sábado, 17 de maio de 2008
Fotografia
Paraliso o instante que quero guardar
- são tantas as horas que ficam pra trás -
os sonhos contidos, as lembranças criadas
baús de tesouros incalculáveis na energia
condensada numa folha de papel especial.
Areia movediça.
O presente remete ao passado num piscar
de olhos e de lentes automáticas.
Os teus olhos
as minhas lentes
as tuas lentes
os meus olhares para um horizonte
que se encerra logo ali
quando o retrato se rasga
feito véu apodrecido
de noiva largada no altar.
O álbum embrulhado pra presente
caixinha de música inaudível
que teima em tocar na mente.
A canção do primeiro encontro
do encanto do brilho no olhar
a canção do primeiro beijo
do encanto do brilho no olhar
a canção do primeiro sonho
do encanto do brilho no olhar
a canção do primeiro adeus
do desencanto da lágrima no olhar.
A eternidade presa na imagem.
Areia movediça
para o bem
ou
para o mal.
Decide quem a tiver que pisar.
17.05.2008 - 20h45min
Sonhar
Sonhos são sinais
que aparecem demais
e acabam por ficar invisíveis...
Observa.
17.05.2008 - 20h02min
Virtual
Varar a noite
varrer a sala
vangloriar-se de SER.
Vender ilusões
virar lobisomem
ver assombrações.
Chatear-se da superfície
supervisionar o EU
erotizar a distância.
Desmoralizar a simpatia
sacramentar a ignorância
incendiar a aventura.
Inventar a nova ordem
organizar o movimento
mostrar o sentimento.
Virtualizar
virilizar
vingar
vigiar
viajar
velejar
intuir....
17.05.2008 - 19h59min
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Poesia
Olho para o lado e penso Poesia
com os olhos fechados penso Poesia
no sonho ou sonambulando penso Poesia
na conversa faceira, na lágrima ligeira
só penso Poesia.
Construo versos do avesso do abrigo
onde entristeço e onde penso o que digo
e só penso e só digo Poesia.
Uma frase, uma palavra, uma idéia
são suficientes pra fazer nascer do umbigo
a estrofe oferecida para a platéia.
Não espero aplausos.
A criação é só um reflexo do que vivo
do que rio e do que padeço
e não sei se pareço com uma velha doida
que fica falando de qualquer coisa
sem nexo ou remendo ou intermediário que a ouça.
Mas, pra mim, tanto faz;
o que quero e o que preciso
é pensar Poesia.
16.05.2008 - 13h55min
O pássaro
Um ninho.
Tem um ninho de passarinho
na árvore, perto da minha janela.
E ele canta,
(não o ninho,
nem a planta,
mas o passarinho...)
na árvore, perto da minha janela,
pra eu ouvir.
Só pode ser pra eu ouvir.
Que outro motivo
teria um passarinho
pra construir um ninho
na árvore, perto da minha janela,
além de cantar pra eu ouvir?
Nenhum.
16.05.2008 - 13h45min
Tem um ninho de passarinho
na árvore, perto da minha janela.
E ele canta,
(não o ninho,
nem a planta,
mas o passarinho...)
na árvore, perto da minha janela,
pra eu ouvir.
Só pode ser pra eu ouvir.
Que outro motivo
teria um passarinho
pra construir um ninho
na árvore, perto da minha janela,
além de cantar pra eu ouvir?
Nenhum.
16.05.2008 - 13h45min
Válvula de escape
Tem gente que usa droga
tem gente que bebe
tem gente que se mata
tem gente que escreve....
16.05.2008 - 11h38min
Probabilidade
O barulho natural do dia, talvez,
o movimento natural do dia, talvez,
a secura natural do dia, talvez,
o fervor, a vida, a alegria natural do dia.
Talvez seja necessária essa melancolia
da noite, sugerida pela escuridão,
para fazer brotar essa vertente.
Talvez seja necessário o silêncio
do mundo exterior pra que a gente
ouça os versos que brotam do interior
e que gritaram o dia todo,
mas não foram ouvidos,
ensurdecidos que estávamos
pelos ruídos do mundo.
Talvez... apenas talvez,
a solidão da noite seja a melhor
companhia poética, que o poeta possa desejar...
mas tudo isso é apenas um grande,
enorme,
imenso,
TALVEZ.
A resposta mesmo...
Não sei...
Eu-não-sei...
16.05.2008 - 01h
Eterno retorno
Escorrego nas curvas de um tempo que não passa
passeio pelas fugas que preventivamente preparei pra mim
percebo um não-sei-quê de desconfiança no vento
que desalinha meus sorrisos e desabotoa a esperança
espero pela imperfeição que me acompanha ao longo
da lânguida estrada escovada de estranhos sóis
sou lâmpada em processo de incêndio e
acendo as velas para o oratório de cima da casa para
só então construir a frase lapidada em pedra sabão
ensaboo o piso e escorrego nas curvas de um tempo
que não passa... que passeia pelas fugas...
e recomeça...
Aos 59minutos do dia 16.05.2008
Visão
Não eram verdes.
Não eram de nenhuma cor.
Não tinham estatura.
Não tinham medidas ou formas.
Talvez anjos? Sementes talvez?
Uma força, energia, uma luz
ou não...
Não foram palpáveis
palatáveis
prováveis...
Não digeriram nem dirigiram
deveras a palavra a mim.
Pois não eram.
Mas estiveram aqui.
Meninos, eu vi!
Aos 51minutos do dia 16.05.2008
Quando?
Quando a gente sonha, é só imaginação?
Quando a gente imagina, é só assombração?
Quando a gente dorme e não sonha, morreu?
Quando a gente não dorme, mas sonha, sofreu?
Quando a gente rumina um dito, é teimosia?
Quando a gente pesquisa um mito, é geografia?
Quando a gente constrói um barco, é marinheiro?
Quando a gente tem fome, basta o dinheiro?
Quando a gente pergunta, uma resposta é suficiente?
Quando a gente responde, a pergunta foi pertinente?
Quando a gente emudece, estremece, cora, é sinal?
Quando a gente fala, empalidece, demora, é fatal?
Quando a gente amanhece sem sonhos, sem imaginação,
sem assombração, sem morte, sem sofrimento, sem teimosia,
sem lamento, sem mitos ou heróis, sem nenhum de nós,
sem cordas de marinheiros, sem circos ou picadeiros,
sequer sem baderneiros, sem respostas ou perguntas
ou consentimentos conseqüentes, mas amanhece, impaciente,
é a VIDA?
A vida que dança diante ou dentro da gente?
Nos primeiros 10 minutos do dia 16.05.2008
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Tudo o que não existe
Se não existe, está por fazer...
Nada há que já não exista nada que já não tenha sido inventado descoberto desdito. Nada há para ser construído. "Eles" existem. Eu os vi. Se crês, se não crês, se duvidas, se investes nas críticas, nada há que eu possa fazer, além de repetir: EU VI! Mas se insistes na incredulidade, respondo, com o afeto que me é característico: Meu bem, tudo o que não existe vai muito além do físico, vai muito além de mim
e de TI.... 15.05.2008 - 23h52min (A pedido...)
Aceitação
Infrutíferas investidas da sorte
atravessam alamedas revestidas de sombras
de verdes sabores e sutís revelações.
Não quero os porquês nem os conhecidos senões.
Acima das nuvens os semblantes das tempestades
não se percebem, não determinam
a necessidade de guarda-chuva
ou de capa plástica de proteção.
Tudo é azul sobre as nuvens;
a nova escuridão do Cosmos trespassada
pela cor da imensidão do mar sem fim.
Velejadores de alturas de ventos inconstantes
relatam particulares verdades
de antes da chegada das nascentes.
Perdem-se as anotações da madrugada
entre outros papéis de duvidosa importância,
posto serem minhas as mínimas chances
de remota vitória tardia.
As distâncias conheço bem
e os termos delas
e seus efeitos,
sua devastação
silenciada pelo próprio silêncio
que arrasta a Torre de Babel
cuja base é a imaginação de meninos
e de lobos e de anciãos e de mulheres
que mudam de lugar a sorte,
a caprichosa sorte
que já não sabe meu nome
que já nem lembra quem sou...
Às 05h da manhã do dia 15.05.2008
(Obrigada, Ti. Têm sido importantes teus risos,
tuas histórias, tua companhia e, principalmente,
tua preciosa LUZ. Se a sorte esqueceu meu nome,
me provas todos os dias que a amizade não fez o
mesmo. Obrigada por seres quem és e por estares
aqui, na minha vida, desde antes... Te adoro.)
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Um minuto de silêncio
Pelos 15mil mortos em terremoto, na China
A terra tremeu lá
devorou corpos
almas recém paridas
almas dormidas
deixou almas doídas.
A terra tremeu lá
sacudiu pilares
e derrubou uniões.
A terra tremeu lá...
fez ocre meu paladar
aqui...
14.05.2008 - 23h50min
Areia
No primeiro segundo do dia
o primeiro verso brota.
No segundo segundo do dia
não há mais versos
não há mais sobras
não há mais nada
porque os segundos escorrem
entre os ponteiros da vida
e entregam os pontos.
Sem retoque
os próximos versos esperam
ser vividos.
No terceiro segundo do dia
já é amanhã, e o rabo do ontem
ficou preso entre as vírgulas
que indefinem a frase de abertura
a ser pronunciada pela nova criatura
caricaturizada pelo tique-taquear
dos hiatos, das ausências, das insistentes
aberturas entre um e outro segundo.
