulo
ou um impropério talvez
ou nunca
o equilíbrio escasso
o deboche involuntário
o intento necessário
ou nunca
talvez...
Nos primeiros 5 segundos do dia 11.05.2009 ou nunca... talvez...
domingo, 10 de maio de 2009
Trajetória
Eu busco a perfeição
mas não quero encontrar com ela.
Eu garimpo o verbo
que distinga exatamente
o que pretendo opinar
mas não quero encontrar com ele.
Eu esgrafinho a terra
e cato o punhado de vida
que anseio desde sempre
que desde sempre espero
que crio e produzo e decanto
desde que me conheço por gente
(e isso faz tanto tempo
que já nem sei mais a quantas anda
o metro que perdi no meio do caminho
onde não tinha uma pedra
mas tinha um certo Drummond
que desvirtuou o conteúdo todo
desse maldito poeminha).
Mas eu busco
e garimpo
e esgrafinho
e anseio
e desejo ardentemente
o que não quero que caia no meu colo.
Porque, se cair um dia,
o que restará a fazer?
Não quero!
Afasta de mim esse vocábulo precioso
que eu tanto desejo
e pelo qual tanto luto
e trabalho
e pesquiso
e me perco.
Afasta de mim esse cálice de dicionário ambulante
que eu me acabo, então
que então eu esmoreço
que me arrependo em vão
e concluo tristemente
que nada mais há a fazer
nem a construir.
Está tudo consumado
tudo desfeito
todo o trajeto interrompido
por ela
a palavra bendita
que eu tanto desejei
que tanto eu quis
que almejei tanto, meu Deus!
Desvio os olhos do fim da luta.
Porque a guerra é que é.
Isso sim.
E é por ela que eu vivo.
Se encontrar o vernáculo final.
Ai de mim!
Ai de mim...
10.05.2009 - 23h56min
Poeminha sem pé, mas com cabeça
E aí a gente passa gloss
fica com cara de boas-vindas
sorri para o espelho
e bendiz a vida.
Não é assim que nasce
todo o dia,
toda a hora,
toda a partida?
E o batom não escorre
dos lábios
nem do beijo...
Porque os cegos
e estreitos laços
amarram os pedaços
das cabeceiras das camas
vazadas
esvaziadas
valorizadas
pelos braços abertos
do homem amado
que dorme
e não sonha.
A camisa preta
a camiseta por baixo
por baixo o peito
o coração por baixo.
E eu...
Por cima...
10.05.2009 - 23h40min
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Agonia de mãe
Ela reclama, bate pé, resmunga;
'pensa que é gente', eu digo.
E ela é.
Gente pequena, mas só de tamanho,
que a cabeça anda a mil,
e os pés não acompanham,
a não ser pra bater, impacientes,
quando quer o que não pode ter.
E eu cá, na minha eterna agonia,
não sei se o que faço é certo
não sei ao certo o que faço
não sei se desfaço o acerto
não sei se acerto o desfecho
nem se começo ou se disfarço
o que penso não saber
sobre como melhor conduzir
os meus/seus passos.
E compenso as ausências com risos
e cócegas e histórias deliciosas
ou silenciosos longos abraços.
Mas me sei insuficiente
(impotente?)
e isso acaba comigo...
Aos 9 segundos do dia 8 de maio de 2009
Para minha filha, nessa semana das mães
quarta-feira, 6 de maio de 2009
E-TERNO
Tempo curto...
'Pra sempre' é tão breve
tão ligeiro passa o sempre
e tanto por fazer...
Tantos encontros
aguardam as mãos espalmadas
tantas horas marcadas
tantas esperas
tantas procuras.
'Pra sempre' é tão curto
tão breve areia na ampulheta
tão ligeira a hora
que passa.
E tanto por fazer...
Não vá embora...
Pra sempre
é um tempo tão breve
e há tanto por fazer
conTIgo...
06.05.2009 - 22h34min
Depois da música e de saber que vais ficar só pra sempre,
porque tens outras coisas pra fazer...
quarta-feira, 29 de abril de 2009
E se...
