sábado, 31 de maio de 2008
Leitura
Leio meus poetas preferidos.
Leio os poetas, não as letras.
As letras são vias
veias por onde o sangue queima.
Leio o tesouro brilhante
plantado na página
vertiginosamente pranteada.
O movimento azul
o sonho descrito
colho na saliva da noite.
Banho as vírgulas na raiz da mente.
Meu alimento é o poeta.
A letra é apenas detalhe.
Entalhe na tinta fria.
Deslizo entre devaneios provocados
pelas viagens do poeta que leio.
A incompletude é um fato
- a minha, principalmente -.
Cada vez maior, cada vez mais evidente
enquanto leio os poetas
enquanto me faço mais gente.
31.05.2008 - 18h
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Poesia, paixão, inveja...
Poesia mata? Paixão mata? Inveja mata?
Poesia castiga.
Paixão grita.
Inveja mata.
Poesia redime.
Paixão cega.
Inveja mata.
Poesia abençoa.
Paixão maldita.
Inveja mata.
Poesia aproxima.
Paixão destoa.
Inveja mata.
Poesia acompanha.
Paixão afasta.
Inveja mata.
Poesia é tua voz.
Paixão é cópia.
Inveja é morte.
Poesia são esses teus olhos,
é esse teu riso,
é esse teu jeito de menino solto nos prados,
de homem forte no leito.
Paixão são os desatinos,
é a perda da cabeça,
da memória, do discernimento
do que é bem ou mal
do que é bom ou ruim
do que é vida ou é fatal.
Inveja é morte.
Poesia é tua presença,
tua atenção,
teu carinho misturado com letras
que são pura leveza, uma quase canção.
Paixão é desarmonia,
desarruma, desajusta.
Desastre!
Inveja
é
morte.
30.05.2008 - 04h47min
Se for pra morrer, que seja de poesia por ti,
que com amor tem a ver....
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Companhia
Ele dorme.
Adormecido entre os lençóis
é quase um ente
é quase um estranho
entregue a sonhos
que não posso alcançar.
Descansa as provas
das procuras por padrões
que estilhaçam as vidraças
e os fundos das lembranças
guardados a sete chaves
em chaveiros ovais.
Ressona entre os travesseiros
a cabeça pesada de sono leve
feito operário feliz
no primeiro dia de greve.
Greve de insônia forçada.
Por mim.
Eu, responsável pelo cansaço
e desalento do seu corpo.
Eu, acostumada a atravessar
horas escuras e insanas
enquanto todos dormem,
e que obrigo a companhia
abençoada de/por/com ele.
Hoje ele dorme
e eu suspiro.
Amanhã,
ambos acordaremos.
29.05.2008 - 02h09min
Desabafo
Estupefata fico
quando meus olhos veem
o que decerto não é certo
o que decerto é do mal semente.
Tonteio pelas alamedas da vida
quando a mão que dá, reclama
quando a mão que recebe, rechaça.
Questiono meus valores
opiniões, desgastes que evito
ou que procuro, em meio a questões
jazidas ou recém paridas
nos hospitais das almas que me cercam
e que se intitulam donas de saberes exatos.
(Que será isso, meu Deus?)
Queimo em meio às labaredas
das línguas malditas
que se dão o direito e o crédito
de saberem o que existe por dentro
do cara que atravessa a rua
e carrega o estigma que atesta:
bandido! (sem nunca ter sido).
Revolto meu estômago sensível
ante a poluição de mentes duras
que julgam ser esta a suprema ditadura:
a de quem não tem mais nada
além da própria opinião,
diversa dessa podre maioria.
Desabafo.
E volto a ser aquela que observa
e que promove, se não muito,
ao menos um tanto de aflição
nesses tais que são
por incrível que pareça,
apenas meus semelhantes.
29.05.2008 - 01h26min
Acordo
Eu queria um acordo com a vida:
acordar de uma hora pra outra
e descobrir-me 'encontrada'
por mim mesma, por ti,
por esses teus olhos escuros
de madrugadas pagãs.
Eu queria um acordo com a vida:
um giro parado no Globo
uma geral paralisia.
Só eu. Só tu. Donos de nossos movimentos.
Nenhuma testemunha invasiva.
Eu queria um acordo com a vida:
uma canção qualquer
a passear em nossas línguas.
Um torneio de dizeres inúteis
tão fartos
tão vermelhos
quanto uma suculenta maçã amadurecida.
Eu queria um acordo com a vida:
um único sono sem sonhos
uma eterna noite dormida
em que meus dormentes membros
estivessem presos aos inclementes
membros teus.
Eu queria um acordo com a vida.
E ela me atendeu.
29.05.2008 - 01h17min
Vingança
Minha vingança é a poesia.
Vingo-me da desesperança,
vingo-me do enternecimento
que me toma sempre que há de ti
nas ruas, nos cheiros, nos sabores
que adivinho nos meus sentidos
como premonição provocada
por um outro, que não conheço.
E escrevo.
Rasgo a folha, rasgo a vida,
rasgo a roupa que me cobre
as entranhas passionais.
Fervem-me as veias
e as velhas perguntas
sondam minhas cicatrizes
como se não bastassem
os corvos, as diretrizes
e os curiosos, que fuçam
meus rastros e querem
e precisam e clamam
pra ser um tantinho de mim.
Ou ter. Ou roubar. Ou invadir.
Ou tomar. Ou ignorar. Ou...
O lápis corre sozinho
sobre as linhas escurecidas
da agenda "milenar".
São milhares de confissões veladas
e lidas como literais.
São pombas, são gravetos,
são escadas soltas nos quintais
da vida.
Dessa mesma vida que dividimos
nos segundos em que os mortais
parecem mortos em seus berços.
(Esplêndidos?)
Dessa mesma vida de que tenho sede
e que cedo a vez todo dia
em que só o que quero
são teus olhos
postos sobre mim.
Aos 53 minutos do dia 29.05.2008
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Canção de aniversário*
Cantar a pedra que te ofereço agora
não pedra sabão nem pedra canção
do tipo que a gente esquece no primeiro acorde
ou do tipo com o qual a gente, de cara,
concorde.
Cantar a pedra da idade que te chega
ou que de ti se esvai hoje
feito poesia escorrida pelo telhado da vida
da tua vida de insistente escritor.
Cantar a pedra que, longe de ser doçura,
é liberdade e provisão.
Providência de verso escancarado
que promove reflexão e escárnio.
Escarram teus contos um quê de grito.
Do teu grito? Do grito do pranto?
Do grito do outro? Do grito de todos
os que não têm coragem ou vontade de gritar?
Cantar a pedra do começo permanente
da busca permanente, do constante estudar.
Cantar a pedra que te guia
que eu não sei que nome tem,
que tu não sabes também,
mas que ambos conhecemos.
Cantar a pedra dos teus anos.
E desejar que sempre estejas bem.
28.05.2008 - 04h39min
*Para Fabrício, meu amigo querido,
no dia do seu aniversário
Vem
Quando ele vem
não tenho tempo pra mais nada
não estou pra mais ninguém.
Desfaço as amarras das convenções
liberto os delírios covardes das ilusões,
acorrento o medo. E espero.
Na capa do livro, apresento o estilo
da história que quero viver no momento
em que ele vem.
Quando ele vem
não há deserto ou instrumento
que eu não tenha aprendido a tocar.
Há liras, sonetos, soluções,
há espadas e épicos
e histórias bem contadas,
quando ele vem...
28.05.2008 - 0h39min
Irônico rugido
Eu tenho o raro dom
de domar a fera que há em mim
e sou tão especialista
que ela nem sabe que existo
que ela nunca me diz 'Sim'.
Mas a mantenho cá dentro
em total silêncio
e segura prisão.
O que diriam os moços,
as mulheres, as crianças,
os dementes, os anciãos,
se, de uma hora pra outra,
assim, de repente,
a fera virasse bela
e quisesse o mundo de presente?
28.05.2008 - 0h32min
terça-feira, 27 de maio de 2008
Quintana saudade...
