sábado, 17 de maio de 2008

Fotografia

Paraliso o instante que quero guardar - são tantas as horas que ficam pra trás - os sonhos contidos, as lembranças criadas baús de tesouros incalculáveis na energia condensada numa folha de papel especial. Areia movediça. O presente remete ao passado num piscar de olhos e de lentes automáticas. Os teus olhos as minhas lentes as tuas lentes os meus olhares para um horizonte que se encerra logo ali quando o retrato se rasga feito véu apodrecido de noiva largada no altar. O álbum embrulhado pra presente caixinha de música inaudível que teima em tocar na mente. A canção do primeiro encontro do encanto do brilho no olhar a canção do primeiro beijo do encanto do brilho no olhar a canção do primeiro sonho do encanto do brilho no olhar a canção do primeiro adeus do desencanto da lágrima no olhar. A eternidade presa na imagem. Areia movediça para o bem ou para o mal. Decide quem a tiver que pisar. 17.05.2008 - 20h45min

Sonhar

Sonhos são sinais que aparecem demais e acabam por ficar invisíveis... Observa. 17.05.2008 - 20h02min

Virtual

Varar a noite varrer a sala vangloriar-se de SER. Vender ilusões virar lobisomem ver assombrações. Chatear-se da superfície supervisionar o EU erotizar a distância. Desmoralizar a simpatia sacramentar a ignorância incendiar a aventura. Inventar a nova ordem organizar o movimento mostrar o sentimento. Virtualizar virilizar vingar vigiar viajar velejar intuir.... 17.05.2008 - 19h59min

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Poesia

Olho para o lado e penso Poesia com os olhos fechados penso Poesia no sonho ou sonambulando penso Poesia na conversa faceira, na lágrima ligeira só penso Poesia. Construo versos do avesso do abrigo onde entristeço e onde penso o que digo e só penso e só digo Poesia. Uma frase, uma palavra, uma idéia são suficientes pra fazer nascer do umbigo a estrofe oferecida para a platéia. Não espero aplausos. A criação é só um reflexo do que vivo do que rio e do que padeço e não sei se pareço com uma velha doida que fica falando de qualquer coisa sem nexo ou remendo ou intermediário que a ouça. Mas, pra mim, tanto faz; o que quero e o que preciso é pensar Poesia. 16.05.2008 - 13h55min

O pássaro


Um ninho.
Tem um ninho de passarinho
na árvore, perto da minha janela.
E ele canta,
(não o ninho,
nem a planta,
mas o passarinho...)
na árvore, perto da minha janela,
pra eu ouvir.
Só pode ser pra eu ouvir.
Que outro motivo
teria um passarinho
pra construir um ninho
na árvore, perto da minha janela,
além de cantar pra eu ouvir?
Nenhum.








16.05.2008 - 13h45min

Válvula de escape

Tem gente que usa droga tem gente que bebe tem gente que se mata tem gente que escreve.... 16.05.2008 - 11h38min

Probabilidade

O barulho natural do dia, talvez, o movimento natural do dia, talvez, a secura natural do dia, talvez, o fervor, a vida, a alegria natural do dia. Talvez seja necessária essa melancolia da noite, sugerida pela escuridão, para fazer brotar essa vertente. Talvez seja necessário o silêncio do mundo exterior pra que a gente ouça os versos que brotam do interior e que gritaram o dia todo, mas não foram ouvidos, ensurdecidos que estávamos pelos ruídos do mundo. Talvez... apenas talvez, a solidão da noite seja a melhor companhia poética, que o poeta possa desejar... mas tudo isso é apenas um grande, enorme, imenso, TALVEZ. A resposta mesmo... Não sei... Eu-não-sei... 16.05.2008 - 01h

Eterno retorno

Escorrego nas curvas de um tempo que não passa passeio pelas fugas que preventivamente preparei pra mim percebo um não-sei-quê de desconfiança no vento que desalinha meus sorrisos e desabotoa a esperança espero pela imperfeição que me acompanha ao longo da lânguida estrada escovada de estranhos sóis sou lâmpada em processo de incêndio e acendo as velas para o oratório de cima da casa para só então construir a frase lapidada em pedra sabão ensaboo o piso e escorrego nas curvas de um tempo que não passa... que passeia pelas fugas... e recomeça... Aos 59minutos do dia 16.05.2008

Visão

Não eram verdes. Não eram de nenhuma cor. Não tinham estatura. Não tinham medidas ou formas. Talvez anjos? Sementes talvez? Uma força, energia, uma luz ou não... Não foram palpáveis palatáveis prováveis... Não digeriram nem dirigiram deveras a palavra a mim. Pois não eram. Mas estiveram aqui. Meninos, eu vi! Aos 51minutos do dia 16.05.2008

Quando?

Quando a gente sonha, é só imaginação? Quando a gente imagina, é só assombração? Quando a gente dorme e não sonha, morreu? Quando a gente não dorme, mas sonha, sofreu? Quando a gente rumina um dito, é teimosia? Quando a gente pesquisa um mito, é geografia? Quando a gente constrói um barco, é marinheiro? Quando a gente tem fome, basta o dinheiro? Quando a gente pergunta, uma resposta é suficiente? Quando a gente responde, a pergunta foi pertinente? Quando a gente emudece, estremece, cora, é sinal? Quando a gente fala, empalidece, demora, é fatal? Quando a gente amanhece sem sonhos, sem imaginação, sem assombração, sem morte, sem sofrimento, sem teimosia, sem lamento, sem mitos ou heróis, sem nenhum de nós, sem cordas de marinheiros, sem circos ou picadeiros, sequer sem baderneiros, sem respostas ou perguntas ou consentimentos conseqüentes, mas amanhece, impaciente, é a VIDA? A vida que dança diante ou dentro da gente? Nos primeiros 10 minutos do dia 16.05.2008

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Tudo o que não existe

Se não existe, está por fazer...

Nada há que já não exista nada que já não tenha sido inventado descoberto desdito. Nada há para ser construído. "Eles" existem. Eu os vi. Se crês, se não crês, se duvidas, se investes nas críticas, nada há que eu possa fazer, além de repetir: EU VI! Mas se insistes na incredulidade, respondo, com o afeto que me é característico: Meu bem, tudo o que não existe vai muito além do físico, vai muito além de mim

e de TI.... 15.05.2008 - 23h52min (A pedido...)

Aceitação

Infrutíferas investidas da sorte atravessam alamedas revestidas de sombras de verdes sabores e sutís revelações. Não quero os porquês nem os conhecidos senões. Acima das nuvens os semblantes das tempestades não se percebem, não determinam a necessidade de guarda-chuva ou de capa plástica de proteção. Tudo é azul sobre as nuvens; a nova escuridão do Cosmos trespassada pela cor da imensidão do mar sem fim. Velejadores de alturas de ventos inconstantes relatam particulares verdades de antes da chegada das nascentes. Perdem-se as anotações da madrugada entre outros papéis de duvidosa importância, posto serem minhas as mínimas chances de remota vitória tardia. As distâncias conheço bem e os termos delas e seus efeitos, sua devastação silenciada pelo próprio silêncio que arrasta a Torre de Babel cuja base é a imaginação de meninos e de lobos e de anciãos e de mulheres que mudam de lugar a sorte, a caprichosa sorte que já não sabe meu nome que já nem lembra quem sou... Às 05h da manhã do dia 15.05.2008
(Obrigada, Ti. Têm sido importantes teus risos,
tuas histórias, tua companhia e, principalmente,
tua preciosa LUZ. Se a sorte esqueceu meu nome,
me provas todos os dias que a amizade não fez o
mesmo. Obrigada por seres quem és e por estares
aqui, na minha vida, desde antes... Te adoro.)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Um minuto de silêncio

Pelos 15mil mortos em terremoto, na China
A terra tremeu lá devorou corpos almas recém paridas almas dormidas deixou almas doídas. A terra tremeu lá sacudiu pilares e derrubou uniões. A terra tremeu lá... fez ocre meu paladar aqui... 14.05.2008 - 23h50min

Dúvida

A beleza, a leveza, a alegria
anestesiam?
14.05.2008 - 0h15min

Areia

No primeiro segundo do dia o primeiro verso brota. No segundo segundo do dia não há mais versos não há mais sobras não há mais nada porque os segundos escorrem entre os ponteiros da vida e entregam os pontos. Sem retoque os próximos versos esperam ser vividos. No terceiro segundo do dia já é amanhã, e o rabo do ontem ficou preso entre as vírgulas que indefinem a frase de abertura a ser pronunciada pela nova criatura caricaturizada pelo tique-taquear dos hiatos, das ausências, das insistentes aberturas entre um e outro segundo. O próximo, muito distante do anterior. O anterior, já a virar a esquina de outrora, virado em letra e forma, guardado entre as páginas amareladas de um livro esquecido na estante ou na memória muda. Instantes... Aos 46 minutos do dia 14.05.2008

EU


Bruma densa,

dissipada ao amanhecer....