O próximo, muito distante do anterior.
O anterior, já a virar a esquina de outrora,
virado em letra e forma,
guardado entre as páginas amareladas
de um livro esquecido na estante
ou na memória muda.
Instantes...
Aos 46 minutos do dia 14.05.2008
terça-feira, 13 de maio de 2008
Oração
Santa Poesia, rogai por nós
reles instrumentos imperfeitos
de versos sem sentido
e questionáveis ritmos.
Rogai por nós
seres limitados e infames
tentando explicar tuas formas
teus sabores, teus encantos,
teus tormentos, teus quebrantos.
Rogai por nós
pretensiosos e arrogantes
de saberes engordados mas
vazios, de cansados semblantes.
Santa Poesia, rogai por nós.
Tende misericórdia dos gritos que damos
das chamas que ateamos nas folhas brancas
inflamadas pelos verbos que nunca usamos.
Tende piedade, Poesia,
desses nossos sonhos tão vastos,
tão inclementes, que ousam querer dizer da gente
quando nem a gente sabe o que nos vai aqui.
Tende piedade, Poesia,
desse desejo incontrolável de beleza
dessa urgência latente de estrofes mil.
Somos pecadores de palavras escolhidas.
Tende piedade de nós, Poesia.
13.05.2008 - 23h48min
reles instrumentos imperfeitos
de versos sem sentido
e questionáveis ritmos.
Rogai por nós
seres limitados e infames
tentando explicar tuas formas
teus sabores, teus encantos,
teus tormentos, teus quebrantos.
Rogai por nós
pretensiosos e arrogantes
de saberes engordados mas
vazios, de cansados semblantes.
Santa Poesia, rogai por nós.
Tende misericórdia dos gritos que damos
das chamas que ateamos nas folhas brancas
inflamadas pelos verbos que nunca usamos.
Tende piedade, Poesia,
desses nossos sonhos tão vastos,
tão inclementes, que ousam querer dizer da gente
quando nem a gente sabe o que nos vai aqui.
Tende piedade, Poesia,
desse desejo incontrolável de beleza
dessa urgência latente de estrofes mil.
Somos pecadores de palavras escolhidas.
Tende piedade de nós, Poesia.
13.05.2008 - 23h48min
Profecia
Quem pode saber o próximo movimento?
Se pode machucar ou acolher, quem dirá?
Os cacos da bola de cristal
jazem, inertes, no tapete da sala vazia.
Olhos mirando um horizonte inescrutável.
O silêncio infla o espaço dilatado
de pupilas estranhamente azuladas.
Quem pode apostar no que não está?
Quem abraçaria o escuro sem vestimenta alguma?
Que espécie de entrega é essa
que não pergunta nem padece
do mal da curiosidade ruminantemente secular?
As molas impulsionam para cima.
Nenhum temor é pertinente diante
da irretocável inocência
ou da esperada coragem.
De quem?
13.05.2008 - 23h13min
Tênue linha
Publico minha impressão da brevidade
talvez para afugentar a sensação de abandono
diante de tão constante presença:
rondam-me as vestimentas frias do anjo nu
deslizando lentamente pelo contorno das horas.
Não se apressa nem se apresenta. Impera.
Sabe-se definitivo e sempre cedo.
Nunca passa despercebido.
Rastro de sebo de vela e crisântemos
molhados de água salgada e benta.
Abençoado seja o sopro extinto.
Voe em paz.
13.05.2008 - 22h50min
Inevitável
Teimo em trilhar o caminho oposto
busco no oculto a imprecisão diária
que atormenta os dias e as pregas
das cortinas bailantes ao vento do Norte.
Ouço música. Vejo vozes.
Convivo com o que inexiste.
Desnorteio o que está por vir
evito previsões antecipadas das dores.
São elas as visitas que espero sem pressa
por saber que virão, sem dúvida alguma.
Acumulo forças para a batalha final;
se suficientes, quem poderá saber?
Mas divido comigo mesma a apreensão.
Foge-me o sono e os sonhos são brancos
delírios sem pé nem cabeça, muito menos compreensão.
Os primeiros sinais se anunciam
extingue-se a esperança de melhores dias.
São longas as noites. São duras as horas.
São presos os cansaços. Não há tempo para eles.
Nem para os lamentos. O horizonte está à frente.
É pra lá que nos dirigimos. Para o bem ou para o mal.
Pois que seja o que tiver de ser.
13.05.2008 - 22h32min
Noturno
O lumiar noturno pinga versos
que escorrem pelos cachos dos cabelos avermelhados
e vêm deitar no rascunho riscado
de femininos traços firmes de rima e razões.
Sensualidade natural enluarada
instante úmido de sereno gélido
em que a luz é difusa
e os aparelhos não captam
o tom preciso da melodia
que não desafina uma nota sequer.
Lampejos de memória inexata
na tarefa por fazer de todos os dias.
Sobre a estante de livros fechados,
um se sobressai entre tantos:
o que ainda está por escrever....
13.05.2008 - 19h08min
Paráfrase
Ponto Com sem Bê Erre?

Não erre, não ajuste
nem atualize a página que for.
Aqui se faz
o que se faz
aqui se paga
a quem se presta.
O quê?
Sarcasmo
ironia
à venda as palavras de Che
manuscritas
ao mesmo tempo
emaranhadas no comprometimento
da madrugada de preciosa companhia
entre um jogo consentido de risadas.
Não prometer é dívida
já que o pecado não tem endereço certo
portanto pode perfeitamente
morar, não ao lado,
mas na tela da frente.
Seriedade nas horas mais impróprias.
No meio da noite
duas seguidas.
Segue em frente o rojão de mistério
que envolve plenário e platéia.
Não sei ensinar o uso de armadura
ouso demais pra vestir uma.
Sequer sei como se abotoa
as presilhas do elmo
ou como se empunha
o veneno que atordoa.
Não sei também a nomenclatura
da tecla que bloqueia
muito menos a que perdoa.
Mas sei de destemor
e de desmedida,
igualmente de dor
e de despedida.
Só por isso
(e por saber que amanhã...
talvez...)
esse BOM DIA
se tornou boapedida
ponto com
ponto bê erre....
13.05.2008 - 03h35min
nem atualize a página que for.
Aqui se faz
o que se faz
aqui se paga
a quem se presta.
O quê?
Sarcasmo
ironia
à venda as palavras de Che
manuscritas
ao mesmo tempo
emaranhadas no comprometimento
da madrugada de preciosa companhia
entre um jogo consentido de risadas.
Não prometer é dívida
já que o pecado não tem endereço certo
portanto pode perfeitamente
morar, não ao lado,
mas na tela da frente.
Seriedade nas horas mais impróprias.
No meio da noite
duas seguidas.
Segue em frente o rojão de mistério
que envolve plenário e platéia.
Não sei ensinar o uso de armadura
ouso demais pra vestir uma.
Sequer sei como se abotoa
as presilhas do elmo
ou como se empunha
o veneno que atordoa.
Não sei também a nomenclatura
da tecla que bloqueia
muito menos a que perdoa.
Mas sei de destemor
e de desmedida,
igualmente de dor
e de despedida.
Só por isso
(e por saber que amanhã...
talvez...)
esse BOM DIA
se tornou boapedida
ponto com
ponto bê erre....
13.05.2008 - 03h35min
De perguntas e respostas
Algumas perguntas nos perseguem.
Talvez as respostas também nos persigam,
latas presas ao carro nupcial que nos leva,
desde que casamos com a vida.
Até que a morte nos separe.
Ou não.
(Escrita em 15 de abril de 2008)
13.05.2008 - 01h40min
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Sina
Poesia é a maldição do poeta
impelido a desnudar-se
ante olhos curiosos e invasivos
que perscrutam os versos
os reversos, os signos e os sonhos
que o primeiro sequer tentou
exprimir
ou
espremer
das entranhas da atribulada alma
perseguida pelas orações subordinadas
ao duro escrever nem um pouco sintético.
É atlética a dança da caneta sem canção ou par
na pista clara e completamente vazia de sentidos
que despudoradamente lhe oferece a chance
de dizer o não-dito ou o inter-dito ou o...
Ah... um sussurro
um lamento na folha virgem
e todos os leitores do mundo saberão
que o que te passa pelo peito, poeta,
é essa dor, é essa angústia, é essa alegria
de, à Poesia, jamais poderes dizer
NÃO!
12.05.2008 - 23h23min
impelido a desnudar-se
ante olhos curiosos e invasivos
que perscrutam os versos
os reversos, os signos e os sonhos
que o primeiro sequer tentou
exprimir
ou
espremer
das entranhas da atribulada alma
perseguida pelas orações subordinadas
ao duro escrever nem um pouco sintético.
É atlética a dança da caneta sem canção ou par
na pista clara e completamente vazia de sentidos
que despudoradamente lhe oferece a chance
de dizer o não-dito ou o inter-dito ou o...
Ah... um sussurro
um lamento na folha virgem
e todos os leitores do mundo saberão
que o que te passa pelo peito, poeta,
é essa dor, é essa angústia, é essa alegria
de, à Poesia, jamais poderes dizer
NÃO!
12.05.2008 - 23h23min
Da importância da solidão
Não me pesa a solidão dos meus dias.
Velha companheira, não me vejo sem ela,
sem os seus acordes diários
nas frias madrugadas de outono
ou nas perfumadas tardes primaveris.