Para Quintana, que sopra versos ao vento, inda hoje.
Repara, observa, te concentra... percebes?
Eles vêm feito brisa suave. É preciso sentimento
e um tantinho de verdade, pra recolher seu toque nas faces.
Quintana, ah, Quintana, meu velho anjo-poeta...
Sentei-me ao seu lado.
Falamos de tudo um pouco
fantasmas, cadeiras de balanço,
anjos, ventos uivantes.
Ele ouvia mais que argumentava,
é verdade, é verdade, é verdade,
dizia, entre uma tragada e outra.
Passava a mão na cabeça calva,
sorria um sorriso largo
levemente a cabeça balançava.
E ouvia, sem pestanejar,
afinal era verdade que ele jamais
havia conseguido, em vida,
as asas ocultar...
27.05.2008 - 23h51min
Messes
Ninguém me ensinou
a aparar as arestas
das frestas por onde
esse vento frio me invade.
Ninguém cercou o terreno baldio
nem sequer a sobriedade
que me falta na hora exata
em que pressinto teu riso solto
na veia do medo que tenho
de me concentrar em ti.
E tu, impassível na tua mocidade,
te divertes, indo embora de repente
como quem não tem mais nada pra dizer.
E tu, impossível na tua capacidade
de fazer surpresas e de provocar desempates
voltas sempre, com mil coisas pra eu perceber.
E lá se vão os meses, semeadores de messes
e de amparos nas madrugadas férteis.
Não importam as horas excedentes.
Somemos os brilhos e os assuntos desconjuntos.
É assim que eu prefiro.
27.05.2008 - 23h22min
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Gerúndio
Foi ouvindo o canto da sereia
que ele o problema resolveu
rogou à lua humildemente,
tristemente pediu ao céu,
um único adjetivo
que lhe fosse suficiente.
E prometeu:
Recebendo a graça, criando o dito,
chegando a manhã e atendido o pedido,
'o infinito desbarato
rompo as algemas da vida
por todo o Planeta, meu grito!'.
E assim se fez.
Pois quando do mar se vê o agito
respondendo pelo nome de Atrito,
escreve gentilmente
poemas
sem o vocábulo
'talvez'...
26.05.2008 - 22h30min
(...uma prosa poética...)
Definição
São prendas, presilhas, são laços,
madeixas presas,
são faces coradas, sorrisos maldosos.
São sonos, são sonhos, são passos,
escadas, caracóis, enlaces.
São estrelas penduradas nos varais,
madrugadas nascendo nos quintais
são milhares de visões embaçadas.
São fendas, são brilhos, são raças,
são reluzentes solstícios, cachaças.
São versos, poemas, sonetos, palavras,
soluços, travessões, pedaços...
de todos
expostos
nas praças....
26.05.2008 - 22h
Cuore
Core.
Pinte as faces
da cor da vida.
Decore
o sorriso da estrela.
Construa uma escada de versos
e vibre na escala de notas
que o violão do meu corpo incendeia.
Desenhe em preto e branco
as medidas aceitas.
Não minta.
Não sofra.
Não suspeite.
A surpresa é um deleite
e o fogo tem a fome da sereia.
25.05.2008 - 23h40min
domingo, 25 de maio de 2008
Ameaça
Vou te contar um segredo...
em voz bem baixa, chega bem pertinho pra ouvir
(mas depois vou ter que te matar, sabes disso, né?):
Palavras têm vida própria.
Saem quando bem entendem,
voltam quando dá na telha,
esbofeteiam, acariciam,
invadem, alimentam, desnorteiam.
Palavras têm asas e mania de ruminar.
São boas, são más,
pegam a gente de jeito e não soltam mais.
Palavras são dispensáveis, às vezes,
mas ninguém conta isso pra elas,
então elas não aprendem,
e vivem dizendo coisas que não deviam,
escorrendo olhos abaixo, e,
por vezes, vestindo nossas mãos,
luvas que são...
Ah... as palavras...
*Agora que te contei o segredo,
e que ouviste, podes fazer o último pedido,
mas faz sem palavras, por favor...
25.05.2008 - 05h24min
Passárgada
Vou-me embora como quem
se diz liberta do vício
mas volto, como quem
tem recaídas sobre recaídas
e recaio sobre o mesmo livro
que li na semana passada
e que escrevi no início do ano
mas não publiquei
por medo do olhar alheio.
Vou-me embora como quem
tem pra onde ir
ou onde ficar
ou quem amar.
Como quem tem o que escrever
sobre o que opinar.
Como quem ri e não diz
como quem sofre e é feliz
como quem não anda
mas sabe para onde ir.
Vou-me embora
faço as malas e esqueço
o dia do meu aniversário
o dia do teu começo.
Vou-me embora e não olho nem pra trás
nem para os lados
muito menos pra frente.
Olho pra cima.
Porque é pra lá que eu vou.
Não me siga.
se diz liberta do vício
mas volto, como quem
tem recaídas sobre recaídas
e recaio sobre o mesmo livro
que li na semana passada
e que escrevi no início do ano
mas não publiquei
por medo do olhar alheio.
Vou-me embora como quem
tem pra onde ir
ou onde ficar
ou quem amar.
Como quem tem o que escrever
sobre o que opinar.
Como quem ri e não diz
como quem sofre e é feliz
como quem não anda
mas sabe para onde ir.
Vou-me embora
faço as malas e esqueço
o dia do meu aniversário
o dia do teu começo.
Vou-me embora e não olho nem pra trás
nem para os lados
muito menos pra frente.
Olho pra cima.
Porque é pra lá que eu vou.
Não me siga.
*nem me obedeça
25.05.2008 - 03h32min
25.05.2008 - 03h32min
Homenagem

Alguém que tem olhos pra ver?
Adrebal Lírio.
Adrebal não é só vidente.
Adrebal é farol.
Mostra o que há também pra gente.
Mostra o que há para o mundo em geral.
Quem quiser, que ouça, que veja, que fale,
Adrebal não esconde.
Adrebal é grito que se ouve na imagem.
Adrebal é inconformismo selvagem
atado a uma simplicidade que ecoa
há milhares de anos-luz.
Adrebal é poesia que vai adiante
e que não pára,
não pára,
não pára...
*Beijos, meu querido. Te adoro, viu?(mas isso não é novidade pra ti)
Final de maio de 2008 - porque amizade verdadeira é coisa rara...
sábado, 24 de maio de 2008
Shim'On*
Meu nome carrega o peso
da sina que me foi imposta
sou ouvinte, estou exposta,
sou pergunta, mas nunca, jamais,
tenho a resposta.
Em vão procuro por vias tortas
nas minhas mãos, páginas mortas
estrelas cantantes de dias findos.
Ouço vozes, escuto trovões
anunciam eles a chegada do anjo
nos braços do vento Minuano.
Ouço música e burburinho
de poesia e inocência e solidão.
São esquerdos os caminhos
são possíveis os tropeços
são prováveis os senões.
São presentes as asas...
Ouço vozes
e não tenho
a resposta...
Ouço...
*Simone, do hebraico Shim'On,
que quer dizer "aquela que ouve"
Nos primeiros 6 minutos do dia24.05.2008
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Processo
Admito o cúmulo da audácia
de repetir-me a mim mesma
nos versos que faço.
Concentro força e energia
na esfera de vidro
que é meu grito
metamorfoseado em agulha e linha
pra costurar as frases sem vírgulas
os ditos, os não-ditos, os bem-ditos
os mal-ditos formados pra impressionar
a mim mesma
nas horas em que procuro
um pouco d'água
pr'essa minha sede...
23.05.2008 - 14h42min
Imagem
Rasgo o peito na densa e solitária escuridão
ensangüentadas letras paridas na dor
escorrem ao longo da página...
Se queres meus porquês e meus sonhos
plantados nas palmas das tuas mãos
as mesmas mãos que jamais alcançaram as minhas
impedidas pelas distâncias insondáveis
das placas das estradas dos sentimentos
inenarráveis ou sequer existentes,
liberta a voz rouca, latina latência das madrugadas
sem testemunhas ou confessos pecados mortais.