E se todos os restos
se juntarem aos trapos
dos pretensos absurdos
que julguei necessários?
E se todas as rezas
forem realmente inúteis
e os teus risos ficarem mudos
de colírios e sonoras obviedades?
E se todas as missas
calarem os vasos vazios
dos baús descascados
escorridos escadas abaixo
perto dos sonhos empoleirados
que a gente não se atreveu a mentir?
E se todos os pulsos
entrelaçarem as mãos
e as ervas brotarem dos musgos
confessos improvisos frasais
gravados nas linhas fantasmas
das apagadas luzes míopes?
E se todas as manhãs forem tuas
e os bocejos e as lampejos e os desejos
circundarem as estradas abertas
diante dos pés descalços
que apalpam as telhas dos sonhos
qu'inda estão por vir?
E se não houver mais nenhum motivo
para as partículas
e as películas forem castanhamente azuis
e os pensamentos forem sutis
e os cumprimentos forem reais?
E se eu, de uma hora pra outra,
materializar teus traços
e TI alcançar...
Haverá espaço pra interrogar?
Aos 4 segundos do último dia de abril de 2009
terça-feira, 28 de abril de 2009
Ir
E a vida foi vindo assim
arrastando as bagagens do dia
tropeçando nas pedras do caminho
arregaçando as mangas puídas
das desgraçadas evitadas
dos sofrimentos enfrentados
das peças rasgadas de espumas
que foram ficando pra trás.
E a vida foi vindo assim
entre risos e blefes
e compreensões das distâncias
e constatações de ignorâncias
e sensações de permeio
das trocas pretendidas
que não houveram
ainda.
E a vida foi vindo assim
meio manca, meio bendita,
meio atormentada de dúvidas,
meio sem tempo
sem orvalhos
sem participações de luto
ou coisa que o valha
ou coisa que o vele
ou coisa que o venda.
E a vida foi vindo assim
dia após dia
feito frio da manhã de outono
em anúncio claro de rigorosa
solidão.
E a vida foi vindo assim
entre os dedos emergindo
e entre os dedos escorrendo
sem pressa
com pressa
presa
no tênue fio
que ninguém vê.
E a vida foi vindo assim
té deixar de vir...
28.04.2009 - 18h30min
segunda-feira, 27 de abril de 2009
1001 postagens
Engraçado. Uma vez chamou-me a atenção o número de postagens no blog. Estava eu, então, no poema 600. Não pensei que chegaria tão rápido ao 1000, no que reside uma certa estranheza, inclusive para mim: produzo muito, quase compulsivamente ('quase' é só pra não afirmar a plena consciência da compulsividade), logo, era de se esperar que o número 1000 chegasse logo. Pois já passei dele também. E isso me dá uma sensação de alegria plena. Esse fato, por si só, poético!
Uma vez escrevi que o Roberto Carlos queria ter um milhão de amigos e que eu me contentava com os poucos conquistados ao longo de toda a minha vida, e que cabiam nos dedos das minhas mãos. Não quero um milhão de amigos. Quero um milhão de poemas escritos, suados, chorados, sangrados, vertidos das minhas veias abertas.
Eu quero um milhão de poemas escritos!
Salve-se quem puder!
27.04.2009 - 18h15min
Escrever
Publicar idéias
visualizar palavras
sortir mistérios
sorrir remédios
contar piadas
prender as águas
derramar lágrimas
proferir sortilégios.
Publicar idéias
provocar desgostos
praticar sabores
desmentir horrores
conferir princípios
desmembrar sucessos
concorrer centelhas
saturar espaços.
Publicar idéias
escrever impropérios
permitir estorvos
estocar cadernos
partilhar olhares
precipitar censores
contornar parelhos
controlar esforços
viver a conta-gotas.
Publicar idéias
mergulhar a pena
discutir a sina
acordar o limite
infringir a culpa
infligir delírios
instruir corcundas
circundar oceanos
desbravar caminhos.
Publicar idéias.
Amar.
27.04.2009 - 18h
Volta II
Voltar.
A gente sempre volta.
Nietzsche e sua teoria
do eterno retorno.
Eu volto.
Demoro, mas volto.