Amiga de todas as horas, ri comigo
e verte copioso pranto quando entristeço.
Conhece-me por inteiro, a solidão.
Mãe da noite, irmã do tempo,
sopra o calor do verão no peito frio
e é companhia certa,
certeira flecha embebida
em veneno poético lilás.
É ela que me permite o verso absurdo
colhido de sua fértil presença branca.
De sua saliva é que escorrem os verbos
que molham a folha carente da poesia
que verte dos meus dedos assim
meio que em cascata sem nexo
ou correção rítmica alguma...
É do ventre da solidão que nascem
meus escritos e minhas linhas tortas
as palavras mortas que o instante
insiste em ressuscitar.
Ela, a solidão...
12.05.2008 - 22h35min
Tons
O tom é um tanto grave
agudos são os ecos nas grutas
derramadas nas fileiras das frestas
das almas atormentadas por fantasmas
ensandecidos e musicais.
É grave o passeio pelas alamedas
cobertas de folhas secas,
soltas ao vento de outono,
nos frios dias de um maio gris.
É aguda a voz da gralha
que graceja da dor deixada pra trás.
As notícias não são as melhores
nem as perspectivas as mais azuis;
só os bois andam na frente dos carros
e os cavalos galopam nos campos
como se nada dissesse respeito a eles.
E nada diz.
Nem a ti, cego passante pela minha vida.
São os meus dias que assombram
a esperança de cores rosadas
e um amanhã que pertence a outrem.
São as esferas entortadas pela força
de uma história já escrita
que rege a orquestra da terra
e que permeia o silêncio da noite,
coruja insone de alma artista.
12.05.2008 - 20h34min
domingo, 11 de maio de 2008
Sapientia
Rangem as correntes
que carregam as apostas
entre os dentes
de babas expostas.
As torturas que infligem
dor ao saber
não são legítimas.
Há engano na voz
que grita da bancada:
"Tudo exige busca suada!".
Mentira. Bobagem.
Há prazer no caminho
da descoberta diária
e, nela, o peso das correntes
não tem vez.
É leve a bagagem
do cientista maluco
do aluno curioso
do professor desacomodado
que parte do inesperado
pra cair no assombro.
Sabedoria é a chave
que abre o cadeado da ira,
liberta as línguas malditas
e faz ferver as falas arbitrárias.
Sabedoria é raridade
em terra onde se pensa
que nada haja pra ser descoberto
por qualquer reles mortal.
Correntes rangentes de medo
um dia se rompem
e aí...
talvez...
sapientia...
11.05.2008 - 21h21min
Dias
Na virada do dia, perco a noção exata da fuga
não sei mais se fui tua sombra ou se exerci patrulha
sobre os limoeiros plantados na porta da igreja vazia.
As folhas secas cobrem os caminhos que trilho
premonições de dias escuros e longas jornadas.
Fecho o jornal da semana passada. As notícias são as mesmas
que todos acompanham, sedentos de sangue avermelhado.
Azuis são as preces que não alcançam um céu de anil
e as obras são vagas, são restritas às quermesses
das noites de sábado dos junhos frios. Juno ferve.
As pequenas bonecas dançam nas mãos da menina
que ri e fala sozinha, com diferentes vozes,
a narrar a trajetória singular de tão singulares personagens.
A inocência salva a alma, lava as feridas, cicatriza as dores.
Ver o que pode ser visto é mais que privilégio.
É quase abandono.
A porta do armário abarrotado de louças não fecha direito.
A porta do horário abarrotado de compromissos imprevistos
que não serão aceitos nem deletados,
apenas escritos no livro da vida...
11.05.2008 - 19h08min
não sei mais se fui tua sombra ou se exerci patrulha
sobre os limoeiros plantados na porta da igreja vazia.
As folhas secas cobrem os caminhos que trilho
premonições de dias escuros e longas jornadas.
Fecho o jornal da semana passada. As notícias são as mesmas
que todos acompanham, sedentos de sangue avermelhado.
Azuis são as preces que não alcançam um céu de anil
e as obras são vagas, são restritas às quermesses
das noites de sábado dos junhos frios. Juno ferve.
As pequenas bonecas dançam nas mãos da menina
que ri e fala sozinha, com diferentes vozes,
a narrar a trajetória singular de tão singulares personagens.
A inocência salva a alma, lava as feridas, cicatriza as dores.
Ver o que pode ser visto é mais que privilégio.
É quase abandono.
A porta do armário abarrotado de louças não fecha direito.
A porta do horário abarrotado de compromissos imprevistos
que não serão aceitos nem deletados,
apenas escritos no livro da vida...
11.05.2008 - 19h08min
Luzes e mitos
Somos mitos.
Somos mentes.
Somos mentes.
Somos muitos.
Somos mentiras impertinentes.
Somos desconcertos permanentes.
Ambulantes e desafinadas canções
que ninguém consegue entoar em coro.
Somos sementes.
Descabelados, perambulamos exaustos
e desavisados entre outros iguais
que tateiam a esperança da reviravolta
mas não voltam nem reviram
nem revoltam a aliança.
Somos semelhantes às estrelas
aos rebentos que não nasceram
por absoluta falta de tempo ou de memória.
Somos restos de luzes ovais
que se espatifaram no cosmos
e resultaram em nós.
Somos tudo e nada cotidianamente
e não nos damos conta das carruagens de fogo
que nos atravessam as têmporas e os caminhos.
Somos cegos e errantes, tentando acertar.
Estamos sós.
11.05.2008 - 17h09min
Somos mentiras impertinentes.
Somos desconcertos permanentes.
Ambulantes e desafinadas canções
que ninguém consegue entoar em coro.
Somos sementes.
Descabelados, perambulamos exaustos
e desavisados entre outros iguais
que tateiam a esperança da reviravolta
mas não voltam nem reviram
nem revoltam a aliança.
Somos semelhantes às estrelas
aos rebentos que não nasceram
por absoluta falta de tempo ou de memória.
Somos restos de luzes ovais
que se espatifaram no cosmos
e resultaram em nós.
Somos tudo e nada cotidianamente
e não nos damos conta das carruagens de fogo
que nos atravessam as têmporas e os caminhos.
Somos cegos e errantes, tentando acertar.
Estamos sós.
11.05.2008 - 17h09min
Insônia
Às vezes, a gente esquece da hora,
o sono esquece da gente e a noite também.
Então se pode medir um tempo que não existe
ou que até existe, mas o relógio não tem.
É o prazer da palavra leve e bem dita
sem preocupação de horário ou da labuta diária,
sem o stress cotidiano que altera qualquer plano
e deixa os viventes meio reféns de si mesmos
entre os implacáveis ponteiros que gritam:
"É tarde!". O coelho, de Alice, que o diga!
O silêncio da noite insone é bem-vindo.
Faz a lua flutuar em pensamentos desordenados, mas,
quem quer ordem, em plena madrugada?
Quero mais é navegar no sono alheio
conversar com quartos, quintos, terceiros,
enxergar muito além do que me permitem os travesseiros.
Quero mais é abrir as portas da noite
e embriagar meus sonhos de estrelas cantantes.
Quero o descompromisso do sereno frio
que gela os ossos mas não alcança a alma,
essa, enrolada em seu cobertor de carinho.
Quero a impassividade de quem sabe onde quer chegar
e o ouvido atento, os olhos bem abertos
e os passos contados,
pra não errar.
De novo, não.
11.05.2008 - 03h27min
sábado, 10 de maio de 2008
Cheiro de filha, amor de mãe
Telefone tocando
madrugada de sábado
voz próxima, frescor de inverno
debaixo da pilha de cobertas
coração aquecido
e as vírgulas
os pontos
as exclamações
que se perderam
ou se congelaram
na noite de sexta
Aninho meu corpo
ao corpo quente
de minha pequena filha
a felicidade tem o cheiro dela
a alegria tem o cheiro dela
a leveza tem o cheiro dela
e as vírgulas
os pontos
as confusões
estão em algum outro lugar
bem distante do cheiro dela
Telefone toca
madrugada de sábado
véspera do dia das mães
a essência de ser mãe
tem o cheiro dela
da minha filha
10.05.2008 - 14h59min
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Do dia em que Ana Terra saltou das páginas de um livro
Visita ilustre, Ana Terra brotou das páginas escritas por Érico.
O Tempo soprou na memória e Ana Terra esqueceu a saga,
Esqueceu a hora, esqueceu o horário do trem. Esqueceu!
Esse mesmo Tempo deixou de presente um restinho de memória
Nos barquinhos de papel, soltos em dia de chuva, ao vento...
O Vento soprou nos cabelos, clareou as madeixas e a pele,
Deixou na boca um beijo com sabor de chocolate.
Ana Terra, traduzida em ilustrações de histórias infantis,
Nos livros que passeiam entre os dedinhos inocentes
De crianças que ela não conhece, mas que conhecem os traços dela.
Ana Terra.
Quem disse que um dia saltarias dos lombos dos cavalos
Desse épico gaúcho extraordinário, e estarias assim tão próxima,
Tão viva, tão bem desenhada, entre os alunos de nossa escola?
Contadora de histórias, esperamos ansiosos entre aquarelas,
Colagens, sucatas, canetas e patos que perderam o P.
Perderam ou esqueceram? Tsc, tsc... ai, essa falta de memória
Ainda vai transformar a Terra em Lua. Se assim for, muito bem.
Mas se não tiver chocolate, nem vem que não tem.
Sai pra lá!