Rompo as cadeias da gangorra do tempo.
Cheguei antes e me atrasei.
Sou rastro na areia escaldante
pé de vento uivante, minuano no deserto
a cantar pra ninguém.
23.05.2008 - 03h58min
Noite insone
No meio da noite insone
incendeio as pontas dos dedos
e ardo na folha em branco
entregue ao transe da escrita
externado o sentido da vida
de todo o poeta que se esvai
dividido entre os dias normais
e os dias que são noites
para todos os outros mortais.
No meio da noite insone
busco razões pra dizer teu nome
teu cheiro teu jeito tuas cruzes
teus poderes tuas vertigens
teus prazeres tuas origens.
No meio da noite insone
sem pregos sem tinta sem sono
emprego meu tempo
na única coisa que garanto:
escrever poesia de nada
que de tudo já tem de monte.
No meio da noite insone
fuço entre os furos das letras redondas
feito louca bordadeira de ondas
e não encontro e não desmancho
o fio da meada da agulha nova
que haverá de trazer à tona
o que há comigo
assim insone
sem motivo...
No meio da noite insone
um anjo malvado me disse
que amanhã não é feriado
e que o raiar do dia reserva
cicatrizes e dores diversas.
Ah, eu sei...
não tenho pressa...
23.05.2008 - 03h16min
Instrumento
Sou corda de violão
tensa e preparada
pra dar o tom
a nota
que teus dedos buscam.
23.05.2008 - 02h17min
União
Força e suavidade juntas
são pontas de flechas
embebidas em veneno eterno.
Força e suavidade juntas
prendem em nó de marinheiro.
Pra desatar,
nem os deuses,
nem mandinga;
não adianta chorar.
23.05.2008 - 01h54min
Firmamento
Nas asas do anjo que não voa
conheci a noite e as estrelas e
apertei a mão da lua e dos planetas.
Criei curvas e risquei palavras
como quem não precisa de canetas.
Ri alto e sem cuidado
bocejei, mergulhei, espreguicei
as nuvens e suas primas
as borboletas azuis.
Sim, há borboletas azuis no firmamento
entre os anjos e os poetas
entre os encantos e os profetas
entre os amantes e as setas
que indicam o caminho da próxima rima
talvez logo ali, no paralelo trinta,
ou talvez mais além,
bem em cima
de Greenwish.
Elas voam abraçadas
em imensas revoadas
daí o céu ser azul.
Não sabias?
23.05.2008 - 02h03min
conheci a noite e as estrelas e
apertei a mão da lua e dos planetas.
Criei curvas e risquei palavras
como quem não precisa de canetas.
Ri alto e sem cuidado
bocejei, mergulhei, espreguicei
as nuvens e suas primas
as borboletas azuis.
Sim, há borboletas azuis no firmamento
entre os anjos e os poetas
entre os encantos e os profetas
entre os amantes e as setas
que indicam o caminho da próxima rima
talvez logo ali, no paralelo trinta,
ou talvez mais além,
bem em cima
de Greenwish.
Elas voam abraçadas
em imensas revoadas
daí o céu ser azul.
Não sabias?
23.05.2008 - 02h03min
De deuses e heróis
Deuses são intocáveis.
Dançarinos na imensidão do céu,
observadores dos nossos trôpegos passos.
Mortais, tu e eu.
Passageiros na agonia das dores
espiralhadas dos dias
que se esvaem em noites frias.
O quarto, o quinto, o sexto, o décimo,
que seja,
elementos a mais na junção das estrelas
que demarcam os caminhos já traçados
e os que haverão de ser.
Deuses,
cujos poderes exalam perfume
de verbos frescos.
Sorridentes fragrâncias vermelhas,
té onde teus olhos alcançam...
Té onde possa ser....
23.05.2008 - 01h41min
Seu moço
Pra me acompanhar
não é bem assim, seu moço.
Tenho alma repentista
na ponta da língua
sempre um verso solto
pronto pra ser devorado
por mim ou por ti
depende de quem
primeiro beijar a palavra
capaz de desencadear
o poema inteiro, seu moço.
Ah, seu moço,
pra me acompanhar
não é bem assim
meu sono é traiçoeiro
passa ao largo do meu travesseiro
não quer saber de mim.
Pra me acompanhar,
seu moço,
fique sabendo que
não é bem assim...
23.05.2008 - 01h17min
QUARTO
Três versos sem pestanejar
criados a partir de sonhos
ou de um novo linguajar.
Três versos meio impróprios
pra menores de mil anos
por suas linhas dissonantes
por seu tom desconcertante.
Três versos ardentes que fervem
de dor e medo e covardia
do azul profundo de águas distantes
da terra desconhecida que nem mar tinha.
Três versos querendo crescer
e chegar logo ao quarto,
ao quinto talvez...
Não, o quinto já tem pai
com nome esquisito.
O quarto verso guarda a pergunta
que escorre pela garganta
perdida entre as entranhas
do poema que ainda nem nasceu.
Por onde andará esse elemento
que responde por quinto?
Onde foi que se escondeu?
23.05.2008 - 01h09min
Travessia
Atravesso noites
os dissabores se perdem
na escuridão pincelada
de azuis estrelas cristalizadas.
Amanheço poentes
e proponho a poetas
ausentes que se apresentem
sem papel ou caneta na mão
sem tinta ou inspiração
que sejam só o que são
complexos seres viventes.
Eu, artesã da palavra
que nasce não sei onde
que voa não sei por quê.
Eu, dependente completa
da folha em branco
do desejo de dizer.
Eu, árvore seca de serrado
a menor das mulheres
solitária e vazia, solta no prado
que verte verbos aos milhares
que busca o ainda não dito
que sopra o nunca sentido.
Eu, nua e exausta
comum entre os comuns
comum entre os outros
comum entre o espelho e eu.
Atravesso portas
umbrais cortados
pelas brasas das canetas
apertadas entre os dedos
de poetas que se recusam
a ficar surdos aos apelos
da alma, da vida, do coração.
Aos 56 minutos do dia 23.05.2008
Prata da casa
Os escritos se sucedem
sem ligação alguma entre eles
são surtos de movimentos
nas linhas fixas da agenda
riscada de silêncios
e pontos de contorno
das vias externas
do dorso das mãos
que escrevem letras azuladas
pra serem lidas por ninguém...
22.05.2008 - 23h29min
quinta-feira, 22 de maio de 2008
O terceiro não chegou...
O segundo virou terceiro na minha mira
ando pela esquerda, evito o meio
sou miséria e euforia.
Castelo assombrado por fantasmas azuis
todos enrolados em pedaços de pano rasgados
d'alguma cortina velha, sem serventia.
Essa, minh'alma perambulante
pelos atalhos que abro
pelos assuntos que escolho
pelas frestas dos assoalhos.
Soa distante a campainha certeira
que avisa estar vencida a primeira
chegada do terceiro que não veio.
Que, quando chegar,
será passado
como o primeiro...
22.05.2008 - 01h22min
http://br.youtube.com/watch?v=qKq0hz44GnQ&feature=related
De volta ao começo
O tempo pára nas asas
de um amor partido.
São puras as metades
que separam o débito
do que já não é devido.
São cruas as passadas
de dois, que se distanciam.
O todo sem partes
é meio esquisito.
Parece queijo suíço
sem sal, dó ou doçura.
Assim somos nós
depois do adeus dito.
Desdigo o absurdo
da perda sublime.
Que nada!
Na ponta da faca
dou murro!
Esburaco a pinça do medo.
Estremeço a pele sem tinta.
Agora é que começo
tudo de novo
outra vez.
Respiro.
Aos 29 minutos do dia 22.05.2008
de um amor partido.
São puras as metades
que separam o débito
do que já não é devido.
São cruas as passadas
de dois, que se distanciam.
O todo sem partes
é meio esquisito.