No primeiro segundo do dia 14.05.2008

terça-feira, 13 de maio de 2008

Oração


Santa Poesia, rogai por nós
reles instrumentos imperfeitos
de versos sem sentido
e questionáveis ritmos.
Rogai por nós
seres limitados e infames
tentando explicar tuas formas
teus sabores, teus encantos,
teus tormentos, teus quebrantos.
Rogai por nós
pretensiosos e arrogantes
de saberes engordados mas
vazios, de cansados semblantes.
Santa Poesia, rogai por nós.
Tende misericórdia dos gritos que damos
das chamas que ateamos nas folhas brancas
inflamadas pelos verbos que nunca usamos.
Tende piedade, Poesia,
desses nossos sonhos tão vastos,
tão inclementes, que ousam querer dizer da gente
quando nem a gente sabe o que nos vai aqui.
Tende piedade, Poesia,
desse desejo incontrolável de beleza
dessa urgência latente de estrofes mil.
Somos pecadores de palavras escolhidas.
Tende piedade de nós, Poesia.




13.05.2008 - 23h48min

Profecia

Quem pode saber o próximo movimento? Se pode machucar ou acolher, quem dirá? Os cacos da bola de cristal jazem, inertes, no tapete da sala vazia. Olhos mirando um horizonte inescrutável. O silêncio infla o espaço dilatado de pupilas estranhamente azuladas. Quem pode apostar no que não está? Quem abraçaria o escuro sem vestimenta alguma? Que espécie de entrega é essa que não pergunta nem padece do mal da curiosidade ruminantemente secular? As molas impulsionam para cima. Nenhum temor é pertinente diante da irretocável inocência ou da esperada coragem. De quem? 13.05.2008 - 23h13min

Tênue linha

Publico minha impressão da brevidade talvez para afugentar a sensação de abandono diante de tão constante presença: rondam-me as vestimentas frias do anjo nu deslizando lentamente pelo contorno das horas. Não se apressa nem se apresenta. Impera. Sabe-se definitivo e sempre cedo. Nunca passa despercebido. Rastro de sebo de vela e crisântemos molhados de água salgada e benta. Abençoado seja o sopro extinto. Voe em paz. 13.05.2008 - 22h50min

Inevitável

Teimo em trilhar o caminho oposto busco no oculto a imprecisão diária que atormenta os dias e as pregas das cortinas bailantes ao vento do Norte. Ouço música. Vejo vozes. Convivo com o que inexiste. Desnorteio o que está por vir evito previsões antecipadas das dores. São elas as visitas que espero sem pressa por saber que virão, sem dúvida alguma. Acumulo forças para a batalha final; se suficientes, quem poderá saber? Mas divido comigo mesma a apreensão. Foge-me o sono e os sonhos são brancos delírios sem pé nem cabeça, muito menos compreensão. Os primeiros sinais se anunciam extingue-se a esperança de melhores dias. São longas as noites. São duras as horas. São presos os cansaços. Não há tempo para eles. Nem para os lamentos. O horizonte está à frente. É pra lá que nos dirigimos. Para o bem ou para o mal. Pois que seja o que tiver de ser. 13.05.2008 - 22h32min

Noturno

O lumiar noturno pinga versos que escorrem pelos cachos dos cabelos avermelhados e vêm deitar no rascunho riscado de femininos traços firmes de rima e razões. Sensualidade natural enluarada instante úmido de sereno gélido em que a luz é difusa e os aparelhos não captam o tom preciso da melodia que não desafina uma nota sequer. Lampejos de memória inexata na tarefa por fazer de todos os dias. Sobre a estante de livros fechados, um se sobressai entre tantos: o que ainda está por escrever.... 13.05.2008 - 19h08min

Paráfrase


Tudo vale a pena
se a minha alma
e a tua tiverem o tamanho
a força e a imaginação
do mundo que a gente inventa
bordado de milhares de risos
e de todas as mais absurdas
c o n t r a d i ç õ e s...






13.05.2008 - 03h41min

Ponto Com sem Bê Erre?


Não erre, não ajuste
nem atualize a página que for.
Aqui se faz
o que se faz
aqui se paga
a quem se presta.

O quê?

Sarcasmo
ironia
à venda as palavras de Che
manuscritas
ao mesmo tempo
emaranhadas no comprometimento
da madrugada de preciosa companhia
entre um jogo consentido de risadas.

Não prometer é dívida
já que o pecado não tem endereço certo
portanto pode perfeitamente
morar, não ao lado,
mas na tela da frente.
Seriedade nas horas mais impróprias.
No meio da noite
duas seguidas.


Segue em frente o rojão de mistério
que envolve plenário e platéia.


Não sei ensinar o uso de armadura
ouso demais pra vestir uma.
Sequer sei como se abotoa
as presilhas do elmo
ou como se empunha
o veneno que atordoa.
Não sei também a nomenclatura
da tecla que bloqueia
muito menos a que perdoa.


Mas sei de destemor
e de desmedida,
igualmente de dor
e de despedida.


Só por isso
(e por saber que amanhã...
talvez...)
esse BOM DIA
se tornou boapedida
ponto com
ponto bê erre....




13.05.2008 - 03h35min

De perguntas e respostas

Algumas perguntas nos perseguem. Talvez as respostas também nos persigam, latas presas ao carro nupcial que nos leva, desde que casamos com a vida. Até que a morte nos separe. Ou não. (Escrita em 15 de abril de 2008) 13.05.2008 - 01h40min

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sina


Poesia é a maldição do poeta
impelido a desnudar-se
ante olhos curiosos e invasivos
que perscrutam os versos
os reversos, os signos e os sonhos
que o primeiro sequer tentou
exprimir
ou
espremer
das entranhas da atribulada alma
perseguida pelas orações subordinadas
ao duro escrever nem um pouco sintético.
É atlética a dança da caneta sem canção ou par
na pista clara e completamente vazia de sentidos
que despudoradamente lhe oferece a chance
de dizer o não-dito ou o inter-dito ou o...
Ah... um sussurro
um lamento na folha virgem
e todos os leitores do mundo saberão
que o que te passa pelo peito, poeta,
é essa dor, é essa angústia, é essa alegria
de, à Poesia, jamais poderes dizer
NÃO!




12.05.2008 - 23h23min

Sombreado


Sombra que me habita ou

que me persegue ou

que me devora.



Sombra que me define ou

me permite o sopro do invólucro

que tenho e que não assumo

na diária corrida ao encontro

do desejo

de

sem sombra de dúvida

apenas







SER.