*Em homenagem à grande ilustradora e autora de livros infantís, Ana Terra.
09.05.2008 - 17h58min
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Energia
E eu, que mal sei de mim,
dei de cara contigo e fiquei assim
meio bamba das pernas
meio transbordante de sins...
Meio, porque, se fosse inteira,
não seriam sins,
esses todos que escorrem de mim;
seriam flores e canções,
plantadas e compostas
entre as costelas de um anjo
que dançasse com outros
querubins...
08.05.2008 - 22h36min
dei de cara contigo e fiquei assim
meio bamba das pernas
meio transbordante de sins...
Meio, porque, se fosse inteira,
não seriam sins,
esses todos que escorrem de mim;
seriam flores e canções,
plantadas e compostas
entre as costelas de um anjo
que dançasse com outros
querubins...
08.05.2008 - 22h36min
Bússola
Pra que lado fica
a saída da saudade?
Em que rua eu entro
pra encontrar o começo
da meada de delícias
que cabe inteira
na minha mão direita?
Qual é o endereço
do meu sonho mais precioso?
Essa linha de ônibus
passa pelo teu corpo?
O Norte fica na minha frente
se eu estiver atrás de ti?
O Sul é pra cima,
pra baixo
ou pra trás da vida?
Será o meu Sul
o teu Norte?
Na falta de uma bússola,
proponho olhos fechados,
um giro sobre o próprio eixo
e um demorado desmaio.
Depois disso, um longo beijo.
E nenhuma direção
será mais importante
que a que me leva ao teu coração...
08.05.2008 - 20h54min
Estrofe
Ando procurando O diapasão
que me dê o tom exato
da canção da minha vida.
.
.
.
08.05.2008 - 20h08min
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Espectralismo
Engravido do desejo
de parir A canção.
Concebo a harmonia.
Os primeiros acordes:
sílfides nuas e livres, a dançar.
Um Si Bemol escorrega
entre meus dedos trêmulos de luar.
Um Ré volta atrás, arrependido.
Dou o tom da estrofe catártica.
Arrepio a pele crua.
As cifras, todas, de pé.
Aplaudo.
07.05.2008-22h10min
Eu SOU
Sou um ponto de interrogação
diante de um espelho mudo.
Sou um ponto final,
entre outros dois iguais.
Sou aquilo que não se vê,
aquilo que não se toca,
aquilo que não se percebe,
mas que se pressente,
entre um sopro de lua
ou um raio de sol escaldante.
Sou o amanhã cambaleante
sobre as pernas de um hoje
que se desprende.
Sou a pressa e a imperfeição
juntas, inseparáveis.
Sou a cegueira e a visão,
o marasmo e a enxaqueca
depois da impertinente visita
da solidão, que se despede.
Sou alegria, rebeldia, exaustão.
Inconformismo preso na forma
retangular dos óculos prateados.
Sou barulho e silêncio.
Duas partes opostas
guardadas entre as portas
que protegem o que há em mim.
Eu
SOU.
07.05.2008 - 19h21min
diante de um espelho mudo.
Sou um ponto final,
entre outros dois iguais.
Sou aquilo que não se vê,
aquilo que não se toca,
aquilo que não se percebe,
mas que se pressente,
entre um sopro de lua
ou um raio de sol escaldante.
Sou o amanhã cambaleante
sobre as pernas de um hoje
que se desprende.
Sou a pressa e a imperfeição
juntas, inseparáveis.
Sou a cegueira e a visão,
o marasmo e a enxaqueca
depois da impertinente visita
da solidão, que se despede.
Sou alegria, rebeldia, exaustão.
Inconformismo preso na forma
retangular dos óculos prateados.
Sou barulho e silêncio.
Duas partes opostas
guardadas entre as portas
que protegem o que há em mim.
Eu
SOU.
07.05.2008 - 19h21min
terça-feira, 6 de maio de 2008
Substantivo feminino IV
Descabelada, acordou.
O pesadelo interrompeu.
Toalhas limpas buscou.
Pão e mel comeu.
Saiu à rua, no mundo entrou.
Sorriu à lua, asas criou.
Voou.
Loucura.
06.05.2008 - 23h46min
Substantivo feminino III
Ela entende, perdoa, portanto esquece.
Ela aceita, releva, portanto esquece.
Ela ouve, desculpa, portanto esquece.
Ah, não, o perdão é masculino, dirás...
E eu te responderei,
com um sorriso maroto:
feminina é a compreensão, meu garoto.
06.05.2008 - 23h41min
Substantivo feminino II
Paixão:
aquela coisa que te pega,
te amarra, te enleia,
te deixa tonta, meio perdida,
partida ao meio.
Paixão é coisa de louca
de doida varrida
de quem não tem amor
pela vida. Ou tem.
Vai saber...
Isso mesmo!
Ela te engole inteira,
sem nem mastigar!
Vixe Maria Santíssima!
Mas está em mim
e eu não sei como me livrar...
06.05.2008 - 23h37min
Substantivo feminino
Alegria
canta alto na rua
não liga pra cara de espanto
do cara amarrada
que passa ao lado
sem entender nada.
Claro que não!
Alegria
é substantivo fe-mi-ni-no,
meu irmão!
06.05.2008 - 23h34min
terça-feira, 29 de abril de 2008
SIM ou NÃO?
Quem ousaria dizer SIM?
Com quantas luas se faz uma vida?
Com quantas vidas se abre um portão?
Quem ousaria dizer NÃO?
Com quantas vozes se entoa a canção?
Com quantas chaves se assina à mão?
Quem ousaria dizer SIM?
Quem com flores fere
com mágoas será ferido?
Em casa de professora
caneta nunca tem tinta?
Quem ousaria dizer NÃO?
Amar e perdoar, é só começar?
O que o coração não sente,
os olhos fingem não ver?
Quem ousaria dizer SIM?
Em terra de videntes,
têm espaço os cegos?
Crocodilo chora?
E político, depois da eleição?
Quem ousaria dizer NÃO?
Ou SIM, ou TALVEZ?
Quem ousaria dizer?
Quem ousaria?
Quem não?
Talvez.
29.04.2008 - 23h04min
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Deriva
Antiga conhecida, a solidão arrasta o manto suave
entre as alamedas acinzentadas e tristes.
O sol, há muito desistente de clarear esses caminhos,
escolheu arder em outras paragens, fazer sorrir outras cores,
exercitar o calor em corpos menos dormentes.
A História recolheu as febres e as criações desses pastos
e passou a ferro quente as folhas amarrotadas
onde escrevera esses restos de ilusões amareladas.
Caminhar constante de lentos panos esvoaçantes
num dia sem vento ou desejo algum de servir mate gelado
aos fantasmas engasgados pelo desgaste de nada esperar.
As cobranças multiplicadas pelas décadas de silenciosas
amarguras, despetaladas as margaridas na última primavera
que ninguém lembra mais há quanto tempo se foi.
Os círculos se repetem e se repetem e se repetem
giram em torno de si mesmos, copiando o movimento
de um Planeta em extinção. Inesperada centrífuga de talheres
postos sobre uma mesa vazia de propósitos.
Dormem os viventes envaidecidos pelos sonhos.
Mal sabem que os olhos são cegos e que o ontem é repetido
mais de cem vezes, sob diferentes prismas e pacotes coloridos,
entre o real e o desejado humano, entre o saber
e a ignorância
total.
Dois extremos.
Entre eles, a humanidade toda.
À deriva...
28.04.2008- 19h30min
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Premonição
Inconstante, canso de divagar.
São lentos os passos que me cercam
e os pesos impressos na folha
reluzem os pedaços do passado recente.
O gosto de fruta gelada
confude a canção que acompanha
o vaso de flores no jardim recém plantado.
A tarde livre dessa quarta-feira triste
é tapete de escala de cores
na escolha que urge entre os afazeres
esquecidos, de tanto retomar a antiga lista.
O sonho da alma liberta a libélula do pensamento.
Empresto o brilho de um céu vago
aos instantes que julgo meus, contigo.
Teus versos invadem a solidão
e quebram os vidros embaçados da lua
que se escondeu atrás de uma nuvem
de doce e branco algodão.
Espero a tempestade que se arma no horizonte,
quando já não estiveres aqui.
As possibilidades de cristal correm riscos.
As portas do futuro estão abertas hoje.
E eu temo que o medo seja tão palpável
que acabe por congelar as mãos do poeta...
24.04.2008 - 01h30min
Canção
Uma canção não precisa de partitura,
nem de letra, nem de arranjo.
Uma canção não precisa sequer de um intérprete.
Uma canção só precisa, para ser devidamente ouvida,
de um leve, suave e delicado coração.
24.04.2008 - 01h18min
Partitura natural
O VÔO
Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas,
tempo e vento, desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite
enche-o de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu vôo
te leva sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro,
as canções que tens na garganta.
Canta!
Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo do céu?
Que importa a rota?
Voa e canta, enquanto resistirem as asas.
(Menotti del Picchia - 1892/1988)
24.04.2008 - 0h40min
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Da fragilidade da vida
Um dia, por inocência, desejo de ajudar o outro ou pra chamar a atenção mesmo, a gente resolve prender a vida a um balão de gás. E esquece que o fio dessa mesma vida é frágil demais. Melhor não esticá-lo muito... ele pode não suportar... e aí ...