Parece queijo suíço
sem sal, dó ou doçura.
Assim somos nós
depois do adeus dito.
Desdigo o absurdo
da perda sublime.
Que nada!
Na ponta da faca
dou murro!
Esburaco a pinça do medo.
Estremeço a pele sem tinta.
Agora é que começo
tudo de novo
outra vez.
Respiro.
Aos 29 minutos do dia 22.05.2008
De sonhos, amores, ventos, palavras...
Uma palavra jogada ao vento
um sonho que não soube ser
um presente jamais aberto
um amor que não coube ter.
Um vento soprado na palavra
solta no sonho jamais aberto
cujo amor foi um presente
que floresceu no deserto.
Um presente solto no sonho
de um amor feito de palavras
um vento jamais desperto
um aperto de sombra errante.
Um sonho de amor presente
de palavras e desertos escaldantes.
Que não soube ser.
Que não soube ter.
Que não arriscou as delícias
do vôo rasante...
Aos 18 minutos do dia 22.05.2008
Fui lida na Malásia!
Nem sei como se chega lá!
Tem lá nesse nome, confira:
Ma LÁ sia!
Lá eu sei ser bem longe
e não sei se me entenderam, lá.
LÁ também é nota
de qualquer música
na escala da escolha
pela letra da alegria.
Só que lágrima
também tem LÁ.
Como em todo lugar.
De um jeito ou de outro,
melhor saber que na Malásia
agora tem, além de tudo o que tem lá,
também a minha poesia.
(Com uma alegria quase infantil,
daí o tom também quase infantil
da letra dessa euforia...
Aos 09 minutos do dia 22.05.2008)
quarta-feira, 21 de maio de 2008
É ouro!
As línguas são várias
e os temores, castanhos.
Há que se usufruir da linha
como quem sabe ser essa
a sua última escolha.
A última tragada na fumaça
da vida que se esvai, ligeira.
Os sonhos são castos
econômicos e vastos.
Não são contradições; complementos.
Compreensão é parecida com lamento
quando uma parte pensa que a outra
não merece tamanho tormento.
As linguagens multiplicam
a possibilidade de ação
sobre o objeto móvel
que se atenua na mão
do ourives artista.
Sim, é ouro.
Ouro!
21.05.2008 - 23h59min
Noites de partos pardos
São pardas todas as noites dos gatos?
São gatos todos os pardos da noite?
São partos de gatos à noite?
São noites os partos dos gatos?
São luzes, estrelas, borboletas ou gatos
as claridades pardas da noite?
São noites, gatos, estrelas ou luzes
as borboletas pardas esclarecidas?
São claras as noites sem partos, sem gatos,
sem luzes, estrelas ou borboletas?
São borboletas as luzes dos gatos
na parda noite sem estrelas?
São apavorados gatos partidos?
São pardos os partos de estrelas?
São borboletas pardas?
São gatos claros?
São noites?
São noites
parturientes...
21.05.2008 - 23h41min
21.05.2008 - 23h41min
Exposição
Pendurada no varal, minha poesia
posta à prova pelo povo letrado
que já se vai, que silencia.
Pendurada no varal, minha vida
escorrida entre os dedos do dia
feito pétala desnuda que se desprende
da fantasia, do cabelo, da folia.
A semântica é um detalhe
os livros lidos, mistério
as invenções, os sucessos, questões
em aberto no grande palco
iluminado por estrelas vadias.
Procura-se um genuíno intelectual
entre os prendedores do varal
com os óculos no bolso,
na mão um punhal.
Quer cortar o preconceito
do verso manco, sem jeito
que escrevi sem nem pensar.
Quer sacanear as regras
quer investir às cegas
num único verbo: C A N T A R O L A R.
E eu, ciumenta da minha obra,
observo estática os observadores
que dela tomam uma prova.
Molho a língua n'água doce exposta
e sei que não sou eu
é minha pele, boca, alma à mostra
aos olhos frios que passam
aos bons olhos que me alcançam
e sabem de mim
e me abraçam.
21.05.2008 - 20h28min
terça-feira, 20 de maio de 2008
Quem eu sou

Alguns me consideram uma verdadeira chata.
Outros me acham pretensiosa,
mandona, autoritária.
Terceiros me vêem como humanista,
ou
contradição das contradições:
incendiária.
Quartos me dormem.
Quintos me acordam.
Sextos me sacodem.
Sétimos me dominam.
Oitavos me devoram.
Nonos me abominam.
Décimos... sei lá...
Quanto a mim, quando me vejo
me penso bem assim:
nem tão santa, nem tão bizarra.
Sou de estrela um lampejo
cantoria de cigarra.
Sou pirilampo travesso
que dança entre os festejos
de um São João deserto.
Eu sou assim.
Quem gostar de mim, que goste.
Quem não gostar, que se baste.
Eu sou o pó e a estrada juntas
o vento, o sol, a espuma, a prataria.
Não sou de vidro, não sou de barro.
Sou mulher.
Cuidado comigo,
eu amarro!
20.05.2008 - 23h35min
Madrugada
Na construção das frases, o deslize
formatação de versos, declive
e intenção de não-dizer, só dançar
entre letras e provérbios e estupefatos
espectadores da liberdade irmã.
O rodopio molhado debaixo de chuva
quando todo o mundo se recolhe
e acena a cabeça como quem sofre
de lento desespero infantil.
Não te assustes, criança de mim,
que mora em meu peito e pulsa
feito relógio de corda, feito varinha de condão.
São tuas as horas lembradas
as livres revoadas de versos e risos soltos
nas madrugadas negras em que estão presos
os senhores toscos e em que se prezam
os sonhos e as não-divergências e as adjacências
das alegrias que não têm licença
para aflorar de dia.
São tuas as abstinências e teus os mistérios
quando a troca é presença e remédio
para as dores, ausências, tédio.
O peito que abre em soluços e verbos
sem pé nem cabeça, sem cérebro
mas pleno de significados engraçados e
veementes encantos sorridentes.
Eu penso que assim são as gentes
de pele arrepiada e sensibilidade primária
de passo nunca poupado e luta diária
de grito que ecoa na febre revolucionária.
Eu penso que assim são os grandes
com leveza de bailarinas e coração de gigantes...
20.05.2008 - 22h39min
sábado, 17 de maio de 2008
Fotografia
Paraliso o instante que quero guardar
- são tantas as horas que ficam pra trás -
os sonhos contidos, as lembranças criadas
baús de tesouros incalculáveis na energia
condensada numa folha de papel especial.
Areia movediça.
O presente remete ao passado num piscar
de olhos e de lentes automáticas.
Os teus olhos
as minhas lentes
as tuas lentes
os meus olhares para um horizonte
que se encerra logo ali
quando o retrato se rasga
feito véu apodrecido
de noiva largada no altar.
O álbum embrulhado pra presente
caixinha de música inaudível
que teima em tocar na mente.
A canção do primeiro encontro
do encanto do brilho no olhar
a canção do primeiro beijo
do encanto do brilho no olhar
a canção do primeiro sonho
do encanto do brilho no olhar
a canção do primeiro adeus
do desencanto da lágrima no olhar.
A eternidade presa na imagem.
Areia movediça
para o bem
ou
para o mal.
Decide quem a tiver que pisar.
17.05.2008 - 20h45min
Sonhar
Sonhos são sinais
que aparecem demais
e acabam por ficar invisíveis...
Observa.
17.05.2008 - 20h02min
Virtual
Varar a noite
varrer a sala
vangloriar-se de SER.
Vender ilusões
virar lobisomem
ver assombrações.
Chatear-se da superfície
supervisionar o EU
erotizar a distância.
Desmoralizar a simpatia
sacramentar a ignorância
incendiar a aventura.
Inventar a nova ordem
organizar o movimento
mostrar o sentimento.
Virtualizar
virilizar
vingar
vigiar
viajar
velejar
intuir....