12.05.2008 - 22h58min














Da importância da solidão

Não me pesa a solidão dos meus dias. Velha companheira, não me vejo sem ela, sem os seus acordes diários nas frias madrugadas de outono ou nas perfumadas tardes primaveris. Amiga de todas as horas, ri comigo e verte copioso pranto quando entristeço. Conhece-me por inteiro, a solidão. Mãe da noite, irmã do tempo, sopra o calor do verão no peito frio e é companhia certa, certeira flecha embebida em veneno poético lilás. É ela que me permite o verso absurdo colhido de sua fértil presença branca. De sua saliva é que escorrem os verbos que molham a folha carente da poesia que verte dos meus dedos assim meio que em cascata sem nexo ou correção rítmica alguma... É do ventre da solidão que nascem meus escritos e minhas linhas tortas as palavras mortas que o instante insiste em ressuscitar. Ela, a solidão... 12.05.2008 - 22h35min

Tons

O tom é um tanto grave agudos são os ecos nas grutas derramadas nas fileiras das frestas das almas atormentadas por fantasmas ensandecidos e musicais. É grave o passeio pelas alamedas cobertas de folhas secas, soltas ao vento de outono, nos frios dias de um maio gris. É aguda a voz da gralha que graceja da dor deixada pra trás. As notícias não são as melhores nem as perspectivas as mais azuis; só os bois andam na frente dos carros e os cavalos galopam nos campos como se nada dissesse respeito a eles. E nada diz. Nem a ti, cego passante pela minha vida. São os meus dias que assombram a esperança de cores rosadas e um amanhã que pertence a outrem. São as esferas entortadas pela força de uma história já escrita que rege a orquestra da terra e que permeia o silêncio da noite, coruja insone de alma artista. 12.05.2008 - 20h34min

domingo, 11 de maio de 2008

Limite


A tora descascada da vida

anda cansada e desiludida

de nada mais ser

além de força, cansaço e





solidão...











11.05.2008 - 21h30min

Sapientia


Rangem as correntes

que carregam as apostas

entre os dentes

de babas expostas.

As torturas que infligem

dor ao saber

não são legítimas.

Há engano na voz

que grita da bancada:

"Tudo exige busca suada!".

Mentira. Bobagem.

Há prazer no caminho

da descoberta diária

e, nela, o peso das correntes

não tem vez.

É leve a bagagem

do cientista maluco

do aluno curioso

do professor desacomodado

que parte do inesperado

pra cair no assombro.

Sabedoria é a chave

que abre o cadeado da ira,

liberta as línguas malditas

e faz ferver as falas arbitrárias.

Sabedoria é raridade

em terra onde se pensa

que nada haja pra ser descoberto

por qualquer reles mortal.





Correntes rangentes de medo

um dia se rompem

e aí...

talvez...





sapientia...




11.05.2008 - 21h21min

Dias


Na virada do dia, perco a noção exata da fuga
não sei mais se fui tua sombra ou se exerci patrulha
sobre os limoeiros plantados na porta da igreja vazia.
As folhas secas cobrem os caminhos que trilho
premonições de dias escuros e longas jornadas.
Fecho o jornal da semana passada. As notícias são as mesmas
que todos acompanham, sedentos de sangue avermelhado.
Azuis são as preces que não alcançam um céu de anil
e as obras são vagas, são restritas às quermesses
das noites de sábado dos junhos frios. Juno ferve.
As pequenas bonecas dançam nas mãos da menina
que ri e fala sozinha, com diferentes vozes,
a narrar a trajetória singular de tão singulares personagens.
A inocência salva a alma, lava as feridas, cicatriza as dores.
Ver o que pode ser visto é mais que privilégio.
É quase abandono.
A porta do armário abarrotado de louças não fecha direito.
A porta do horário abarrotado de compromissos imprevistos
que não serão aceitos nem deletados,
apenas escritos no livro da vida...


11.05.2008 - 19h08min

Luzes e mitos


Somos mitos.
Somos mentes.
Somos muitos.
Somos mentiras impertinentes.
Somos desconcertos permanentes.
Ambulantes e desafinadas canções
que ninguém consegue entoar em coro.
Somos sementes.
Descabelados, perambulamos exaustos
e desavisados entre outros iguais
que tateiam a esperança da reviravolta
mas não voltam nem reviram
nem revoltam a aliança.
Somos semelhantes às estrelas
aos rebentos que não nasceram
por absoluta falta de tempo ou de memória.
Somos restos de luzes ovais
que se espatifaram no cosmos
e resultaram em nós.
Somos tudo e nada cotidianamente
e não nos damos conta das carruagens de fogo
que nos atravessam as têmporas e os caminhos.
Somos cegos e errantes, tentando acertar.
Estamos sós.





11.05.2008 - 17h09min

Insônia

Às vezes, a gente esquece da hora, o sono esquece da gente e a noite também. Então se pode medir um tempo que não existe ou que até existe, mas o relógio não tem. É o prazer da palavra leve e bem dita sem preocupação de horário ou da labuta diária, sem o stress cotidiano que altera qualquer plano e deixa os viventes meio reféns de si mesmos entre os implacáveis ponteiros que gritam: "É tarde!". O coelho, de Alice, que o diga! O silêncio da noite insone é bem-vindo. Faz a lua flutuar em pensamentos desordenados, mas, quem quer ordem, em plena madrugada? Quero mais é navegar no sono alheio conversar com quartos, quintos, terceiros, enxergar muito além do que me permitem os travesseiros. Quero mais é abrir as portas da noite e embriagar meus sonhos de estrelas cantantes. Quero o descompromisso do sereno frio que gela os ossos mas não alcança a alma, essa, enrolada em seu cobertor de carinho. Quero a impassividade de quem sabe onde quer chegar e o ouvido atento, os olhos bem abertos e os passos contados, pra não errar. De novo, não. 11.05.2008 - 03h27min

sábado, 10 de maio de 2008

Cheiro de filha, amor de mãe

Telefone tocando madrugada de sábado voz próxima, frescor de inverno debaixo da pilha de cobertas coração aquecido e as vírgulas os pontos as exclamações que se perderam ou se congelaram na noite de sexta Aninho meu corpo ao corpo quente de minha pequena filha a felicidade tem o cheiro dela a alegria tem o cheiro dela a leveza tem o cheiro dela e as vírgulas os pontos as confusões estão em algum outro lugar bem distante do cheiro dela Telefone toca madrugada de sábado véspera do dia das mães a essência de ser mãe tem o cheiro dela da minha filha 10.05.2008 - 14h59min

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Do dia em que Ana Terra saltou das páginas de um livro




Visita ilustre, Ana Terra brotou das páginas escritas por Érico.
O Tempo soprou na memória e Ana Terra esqueceu a saga,
Esqueceu a hora, esqueceu o horário do trem. Esqueceu!
Esse mesmo Tempo deixou de presente um restinho de memória
Nos barquinhos de papel, soltos em dia de chuva, ao vento...
O Vento soprou nos cabelos, clareou as madeixas e a pele,
Deixou na boca um beijo com sabor de chocolate.
Ana Terra, traduzida em ilustrações de histórias infantis,
Nos livros que passeiam entre os dedinhos inocentes
De crianças que ela não conhece, mas que conhecem os traços dela.
Ana Terra.
Quem disse que um dia saltarias dos lombos dos cavalos
Desse épico gaúcho extraordinário, e estarias assim tão próxima,
Tão viva, tão bem desenhada, entre os alunos de nossa escola?
Contadora de histórias, esperamos ansiosos entre aquarelas,
Colagens, sucatas, canetas e patos que perderam o P.
Perderam ou esqueceram? Tsc, tsc... ai, essa falta de memória
Ainda vai transformar a Terra em Lua. Se assim for, muito bem.
Mas se não tiver chocolate, nem vem que não tem.
Sai pra lá!






*Em homenagem à grande ilustradora e autora de livros infantís, Ana Terra.



09.05.2008 - 17h58min

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Energia


E eu, que mal sei de mim,
dei de cara contigo e fiquei assim
meio bamba das pernas
meio transbordante de sins...
Meio, porque, se fosse inteira,
não seriam sins,
esses todos que escorrem de mim;
seriam flores e canções,
plantadas e compostas
entre as costelas de um anjo
que dançasse com outros
querubins...




08.05.2008 - 22h36min

Bússola


Pra que lado fica

a saída da saudade?

Em que rua eu entro

pra encontrar o começo

da meada de delícias

que cabe inteira

na minha mão direita?