23.04.2008 - 01h43min
terça-feira, 22 de abril de 2008
Dos julgamentos
Creio que nenhum julgamento seja legítimo, desde que proferido por um homem. A visão humana é extremamente limitada e sujeita a influências as mais variadas; portanto, pouco confiável. Julgamentos nunca são justos, em hipótese alguma. Além disso, nem sempre as vozes dizem o que realmente querem dizer. Mais um ponto em que a legitimidade é questionada. Logo, não pergunte de onde vem uma legitimidade que não existe, de uma voz que não diz tudo o que quer dizer e que profere um julgamento limitado, inclusive, por sua condição. Seja você. O resto é apenas a vida, em movimento.
21.04.2008 - 23h39min
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Inspiração
Inspiração é coisa que a gente planta
entre as fagulhas deixadas pelo poeta.
Molha na língua o gosto da vida
e aquece o peito enrolado na manta.
Inspiração a gente colhe dos passantes
que tomam suco de melão e aguardentes.
Inspiração é aquela estrela que a gente ainda não vê
porque o sol arde forte entre nuvens esvoaçantes.
Inspiração é bicho de pluma e asa enorme
que voa sem avisar nem dizer porquê
e a gente até acredita que ela não volta
até que de repente, ela grita o nosso nome.
Inspiração é amiga revoltada e carinho no rosto
é pele arrepiada e beijo no pescoço
é sorriso disfarçado e voz rouca
é tristeza repentina e dor louca.
Inspiração é isso mesmo que envolve a gente
e faz crescer o desejo de riscar de caneta
o papel, a tez, a parede, a mente
de palavras que talvez nem tenham muito sentido
mas que estão impregnadas de sentimento.
21.04.2008 - 17h
Procura
A procura é uma das minhas inquietudes
estou sempre à procura.
Procuro por ele,
procuro por mim,
procuro por nada,
procuro o sim.
Busco aqui, acolá, mais adiante,
e dou de cara sempre com um gigante
que se chama vida, a me olhar, impaciente.
Ai, ai, ai,
que moça mais impertinente,
que não sossega nunca,
que anda sempre pra frente.
É assim que passo meus dias.
São assim minhas insones escurescências.
Essência de rosas no incenso
queimando no meu quarto.
Não espero. Nego os braços cruzados.
Se páro, é só pra renovar as forças.
Movimento é meu lema.
Movimento a minha vida.
O gigante que me abraça
e cura qualquer ferida.
Na rua, acendo os olhos.
Na tela, acendo as luzes.
No espelho, acendo a alma.
Vou em frente, que atrás vem gente.
E nunca se sabe até onde
se pode inventar uma nova doçura.
É o que eu quero:
a alquimia do dia-a-dia.
A invenção de um novo amor pulsante.
21.04.2008 - 16h13min
Renovar
Terminei a faxina da casa
(feriado, sabe como é...)
e aproveitei pra fazer faxina na vida
com o pó, foi a tristeza
com o lixo, o cansaço
com a sujeira, a desesperança.
Agora, banho tomado,
cheiro de limpeza no ar,
sinto o peito renovado
e estou pronta para amar.
Ah, não dou mole não
não vim pra ficar sozinha
não estou aqui pra curtir solidão.
Meu negócio é companhia.
Se for boa, fique até que queira ficar.
Se ruim, vá embora,
que eu não quero me chatear.
Quero paz, alegria, doçura e carinho.
Sem isso, não sou ninguém.
Mas recomeço sempre, se não tiver alguém.
E agora não tenho.
Estou à procura.
De novo.
E quantas vezes forem necessárias.
Até que...
Eu morra?
21.04.2008 - 15h30min
Gênero
Passado e futuro, substantivos MASCULINOS.
Alegria, substantivo FEMININO
e bem se vê que ela faz parte do nosso universo.
Passado bem vivido, Futuro bem esperado,
Alegria o tempo todo, inda que um resto de lágrima
no canto de um dos olhos tenha ficado.
Alegria é companhia certa na roda de amigos
inda que o peito pese e que a folia seja apenas um escape.
Escapa da tristeza prolongada, deixa a dor no passado
que é substantivo masculino e pode te proteger dela.
Escolhe sempre o sorriso hoje, aqui, agora
e espera encontrá-lo de novo lá adiante
como foi em outros tempos, como foi outrora.
Vive o instante presente, também masculino
(cá entre nós, ainda bem)
e engole o mel do momento doce que não volta
mas que haverá de ser sempre teu.
Aos 52 minutos do dia 21.04.2008
Proteção
É preciso dormir.
Reconhecer que outro dia se foi
e o prato das novidades
permaneceu vazio.
A tinta do cabelo ruivo
escorrendo pelo corpo
debaixo do chuveiro quente
o cheiro do shampoo suave
e as extremidades dos membros
cheias de espuma macia vermelha.
Os cachos molhados se alisam.
São lisas as horas sozinhas
escorregam entre os dedos
feito sabonete molhado. Passam.
As passagens estreitas são vales
que não levam a lugar algum.
O escuro é silêncio.
O silêncio é a porta de entrada
do suspiro profundo.
As camisas, as saias, os mundos,
se diluem no espaço inventado.
Juramento sacramentado:
na próxima vez a porta estará trancada.
20.04.2008 - 02h27min
domingo, 20 de abril de 2008
Anonimato
Por trás de uma cortina de fumaça
a palavra pode ser qualquer uma
de deboche, de aceitação ou ciúme.
Por trás de uma cortina de fumaça
a maldade não tem rosto, não tem nome,
não tem grau de proximidade, não tem tesão.
Por trás de uma cortina de fumaça
se é quem se gostaria de ser,
se tem força, coragem e audácia.
Não se assina o documento escrito,
não se assume a bala disparada,
não se resume o texto do atrito.
Por trás de uma cortina de fumaça
se pode ser qualquer um.
Mas, se a gente não vale a pena
nem pra gente mesmo,
então tem mais é que se esconder
por trás dessa cortina de fumaça
denominada anonimato.
O anonimato é a proteção
de quem não tem coragem
de quem não tem argumento
de quem não tem história
de quem não tem opção.
E não ter coragem, argumento,
história ou opção deve ser muito triste...
20.04.2008 - 17h15min
sábado, 19 de abril de 2008
Conceitos
Mas, afinal, quais são os sentimentos, as idéias, a vontade do povo?
Onde está o povo?
Quem é o povo?
Onde ele se esconde - se é que se esconde?
Será uma entidade, o povo?
Ou o povo não seremos todos nós,
burgueses ou não?
O que é a burguesia?
Quais são os sentimentos, as idéias, a vontade da burguesia?
Onde está a burguesia?
Onde ela se esconde - se é que se esconde?
Será uma entidade, a burguesia?
Ou a burguesia não seremos todos nós,
povo ou não?
Que tipo de conceitos interiorizamos
e usamos como discurso diário?
Que tipo de discursos conceituamos
e usamos como diárias internalizações?
As idéias serão nossas mesmo,
ou as roubamos de terceiros?
Quem serão esses terceiros?
De que lado estarão?
Do lado burguês, ou do lado povão?
Há quantos lados nessa história?
Há lados na nossa História?
Questões.
Não creio haver
uma única resposta
a qualquer delas.
19.04.2008 - 02h22min
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Areia
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Deserto
hum.... local deserto...
posso dançar nua
gritar para a rua
disfarçar a dor de luz
de lua coroar a noite escura.
Posso falar besteira
e estender uma esteira
bem no meio da pista de dança.
Posso voltar a ser criança
e esperar que o dia amanheça.
Mas...
eu poderia fazer tudo isso
de qualquer jeito
inda que todos aqui estivessem
inda que os sons e assovios e tambores
também retumbassem
batucados pelas mãos e pelos dedos
dos poetas alegres ou entediados ou nervosos
que eu amo tanto e que respeito.
Mas...
o local está deserto
não há ninguém por perto
e eu desconfio que vou morrer
de solidão...
17.04.2008 - 20h10min
Depois do amor
Escancaro as janelas ao pôr do sol
as portas estão abertas
e se aproximam os visitantes.
Escolho as palavras que espero fluir
se escondo as escadas
é pra deixar claro
que não quero intrusos.
Exercito a audácia no risco
e recomeço de onde parti.
O prato quente repousa sobre
a toalha de renda improvisada
e nada disso é importante
tudo nada na imensidão do
que considero impreciso
e a solução não existe
nem aconselha a experimentação.
São demais os caminhos tortos
e o estertor que confunde
as lentes escurecidas dos óculos velhos.
Nas mesas dispostas, nenhum par.
Estão quebradas as pernas das cadeiras
e as carteiras estão vazias de sentimentos.
Um gosto de sal enche o espaço vazio
e a tinta acaba bem no meio de
uma frase sem sentido algum
e sem destinatário certo.
A televisão ligada se exibe para ninguém
e os fantasmas se sentem à vontade
para sentar entre os convidados ilustres
e amassar as almofadas de cetim lilás
jogadas sobre os tapetes batidos.
Não se deu o encontro.
O encanto não se fez.
Depois do amor
só um adeus curto e seco para se dizer...
17.04.2008- 18h01min
Sentença
Estaca cravada no peito da rima
ferida inútil nascida de cicatriz
amor moribundo entre almas cambaleantes
soco no estômago da noite sofrida
fervor de primavera em pleno gelo ártico
pele de urso polar.
O sol escorrega pelos anéis dos meus cabelos
envermelha o horizonte perdido
de vaporosas nuvens brancas
envenena os sais e os depósitos
de cristais azuis do quarto crescente
da lua de São Jorge
que desaba ao amanhecer.