17.05.2008 - 19h59min
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Poesia
Olho para o lado e penso Poesia
com os olhos fechados penso Poesia
no sonho ou sonambulando penso Poesia
na conversa faceira, na lágrima ligeira
só penso Poesia.
Construo versos do avesso do abrigo
onde entristeço e onde penso o que digo
e só penso e só digo Poesia.
Uma frase, uma palavra, uma idéia
são suficientes pra fazer nascer do umbigo
a estrofe oferecida para a platéia.
Não espero aplausos.
A criação é só um reflexo do que vivo
do que rio e do que padeço
e não sei se pareço com uma velha doida
que fica falando de qualquer coisa
sem nexo ou remendo ou intermediário que a ouça.
Mas, pra mim, tanto faz;
o que quero e o que preciso
é pensar Poesia.
16.05.2008 - 13h55min
O pássaro
Um ninho.
Tem um ninho de passarinho
na árvore, perto da minha janela.
E ele canta,
(não o ninho,
nem a planta,
mas o passarinho...)
na árvore, perto da minha janela,
pra eu ouvir.
Só pode ser pra eu ouvir.
Que outro motivo
teria um passarinho
pra construir um ninho
na árvore, perto da minha janela,
além de cantar pra eu ouvir?
Nenhum.
16.05.2008 - 13h45min
Tem um ninho de passarinho
na árvore, perto da minha janela.
E ele canta,
(não o ninho,
nem a planta,
mas o passarinho...)
na árvore, perto da minha janela,
pra eu ouvir.
Só pode ser pra eu ouvir.
Que outro motivo
teria um passarinho
pra construir um ninho
na árvore, perto da minha janela,
além de cantar pra eu ouvir?
Nenhum.
16.05.2008 - 13h45min
Válvula de escape
Tem gente que usa droga
tem gente que bebe
tem gente que se mata
tem gente que escreve....
16.05.2008 - 11h38min
Probabilidade
O barulho natural do dia, talvez,
o movimento natural do dia, talvez,
a secura natural do dia, talvez,
o fervor, a vida, a alegria natural do dia.
Talvez seja necessária essa melancolia
da noite, sugerida pela escuridão,
para fazer brotar essa vertente.
Talvez seja necessário o silêncio
do mundo exterior pra que a gente
ouça os versos que brotam do interior
e que gritaram o dia todo,
mas não foram ouvidos,
ensurdecidos que estávamos
pelos ruídos do mundo.
Talvez... apenas talvez,
a solidão da noite seja a melhor
companhia poética, que o poeta possa desejar...
mas tudo isso é apenas um grande,
enorme,
imenso,
TALVEZ.
A resposta mesmo...
Não sei...
Eu-não-sei...
16.05.2008 - 01h
Eterno retorno
Escorrego nas curvas de um tempo que não passa
passeio pelas fugas que preventivamente preparei pra mim
percebo um não-sei-quê de desconfiança no vento
que desalinha meus sorrisos e desabotoa a esperança
espero pela imperfeição que me acompanha ao longo
da lânguida estrada escovada de estranhos sóis
sou lâmpada em processo de incêndio e
acendo as velas para o oratório de cima da casa para
só então construir a frase lapidada em pedra sabão
ensaboo o piso e escorrego nas curvas de um tempo
que não passa... que passeia pelas fugas...
e recomeça...
Aos 59minutos do dia 16.05.2008
Visão
Não eram verdes.
Não eram de nenhuma cor.
Não tinham estatura.
Não tinham medidas ou formas.
Talvez anjos? Sementes talvez?
Uma força, energia, uma luz
ou não...
Não foram palpáveis
palatáveis
prováveis...
Não digeriram nem dirigiram
deveras a palavra a mim.
Pois não eram.
Mas estiveram aqui.
Meninos, eu vi!
Aos 51minutos do dia 16.05.2008
Quando?
Quando a gente sonha, é só imaginação?
Quando a gente imagina, é só assombração?
Quando a gente dorme e não sonha, morreu?
Quando a gente não dorme, mas sonha, sofreu?
Quando a gente rumina um dito, é teimosia?
Quando a gente pesquisa um mito, é geografia?
Quando a gente constrói um barco, é marinheiro?
Quando a gente tem fome, basta o dinheiro?
Quando a gente pergunta, uma resposta é suficiente?
Quando a gente responde, a pergunta foi pertinente?
Quando a gente emudece, estremece, cora, é sinal?
Quando a gente fala, empalidece, demora, é fatal?
Quando a gente amanhece sem sonhos, sem imaginação,
sem assombração, sem morte, sem sofrimento, sem teimosia,
sem lamento, sem mitos ou heróis, sem nenhum de nós,
sem cordas de marinheiros, sem circos ou picadeiros,
sequer sem baderneiros, sem respostas ou perguntas
ou consentimentos conseqüentes, mas amanhece, impaciente,
é a VIDA?
A vida que dança diante ou dentro da gente?
Nos primeiros 10 minutos do dia 16.05.2008
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Tudo o que não existe
Se não existe, está por fazer...
Nada há que já não exista nada que já não tenha sido inventado descoberto desdito. Nada há para ser construído. "Eles" existem. Eu os vi. Se crês, se não crês, se duvidas, se investes nas críticas, nada há que eu possa fazer, além de repetir: EU VI! Mas se insistes na incredulidade, respondo, com o afeto que me é característico: Meu bem, tudo o que não existe vai muito além do físico, vai muito além de mim
e de TI.... 15.05.2008 - 23h52min (A pedido...)
Aceitação
Infrutíferas investidas da sorte
atravessam alamedas revestidas de sombras
de verdes sabores e sutís revelações.
Não quero os porquês nem os conhecidos senões.
Acima das nuvens os semblantes das tempestades
não se percebem, não determinam
a necessidade de guarda-chuva
ou de capa plástica de proteção.
Tudo é azul sobre as nuvens;
a nova escuridão do Cosmos trespassada
pela cor da imensidão do mar sem fim.
Velejadores de alturas de ventos inconstantes
relatam particulares verdades
de antes da chegada das nascentes.
Perdem-se as anotações da madrugada
entre outros papéis de duvidosa importância,
posto serem minhas as mínimas chances
de remota vitória tardia.
As distâncias conheço bem
e os termos delas
e seus efeitos,
sua devastação
silenciada pelo próprio silêncio
que arrasta a Torre de Babel
cuja base é a imaginação de meninos
e de lobos e de anciãos e de mulheres
que mudam de lugar a sorte,
a caprichosa sorte
que já não sabe meu nome
que já nem lembra quem sou...
Às 05h da manhã do dia 15.05.2008
(Obrigada, Ti. Têm sido importantes teus risos,
tuas histórias, tua companhia e, principalmente,
tua preciosa LUZ. Se a sorte esqueceu meu nome,
me provas todos os dias que a amizade não fez o
mesmo. Obrigada por seres quem és e por estares
aqui, na minha vida, desde antes... Te adoro.)
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Um minuto de silêncio
Pelos 15mil mortos em terremoto, na China
A terra tremeu lá
devorou corpos
almas recém paridas
almas dormidas
deixou almas doídas.
A terra tremeu lá
sacudiu pilares
e derrubou uniões.
A terra tremeu lá...
fez ocre meu paladar
aqui...
14.05.2008 - 23h50min
Areia
No primeiro segundo do dia
o primeiro verso brota.
No segundo segundo do dia
não há mais versos
não há mais sobras
não há mais nada
porque os segundos escorrem
entre os ponteiros da vida
e entregam os pontos.
Sem retoque
os próximos versos esperam
ser vividos.
No terceiro segundo do dia
já é amanhã, e o rabo do ontem
ficou preso entre as vírgulas
que indefinem a frase de abertura
a ser pronunciada pela nova criatura
caricaturizada pelo tique-taquear
dos hiatos, das ausências, das insistentes
aberturas entre um e outro segundo.
O próximo, muito distante do anterior.
O anterior, já a virar a esquina de outrora,
virado em letra e forma,
guardado entre as páginas amareladas
de um livro esquecido na estante
ou na memória muda.