Qual é o endereço

do meu sonho mais precioso?

Essa linha de ônibus

passa pelo teu corpo?

O Norte fica na minha frente

se eu estiver atrás de ti?

O Sul é pra cima,

pra baixo

ou pra trás da vida?

Será o meu Sul

o teu Norte?


Na falta de uma bússola,

proponho olhos fechados,

um giro sobre o próprio eixo

e um demorado desmaio.

Depois disso, um longo beijo.



E nenhuma direção

será mais importante

que a que me leva ao teu coração...






08.05.2008 - 20h54min


Estrofe

Ando procurando O diapasão que me dê o tom exato da canção da minha vida. . . . 08.05.2008 - 20h08min

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Espectralismo

Engravido do desejo
de parir A canção.
Concebo a harmonia. Os primeiros acordes: sílfides nuas e livres, a dançar. Um Si Bemol escorrega entre meus dedos trêmulos de luar. Um Ré volta atrás, arrependido. Dou o tom da estrofe catártica. Arrepio a pele crua. As cifras, todas, de pé. Aplaudo. 07.05.2008-22h10min

Eu SOU


Sou um ponto de interrogação
diante de um espelho mudo.
Sou um ponto final,
entre outros dois iguais.
Sou aquilo que não se vê,
aquilo que não se toca,
aquilo que não se percebe,
mas que se pressente,
entre um sopro de lua
ou um raio de sol escaldante.
Sou o amanhã cambaleante
sobre as pernas de um hoje
que se desprende.
Sou a pressa e a imperfeição
juntas, inseparáveis.
Sou a cegueira e a visão,
o marasmo e a enxaqueca
depois da impertinente visita
da solidão, que se despede.
Sou alegria, rebeldia, exaustão.
Inconformismo preso na forma
retangular dos óculos prateados.
Sou barulho e silêncio.
Duas partes opostas
guardadas entre as portas
que protegem o que há em mim.

Eu

SOU.



07.05.2008 - 19h21min

terça-feira, 6 de maio de 2008

Substantivo feminino IV

Descabelada, acordou. O pesadelo interrompeu. Toalhas limpas buscou. Pão e mel comeu. Saiu à rua, no mundo entrou. Sorriu à lua, asas criou. Voou. Loucura. 06.05.2008 - 23h46min

Substantivo feminino III

Ela entende, perdoa, portanto esquece. Ela aceita, releva, portanto esquece. Ela ouve, desculpa, portanto esquece. Ah, não, o perdão é masculino, dirás... E eu te responderei, com um sorriso maroto: feminina é a compreensão, meu garoto. 06.05.2008 - 23h41min

Substantivo feminino II

Paixão: aquela coisa que te pega, te amarra, te enleia, te deixa tonta, meio perdida, partida ao meio. Paixão é coisa de louca de doida varrida de quem não tem amor pela vida. Ou tem. Vai saber... Isso mesmo! Ela te engole inteira, sem nem mastigar! Vixe Maria Santíssima! Mas está em mim e eu não sei como me livrar... 06.05.2008 - 23h37min

Substantivo feminino

Alegria canta alto na rua não liga pra cara de espanto do cara amarrada que passa ao lado sem entender nada. Claro que não! Alegria é substantivo fe-mi-ni-no, meu irmão! 06.05.2008 - 23h34min

terça-feira, 29 de abril de 2008

SIM ou NÃO?

Quem ousaria dizer SIM? Com quantas luas se faz uma vida? Com quantas vidas se abre um portão? Quem ousaria dizer NÃO? Com quantas vozes se entoa a canção? Com quantas chaves se assina à mão? Quem ousaria dizer SIM? Quem com flores fere com mágoas será ferido? Em casa de professora caneta nunca tem tinta? Quem ousaria dizer NÃO? Amar e perdoar, é só começar? O que o coração não sente, os olhos fingem não ver? Quem ousaria dizer SIM? Em terra de videntes, têm espaço os cegos? Crocodilo chora? E político, depois da eleição? Quem ousaria dizer NÃO? Ou SIM, ou TALVEZ? Quem ousaria dizer? Quem ousaria? Quem não? Talvez. 29.04.2008 - 23h04min

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Deriva

Antiga conhecida, a solidão arrasta o manto suave entre as alamedas acinzentadas e tristes. O sol, há muito desistente de clarear esses caminhos, escolheu arder em outras paragens, fazer sorrir outras cores, exercitar o calor em corpos menos dormentes. A História recolheu as febres e as criações desses pastos e passou a ferro quente as folhas amarrotadas onde escrevera esses restos de ilusões amareladas. Caminhar constante de lentos panos esvoaçantes num dia sem vento ou desejo algum de servir mate gelado aos fantasmas engasgados pelo desgaste de nada esperar. As cobranças multiplicadas pelas décadas de silenciosas amarguras, despetaladas as margaridas na última primavera que ninguém lembra mais há quanto tempo se foi. Os círculos se repetem e se repetem e se repetem giram em torno de si mesmos, copiando o movimento de um Planeta em extinção. Inesperada centrífuga de talheres postos sobre uma mesa vazia de propósitos. Dormem os viventes envaidecidos pelos sonhos. Mal sabem que os olhos são cegos e que o ontem é repetido mais de cem vezes, sob diferentes prismas e pacotes coloridos, entre o real e o desejado humano, entre o saber e a ignorância total. Dois extremos. Entre eles, a humanidade toda. À deriva... 28.04.2008- 19h30min

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Premonição

Inconstante, canso de divagar. São lentos os passos que me cercam e os pesos impressos na folha reluzem os pedaços do passado recente. O gosto de fruta gelada confude a canção que acompanha o vaso de flores no jardim recém plantado. A tarde livre dessa quarta-feira triste é tapete de escala de cores na escolha que urge entre os afazeres esquecidos, de tanto retomar a antiga lista. O sonho da alma liberta a libélula do pensamento. Empresto o brilho de um céu vago aos instantes que julgo meus, contigo. Teus versos invadem a solidão e quebram os vidros embaçados da lua que se escondeu atrás de uma nuvem de doce e branco algodão. Espero a tempestade que se arma no horizonte, quando já não estiveres aqui. As possibilidades de cristal correm riscos. As portas do futuro estão abertas hoje. E eu temo que o medo seja tão palpável que acabe por congelar as mãos do poeta... 24.04.2008 - 01h30min

Canção

Uma canção não precisa de partitura, nem de letra, nem de arranjo. Uma canção não precisa sequer de um intérprete. Uma canção só precisa, para ser devidamente ouvida, de um leve, suave e delicado coração. 24.04.2008 - 01h18min

Eu confio




Aos 50 minutos do dia 24.08.2008

Partitura natural


O VÔO



Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas,
tempo e vento, desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite
enche-o de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu vôo
te leva sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro,
as canções que tens na garganta.


Canta!
Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.

Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo do céu?
Que importa a rota?
Voa e canta, enquanto resistirem as asas.