Volto a pisar os mesmos calos.
Volto a sorver o mesmo cálice.
Volto a sentir os mesmos suores.
Volto a bendizer os mesmos benditos
versos que fiz outrora.
E volto.
Volto de onde nunca saí
apenas ausentei meus dedos
ou minhas esperanças
ou até meus humores.
Mas volto.
Porque foi aqui
no grão de um poema qualquer
que me perdi...
27.04.2009 - 17h55min
domingo, 26 de abril de 2009
Volta
Aos navegantes que tão simpaticamente reclamaram minha ausência, aviso:
a poesia mora em mim,
ainda que adormeça de vez em quando.
Não sei que sonífero ela toma.
Não sei que susto a assusta,
ou que medo a amedronta.
Não sei o que a faz recuar,
nem o que faz brotar esses versos
que planto em mim.
Não sei.
E não sei se quero saber.
Mas sinto falta de escrever.
Sinto falta dessa agonia que me dá,
quando quero, quando preciso 'dizer'.
Sinto falta da sensação
de descontrole
sobre minhas próprias mãos
ou sobre meus pensamentos,
quando ela me acomete
e se derrama feito bálsamo
ou talvez um outro ente
(quem vai saber?).
Sinto falta
feito droga no meu sangue
dessa tal de poesia
que me domina
e é mais importante pra mim
que a vida
(forte isso? nada!
repara, a poesia não é ela
mesma a própria: vida?).
Por isso hoje estou feliz.
Ela acordou.
Está de volta.
E me sorri.
26.04.2009 - 20h28min
Não vi!
E eu não aceitei
o copo cheio de digitais
entre os destroços
das vias que não voltam mais.
E eu não aceitei
o brilho da carcaça
errata impressa de letra
desdita sinuosamente
feito clarão de lua
em noite de tempo quente.
E eu não aceitei
a prisão
a pressão
a impressão de estar nua
sob os olhares divinos
dos divididos instantes
dos paradoxos desconexos
dos distintos censores
de duvidosas morais
(porque eles são muitos
eles são quase irreais).
E o X da questão eu não vi.
E o princípio ativo do sopro
que me pegou de surpresa
e me atirou no abismo
eu
não
vi
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Mas os tijolos foram postos
nos muros das ruas
que percorri.
Mas os estilhaços cortaram
os riscos dos vidros
que eu recolhi.
Mas os supostos estorvos
e os solavancos
e os olhos estreitos
debaixo dos panos
brotaram
I
M
E
N
S
O
S
e ergueram castiçais de prata
por onde escorrem ceras coloridas
de velas apagadas
que eu jamais acendi...
26.04.2009 - 20h
Escrever? Mais? Pra quê!
Nas vias digitais
deserto de bacalhau
- bacalhais? -
Ai, que saudade
da Semana,
dos quintais,
dos Drummonds,
Robsons,
das Cecílias,
Anas, Lenitas,
Douglas, Carlinhos
- de Jesus?
também, também, também -.
Ai, que saudade
das cascatas de versos
que afogavam as mágoas
e os desacertos
e incendiavam o desejo
de mais escrever
de mais escrever
de mais escrever
animais sedentos de sangue
de mais escrever
de mais escrever
de mais escrever.
Ai, que saudade
do tempo em que eu,
cá no meu cantinho,
inda tinha nas pontas dos dedos
um canto triste
pra mais escrever
mais escrever
mais escrever.
Inda dava um jeitinho
de ter no meu nome
bordado bem grande
uma TODA POESIA
pra mais escrever
mais escrever
mais escrever.
E hoje?
Onde as penas?
Onde os trapos?
Onde as rolhas?
Onde as sementes de vida?
Onde os brotos
e as ilusões intrusas
que desencadeavam
borbotões de luzes?
Onde mais escrever?
Escrever?
Mais?
Onde?
Porquê?
26.04.2009 - 19h55min
*Para meus amigos queridos, do Sarau On-Line: Lenita, Robson, Carlos, Ana, Douglas. Adoro vocês!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
domingo, 5 de abril de 2009
Um ano por TI
terça-feira, 31 de março de 2009
Quando tu vens...