Instantes...
Aos 46 minutos do dia 14.05.2008
terça-feira, 13 de maio de 2008
Oração
Santa Poesia, rogai por nós
reles instrumentos imperfeitos
de versos sem sentido
e questionáveis ritmos.
Rogai por nós
seres limitados e infames
tentando explicar tuas formas
teus sabores, teus encantos,
teus tormentos, teus quebrantos.
Rogai por nós
pretensiosos e arrogantes
de saberes engordados mas
vazios, de cansados semblantes.
Santa Poesia, rogai por nós.
Tende misericórdia dos gritos que damos
das chamas que ateamos nas folhas brancas
inflamadas pelos verbos que nunca usamos.
Tende piedade, Poesia,
desses nossos sonhos tão vastos,
tão inclementes, que ousam querer dizer da gente
quando nem a gente sabe o que nos vai aqui.
Tende piedade, Poesia,
desse desejo incontrolável de beleza
dessa urgência latente de estrofes mil.
Somos pecadores de palavras escolhidas.
Tende piedade de nós, Poesia.
13.05.2008 - 23h48min
reles instrumentos imperfeitos
de versos sem sentido
e questionáveis ritmos.
Rogai por nós
seres limitados e infames
tentando explicar tuas formas
teus sabores, teus encantos,
teus tormentos, teus quebrantos.
Rogai por nós
pretensiosos e arrogantes
de saberes engordados mas
vazios, de cansados semblantes.
Santa Poesia, rogai por nós.
Tende misericórdia dos gritos que damos
das chamas que ateamos nas folhas brancas
inflamadas pelos verbos que nunca usamos.
Tende piedade, Poesia,
desses nossos sonhos tão vastos,
tão inclementes, que ousam querer dizer da gente
quando nem a gente sabe o que nos vai aqui.
Tende piedade, Poesia,
desse desejo incontrolável de beleza
dessa urgência latente de estrofes mil.
Somos pecadores de palavras escolhidas.
Tende piedade de nós, Poesia.
13.05.2008 - 23h48min
Profecia
Quem pode saber o próximo movimento?
Se pode machucar ou acolher, quem dirá?
Os cacos da bola de cristal
jazem, inertes, no tapete da sala vazia.
Olhos mirando um horizonte inescrutável.
O silêncio infla o espaço dilatado
de pupilas estranhamente azuladas.
Quem pode apostar no que não está?
Quem abraçaria o escuro sem vestimenta alguma?
Que espécie de entrega é essa
que não pergunta nem padece
do mal da curiosidade ruminantemente secular?
As molas impulsionam para cima.
Nenhum temor é pertinente diante
da irretocável inocência
ou da esperada coragem.
De quem?
13.05.2008 - 23h13min
Tênue linha
Publico minha impressão da brevidade
talvez para afugentar a sensação de abandono
diante de tão constante presença:
rondam-me as vestimentas frias do anjo nu
deslizando lentamente pelo contorno das horas.
Não se apressa nem se apresenta. Impera.
Sabe-se definitivo e sempre cedo.
Nunca passa despercebido.
Rastro de sebo de vela e crisântemos
molhados de água salgada e benta.
Abençoado seja o sopro extinto.
Voe em paz.
13.05.2008 - 22h50min
Inevitável
Teimo em trilhar o caminho oposto
busco no oculto a imprecisão diária
que atormenta os dias e as pregas
das cortinas bailantes ao vento do Norte.
Ouço música. Vejo vozes.
Convivo com o que inexiste.
Desnorteio o que está por vir
evito previsões antecipadas das dores.
São elas as visitas que espero sem pressa
por saber que virão, sem dúvida alguma.
Acumulo forças para a batalha final;
se suficientes, quem poderá saber?
Mas divido comigo mesma a apreensão.
Foge-me o sono e os sonhos são brancos
delírios sem pé nem cabeça, muito menos compreensão.
Os primeiros sinais se anunciam
extingue-se a esperança de melhores dias.
São longas as noites. São duras as horas.
São presos os cansaços. Não há tempo para eles.
Nem para os lamentos. O horizonte está à frente.
É pra lá que nos dirigimos. Para o bem ou para o mal.
Pois que seja o que tiver de ser.
13.05.2008 - 22h32min
Noturno
O lumiar noturno pinga versos
que escorrem pelos cachos dos cabelos avermelhados
e vêm deitar no rascunho riscado
de femininos traços firmes de rima e razões.
Sensualidade natural enluarada
instante úmido de sereno gélido
em que a luz é difusa
e os aparelhos não captam
o tom preciso da melodia
que não desafina uma nota sequer.
Lampejos de memória inexata
na tarefa por fazer de todos os dias.
Sobre a estante de livros fechados,
um se sobressai entre tantos:
o que ainda está por escrever....
13.05.2008 - 19h08min
Paráfrase
Ponto Com sem Bê Erre?

Não erre, não ajuste
nem atualize a página que for.
Aqui se faz
o que se faz
aqui se paga
a quem se presta.
O quê?
Sarcasmo
ironia
à venda as palavras de Che
manuscritas
ao mesmo tempo
emaranhadas no comprometimento
da madrugada de preciosa companhia
entre um jogo consentido de risadas.
Não prometer é dívida
já que o pecado não tem endereço certo
portanto pode perfeitamente
morar, não ao lado,
mas na tela da frente.
Seriedade nas horas mais impróprias.
No meio da noite
duas seguidas.
Segue em frente o rojão de mistério
que envolve plenário e platéia.
Não sei ensinar o uso de armadura
ouso demais pra vestir uma.
Sequer sei como se abotoa
as presilhas do elmo
ou como se empunha
o veneno que atordoa.
Não sei também a nomenclatura
da tecla que bloqueia
muito menos a que perdoa.
Mas sei de destemor
e de desmedida,
igualmente de dor
e de despedida.
Só por isso
(e por saber que amanhã...
talvez...)
esse BOM DIA
se tornou boapedida
ponto com
ponto bê erre....
13.05.2008 - 03h35min
nem atualize a página que for.
Aqui se faz
o que se faz
aqui se paga
a quem se presta.
O quê?
Sarcasmo
ironia
à venda as palavras de Che
manuscritas
ao mesmo tempo
emaranhadas no comprometimento
da madrugada de preciosa companhia
entre um jogo consentido de risadas.
Não prometer é dívida
já que o pecado não tem endereço certo
portanto pode perfeitamente
morar, não ao lado,
mas na tela da frente.
Seriedade nas horas mais impróprias.
No meio da noite
duas seguidas.
Segue em frente o rojão de mistério
que envolve plenário e platéia.
Não sei ensinar o uso de armadura
ouso demais pra vestir uma.
Sequer sei como se abotoa
as presilhas do elmo
ou como se empunha
o veneno que atordoa.
Não sei também a nomenclatura
da tecla que bloqueia
muito menos a que perdoa.
Mas sei de destemor
e de desmedida,
igualmente de dor
e de despedida.
Só por isso
(e por saber que amanhã...
talvez...)
esse BOM DIA
se tornou boapedida
ponto com
ponto bê erre....
13.05.2008 - 03h35min
De perguntas e respostas
Algumas perguntas nos perseguem.
Talvez as respostas também nos persigam,
latas presas ao carro nupcial que nos leva,
desde que casamos com a vida.
Até que a morte nos separe.
Ou não.
(Escrita em 15 de abril de 2008)
13.05.2008 - 01h40min
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Sina
Poesia é a maldição do poeta
impelido a desnudar-se
ante olhos curiosos e invasivos
que perscrutam os versos
os reversos, os signos e os sonhos
que o primeiro sequer tentou
exprimir
ou
espremer
das entranhas da atribulada alma
perseguida pelas orações subordinadas
ao duro escrever nem um pouco sintético.
É atlética a dança da caneta sem canção ou par
na pista clara e completamente vazia de sentidos
que despudoradamente lhe oferece a chance
de dizer o não-dito ou o inter-dito ou o...