(Menotti del Picchia - 1892/1988)






24.04.2008 - 0h40min

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Da fragilidade da vida

Um dia, por inocência, desejo de ajudar o outro ou pra chamar a atenção mesmo, a gente resolve prender a vida a um balão de gás. E esquece que o fio dessa mesma vida é frágil demais. Melhor não esticá-lo muito... ele pode não suportar... e aí ...
23.04.2008 - 01h43min

terça-feira, 22 de abril de 2008

Dos julgamentos

Creio que nenhum julgamento seja legítimo, desde que proferido por um homem. A visão humana é extremamente limitada e sujeita a influências as mais variadas; portanto, pouco confiável. Julgamentos nunca são justos, em hipótese alguma. Além disso, nem sempre as vozes dizem o que realmente querem dizer. Mais um ponto em que a legitimidade é questionada. Logo, não pergunte de onde vem uma legitimidade que não existe, de uma voz que não diz tudo o que quer dizer e que profere um julgamento limitado, inclusive, por sua condição. Seja você. O resto é apenas a vida, em movimento.
21.04.2008 - 23h39min

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Inspiração

Inspiração é coisa que a gente planta entre as fagulhas deixadas pelo poeta. Molha na língua o gosto da vida e aquece o peito enrolado na manta. Inspiração a gente colhe dos passantes que tomam suco de melão e aguardentes. Inspiração é aquela estrela que a gente ainda não vê porque o sol arde forte entre nuvens esvoaçantes. Inspiração é bicho de pluma e asa enorme que voa sem avisar nem dizer porquê e a gente até acredita que ela não volta até que de repente, ela grita o nosso nome. Inspiração é amiga revoltada e carinho no rosto é pele arrepiada e beijo no pescoço é sorriso disfarçado e voz rouca é tristeza repentina e dor louca. Inspiração é isso mesmo que envolve a gente e faz crescer o desejo de riscar de caneta o papel, a tez, a parede, a mente de palavras que talvez nem tenham muito sentido mas que estão impregnadas de sentimento. 21.04.2008 - 17h

Procura

A procura é uma das minhas inquietudes estou sempre à procura. Procuro por ele, procuro por mim, procuro por nada, procuro o sim. Busco aqui, acolá, mais adiante, e dou de cara sempre com um gigante que se chama vida, a me olhar, impaciente. Ai, ai, ai, que moça mais impertinente, que não sossega nunca, que anda sempre pra frente. É assim que passo meus dias. São assim minhas insones escurescências. Essência de rosas no incenso queimando no meu quarto. Não espero. Nego os braços cruzados. Se páro, é só pra renovar as forças. Movimento é meu lema. Movimento a minha vida. O gigante que me abraça e cura qualquer ferida. Na rua, acendo os olhos. Na tela, acendo as luzes. No espelho, acendo a alma. Vou em frente, que atrás vem gente. E nunca se sabe até onde se pode inventar uma nova doçura. É o que eu quero: a alquimia do dia-a-dia. A invenção de um novo amor pulsante. 21.04.2008 - 16h13min

Renovar

Terminei a faxina da casa (feriado, sabe como é...) e aproveitei pra fazer faxina na vida com o pó, foi a tristeza com o lixo, o cansaço com a sujeira, a desesperança. Agora, banho tomado, cheiro de limpeza no ar, sinto o peito renovado e estou pronta para amar. Ah, não dou mole não não vim pra ficar sozinha não estou aqui pra curtir solidão. Meu negócio é companhia. Se for boa, fique até que queira ficar. Se ruim, vá embora, que eu não quero me chatear. Quero paz, alegria, doçura e carinho. Sem isso, não sou ninguém. Mas recomeço sempre, se não tiver alguém. E agora não tenho. Estou à procura. De novo. E quantas vezes forem necessárias. Até que... Eu morra? 21.04.2008 - 15h30min

Gênero

Passado e futuro, substantivos MASCULINOS. Alegria, substantivo FEMININO e bem se vê que ela faz parte do nosso universo. Passado bem vivido, Futuro bem esperado, Alegria o tempo todo, inda que um resto de lágrima no canto de um dos olhos tenha ficado. Alegria é companhia certa na roda de amigos inda que o peito pese e que a folia seja apenas um escape. Escapa da tristeza prolongada, deixa a dor no passado que é substantivo masculino e pode te proteger dela. Escolhe sempre o sorriso hoje, aqui, agora e espera encontrá-lo de novo lá adiante como foi em outros tempos, como foi outrora. Vive o instante presente, também masculino (cá entre nós, ainda bem) e engole o mel do momento doce que não volta mas que haverá de ser sempre teu. Aos 52 minutos do dia 21.04.2008

Proteção

É preciso dormir. Reconhecer que outro dia se foi e o prato das novidades permaneceu vazio. A tinta do cabelo ruivo escorrendo pelo corpo debaixo do chuveiro quente o cheiro do shampoo suave e as extremidades dos membros cheias de espuma macia vermelha. Os cachos molhados se alisam. São lisas as horas sozinhas escorregam entre os dedos feito sabonete molhado. Passam. As passagens estreitas são vales que não levam a lugar algum. O escuro é silêncio. O silêncio é a porta de entrada do suspiro profundo. As camisas, as saias, os mundos, se diluem no espaço inventado. Juramento sacramentado: na próxima vez a porta estará trancada. 20.04.2008 - 02h27min

domingo, 20 de abril de 2008

Anonimato

Por trás de uma cortina de fumaça a palavra pode ser qualquer uma de deboche, de aceitação ou ciúme. Por trás de uma cortina de fumaça a maldade não tem rosto, não tem nome, não tem grau de proximidade, não tem tesão. Por trás de uma cortina de fumaça se é quem se gostaria de ser, se tem força, coragem e audácia. Não se assina o documento escrito, não se assume a bala disparada, não se resume o texto do atrito. Por trás de uma cortina de fumaça se pode ser qualquer um. Mas, se a gente não vale a pena nem pra gente mesmo, então tem mais é que se esconder por trás dessa cortina de fumaça denominada anonimato. O anonimato é a proteção de quem não tem coragem de quem não tem argumento de quem não tem história de quem não tem opção. E não ter coragem, argumento, história ou opção deve ser muito triste...
20.04.2008 - 17h15min

sábado, 19 de abril de 2008

Conceitos

Mas, afinal, quais são os sentimentos, as idéias, a vontade do povo? Onde está o povo? Quem é o povo? Onde ele se esconde - se é que se esconde? Será uma entidade, o povo? Ou o povo não seremos todos nós, burgueses ou não? O que é a burguesia? Quais são os sentimentos, as idéias, a vontade da burguesia? Onde está a burguesia? Onde ela se esconde - se é que se esconde? Será uma entidade, a burguesia? Ou a burguesia não seremos todos nós, povo ou não? Que tipo de conceitos interiorizamos e usamos como discurso diário? Que tipo de discursos conceituamos e usamos como diárias internalizações? As idéias serão nossas mesmo, ou as roubamos de terceiros? Quem serão esses terceiros? De que lado estarão? Do lado burguês, ou do lado povão? Há quantos lados nessa história? Há lados na nossa História? Questões. Não creio haver uma única resposta a qualquer delas. 19.04.2008 - 02h22min

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Areia






Um grão de areia. Eu. Um grão de areia. Tu.

Quantos grãos de areia são necessários para fazer um mundo justo?








18.04.2008 - 22h01min

Perguntinha


Será que a vida está de cabeça pra baixo?
18.04.2008 - 22h

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Deserto

hum.... local deserto... posso dançar nua gritar para a rua disfarçar a dor de luz de lua coroar a noite escura. Posso falar besteira e estender uma esteira bem no meio da pista de dança. Posso voltar a ser criança e esperar que o dia amanheça. Mas... eu poderia fazer tudo isso de qualquer jeito inda que todos aqui estivessem inda que os sons e assovios e tambores também retumbassem batucados pelas mãos e pelos dedos dos poetas alegres ou entediados ou nervosos que eu amo tanto e que respeito. Mas... o local está deserto não há ninguém por perto e eu desconfio que vou morrer de solidão... 17.04.2008 - 20h10min

Depois do amor

Escancaro as janelas ao pôr do sol as portas estão abertas e se aproximam os visitantes. Escolho as palavras que espero fluir se escondo as escadas é pra deixar claro que não quero intrusos. Exercito a audácia no risco e recomeço de onde parti. O prato quente repousa sobre a toalha de renda improvisada e nada disso é importante tudo nada na imensidão do que considero impreciso e a solução não existe nem aconselha a experimentação. São demais os caminhos tortos e o estertor que confunde as lentes escurecidas dos óculos velhos. Nas mesas dispostas, nenhum par. Estão quebradas as pernas das cadeiras e as carteiras estão vazias de sentimentos. Um gosto de sal enche o espaço vazio e a tinta acaba bem no meio de uma frase sem sentido algum e sem destinatário certo. A televisão ligada se exibe para ninguém e os fantasmas se sentem à vontade para sentar entre os convidados ilustres e amassar as almofadas de cetim lilás jogadas sobre os tapetes batidos. Não se deu o encontro. O encanto não se fez. Depois do amor só um adeus curto e seco para se dizer... 17.04.2008- 18h01min