São pragas as pregas das roupas
que não servem mais.
O ensino da língua é úmido
e corre o risco de secar um dia
in-ter-mi-ná-vel sombra que
acompanha o veredictum fatal:
FINITO!
17.04.2008 - 01h03min
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Até que a ausência nos separe
A porta da frente aberta
lá fora chuva torrencial
um céu de anil na primavera
sensação de frio abaixo de zero
e um espirro ao longe
como se uma formiga, de repente,
tivesse desfalecido sob o peso
insuportável da folha verde.
A claridade cega os olhos distantes
o movimento lento da criação
desvia a vista para o além
onde ninguém alcança
onde ninguém é um bem.
A educação exige resposta
polida a prataria sobre a mesa
enquanto as teias de aranha
crescem e tomam conta das entranhas
da casa vazia de sangue quente.
A escolha dos trincos das portas foi tua
as trancas jamais usadas são minhas
as capas de chuva dormem secas no armário
e as botas bem lustradas descansam
os fantasmas usam as sementes dos verbos
semeados antes da repentina partida.
As vozes serpenteiam e contam as vezes
em que as cantigas foram mais que notas musicais
foram musas de orvalhos sagrados
esquecidas nos cantos das lentes
dos óculos há muito quebrados...
Às 22h50min do dia 14.04.2008
Violência
Quando o amor surge
a paixão vem
e degola o coração
faz arte por toda parte
e pendura os quadros
pintados de sangue
nas paredes do cemitério
dos peitos doentes de amor.
Só o amor pode matar a violência...
Alina e Simone Aver
Aos 18 minutos do dia 14 de abril de 2008
domingo, 13 de abril de 2008
Silenciosamente
Chega mais.
Vem ver com quantas palavras
se faz um longo silêncio.
Aos 16 minutos do dia 13.04.2008
ECO!
Eu digo que sim
e meu eco responde que não.
Eu digo que não
e meu eco responde:"NÃO!"
Eu nada digo
e ele, descaradamente, grita:
"E aí, vai falar ou tá difícil?"
Aos 15 minutos do dia 13.04.2008
Um minuto
No primeiro minuto, busquei poesia
procurei nos cestos de roupa suja
a rima animada que estava guardando
pra quando a festa chegasse.
Mas ela não chega.
Mas elas não chegam.
Nem a rima, nem a festa.
Então revirei o cesto e encontrei a danada.
Escorrega, esfrega, estremece, adormece
(e eu não vejo nada que se encaixe).
Ai, ai, ai, que desespero que dá na gente
quando não encontra nenhuma palavra perdida
que diga tudo, assim, exatamente o que se espera dela
bem bonita, de saída, como quem não está cansada
muito menos arrependida de rir alto na madrugada
acordando de encomenda a vizinhança...
Nem rima, nem festa...
E o primeiro minuto, que era pra ser poesia,
sucesso, verso, canção, improviso, processo,
virou busca...
Mas...
A busca, em si, não será poesia??????????????????
No primeiro minuto do dia 13.04.2008
sábado, 12 de abril de 2008
Maiúsculos

o tempo parou nesse instante
conversa interna pela eternidade afora
que dirão eles? quantos versos farão juntos?
que diremos nós de nossos humanos poemas
cheios de imperfeitos dizeres
de sensações de futuro inexistente
de pretensão de rima que não aflora?
que diremos nós diante dos deuses
quando nos oferecerem um banco e um livro
e uma caneta de material reluzente?
que diremos, pois, ao dar de cara com eles?
oi, Drummond, meu velho...
oi, Quintana, meu bem...
12.04.2008 - 23h57min
Buscando resposta...
Círculo de luz
As estrelas são redondas e cantam...
Círculos têm cantos?
Claro! Têm cantos, cantigas, canções.
Apura o ouvido.
Escuta.
12.04.2008 - 23h38min
Aurora Boreal
Eu quero a subjetividade do que está escondido
dos olhos e da percepção geral do comum.
Eu quero a simplicidade do que está revelado
aos olhos e à percepção de quem é raro.
Eu quero a doçura da fruta colhida no pé
jurado de morte pela mão do progresso desmedido.
Eu quero a força da expressão madura
que ainda não cheguei a conhecer.
Eu quero a linha imprecisa que guarda no âmago
a segurança do velho conhecido.
Eu quero as cores todas juntas, dançando sobre mim.
Um céu tão colorido e movimentado
que acabará por fazer-se branco.
Tranqüilidade, enfim.
12.04.2008 - 20h41min
Despertar
O acervo das minhas obras
esgota o pensamento hostil que me cerca.
Acordo entediada com olhos de abismo
postos sobre os próximos minutos
que me aguardam indecisos
quanto à presteza do meu estado atônito
diante do curso que o rio do tempo toma.
Tiranizo o relógio. Eu mesma faço as minhas horas.
As honras enfraquecem os laços
ou os desfazem ao seu bel prazer.
Beijo as espumas dos dias corridos.
Serão resgatáveis os minutos perdidos?
Os pontos finais serão mudanças
ou abrirão expectativas outras
que sequer suspeitávamos, nós dois?
Piores são as reticências. Silêncios prolongados
em que não sei se estás ou se já foste
entre um emaranhado de conversas antigas
que nem sequer chegamos a ter.
Adapto o mundo ao som de um piano distante
que canta de dentro das páginas do livro
na estante próxima da cama.
São espaços que não me pertencem,
que dançam entre os dedos,
com cheiro de cera líquida,
recém coberto o assoalho de tábuas escuras
por onde meus pés passeiam agora.
Espreguiço e estremeço o corpo
diante da possibilidade de jamais vir a escrever
as linhas que tracei no horizonte do sonho
e que se vão perdendo, rapidamente,
enquanto a lucidez assume o comando
e o estômago reclama um pouco de café.
Amanhece o dia.
Faz frio.
Acordo.
12.04.2008 - 20h28min
Produção
Produzo sem pestanejar
que os olhos foram feitos pra ver
não pra fechar as janelas da alma
e esquecer que as entranhas
os anéis e os dedos e as esquisitices todas
são partes importantes do meu cotidiano
e da minha criação louca.
Produzo sem pressa de colheita
ou de precisão de letra na tela quente
de um computador impertinente
que sopra dissabores entre as dores
e os dotes e os bilhetes e as mensagens
e as distorções e os contrários e as impressões
todas estranhas ao que eu nem imaginei
um dia querer dizer...
Aliás, dizer não me basta.
Eu quero aprender.
12.04.2008 - 02h40min
Antes
Se dizes que sim
se ocultas o não
se entras por uma porta
e fechas a outra a chave
pro lado de fora
do lado de dentro, não sei.
Se encontras abrigo
na água do chuveiro quente
e espreguiças o acerto
debaixo do travesseiro
coberto do perfume do cabelo
recém lavado de espuma.
Se espremes a fruta
e dela extrais o sumo
e a cor e a doçura.
Se estás aqui ou não
se estendes ali a mão
se encobres de mim
a pretensa ilusão.
Não sei
não quero saber
não conheço quem sabe
nem espero conhecer.
Quero a pedra a lua a fome
o aço inoxidável e o homem.
Quero a espera a vida a chama
o incômodo o estrado e a cama.
Quero a impaciência e a coragem
a leitura a sentença a vadiagem.
Não quero nada além do que me valha:
valha-me Deus! Que me venha a vaia
e que a gaia me receba de
braços abertos pra que eu beba
da fonte da raiz eterna.
Que eu seja dele
antes que entardeça...
12.04.2008 - 02h33min
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Pedido
Moço, traga-me só a tônica
a tônica da vida
a tônica da sílaba
a tônica da canção
que foi derramada
sobre o balcão
e seca com pano
ensopado de suor
sobre o piano de cobre
e cobertor de linho azul.
Moço, traga-me só a tônica
a tônica da lua
pendurada lá em cima
a rir-se desse meu peito
arfante, exausto e solitário
de tanto desgastar-se
entre versos e melodias vagas
que escrevo no guardanapo amassado
desse bar virtual abençoado.
Moço, traga-me só a tônica
que eu risco aqui, com o dedo em riste
um dó, um ré, um mi triste
e canto uma toada acompanhada
pelos melhores poetas
que existem.
Moço, só uma tônica, por favor,
pra eu misturar com açúcar e mel e poesia
e amor...
Aos 15 minutos do dia 11 de abril de 2008
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Certas linhas... linhas incertas...
Não gosto de linhas retas;
elas não me atraem,
não me alimentam,
não me prendem,
não me exercitam,
não me interessam, em absoluto.
Linhas retas não oferecem
surpresas.
Nem podem.
Não há sobressaltos se
transitas por estradas retas.
Tudo está ali.
Nas curvas, o não-saber
é constante.
A descoberta é permanente.
O susto, o imprevisto, o desconhecido
é lei.
Não gosto de regras prontas
ou de posturas vazias repetidas
aos milhares, inquestionáveis.
Questiono meus questionamentos.
Reformulo meus caminhos.
Pinto de outras cores
meu arco-íris particular:
tempo, espaço, presente, futuro,
se amanheço ou se acabei de nascer,
se espero ou adormeço,
se morro, estremeço ou desisto de dizer.
Se acendo essa luz agora
não é por não ter outra opção
ou por repetir teus passos
deixados aqui mesmo. Não.