Ah... um sussurro
um lamento na folha virgem
e todos os leitores do mundo saberão
que o que te passa pelo peito, poeta,
é essa dor, é essa angústia, é essa alegria
de, à Poesia, jamais poderes dizer
NÃO!
12.05.2008 - 23h23min
impelido a desnudar-se
ante olhos curiosos e invasivos
que perscrutam os versos
os reversos, os signos e os sonhos
que o primeiro sequer tentou
exprimir
ou
espremer
das entranhas da atribulada alma
perseguida pelas orações subordinadas
ao duro escrever nem um pouco sintético.
É atlética a dança da caneta sem canção ou par
na pista clara e completamente vazia de sentidos
que despudoradamente lhe oferece a chance
de dizer o não-dito ou o inter-dito ou o...
Ah... um sussurro
um lamento na folha virgem
e todos os leitores do mundo saberão
que o que te passa pelo peito, poeta,
é essa dor, é essa angústia, é essa alegria
de, à Poesia, jamais poderes dizer
NÃO!
12.05.2008 - 23h23min
Da importância da solidão
Não me pesa a solidão dos meus dias.
Velha companheira, não me vejo sem ela,
sem os seus acordes diários
nas frias madrugadas de outono
ou nas perfumadas tardes primaveris.
Amiga de todas as horas, ri comigo
e verte copioso pranto quando entristeço.
Conhece-me por inteiro, a solidão.
Mãe da noite, irmã do tempo,
sopra o calor do verão no peito frio
e é companhia certa,
certeira flecha embebida
em veneno poético lilás.
É ela que me permite o verso absurdo
colhido de sua fértil presença branca.
De sua saliva é que escorrem os verbos
que molham a folha carente da poesia
que verte dos meus dedos assim
meio que em cascata sem nexo
ou correção rítmica alguma...
É do ventre da solidão que nascem
meus escritos e minhas linhas tortas
as palavras mortas que o instante
insiste em ressuscitar.
Ela, a solidão...
12.05.2008 - 22h35min
Tons
O tom é um tanto grave
agudos são os ecos nas grutas
derramadas nas fileiras das frestas
das almas atormentadas por fantasmas
ensandecidos e musicais.
É grave o passeio pelas alamedas
cobertas de folhas secas,
soltas ao vento de outono,
nos frios dias de um maio gris.
É aguda a voz da gralha
que graceja da dor deixada pra trás.
As notícias não são as melhores
nem as perspectivas as mais azuis;
só os bois andam na frente dos carros
e os cavalos galopam nos campos
como se nada dissesse respeito a eles.
E nada diz.
Nem a ti, cego passante pela minha vida.
São os meus dias que assombram
a esperança de cores rosadas
e um amanhã que pertence a outrem.
São as esferas entortadas pela força
de uma história já escrita
que rege a orquestra da terra
e que permeia o silêncio da noite,
coruja insone de alma artista.
12.05.2008 - 20h34min
domingo, 11 de maio de 2008
Sapientia
Rangem as correntes
que carregam as apostas
entre os dentes
de babas expostas.
As torturas que infligem
dor ao saber
não são legítimas.
Há engano na voz
que grita da bancada:
"Tudo exige busca suada!".
Mentira. Bobagem.
Há prazer no caminho
da descoberta diária
e, nela, o peso das correntes
não tem vez.
É leve a bagagem
do cientista maluco
do aluno curioso
do professor desacomodado
que parte do inesperado
pra cair no assombro.
Sabedoria é a chave
que abre o cadeado da ira,
liberta as línguas malditas
e faz ferver as falas arbitrárias.
Sabedoria é raridade
em terra onde se pensa
que nada haja pra ser descoberto
por qualquer reles mortal.
Correntes rangentes de medo
um dia se rompem
e aí...
talvez...
sapientia...
11.05.2008 - 21h21min
Dias
Na virada do dia, perco a noção exata da fuga
não sei mais se fui tua sombra ou se exerci patrulha
sobre os limoeiros plantados na porta da igreja vazia.
As folhas secas cobrem os caminhos que trilho
premonições de dias escuros e longas jornadas.
Fecho o jornal da semana passada. As notícias são as mesmas
que todos acompanham, sedentos de sangue avermelhado.
Azuis são as preces que não alcançam um céu de anil
e as obras são vagas, são restritas às quermesses
das noites de sábado dos junhos frios. Juno ferve.
As pequenas bonecas dançam nas mãos da menina
que ri e fala sozinha, com diferentes vozes,
a narrar a trajetória singular de tão singulares personagens.
A inocência salva a alma, lava as feridas, cicatriza as dores.
Ver o que pode ser visto é mais que privilégio.
É quase abandono.
A porta do armário abarrotado de louças não fecha direito.
A porta do horário abarrotado de compromissos imprevistos
que não serão aceitos nem deletados,
apenas escritos no livro da vida...
11.05.2008 - 19h08min
não sei mais se fui tua sombra ou se exerci patrulha
sobre os limoeiros plantados na porta da igreja vazia.
As folhas secas cobrem os caminhos que trilho
premonições de dias escuros e longas jornadas.
Fecho o jornal da semana passada. As notícias são as mesmas
que todos acompanham, sedentos de sangue avermelhado.
Azuis são as preces que não alcançam um céu de anil
e as obras são vagas, são restritas às quermesses
das noites de sábado dos junhos frios. Juno ferve.
As pequenas bonecas dançam nas mãos da menina
que ri e fala sozinha, com diferentes vozes,
a narrar a trajetória singular de tão singulares personagens.
A inocência salva a alma, lava as feridas, cicatriza as dores.
Ver o que pode ser visto é mais que privilégio.
É quase abandono.
A porta do armário abarrotado de louças não fecha direito.
A porta do horário abarrotado de compromissos imprevistos
que não serão aceitos nem deletados,
apenas escritos no livro da vida...
11.05.2008 - 19h08min
Luzes e mitos
Somos mitos.
Somos mentes.
Somos mentes.
Somos muitos.
Somos mentiras impertinentes.
Somos desconcertos permanentes.
Ambulantes e desafinadas canções
que ninguém consegue entoar em coro.
Somos sementes.
Descabelados, perambulamos exaustos
e desavisados entre outros iguais
que tateiam a esperança da reviravolta
mas não voltam nem reviram
nem revoltam a aliança.
Somos semelhantes às estrelas
aos rebentos que não nasceram
por absoluta falta de tempo ou de memória.
Somos restos de luzes ovais
que se espatifaram no cosmos
e resultaram em nós.
Somos tudo e nada cotidianamente
e não nos damos conta das carruagens de fogo
que nos atravessam as têmporas e os caminhos.
Somos cegos e errantes, tentando acertar.
Estamos sós.
11.05.2008 - 17h09min
Somos mentiras impertinentes.
Somos desconcertos permanentes.
Ambulantes e desafinadas canções
que ninguém consegue entoar em coro.
Somos sementes.
Descabelados, perambulamos exaustos
e desavisados entre outros iguais
que tateiam a esperança da reviravolta
mas não voltam nem reviram
nem revoltam a aliança.
Somos semelhantes às estrelas
aos rebentos que não nasceram
por absoluta falta de tempo ou de memória.
Somos restos de luzes ovais
que se espatifaram no cosmos
e resultaram em nós.
Somos tudo e nada cotidianamente
e não nos damos conta das carruagens de fogo
que nos atravessam as têmporas e os caminhos.
Somos cegos e errantes, tentando acertar.
Estamos sós.
11.05.2008 - 17h09min
Insônia
Às vezes, a gente esquece da hora,
o sono esquece da gente e a noite também.
Então se pode medir um tempo que não existe
ou que até existe, mas o relógio não tem.
É o prazer da palavra leve e bem dita
sem preocupação de horário ou da labuta diária,
sem o stress cotidiano que altera qualquer plano
e deixa os viventes meio reféns de si mesmos
entre os implacáveis ponteiros que gritam:
"É tarde!". O coelho, de Alice, que o diga!