Sentença

Estaca cravada no peito da rima ferida inútil nascida de cicatriz amor moribundo entre almas cambaleantes soco no estômago da noite sofrida fervor de primavera em pleno gelo ártico pele de urso polar. O sol escorrega pelos anéis dos meus cabelos envermelha o horizonte perdido de vaporosas nuvens brancas envenena os sais e os depósitos de cristais azuis do quarto crescente da lua de São Jorge que desaba ao amanhecer. São pragas as pregas das roupas que não servem mais. O ensino da língua é úmido e corre o risco de secar um dia in-ter-mi-ná-vel sombra que acompanha o veredictum fatal: FINITO! 17.04.2008 - 01h03min

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Até que a ausência nos separe

A porta da frente aberta lá fora chuva torrencial um céu de anil na primavera sensação de frio abaixo de zero e um espirro ao longe como se uma formiga, de repente, tivesse desfalecido sob o peso insuportável da folha verde. A claridade cega os olhos distantes o movimento lento da criação desvia a vista para o além onde ninguém alcança onde ninguém é um bem. A educação exige resposta polida a prataria sobre a mesa enquanto as teias de aranha crescem e tomam conta das entranhas da casa vazia de sangue quente. A escolha dos trincos das portas foi tua as trancas jamais usadas são minhas as capas de chuva dormem secas no armário e as botas bem lustradas descansam os fantasmas usam as sementes dos verbos semeados antes da repentina partida. As vozes serpenteiam e contam as vezes em que as cantigas foram mais que notas musicais foram musas de orvalhos sagrados esquecidas nos cantos das lentes dos óculos há muito quebrados... Às 22h50min do dia 14.04.2008

Violência

Quando o amor surge a paixão vem e degola o coração faz arte por toda parte e pendura os quadros pintados de sangue nas paredes do cemitério dos peitos doentes de amor. Só o amor pode matar a violência... Alina e Simone Aver Aos 18 minutos do dia 14 de abril de 2008

domingo, 13 de abril de 2008

Silenciosamente

Chega mais. Vem ver com quantas palavras se faz um longo silêncio. Aos 16 minutos do dia 13.04.2008

ECO!

Eu digo que sim e meu eco responde que não. Eu digo que não e meu eco responde:"NÃO!" Eu nada digo e ele, descaradamente, grita: "E aí, vai falar ou tá difícil?" Aos 15 minutos do dia 13.04.2008

Um minuto

No primeiro minuto, busquei poesia procurei nos cestos de roupa suja a rima animada que estava guardando pra quando a festa chegasse. Mas ela não chega. Mas elas não chegam. Nem a rima, nem a festa. Então revirei o cesto e encontrei a danada. Escorrega, esfrega, estremece, adormece (e eu não vejo nada que se encaixe). Ai, ai, ai, que desespero que dá na gente quando não encontra nenhuma palavra perdida que diga tudo, assim, exatamente o que se espera dela bem bonita, de saída, como quem não está cansada muito menos arrependida de rir alto na madrugada acordando de encomenda a vizinhança... Nem rima, nem festa... E o primeiro minuto, que era pra ser poesia, sucesso, verso, canção, improviso, processo, virou busca... Mas... A busca, em si, não será poesia?????????????????? No primeiro minuto do dia 13.04.2008

sábado, 12 de abril de 2008

Maiúsculos


o tempo parou nesse instante

conversa interna pela eternidade afora

que dirão eles? quantos versos farão juntos?

que diremos nós de nossos humanos poemas

cheios de imperfeitos dizeres

de sensações de futuro inexistente

de pretensão de rima que não aflora?

que diremos nós diante dos deuses

quando nos oferecerem um banco e um livro

e uma caneta de material reluzente?

que diremos, pois, ao dar de cara com eles?

oi, Drummond, meu velho...

oi, Quintana, meu bem...










12.04.2008 - 23h57min



Buscando resposta...


Drummond, Drummond, de costas pro mar
Responde, me diz, me conta, não esconde, Drummond:
Com quantas estrelas uma poesia se faz?






12.08.2008 - 23h40min

Círculo de luz

As estrelas são redondas e cantam... Círculos têm cantos? Claro! Têm cantos, cantigas, canções. Apura o ouvido. Escuta. 12.04.2008 - 23h38min

Saudade?

Saudade é uma coisa que acaba um dia e deixa no lugar... nada... 12.04.2008- 23h27min

Aurora Boreal

Eu quero a subjetividade do que está escondido dos olhos e da percepção geral do comum. Eu quero a simplicidade do que está revelado aos olhos e à percepção de quem é raro. Eu quero a doçura da fruta colhida no pé jurado de morte pela mão do progresso desmedido. Eu quero a força da expressão madura que ainda não cheguei a conhecer. Eu quero a linha imprecisa que guarda no âmago a segurança do velho conhecido. Eu quero as cores todas juntas, dançando sobre mim. Um céu tão colorido e movimentado que acabará por fazer-se branco. Tranqüilidade, enfim. 12.04.2008 - 20h41min

Despertar

O acervo das minhas obras esgota o pensamento hostil que me cerca. Acordo entediada com olhos de abismo postos sobre os próximos minutos que me aguardam indecisos quanto à presteza do meu estado atônito diante do curso que o rio do tempo toma. Tiranizo o relógio. Eu mesma faço as minhas horas. As honras enfraquecem os laços ou os desfazem ao seu bel prazer. Beijo as espumas dos dias corridos. Serão resgatáveis os minutos perdidos? Os pontos finais serão mudanças ou abrirão expectativas outras que sequer suspeitávamos, nós dois? Piores são as reticências. Silêncios prolongados em que não sei se estás ou se já foste entre um emaranhado de conversas antigas que nem sequer chegamos a ter. Adapto o mundo ao som de um piano distante que canta de dentro das páginas do livro na estante próxima da cama. São espaços que não me pertencem, que dançam entre os dedos, com cheiro de cera líquida, recém coberto o assoalho de tábuas escuras por onde meus pés passeiam agora. Espreguiço e estremeço o corpo diante da possibilidade de jamais vir a escrever as linhas que tracei no horizonte do sonho e que se vão perdendo, rapidamente, enquanto a lucidez assume o comando e o estômago reclama um pouco de café. Amanhece o dia. Faz frio. Acordo. 12.04.2008 - 20h28min

Produção

Produzo sem pestanejar que os olhos foram feitos pra ver não pra fechar as janelas da alma e esquecer que as entranhas os anéis e os dedos e as esquisitices todas são partes importantes do meu cotidiano e da minha criação louca. Produzo sem pressa de colheita ou de precisão de letra na tela quente de um computador impertinente que sopra dissabores entre as dores e os dotes e os bilhetes e as mensagens e as distorções e os contrários e as impressões todas estranhas ao que eu nem imaginei um dia querer dizer... Aliás, dizer não me basta. Eu quero aprender. 12.04.2008 - 02h40min

Antes

Se dizes que sim se ocultas o não se entras por uma porta e fechas a outra a chave pro lado de fora do lado de dentro, não sei. Se encontras abrigo na água do chuveiro quente e espreguiças o acerto debaixo do travesseiro coberto do perfume do cabelo recém lavado de espuma. Se espremes a fruta e dela extrais o sumo e a cor e a doçura. Se estás aqui ou não se estendes ali a mão se encobres de mim a pretensa ilusão. Não sei não quero saber não conheço quem sabe nem espero conhecer. Quero a pedra a lua a fome o aço inoxidável e o homem. Quero a espera a vida a chama o incômodo o estrado e a cama. Quero a impaciência e a coragem a leitura a sentença a vadiagem. Não quero nada além do que me valha: valha-me Deus! Que me venha a vaia e que a gaia me receba de braços abertos pra que eu beba da fonte da raiz eterna. Que eu seja dele antes que entardeça... 12.04.2008 - 02h33min

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Pedido

Moço, traga-me só a tônica a tônica da vida a tônica da sílaba a tônica da canção que foi derramada sobre o balcão e seca com pano ensopado de suor sobre o piano de cobre e cobertor de linho azul. Moço, traga-me só a tônica a tônica da lua pendurada lá em cima a rir-se desse meu peito arfante, exausto e solitário de tanto desgastar-se entre versos e melodias vagas que escrevo no guardanapo amassado desse bar virtual abençoado. Moço, traga-me só a tônica que eu risco aqui, com o dedo em riste um dó, um ré, um mi triste e canto uma toada acompanhada pelos melhores poetas que existem. Moço, só uma tônica, por favor, pra eu misturar com açúcar e mel e poesia e amor... Aos 15 minutos do dia 11 de abril de 2008

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Certas linhas... linhas incertas...