Quando tu vens, todos as sombras se dissipam
todos os medos emaranham-se em abstratos rolos irreais
todos os segredos são castanhos
todos os muros são transpostos
e nada interfere em nada
nem nos umbrais das portas fechadas
nem nas distâncias materiais
ou nas impossibilidades físicas
talvez inexatas
talvez oníricas
talvez banais.
Quando tu vens, tremem dos meus cabelos os cachos
e todos os sábados
e todos os domingos
e todos os feriados
são teus olhos,
são teu brilho,
são teu riso solto
que ecoa nos ninhos
que eu queria pra nós.
Quando tu vens, nenhum soluço permanece
e o próprio silêncio já é prece
ou insistente desejo de que a vida
assim
de repente
pare ou passe sem pressa
de
va
gar
como merece
tudo o que realmente vale
na minha vida
ou na tua
ou quem sabe
na vida dela
que tu sabes
que se enternece
só de ouvir falar em TI.
Quando tu vens...
30.03.2009 - 22h44min
Foto: datada de 30.03.2009 -EU
quarta-feira, 25 de março de 2009
Papiro
Escrevo.
Desconheço o limite
onde começa o delírio
onde termina a ilusão.
Escrevo.
Escrevinho mentiras
e açoites e afoitos rumores
de coisas que não haverão.
Escrevo.
Descabelo a noite
e a água fervente
na chaleira vazia
sobre a mesa oval de corda.
Escrevo.
Decoro as formas e os rumos
e as exatas medidas
que eu não soube escolher.
Escrevo.
Desato as gravatas dos nós
que não furam as agulhas
emperradas das máquinas
de costura de lavar de correr.
Escrevo.
Desabo sobre os dedos
cerro os olhos e as janelas da alma
e de todas as minhas posturas
vãs.
Escrevo.
Creio no frio da navalha
descrito no seio da linha
que corta teu rosto
e sangra teu peito
nu.
Meu grito.
Meu consolo.
Meu lamento.
Cru.
25.03.2009 - 21h
Here or Hero? (não-herói, mas aqui)
E eu aqui,
dê-lhe escrever em branco
nas páginas turvas de uma vida incógnita.
Pra que toda essa luta?
Pra que toda essa verve?
Se os pássaros morrem nos ninhos
e as liras não tocam mais
que uma nota mínima por dia?
Pra que toda essa lisura
de dias acesos nas bordas de um sol sem pontas
pontiagudo mito?
Pra que toda essa candura
se os treinos não levam à taça
se os pacotes se abrem vazios
e os instintos são facas de corte?
E eu aqui,
dê-lhe permitir um instante
de solidão...
25.03.2009 - noite
Peremptório
Sou o resto eterno
de minh'alma mortal.
Imobiliza-se o instante
sob o piscar perambulante
de um único olho vazado.
Esvazio o cilindro de couro
e escuto as vozes distintas.
Não sei o que é o mar
nem as sereias e seus cantos
encantos certeiros
de navios pesqueiros.
Mas
alto lá!
D'onde surgiram as vigas
amareladas e puídas
que emergem de negras nuvens opacas
nos dias de azul celeste anil?
D'onde, a poesia melosa
que deita os dedos em prosa
e contradiz a malícia
o desperdício
a poderosa e intacta tontura?
D'onde os mergulhos no nada
as canções jogadas
nos cantos dos planos arredondados
que a gente nem discutiu?
D'onde a imagem heróica
de um deus paralítico
que desfez os cadarços
dos tênis importados
de um certo aprendiz?
E eu aqui,
roendo as unhas e os dias
enfrentando as fronteiras do medo
afrontando as paradas exigidas.
E eu aqui,
(dentro do soco na boca do estômago da noite)
sem saber pr'onde ir...
Tem alguém aí?
25.03.2009 - 20h10min
Psicodélico
Arrasto as tamancas
o sol diário não adverte do perigo
de fritar os miolos da dúvida
em plena praça pública
e a dívida acumulada
escorre ralo abaixo da vida
enquanto a apreensão
se instala na cuca
-iguaria de café colonial-.