O silêncio da noite insone é bem-vindo.
Faz a lua flutuar em pensamentos desordenados, mas,
quem quer ordem, em plena madrugada?
Quero mais é navegar no sono alheio
conversar com quartos, quintos, terceiros,
enxergar muito além do que me permitem os travesseiros.
Quero mais é abrir as portas da noite
e embriagar meus sonhos de estrelas cantantes.
Quero o descompromisso do sereno frio
que gela os ossos mas não alcança a alma,
essa, enrolada em seu cobertor de carinho.
Quero a impassividade de quem sabe onde quer chegar
e o ouvido atento, os olhos bem abertos
e os passos contados,
pra não errar.
De novo, não.
11.05.2008 - 03h27min
sábado, 10 de maio de 2008
Cheiro de filha, amor de mãe
Telefone tocando
madrugada de sábado
voz próxima, frescor de inverno
debaixo da pilha de cobertas
coração aquecido
e as vírgulas
os pontos
as exclamações
que se perderam
ou se congelaram
na noite de sexta
Aninho meu corpo
ao corpo quente
de minha pequena filha
a felicidade tem o cheiro dela
a alegria tem o cheiro dela
a leveza tem o cheiro dela
e as vírgulas
os pontos
as confusões
estão em algum outro lugar
bem distante do cheiro dela
Telefone toca
madrugada de sábado
véspera do dia das mães
a essência de ser mãe
tem o cheiro dela
da minha filha
10.05.2008 - 14h59min
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Do dia em que Ana Terra saltou das páginas de um livro
Visita ilustre, Ana Terra brotou das páginas escritas por Érico.
O Tempo soprou na memória e Ana Terra esqueceu a saga,
Esqueceu a hora, esqueceu o horário do trem. Esqueceu!
Esse mesmo Tempo deixou de presente um restinho de memória
Nos barquinhos de papel, soltos em dia de chuva, ao vento...
O Vento soprou nos cabelos, clareou as madeixas e a pele,
Deixou na boca um beijo com sabor de chocolate.
Ana Terra, traduzida em ilustrações de histórias infantis,
Nos livros que passeiam entre os dedinhos inocentes
De crianças que ela não conhece, mas que conhecem os traços dela.
Ana Terra.
Quem disse que um dia saltarias dos lombos dos cavalos
Desse épico gaúcho extraordinário, e estarias assim tão próxima,
Tão viva, tão bem desenhada, entre os alunos de nossa escola?
Contadora de histórias, esperamos ansiosos entre aquarelas,
Colagens, sucatas, canetas e patos que perderam o P.
Perderam ou esqueceram? Tsc, tsc... ai, essa falta de memória
Ainda vai transformar a Terra em Lua. Se assim for, muito bem.
Mas se não tiver chocolate, nem vem que não tem.
Sai pra lá!
*Em homenagem à grande ilustradora e autora de livros infantís, Ana Terra.
09.05.2008 - 17h58min
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Energia
E eu, que mal sei de mim,
dei de cara contigo e fiquei assim
meio bamba das pernas
meio transbordante de sins...
Meio, porque, se fosse inteira,
não seriam sins,
esses todos que escorrem de mim;
seriam flores e canções,
plantadas e compostas
entre as costelas de um anjo
que dançasse com outros
querubins...
08.05.2008 - 22h36min
dei de cara contigo e fiquei assim
meio bamba das pernas
meio transbordante de sins...
Meio, porque, se fosse inteira,
não seriam sins,
esses todos que escorrem de mim;
seriam flores e canções,
plantadas e compostas
entre as costelas de um anjo
que dançasse com outros
querubins...
08.05.2008 - 22h36min
Bússola
Pra que lado fica
a saída da saudade?
Em que rua eu entro
pra encontrar o começo
da meada de delícias
que cabe inteira
na minha mão direita?
Qual é o endereço
do meu sonho mais precioso?
Essa linha de ônibus
passa pelo teu corpo?
O Norte fica na minha frente
se eu estiver atrás de ti?
O Sul é pra cima,
pra baixo
ou pra trás da vida?
Será o meu Sul
o teu Norte?
Na falta de uma bússola,
proponho olhos fechados,
um giro sobre o próprio eixo
e um demorado desmaio.
Depois disso, um longo beijo.
E nenhuma direção
será mais importante
que a que me leva ao teu coração...
08.05.2008 - 20h54min
Estrofe
Ando procurando O diapasão
que me dê o tom exato
da canção da minha vida.
.
.
.
08.05.2008 - 20h08min
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Espectralismo
Engravido do desejo
de parir A canção.
Concebo a harmonia.
Os primeiros acordes:
sílfides nuas e livres, a dançar.
Um Si Bemol escorrega
entre meus dedos trêmulos de luar.
Um Ré volta atrás, arrependido.
Dou o tom da estrofe catártica.
Arrepio a pele crua.
As cifras, todas, de pé.
Aplaudo.
07.05.2008-22h10min
Eu SOU
Sou um ponto de interrogação
diante de um espelho mudo.
Sou um ponto final,
entre outros dois iguais.
Sou aquilo que não se vê,
aquilo que não se toca,
aquilo que não se percebe,
mas que se pressente,
entre um sopro de lua
ou um raio de sol escaldante.
Sou o amanhã cambaleante
sobre as pernas de um hoje
que se desprende.
Sou a pressa e a imperfeição
juntas, inseparáveis.
Sou a cegueira e a visão,
o marasmo e a enxaqueca
depois da impertinente visita
da solidão, que se despede.
Sou alegria, rebeldia, exaustão.
Inconformismo preso na forma
retangular dos óculos prateados.
Sou barulho e silêncio.
Duas partes opostas
guardadas entre as portas
que protegem o que há em mim.
Eu
SOU.
07.05.2008 - 19h21min
diante de um espelho mudo.
Sou um ponto final,
entre outros dois iguais.
Sou aquilo que não se vê,
aquilo que não se toca,
aquilo que não se percebe,
mas que se pressente,
entre um sopro de lua
ou um raio de sol escaldante.
Sou o amanhã cambaleante
sobre as pernas de um hoje
que se desprende.
Sou a pressa e a imperfeição
juntas, inseparáveis.
Sou a cegueira e a visão,
o marasmo e a enxaqueca
depois da impertinente visita
da solidão, que se despede.
Sou alegria, rebeldia, exaustão.
Inconformismo preso na forma
retangular dos óculos prateados.
Sou barulho e silêncio.
Duas partes opostas
guardadas entre as portas
que protegem o que há em mim.
Eu
SOU.
07.05.2008 - 19h21min
terça-feira, 6 de maio de 2008
Substantivo feminino IV
Descabelada, acordou.
O pesadelo interrompeu.
Toalhas limpas buscou.
Pão e mel comeu.
Saiu à rua, no mundo entrou.
Sorriu à lua, asas criou.
Voou.
Loucura.
06.05.2008 - 23h46min
Substantivo feminino III
Ela entende, perdoa, portanto esquece.
Ela aceita, releva, portanto esquece.
Ela ouve, desculpa, portanto esquece.
Ah, não, o perdão é masculino, dirás...
E eu te responderei,
com um sorriso maroto:
feminina é a compreensão, meu garoto.
06.05.2008 - 23h41min
Substantivo feminino II
Paixão:
aquela coisa que te pega,
te amarra, te enleia,
te deixa tonta, meio perdida,
partida ao meio.
Paixão é coisa de louca
de doida varrida
de quem não tem amor
pela vida. Ou tem.
Vai saber...
Isso mesmo!
Ela te engole inteira,
sem nem mastigar!
Vixe Maria Santíssima!
Mas está em mim
e eu não sei como me livrar...
06.05.2008 - 23h37min
Substantivo feminino
Alegria
canta alto na rua
não liga pra cara de espanto
do cara amarrada
que passa ao lado
sem entender nada.
Claro que não!
Alegria
é substantivo fe-mi-ni-no,
meu irmão!
06.05.2008 - 23h34min
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