Se acendo essa luz agora
é por acreditar que preciso
de um tantinho de iluminação
pra ver se termino esse pensamento
que, longe de ser linear,
é cortina balançada ao vento,
arrancada da janela aberta
solta, livre, pra ver, crescer
e voar...
10.04.2008 - 23h46min
Possibilidade
FILOSOFIA... pensar... detesto pensar... isso só me traz problemas... acontece que virou hábito, melhor (ou pior, depende do ponto de vista), virou vício. Não. Pior que vício. Pensar é maldição. Às vezes é menos dolorido morrer...
10.04.2008 - 23h23min
quarta-feira, 9 de abril de 2008
O Muro
Igualdade? Ah, não!
Não quero saber de unanimidade
quero a discordância, a discussão,
o desafio, a generosidade.
Eu quero isso que a gente está perdendo
de tanto inventar a igualdade.
Eu quero,
eu preciso,
eu acredito,
é na diversidade...
Aos 9 minutos do dia 09 de abril de 2008
terça-feira, 8 de abril de 2008
Súplica
Não, por favor. Poupem-me do martírio de explicar o que eu quis dizer.
Assumam meu verbo. Tomem para si os sentidos todos.
Que os meus, só a mim pertencem.
Ainda que em cada homem haja um tanto do que é universal.
08.04.2008 - 23h42min
4...3...2...1...
Pergunta perdida
é coisa de não-dizer
o feito destituído
o fato de não-querer
fala a prata da casa
que prato fraco se quebra
de tédio e desengano
acontecido mil vezes ao ano
entre as contagens regressivas
insistentemente abortadas.
Aborda o recomeço...
08.04.2008 - 23h38min
Escolhe, acolhe, recolhe... alucina...
Se te escolho entre todos os mortais
e a ti dedico atenção e cuidados
é que tens um não-sei-quê
nesse teu olhar alado de poeta enternecido.
Se te acolho entre meus membros
num abraço quase embrionário
é que tens um sei-bem-o-quê
nesse teu andar enluarado de poeta anoitecido.
Se te recolho entre as palavras
que escrevo e que bem domino
é que tens um bem-querer
nesse teu falar enfeitiçado de poeta amanhecido
que me escolhe,
que me acolhe,
que recolhe os meus cacos todos
que, enfim,
me alucina...
08.04.2008 - 23h29min
Amor e pão
Do lado de fora da vida,
o cansaço, as costas doídas.
Brisa leve anuncia lá adiante
que a letra é navegante
e o espinho é passageiro.
Escreve torto nas linhas
imprecisas do tempo direito.
O espaço é denso e certo?
Fomento o sentido perfeito
da consolação e do lamento.
Considero as curvas da passagem:
frestas nos muros erguidos
nas arestas cortadas do medo.
Encontro abrigo e oração na casa
que acolhe o andarilho errante
esfarrapado e cambaleante
que já perdeu tudo
primeiro que esse tudo, a razão.
Descanso a cabeça no ninho
tecido fio a fio lentamente
e agradeço a polpa escorrida
da fruta suculenta oferecida.
Brilhante oferta carnuda.
Amor e pão é do que todo Ser precisa.
08.04.2008 - 23h21min
Anestesia
Quando a saudade for tão grande
a ponto de anestesiar-te o peito,
observa...
É serviço do tempo garantir-te vivo.
Desnuda-te e perdoa.
O que é teu, não esquece.
Acorda e sonha,
que o desejo, um dia, amanhece....
08.04.2008 - 02h08min
Exílio
...à noitinha,
o crepúsculo pinta de vermelho
um imenso céu azul...
Nas conchas das mãos
as lágrimas derramadas
pelo absurdo silêncio.
O desespero é parte de quê?
Do abandono ou
da esperança?
Na prancheta as últimas palavras
tristemente pronunciadas
como um toque de amargura
pincelado na delícia de viver.
E uma saudade do não-tido
anestesiando o peito
gritando por uma anistia
impossível de se conceder!
O exílio é o castigo do desobediente
que insiste na procura vã
de uma atenção ausente
ou da presença que não pode ser.
Exílio é tortura consentida,
dor que brota de noite
e te acompanha nas horas do dia,
com cheiro de flor quase parida
entre as contrações e os tremores
e os espasmos que a solidão,
essa furada canoa, provoca no peito
de quem já não tem no que sonhar,
além de um coração vermelho
e de um céu azul a pulsar...
08.04.2008 - 01h58min
sábado, 5 de abril de 2008
Graham Bell
Depois do acidente, o orelhão,
a meio caminho de espatifar-se no chão,
sugere um pensamento:
Que comunicação é essa, que estilhaça
os vidros e não desvia das linhas
cruzadas entre a razão e a não-razão?
Que vida é essa, que pouco vale
e vale pouco menos que um cartão
que se gasta na primeira ligação?
Que sonho tão curto,
que se quebra numa esquina,
aos pés de Bell?
Pra que lado fica o céu?
05.04.2008 - 19h13min
(Será que é no lado de dentro?)
Brrrrrrr......
Amendoim, pinhão na chapa, fogão à lenha,
blusa de lã, cobertor, meia grossa, bota de cano alto,
cachecol, touca, aquecedor, chocolate quente,
chocolate em barra, pipoca, batata na brasa.
Da boca, saindo fumaça de frio. Luvas, batom vermelho,
churrasco, fogueira, cantoria, gripe, espirro, espiriteira.
Ah... Inverno bom. Chuva e cerração de manhã cedinho.
Vontade de dormir até mais tarde. Quem não sente?
Casaco pesado, polainas, montanha de edredons na cama.
Pantufas de bichinhos. Pijama de flanela. Sopa quente na panela.
Ah... Inverno bom...
Outono foi sopro breve, secou as folhas, despetalou os galhos.
Outono é só convenção na folhinha.
E o frio vem depressa, conserva meu riso,
conserva na despensa do meu velho peito
a certeza de que o dia amanhece
e de que a vida se renova, sempre.
Debaixo de geada, vem novinha,
saudar a alegria que se inicia.
05.04.2008- 19h04min
blusa de lã, cobertor, meia grossa, bota de cano alto,
cachecol, touca, aquecedor, chocolate quente,
chocolate em barra, pipoca, batata na brasa.
Da boca, saindo fumaça de frio. Luvas, batom vermelho,
churrasco, fogueira, cantoria, gripe, espirro, espiriteira.
Ah... Inverno bom. Chuva e cerração de manhã cedinho.
Vontade de dormir até mais tarde. Quem não sente?
Casaco pesado, polainas, montanha de edredons na cama.
Pantufas de bichinhos. Pijama de flanela. Sopa quente na panela.
Ah... Inverno bom...
Outono foi sopro breve, secou as folhas, despetalou os galhos.
Outono é só convenção na folhinha.
E o frio vem depressa, conserva meu riso,
conserva na despensa do meu velho peito
a certeza de que o dia amanhece
e de que a vida se renova, sempre.
Debaixo de geada, vem novinha,
saudar a alegria que se inicia.
05.04.2008- 19h04min
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Hoje é Sexta-feira
Sexta-feira, e a vida anda mole
assim, meio de bobeira,
como se hoje não fosse agora
como se agora não fosse hoje
como se já e daqui a pouco
nada mais fossem que só
um ponto ou uma vírgula
ou uma expectativa
não se sabe de quê.
Sexta-feira, e a vida enrola
um novelo de lã quentinha
pra tricotar casaco pra filhinha
que dorme tranqüila, na cama macia.
Sexta-feira, e o informe oficial
é de que, depois dela,
vem o fim de semana esperado
pra um descanso invejado
por quem não pára nem em feriado
muito menos em pleno sábado.
Sexta-feira...
Festival do Beijo, em Madri,
e eu aqui...
Sexta-feira...
Aos 9 minutos do dia 05.04.2008
Cotidiano poético
Há poesia em cada canto da cidade.
Há poesia nos cantos dos muros,
nos cantos das praças, nos cantos dos fundos
dos poços do cotidiano dos citadinos
que se apressam para chegar ao nada.
Há poesia na lágrima que rola no rosto da menina,
no latido do cão preso na coleira,
no sinal fechado, na rua vazia, no trilho do trem
que não partiu hoje por falta de turistas.
Há poesia no perigo da limpeza da vidraça,
no jogo com a vida que se faz diariamente
sem que se perceba, sem que se atormente,
já que as contas não fazem perguntas,
nem os credores querem respostas,
apenas as notas, umas sobre as outras,
no vencimento das prestações mortas.
Há poesia no carro que passa, na buzina estridente,
no mendigo, no pedinte, no doente, no indigente,
na moça bonita, na velha elegante, na cor do fim do dia
que enfeita a vida e pinta de vermelho o horizonte.
Há poesia no cheiro de flor que ficou da primavera
e na folha seca partida debaixo dos pés,
no início de um outono frio e bem-vindo.
Há poesia na correria que acontece
entre os pedestres, entre as pedras paradas
que observam os pombos e seus vôos,
na praça defronte à prefeitura municipal.
Há poesia na cidade, nas coisas pequenas,
na sirene da polícia, dos bombeiros, da ambulância,
ainda que sejam esses versos cantados tristemente,
como quem chora ou como um lamento doído
de quem perdeu o que não voltará, nem com forte pedido.
Há poesia no bom e no que é visto de soslaio
que a gente evita o contato, que a gente finge não ver.
Tudo parte do soneto universal
cotidiano poético por todos lido
por quase ninguém entendido como tal...