Não gosto de linhas retas; elas não me atraem, não me alimentam, não me prendem, não me exercitam, não me interessam, em absoluto. Linhas retas não oferecem surpresas. Nem podem. Não há sobressaltos se transitas por estradas retas. Tudo está ali. Nas curvas, o não-saber é constante. A descoberta é permanente. O susto, o imprevisto, o desconhecido é lei. Não gosto de regras prontas ou de posturas vazias repetidas aos milhares, inquestionáveis. Questiono meus questionamentos. Reformulo meus caminhos. Pinto de outras cores meu arco-íris particular: tempo, espaço, presente, futuro, se amanheço ou se acabei de nascer, se espero ou adormeço, se morro, estremeço ou desisto de dizer. Se acendo essa luz agora não é por não ter outra opção ou por repetir teus passos deixados aqui mesmo. Não. Se acendo essa luz agora é por acreditar que preciso de um tantinho de iluminação pra ver se termino esse pensamento que, longe de ser linear, é cortina balançada ao vento, arrancada da janela aberta solta, livre, pra ver, crescer e voar... 10.04.2008 - 23h46min

Possibilidade

FILOSOFIA... pensar... detesto pensar... isso só me traz problemas... acontece que virou hábito, melhor (ou pior, depende do ponto de vista), virou vício. Não. Pior que vício. Pensar é maldição. Às vezes é menos dolorido morrer... 10.04.2008 - 23h23min

quarta-feira, 9 de abril de 2008

FECHADO?


Um dia essa palavra se apaga.

A partir de então, talvez,

haja abertura...







09.04.2008 - 01h58min

O Muro

Desejei uma imagem

poeticamente colorida.


A vida despertou-me do sonho


e entregou, de bandeja,


um muro


poeticamente dolorido...














09.04.2008 - 01h51min

Igualdade? Ah, não!

Não quero saber de unanimidade quero a discordância, a discussão, o desafio, a generosidade. Eu quero isso que a gente está perdendo de tanto inventar a igualdade. Eu quero, eu preciso, eu acredito, é na diversidade... Aos 9 minutos do dia 09 de abril de 2008

terça-feira, 8 de abril de 2008

Súplica

Não, por favor. Poupem-me do martírio de explicar o que eu quis dizer. Assumam meu verbo. Tomem para si os sentidos todos.
Que os meus, só a mim pertencem.
Ainda que em cada homem haja um tanto do que é universal. 08.04.2008 - 23h42min

4...3...2...1...

Pergunta perdida é coisa de não-dizer o feito destituído o fato de não-querer fala a prata da casa que prato fraco se quebra de tédio e desengano acontecido mil vezes ao ano entre as contagens regressivas insistentemente abortadas. Aborda o recomeço... 08.04.2008 - 23h38min

Escolhe, acolhe, recolhe... alucina...

Se te escolho entre todos os mortais e a ti dedico atenção e cuidados é que tens um não-sei-quê nesse teu olhar alado de poeta enternecido. Se te acolho entre meus membros num abraço quase embrionário é que tens um sei-bem-o-quê nesse teu andar enluarado de poeta anoitecido. Se te recolho entre as palavras que escrevo e que bem domino é que tens um bem-querer nesse teu falar enfeitiçado de poeta amanhecido que me escolhe, que me acolhe, que recolhe os meus cacos todos que, enfim, me alucina... 08.04.2008 - 23h29min

Amor e pão

Do lado de fora da vida, o cansaço, as costas doídas. Brisa leve anuncia lá adiante que a letra é navegante e o espinho é passageiro. Escreve torto nas linhas imprecisas do tempo direito. O espaço é denso e certo? Fomento o sentido perfeito da consolação e do lamento. Considero as curvas da passagem: frestas nos muros erguidos nas arestas cortadas do medo. Encontro abrigo e oração na casa que acolhe o andarilho errante esfarrapado e cambaleante que já perdeu tudo primeiro que esse tudo, a razão. Descanso a cabeça no ninho tecido fio a fio lentamente e agradeço a polpa escorrida da fruta suculenta oferecida. Brilhante oferta carnuda. Amor e pão é do que todo Ser precisa. 08.04.2008 - 23h21min

Anestesia

Quando a saudade for tão grande a ponto de anestesiar-te o peito, observa... É serviço do tempo garantir-te vivo. Desnuda-te e perdoa. O que é teu, não esquece. Acorda e sonha, que o desejo, um dia, amanhece.... 08.04.2008 - 02h08min

Exílio

...à noitinha,
o crepúsculo pinta de vermelho
um imenso céu azul...
Nas conchas das mãos as lágrimas derramadas pelo absurdo silêncio. O desespero é parte de quê? Do abandono ou da esperança? Na prancheta as últimas palavras tristemente pronunciadas como um toque de amargura pincelado na delícia de viver. E uma saudade do não-tido anestesiando o peito gritando por uma anistia impossível de se conceder! O exílio é o castigo do desobediente que insiste na procura vã de uma atenção ausente ou da presença que não pode ser. Exílio é tortura consentida, dor que brota de noite e te acompanha nas horas do dia, com cheiro de flor quase parida entre as contrações e os tremores e os espasmos que a solidão, essa furada canoa, provoca no peito de quem já não tem no que sonhar, além de um coração vermelho e de um céu azul a pulsar... 08.04.2008 - 01h58min

sábado, 5 de abril de 2008

Graham Bell


Depois do acidente, o orelhão,

a meio caminho de espatifar-se no chão,

sugere um pensamento:

Que comunicação é essa, que estilhaça

os vidros e não desvia das linhas

cruzadas entre a razão e a não-razão?

Que vida é essa, que pouco vale

e vale pouco menos que um cartão

que se gasta na primeira ligação?

Que sonho tão curto,

que se quebra numa esquina,

aos pés de Bell?

Pra que lado fica o céu?






05.04.2008 - 19h13min
(Será que é no lado de dentro?)

Brrrrrrr......


Amendoim, pinhão na chapa, fogão à lenha,
blusa de lã, cobertor, meia grossa, bota de cano alto,
cachecol, touca, aquecedor, chocolate quente,
chocolate em barra, pipoca, batata na brasa.
Da boca, saindo fumaça de frio. Luvas, batom vermelho,
churrasco, fogueira, cantoria, gripe, espirro, espiriteira.

Ah... Inverno bom. Chuva e cerração de manhã cedinho.

Vontade de dormir até mais tarde. Quem não sente?
Casaco pesado, polainas, montanha de edredons na cama.
Pantufas de bichinhos. Pijama de flanela. Sopa quente na panela.

Ah... Inverno bom...
Outono foi sopro breve, secou as folhas, despetalou os galhos.
Outono é só convenção na folhinha.
E o frio vem depressa, conserva meu riso,
conserva na despensa do meu velho peito
a certeza de que o dia amanhece
e de que a vida se renova, sempre.
Debaixo de geada, vem novinha,
saudar a alegria que se inicia.