Exponho os argumentos
na bandeja dos olhos.
Exploro a barriga da aurora
com gargalhadas inauditas.
Expando as prováveis
razões insanas da sanidade bem vista
e não chego a conclusão alguma
a não ser a mesma
de onde parti.
Qual é?
Não sei.
Não vi.
25.03.2009 - 19h25min
Impressionismo
Encerro as gavetas de núpcias
inicio outro cacoete
presenteio o pacote encerado
com abelhas e papéis amanteigados.
Mordo o pão amassado
e o sangue escorrido do lábio
não é o meu!
Compactuo co'a licença poética
e desvio dos significados rasteiros
que oprimem os comuns.
Sou poeira e vertigem
e essa falta de curiosidade
ou me leva à loucura
ou quase me mata
ou me extravia pra sempre.
Poesia é lamento
vertente de mundos ocultos
instrumento de tortura medieval.
Surreal.
25.03.2009 - 17h02min
*Foto:Salvador Dali e seu impressionante surrealismo
terça-feira, 24 de março de 2009
Código (Morse?)
Ouso merecer a bênção
inda que ela me custe as noites
de um sonho sem sono
sobressaltos ou saudades.
Engravido das armadilhas da vida
e CORRO sem pressa ou medida
serpenteando entre os reflexos
de um ESPELHO de cristal intacto.
Tua imagem convoca meus instintos
fracos de percepção de decência.
Tu és antes de quase tudo
e a dor dos teus JOELHOS
incha os dias de receber-te.
Teu nome mora nos PESSOAIS OBLÍQUOS
e acompanha minhas falas diárias
colado em mim
-sangue VERMELHO nas minhas veias azuis-.
É suficiente o período do ANO
pra te dizer sem medida
ou intermédio algum
que o MISTÉRIO da tua vinda
e a alegria da tua permanência
são meus pontos-fracos-cardeais
coroados de CHUVA e reticências...
24.03.2009 - 10h48min
Não há necessidade de dedicatória,
quando se tem um copo de suco de laranja
TIm, TIm...
Sequência
Paralelas à minha
outras vidas existem
em que pesam as consequências
das escolhas dos meus atos.
As circunstâncias que me afligem
atingem as feridas dos que me cercam.
Evito sambas de uma nota só
e adoeço de esperança
pra compôr meus passos
sobre a ponte de pedras irregulares
que me separa do controle parcial.
Os panos rotos de que fiz as paredes
têm franjas e extensos rasgos de redes
de cores verdes difusas
e atrapalhados balanços rentes.
Olha!
A sombrinha aberta voa ao vento
feito folha no outono da brisa recente.
Quebram-se as varetas do jogo
que sequer comecei a pensar.
Sem querer, cumpro as correntes
dos entes ensimesmados
que eu não pude arrecadar.
Os dias são vagos.
Os vagões lotados de festejos
enganam a torcida faminta
e a partida é só o começo
de mais uma outra longa subida.
Assovio.
Com os pés descalços
pressiono o assoalho frio.
As portas todas têm chaves
e elas me espiam.
Expiro.
Decido?
24.03.2009 - 09h17min
Suspensão
E tudo está suspenso
até segunda ordem.
Palavras de algodão doce
derretem na língua
antes de serem proferidas.
E tudo está suspenso
até segunda ordem.
E se eu contar teus dedos
e se eu cantar tuas notas
e se eu convidar teus pares...
Tudo está suspenso
até segunda ordem.
Tapete persa legítimo
tapete de pétalas de flores
tapete de protestos escolhidos.
Tudo está suspenso
até segunda ordem.
Na porta da sala, uma sombra
os contos e fábulas lidos
comentados entre risos.
Tudo está suspenso
té segunda ordem.
As refeições de alegria
corrompidas pela ética
compreendidas pela estética.
Mas
tudo está suspenso
té segunda ordem.
Aos 19 minutos do dia 24.03.2009
*Baseado em Quintana, o Eterno:
"Tudo agora está suspenso.
Nada agüenta mais nada.
E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes,
o que é que derruba um castelo de cartas?"
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