04.04.2008 - 23h38min
Há poesia nos cantos dos muros,
nos cantos das praças, nos cantos dos fundos
dos poços do cotidiano dos citadinos
que se apressam para chegar ao nada.
Há poesia na lágrima que rola no rosto da menina,
no latido do cão preso na coleira,
no sinal fechado, na rua vazia, no trilho do trem
que não partiu hoje por falta de turistas.
Há poesia no perigo da limpeza da vidraça,
no jogo com a vida que se faz diariamente
sem que se perceba, sem que se atormente,
já que as contas não fazem perguntas,
nem os credores querem respostas,
apenas as notas, umas sobre as outras,
no vencimento das prestações mortas.
Há poesia no carro que passa, na buzina estridente,
no mendigo, no pedinte, no doente, no indigente,
na moça bonita, na velha elegante, na cor do fim do dia
que enfeita a vida e pinta de vermelho o horizonte.
Há poesia no cheiro de flor que ficou da primavera
e na folha seca partida debaixo dos pés,
no início de um outono frio e bem-vindo.
Há poesia na correria que acontece
entre os pedestres, entre as pedras paradas
que observam os pombos e seus vôos,
na praça defronte à prefeitura municipal.
Há poesia na cidade, nas coisas pequenas,
na sirene da polícia, dos bombeiros, da ambulância,
ainda que sejam esses versos cantados tristemente,
como quem chora ou como um lamento doído
de quem perdeu o que não voltará, nem com forte pedido.
Há poesia no bom e no que é visto de soslaio
que a gente evita o contato, que a gente finge não ver.
Tudo parte do soneto universal
cotidiano poético por todos lido
por quase ninguém entendido como tal...
04.04.2008 - 23h38min
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Amor menino
E o amor é esse menino travesso
que apronta arruaças e levanta
vôo entre as moças, nas praças
só pra lançar seus dardos avermelhados
nos corações de jovens poetas
que por ali passam, desavisados.
Ah, amor levado e imprevisto, que
vem de mansinho, se acerca do ouvido
e sopra nele versos leves de algodão.
Ah, amor sapeca e bem ligeiro
planta no peito um fiapo faceiro
da mais pura e verdadeira paixão.
E aí é um deus nos acuda
um valha-me ó deus
um salve-se quem puder
porque então nem de reza braba resulta
a cura pra essa loucura do coração...
03.04.2008 - 01h21min
terça-feira, 1 de abril de 2008
Ofício: pastora da alegria
Ensinar: plantar flores
em canteiros floridos.
Ensinar: entender-se pequeno
ante tremenda diversidade
com olhos ávidos que nos espreitam
e nos perguntam sem palavras,
'o que vamos descobrir hoje?'.
Ensinar: crescer junto.
Ensinar: esquecer da gente,
entrar num universo mágico,
r e a l i z a r...
Meu ofício? Pastora da alegria.
01.04.2008-22h59min
*O termo 'pastora da alegria' foi tomado emprestado
de Rubem Alves, admirável educador.
em canteiros floridos.
Ensinar: entender-se pequeno
ante tremenda diversidade
com olhos ávidos que nos espreitam
e nos perguntam sem palavras,
'o que vamos descobrir hoje?'.
Ensinar: crescer junto.
Ensinar: esquecer da gente,
entrar num universo mágico,
r e a l i z a r...
Meu ofício? Pastora da alegria.
01.04.2008-22h59min
*O termo 'pastora da alegria' foi tomado emprestado
de Rubem Alves, admirável educador.
**Imagem: Minha turma do 1º ano do Ensino Fundamental,
em plena atividade de pesquisa. Concentradíssimos!!!!!!!
Desejo
Que estejamos todos
poeticamente prenhes
da beleza traduzida
em versos...
Que seja a dor,
o amor, o horror,
o dia, a noite, a doçura,
amargura, alegria ou lerdeza.
Que seja a saúde,
a doença ou a tempestade,
o sabor adocicado de um beijo
ou o sangue da ferida aberta.
Que seja a risada gostosa
do palhaço ressurgido
ou o regurgito do fel engolido.
Que seja o que tiver de ser.
Em todas as fases as faces
da poesia bendita.
Pra fazer valer essa nossa alma
que não é pequena,
é vida de Pessoa...
01.04.2008 - 02h10min
(E toca o barco pra frente
que tem muita água pra navegar...)
Hoje eu morri (ou Poema da Indiferença)

Dou passos arrastados na areia
A maré removerá todos os vestígios
Arbustos mortos rolam na rebentação
O horizonte respira melancolia
Navios duvidosos vogam em direcção a Ormuz
Pescadores enrolam redes remendadas
Um gato procura abrigar-se da pesada chuva
O chamamento do mulá perde-se nas ondas
Recitando uma oração volátil
Mensagens de submissão incondicional
Cantos para Deus, que não desejo ouvir.
Sou aquele que sempre deu a outra face
Fui mil e uma vezes agredido
E em mil ocasiões tudo perdoei
Educado para dar, sem nada esperar
Nunca neguei um apoio gentil
Jamais regateei uma palavra doce.
Porém, hoje eu morri
A visão do mundo turvou-se
Os sons destilaram-se em silêncio
O sangue esvaiu-se lentamente
Parti sem prantos ou lágrimas
Quando me quis, já não me encontrei.
O meu fantasma acordou agnóstico
Ergueu-se com um sabor de fel na boca
Olhou para inúmeras cicatrizes por sarar
Todavia sentiu-se incapaz de sofrer
Sacudiu a areia dos farrapos que lhe cobriam a alma
Soltou o espartilho dos seus valores
Envergou vestes de imaculado negro
Sorveu uma deliciosa taça de indiferença
Sentiu-se mais vivo que em vida
Já nem todas as faces merecem um sorriso.
M.Daedalus
01.04.2008 - 01h45min
(publicado pelo meu querido amigo poeta DOUGLAS, em
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=42836441&tid=2576314501045743642&na=2&nst=252
A maré removerá todos os vestígios
Arbustos mortos rolam na rebentação
O horizonte respira melancolia
Navios duvidosos vogam em direcção a Ormuz
Pescadores enrolam redes remendadas
Um gato procura abrigar-se da pesada chuva
O chamamento do mulá perde-se nas ondas
Recitando uma oração volátil
Mensagens de submissão incondicional
Cantos para Deus, que não desejo ouvir.
Sou aquele que sempre deu a outra face
Fui mil e uma vezes agredido
E em mil ocasiões tudo perdoei
Educado para dar, sem nada esperar
Nunca neguei um apoio gentil
Jamais regateei uma palavra doce.
Porém, hoje eu morri
A visão do mundo turvou-se
Os sons destilaram-se em silêncio
O sangue esvaiu-se lentamente
Parti sem prantos ou lágrimas
Quando me quis, já não me encontrei.
O meu fantasma acordou agnóstico
Ergueu-se com um sabor de fel na boca
Olhou para inúmeras cicatrizes por sarar
Todavia sentiu-se incapaz de sofrer
Sacudiu a areia dos farrapos que lhe cobriam a alma
Soltou o espartilho dos seus valores
Envergou vestes de imaculado negro
Sorveu uma deliciosa taça de indiferença
Sentiu-se mais vivo que em vida
Já nem todas as faces merecem um sorriso.
M.Daedalus
01.04.2008 - 01h45min
(publicado pelo meu querido amigo poeta DOUGLAS, em
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=42836441&tid=2576314501045743642&na=2&nst=252
Imagem: Remedios Varo)
Mentira!
No dia da mentira
menti pra mim mesma
que tudo tem um fim
que também marca
um recomeço.
No dia da mentira
sorri sem vontade
brinquei à força
forcei a barra
de uma alegria
que não existia.
No dia da mentira
respirei fundo
e enfrentei o mundo
com uma coragem fingida
e supostamente grande.
No dia da mentira
menti descaradamente
sem a menor culpa
ou sensação de engodo.
Enganei sem corar.
Corri contra o tempo
como quem sabe
para onde vai
e o que pretende achar.
No dia da mentira
calei a voz aos gritos
gritei sem voz, atritos
brilhei sem luz nos ritos
que o costume impôs
aos que crêem nos mitos.
No dia da mentira
rasguei a verdade
sem dó nem piedade
pisei nas farpas nos espinhos
nas lições da idade.
No dia da mentira
menti descaradamente
que o coração não sente
o que o peito encerra.
No dia da mentira
desfiz o acordo
e entendi a verdade.
No dia da mentira
acordei do sonho.
Renasci.
01.04.2008 - 01h33min
segunda-feira, 31 de março de 2008
Quem sou eu?
Talvez eu só tenha essa resposta daqui a alguns anos... Ou não...
Penso que sou água, águia,
fogo, ardente ilusão,
sensação permanente
de uma profunda solidão.
Penso que sou a procura
ou o estado letárgico
da completa loucura.
Sou égua solta nos prados
de uma vigília insólita.
Sou corrente que prende
meus pulsos ao passado
recente, indecentemente confuso.
Sou língua e pele e cabelos
vermelhos de pimenta malagueta.
Sou verso e prosa e conto
que ninguém conta
porque até eu duvido
e não divido a lente azul contigo.
Sou curso contido de água furiosa.
Sou alinhavo de espera
enquanto corro sem trégua
para um horizonte
que sempre sai do lugar
e fica mais distante.
Sou alegria e doçura
submissão e ternura
tristeza e desânimo
dor e amargura.
Sou mulher.
31.03.2008 - 19h18min
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