05.04.2008- 19h04min

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Hoje é Sexta-feira

Sexta-feira, e a vida anda mole assim, meio de bobeira, como se hoje não fosse agora como se agora não fosse hoje como se já e daqui a pouco nada mais fossem que só um ponto ou uma vírgula ou uma expectativa não se sabe de quê. Sexta-feira, e a vida enrola um novelo de lã quentinha pra tricotar casaco pra filhinha que dorme tranqüila, na cama macia. Sexta-feira, e o informe oficial é de que, depois dela, vem o fim de semana esperado pra um descanso invejado por quem não pára nem em feriado muito menos em pleno sábado. Sexta-feira... Festival do Beijo, em Madri, e eu aqui... Sexta-feira... Aos 9 minutos do dia 05.04.2008

Cotidiano poético


Há poesia em cada canto da cidade.
Há poesia nos cantos dos muros,
nos cantos das praças, nos cantos dos fundos
dos poços do cotidiano dos citadinos
que se apressam para chegar ao nada.
Há poesia na lágrima que rola no rosto da menina,
no latido do cão preso na coleira,
no sinal fechado, na rua vazia, no trilho do trem
que não partiu hoje por falta de turistas.
Há poesia no perigo da limpeza da vidraça,
no jogo com a vida que se faz diariamente
sem que se perceba, sem que se atormente,
já que as contas não fazem perguntas,
nem os credores querem respostas,
apenas as notas, umas sobre as outras,
no vencimento das prestações mortas.
Há poesia no carro que passa, na buzina estridente,
no mendigo, no pedinte, no doente, no indigente,
na moça bonita, na velha elegante, na cor do fim do dia
que enfeita a vida e pinta de vermelho o horizonte.
Há poesia no cheiro de flor que ficou da primavera
e na folha seca partida debaixo dos pés,
no início de um outono frio e bem-vindo.
Há poesia na correria que acontece
entre os pedestres, entre as pedras paradas
que observam os pombos e seus vôos,
na praça defronte à prefeitura municipal.
Há poesia na cidade, nas coisas pequenas,
na sirene da polícia, dos bombeiros, da ambulância,
ainda que sejam esses versos cantados tristemente,
como quem chora ou como um lamento doído
de quem perdeu o que não voltará, nem com forte pedido.
Há poesia no bom e no que é visto de soslaio
que a gente evita o contato, que a gente finge não ver.
Tudo parte do soneto universal
cotidiano poético por todos lido
por quase ninguém entendido como tal...




04.04.2008 - 23h38min

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Questão?

SER ou SER. Uma quase maldição... 03.04.2008 - 22h12min

Amor menino

E o amor é esse menino travesso que apronta arruaças e levanta vôo entre as moças, nas praças só pra lançar seus dardos avermelhados nos corações de jovens poetas que por ali passam, desavisados. Ah, amor levado e imprevisto, que vem de mansinho, se acerca do ouvido e sopra nele versos leves de algodão. Ah, amor sapeca e bem ligeiro planta no peito um fiapo faceiro da mais pura e verdadeira paixão. E aí é um deus nos acuda um valha-me ó deus um salve-se quem puder porque então nem de reza braba resulta a cura pra essa loucura do coração... 03.04.2008 - 01h21min

terça-feira, 1 de abril de 2008

Ofício: pastora da alegria




Ensinar: plantar flores
em canteiros floridos.
Ensinar: entender-se pequeno
ante tremenda diversidade
com olhos ávidos que nos espreitam
e nos perguntam sem palavras,
'o que vamos descobrir hoje?'.
Ensinar: crescer junto.
Ensinar: esquecer da gente,
entrar num universo mágico,
r e a l i z a r...


Meu ofício? Pastora da alegria.





01.04.2008-22h59min
*O termo 'pastora da alegria' foi tomado emprestado
de Rubem Alves, admirável educador.
**Imagem: Minha turma do 1º ano do Ensino Fundamental,
em plena atividade de pesquisa. Concentradíssimos!!!!!!!

Desejo

Que estejamos todos poeticamente prenhes da beleza traduzida em versos... Que seja a dor, o amor, o horror, o dia, a noite, a doçura, amargura, alegria ou lerdeza. Que seja a saúde, a doença ou a tempestade, o sabor adocicado de um beijo ou o sangue da ferida aberta. Que seja a risada gostosa do palhaço ressurgido ou o regurgito do fel engolido. Que seja o que tiver de ser. Em todas as fases as faces da poesia bendita. Pra fazer valer essa nossa alma que não é pequena, é vida de Pessoa... 01.04.2008 - 02h10min (E toca o barco pra frente que tem muita água pra navegar...)

Hoje eu morri (ou Poema da Indiferença)


Dou passos arrastados na areia
A maré removerá todos os vestígios
Arbustos mortos rolam na rebentação
O horizonte respira melancolia
Navios duvidosos vogam em direcção a Ormuz
Pescadores enrolam redes remendadas
Um gato procura abrigar-se da pesada chuva
O chamamento do mulá perde-se nas ondas
Recitando uma oração volátil
Mensagens de submissão incondicional
Cantos para Deus, que não desejo ouvir.

Sou aquele que sempre deu a outra face
Fui mil e uma vezes agredido
E em mil ocasiões tudo perdoei
Educado para dar, sem nada esperar
Nunca neguei um apoio gentil
Jamais regateei uma palavra doce.


Porém, hoje eu morri
A visão do mundo turvou-se
Os sons destilaram-se em silêncio
O sangue esvaiu-se lentamente
Parti sem prantos ou lágrimas
Quando me quis, já não me encontrei.

O meu fantasma acordou agnóstico
Ergueu-se com um sabor de fel na boca
Olhou para inúmeras cicatrizes por sarar
Todavia sentiu-se incapaz de sofrer
Sacudiu a areia dos farrapos que lhe cobriam a alma
Soltou o espartilho dos seus valores
Envergou vestes de imaculado negro
Sorveu uma deliciosa taça de indiferença
Sentiu-se mais vivo que em vida
Já nem todas as faces merecem um sorriso.


M.Daedalus



01.04.2008 - 01h45min
(publicado pelo meu querido amigo poeta DOUGLAS, em
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=42836441&tid=2576314501045743642&na=2&nst=252
Imagem: Remedios Varo)

Mentira!

No dia da mentira menti pra mim mesma que tudo tem um fim que também marca um recomeço. No dia da mentira sorri sem vontade brinquei à força forcei a barra de uma alegria que não existia. No dia da mentira respirei fundo e enfrentei o mundo com uma coragem fingida e supostamente grande. No dia da mentira menti descaradamente sem a menor culpa ou sensação de engodo. Enganei sem corar. Corri contra o tempo como quem sabe para onde vai e o que pretende achar. No dia da mentira calei a voz aos gritos gritei sem voz, atritos brilhei sem luz nos ritos que o costume impôs aos que crêem nos mitos. No dia da mentira rasguei a verdade sem dó nem piedade pisei nas farpas nos espinhos nas lições da idade. No dia da mentira menti descaradamente que o coração não sente o que o peito encerra. No dia da mentira desfiz o acordo e entendi a verdade. No dia da mentira acordei do sonho. Renasci. 01.04.2008 - 01h33min

segunda-feira, 31 de março de 2008

Quem sou eu?


Talvez eu só tenha essa resposta daqui a alguns anos... Ou não...



Penso que sou água, águia,

fogo, ardente ilusão,

sensação permanente

de uma profunda solidão.

Penso que sou a procura

ou o estado letárgico

da completa loucura.

Sou égua solta nos prados

de uma vigília insólita.

Sou corrente que prende

meus pulsos ao passado

recente, indecentemente confuso.

Sou língua e pele e cabelos

vermelhos de pimenta malagueta.

Sou verso e prosa e conto

que ninguém conta

porque até eu duvido

e não divido a lente azul contigo.

Sou curso contido de água furiosa.

Sou alinhavo de espera

enquanto corro sem trégua

para um horizonte

que sempre sai do lugar

e fica mais distante.

Sou alegria e doçura

submissão e ternura

tristeza e desânimo

dor e amargura.



Sou mulher.





31.03.2008 - 19h18min